domingo, julho 01, 2018

Escrever é lutar

Foto de Helena Pato.

José Manuel Tengarrinha é um dos mestres a quem estou grata, e por isso hoje cumpre-me recordá-lo.

Esta entrevista, de 1975, é uma leitura útil para pensarmos a nossa História e e afinarmos a pontaria nas lutas pela libertação do povo, pelo povo e com o povo. Não sei se está fora de moda, nem isso importa - o conhecimento ajuda sempre a mudar o modo de pensar e de agir, que é o que transforma a vida e o mundo. O modo, e não as modas.
Assis Pacheco, optimista, vaticinava nesta entrevista, em pleno período revolucionário após o 25 de abril, que o ensino da História daria aos jovens mais ferramentas para entender esta mensagem e intervir em conformidade - falava ele num futuro de 10, 15 anos... 43 anos depois da entrevista, enfrentamos um dos maiores desafios na luta pela democracia e pelo pensamento crítico - a redução do ensino das Humanidades nas escolas, incluindo o estudo do passado histórico e o aprofundamento da Filosofia. 


Entrevista com referência à cultura do século XIX; experiência da criação do Centro de Estudos do Século XIX do Grémio Literário; processo de criação do livro "A Revolução de 1820"; a relação entre a Revolução de 1820 e a Revolução de 1974, Tengarrinha clarifica que sem igualdade e justiça social a liberdade política não vale.
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/jose-tengarrinha/

Na peça, disponível no abençoado Arquivo RTP, serviço público de que beneficiamos, Fernando Assis Pacheco introduz alguns dados biográficos, nomeadamente o facto de José Tengarrinha ser natural de Portimão e ter 42 anos de idade; licenciado em Histórico-Filosóficas; a ligação ao MUD Juvenil; prisão por motivos políticos por quatro vezes e candidato em 1969 e 1973 pelo Movimento Democrático Português MDP/CDE a deputado à Assembleia Nacional; chefe de redacção do "Diário Ilustrado"; membro da Comissão Central do MDP e membro do Conselho Mundial da Paz; recebe o prémio "Rodrigues Sampaio" pela Associação de Jornalistas do Porto, por um estudo sobre o jornalista Rodrigues Sampaio; publicou a "História da Imprensa Periódica Portuguesa", "A novela e o Leitor Português" e "A Revolução de 1820". 

quarta-feira, junho 13, 2018

Cidades com cabeça e coração, precisam-se

ENTREVISTA

Estado coloca à venda terrenos da ex-Lisnave no início de 2019

Miguel Cruz, presidente da Parpública, holding que agrega várias participações e activos imobiliários do Estado, diz que no primeiro trimestre do próximo ano serão colocados à venda os 630 mil metros quadrados de área de construção ligados à Margueira, na margem sul do Tejo.


Desafiada pelos jornais de agora, páro para pensar no que aí vem, e no que podemos fazer para que seja melhor e diferente do que temos tido. Moro na Grande Lisboa. Habito uma parte do planeta em que se antevê a aplicação de capitais financeiros vultuosos para construção em áreas significativas sem que o cidadão comum perceba que resultado desenhamos para essa enorme cidade que o Tejo marca, até ao mar. Das antigas Escolas da Armada (Vila Franca de Xira até à antiga Lisnave (Almada), passando pela antiga Feira Popular e a parte poente de Marvila (Lisboa), o previsto novo aeroporto (Montijo) e ainda por projetos no arco ribeirinho que inclui a antiga Lisnave (Barreiro, Almada, Seixal).

Quando começaremos a ser capazes de imaginar desenvolvimento do território sem ser apenas com betão e mais betão? E a conseguir que a cidade seja um projeto das pessoas e com elas, ouvindo os cidadãos, os seus medos e desejos, ou seja... democrático? Em vez de um território de torneio entre interesses restritos de produtos "do costume" (prédios e mais prédios, em vez de, por exemplo, jardins, ambos produtos de atividades económicas,. e geradores de criação, produção, fruição...).

Mais uma vez, discutindo cidades, desenhamos o território, mas o maior desafio é a democracia e a cultura democrática, esse terreno de labor a longo prazo em que os livros nos ajudam e a leitura é essencial.

Leitura útil destes dias : 

Wook.pt - A Cidade na Encruzilhada
João Seixas, A cidade na encruzilhada : repensar a cidade e a sua política. Edições Afrontamento, 2013.  https://www.wook.pt/.../a-cidade-na-encruzilhada.../15248870
Existe nas Bibliotecas de Vila Franca de Xira
Recomendo ainda a rcensão de Simone Tulumello, 2013, aqui , que, descrevendo de forma clara o conteúdo da obra,  vai mais longe, e interpela autores e leitores :
"Ao mesmo tempo em que se reformava a máquina administrativa utilizando alguns dos princípios delineados neste livro (principalmente descentralização e qualificação), as políticas urbanas aplicadas no contexto da crise privilegiavam a competitividade sobre a coesão e até fomentavam a apropriação de algumas práticas participativas para agendas de caráter neoliberal (Tulumello, 2015). Será que a reinvenção da governação, se não for acompanhada por uma clara visão política de cariz progressista (ou até radical?), pode resultar na exaltação das mesmas tendências que quer contrastar? "
"O papel dos movimentos sociais, por exemplo, e mais em geral das críticas de ordem estrutural à hegemonia do sistema neoliberal é deixado numa posição marginal no livro: será, enfim, que a reinvenção da política na cidade é possível no quadro das estruturas presentes? Esta pergunta não tem resposta no livro. Por um lado o «otimismo da prática» de Seixas parece sugerir que sim, será possível, sobretudo pela capacidade das cidades se organizarem em torno de visões construídas de forma deliberativa. Por outro lado, porém, os desafios levantados ao longo do texto podem sugerir que a mudança necessária é de ordem mais estrutural (uma nova hegemonia cultural e económica). É nesta encruzilhada, a meu ver, que o debate sobre o futuro da democracia urbana se irá desenvolver nos próximos tempos." (p. 4)
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sábado, junho 02, 2018

Parar. Pensar


Pensar, como hervir un huevo, es algo que se debe parar en cierto momento, porque, si no, sale un huevo duro. También es contraproducente pensar más allá de donde puede llegar el pensamiento.
Lo racional es instrumental. Manipular la realidad no es entenderla, ni aceptarla, ni tiene nada que ver con las emociones, la creatividad o la intuición. Todo eso queda fuera de lo racional. Sólo los científicos mediocres creen que con la razón se debe solucionar todo; los competentes saben hasta dónde puede llegar la razón y no intentar aplicarla a todo, ni pretender que lo que no es racional no existe.
Se dice que fue Parménides el que inició el descarrío al decir que la realidad es racional y, algo aún peor, que lo que está cambiando no es real, y sólo es real lo fijo. Ahí se extravió el pensamiento occidental, que aún no ha rehecho el camino.Heráclito es el único que no se perdió como los que confundieron la fijeza de las palabras con la fijeza de la realidad. Las palabras son una foto fija, pero la realidad que intentan representar es una película, un flujo en movimiento. No puedes bañarte dos veces en el mismo río pero puedes usar mil veces la misma palabra o lo que ella representa, un mismo concepto. Pensamos linealmente (en silogismo: si A es B y B es C, ergo A es C) y hablamos linealmente (sujeto-verbo-predicado) pero la realidad no es lineal, es interrelacionada o matricial y holográfica, y en ella una parte refleja el todo y el todo está en todo; todo influye en todo, está interactuando.
Es hora de estudiar la filosofía occidental no cómo el medio de entender la existencia, sino como otra mitología griega. Panta rei.
Luis Racionero (2018) http://www.lavanguardia.com/opinion/20180504/443216167200/fracaso-de-la-filosofia-occidental.html

Pediu futuro? E tem feito bibliotecas?

Artist’s impression of the design for the children’s area of the Helsinki Central Library.
Image: ALA Architects. 2018
Enquanto as bibliotecas do futuro se tornam alta-tecnologia, parece que também estão a retornar ao conceito de Alexandria sobre o que as bibliotecas devem ser: lugares onde as comunidades se encontram, conversam e conectam. 

While the libraries of the future are going high-tech, it seems they are also returning to the Alexandrian concept of what libraries should be: places where communities meet, talk and connect.

Em Helsínkia (Finlândia), desenvolveu-se um projecto contando com participação dois cidadãos, que definiu o programa da biblioteca e, decorrente disso, o edifício a erguer - o que se concretizou em 2018.  A nova biblioteca pública reflecte um novo pensamento público sobre biblioteca, em que os utilizadores são fazedores activos, mais do que consumidores passivos.
Não tem muito sentido construir um depósito de livros no coração da cidade.  A nova biblioteca oferece serviços tradicionais de biblioteca, como empréstimo de livros, mas também vão ao encontro das necessidades públicas, que evoluem cada vez mais do uso do empréstimo para o fazer. O que exige às bibliotecas oferta de espaços e condições para aprender, trabalhar e praticar diferentes actividades de lazer.  A própria localização, central e perto de duas outras instituições culturais importantes (Museus), junto do Parlamento, reflecte o valor dado à Biblioteca Pública como eixo essencial da democracia e de políticas culturais e de acesso ao conhecimento - para toda a gente.
As pessoas procuram um espaço PÚBLICO culturalmente rico e inovador, gratuito e seguro, com possibilidade para fazer e para trabalhar em rede com outras pessoas, e, claro, com livros e outros materiais para emprestar. E com café!

Ler mais aqui e aqui

quinta-feira, maio 31, 2018

Disparates em curso

Chegam notícias de desbaste em acervos, eliminando o que não corresponder à "nova ortografia".
E vozes sensatas (algumas...).

Nuno Pacheco
As bibliotecas já estão a arder?Pretender que as novas gerações só leiam obras submetidas à chamada “nova ortografia” é uma enormidade inqualificável.

"Só que um livro não é um telemóvel avariado ou um carro prestes a ir para a sucata, é algo que traz consigo a marca de um tempo e uma cultura. Pretender que as novas gerações só leiam obras submetidas à chamada “nova ortografia” é uma enormidade inqualificável. Teríamos de interditar aos estudantes grande parte das bibliotecas, deixando nelas acessíveis apenas umas magras estantes; teríamos de fechar à chave as bibliotecas privadas de pais, tios, amigos, para evitar às pobres crianças algum perigo de “contágio” com outras grafias; teríamos aqui, caso extremo, de afastar dos planos de leitura várias obras porque nelas se contêm termos em desuso, poupando assim as pobres crianças à escrita elaborada de Camões, Gil Vicente, Bernardim Ribeiro ou Camilo Pessanha, entre tantos outros."
Nuno Pacheco, in Público31.05.2018
Ler mais aqui:
https://www.publico.pt/2018/05/31/culturaipsilon/opiniao/as-bibliotecas-ja-estao-a-arder-1832280

quarta-feira, maio 30, 2018

O Quiosque do Piorio é nosso!


"(...) aquela esquina tem um quiosque desde há muitos anos, muito antes de qualquer um de nós ou de Vossas Excelências existir - já lá havia outro quiosque, antes deste que lá está agora e que foi construído nos anos 60 do século XX. Logicamente, qualquer gestão camarária - transitória por natureza - deve sempre considerar que gere os recursos das e para as futuras gerações, não podendo, salvo por razão de força maior, destruir património que até esteja a uso pelos habitantes do Porto de hoje - ou que possa fazer falta aos habitantes da cidade de amanhã. "
Fonte, que vale a pena ler completamente: 
(só mais uma) Carta de amor pelo Quiosque do Piorio

aqui 



Sou da Rede deste Quiosque, tecida com as armas do Facebook, e outras, a que vamos deitando a mão, o pé, e a imaginação. Amanhã, lá estarei, em Festa & Luta. :)





terça-feira, maio 22, 2018

Júlio Pomar

Porque sim

http://alfinete2008.blogspot.pt/2018/05/julio-pomar-nosso-mestre-de-ser-novo.html

segunda-feira, maio 21, 2018

Obrigada, António Arnaut



MENSAGEM ENVIADA POR ANTONIO ARNAUT sexta feira 18.05.2018
 aos congressistas presentes no:
III Congresso da Fundação Para a Saúde SNS em Coimbra

Senhor Presidente do Congresso, Senhores congressistas e convidados 
Não podendo estar convosco, felicito a organização e todos os participantes por esta jornada em defesa do Serviço Nacional de Saúde.
Como todos sabemos, os meus amigos como profissionais e eu como utente, o nosso SNS atravessa um tempo de grandes dificuldades que, se não forem atalhadas rapidamente podem levar ao seu colapso. E tudo em consequência de anos sucessivos de subfinanciamento e de uma política privatizadora e predadora resultante da Lei 48/90, ainda em vigor, que substituiu a lei fundadora de 1979. A destruição das carreiras depois de tantos anos de luta, iniciada em 1961, foi o rombo mais profundo causado ao SNS.
Sem carreiras, que pressupõem a entrada por concurso, a formação permanente, a progressão por mérito e um vencimento adequado, que há muito defendo seja igual aos dos juízes, não há serviço Nacional de Saúde digno deste nome. A expansão do sector privado, verificada nos últimos anos, deveu-se a esta desestruturação e ao facto de a Lei 48/90 considerar o SNS como um qualquer sub-sistema, presente no “mercado” em livre concorrência com o sector mercantil. É a filosofia neoliberal que visou a destruição do Estado Social e reduziu o SNS a um serviço residual para os pobres.
 
É preciso reconduzir o SNS à sua matriz constitucional e humanista. Há agora condições políticas e parlamentares para realizar essa tarefa patriótica e o governo propôs-se fazê-lo. A realização de iniciativas como este Congresso são uma forma legítima e democrática de chamar a atenção do governo para que cumpra o seu dever. Aliás, parece verificar-se um amplo consenso nacional sobre a indispensabilidade do SNS, como garante, em primeira linha, do direito fundamental à saúde. Faço votos para uma profícua discussão sobre esta temática e que, no final, resulte um contributo substantivo em defesa da consolidação do SNS, para que nos 40 anos desta grande reforma possamos todos voltar a ter orgulho no nosso SNS. 
Vosso
António Arnaut
Coimbra, 18 de Maio de 2018

Cinema em Vila Franca de Xira - Realismos Contemporâneos


O Ciclo começou em Fevereiro, prossegue até Dezembro de  2018.
Filmes contemporâneos, realismo dos nossos dias.
A 3ª sessão é já dia 25 de maio, pelas 21.00, no Museu do Neorealismo. Entrada livre, 0€!
Luz Obscura, de Ana Sousa Dias, conta a história verdadeira da família Pato durante o Estado Novo. Centra-se no núcleo familiar de Octávio Pato e na acção da PIDE sobre a sua família, constituindo um valioso contributo para a compreensão da história portuguesa entre 1926 e 1974

Programa completo do Ciclo, aqui:

quinta-feira, maio 17, 2018



Alberto Soler, 07.05.2018 (51:30)

Destaco de entre as suas propostas:

  • conceito de co-paternidade, em que os homens não "ajudam em casa", antes se responsabilizam, consistindo a parentalidade no reconhecer e dar espaço para a educação de mães e de pais, com as suas diferenças e peculariedades;
  • aviso para os riscos do ensino com "etiquetas" e da obediência cega: o futuro das crianças passa mais pela educação em valores como a assertividade, o pensamento crítico e a autonomia;
  • crítica ao sistema académico (escola) que se centra demasiado nos resultados (classificações, notas - incluindo os prémios por boas classificações, com os seus efeitos nefastos) e pouco no empenho e no esforço, e no que se aprende;
  • referência a Hanna Arendt, às experimentações de Milgram e aos perigos da acção dos burocratas aborrecidos que cumprem ordens... 
  • abordagem do tema dos limites, da protecção durante o crescimento e das obsessões securitárias : " se de repente tudo é importante, tudo perde importância".

Alto Soler é psicólogo, Mestre em Psicologia e da Saúde, com mais de 100 anos de experiència clínica e de aconselhamento a pais, conferências, contributos na imprensa, na rádio e na televisão. Publicou o livro "Hijos y padres felices" e do videoblog "Píldoras de Psicologia".

domingo, maio 06, 2018

Educação e acesso : chaves da universalização do Direito à Leitura e à Escrita


Silvia Castrillón assume, citando Emilia Ferreiro, que a leitura é um direito, não é um luxo, nem uma obrigação. Um direito de todos, essencial ao exercício pleno da democracia.
"Parto da convicção de que a leitura não é boa nem ruim em si mesma, de que ela é um direito histórico e cultura e, portanto, político, que deve situar-se no contexto em que ocorre. Historicamente, a leitura tem sido um instrumento de poder e de exclusão social: primeiro nas mãos da igreja, que garantia para si, por meio do controle dos textos sagrados, o controle da palavra divina; em seguida, pelos governos aristocráticos e pelos poderes políticos e, atualmente, por interesses económicos que dela tentam se beneficiar.
Estou consciente de que ao redor da leitura se movem diferentes propósitos, que a necessidade de sua democratização obedece a diversos fins e que disso depende, em grande parte, o fato de setores excluídos - não só da leitura, mas também de outras manifestações da cultura e da economia - não se apropriarem dessa prática. Em outras palavras: somente quando a leitura constituir uma necessidade sentida por grandes setores da população, e essa população considerar que a leitura pode ser um instrumento para seu benefício e for de seu interesse apropriar-se dela, poderemos pensar numa democratização da cultura letrada." p.16
Referindo-se a diversas campanhas, planos e projetos, é útil escutar a sua voz crítica - defende que tais campanhas podem ocultar o verdadeiro problema, criando a ilusão de que se está a fazer alguma coisa pela leitura. Tal não é verdade, se se limitarem a nos convencer da necessidade dessa prática, sem ter em conta que nada se torna necessário se não se tiver a íntima convicção de que pode ser um meio para melhorar as condições de vida. Dar livros, como um favor, gratuitamente, não resolve a discriminação e o desequilíbrio no que diz respeito à participação na cultura letrada
O verdadeiro problema está "na educação e nas possibilidades reais de acesso democrático à leitura e à escrita." (p. 21). As estatísticas que medem a leitura pelo consumo de livros por pessoa encobrem a realidade. Estimular a oferta de livros, por si só, pode confirmar privilégios, em vez de combater desigualdades, apesar das boas intenções.
Precisamos tomar consciência do problema, e assegurar espaços de participação - aí os cidadãos poderão "expressar-se pelo cumprimento do direito à leitura e à escrita e a uma verdadeira inclusão na cultura letrada." (p.21)


Pontos básicos: 

  • educação como área de intervenção central - o que requer transformações nas escolas - proporcionando a literacia a todos, e não apenas aos que já herdam a sua inserção na cultura letrada
  • bibliotecas como meios para a democratização do acesso - o que requer transformações nas bibliotecas - garantindo o acesso gratuito a materiais escritos, em todas as formas, incluindo as novas tecnologias
  • debate alargado sobre que fazer para transformar escolas e bibliotecas
Na Colômbia, este debate tem assinalado alguns eixos a desenvolver:
  • melhorar a formação de professores, enquanto leitores e escritores, que permita romper com a tradição de ensinar como aprenderam
  • equipar bem as escolas com materiais de leitura e de escrita - não apenas manuais, mas livros e outros recursos - para que se possam converter em "comunidades de leitores e escritores"
  • melhorar a gestão do tempo nas escolas - onde cada vez é mais difícil ler, refletir,  pensar, debater, e ter tempo para tal (alunos, professores, pessoal não docente)
  • construir as bibliotecas públicas a partir de projetos das próprias comunidades, de modo a alcançar todos, e não apenas a população já letrada, e/ou já escolarizada, ultrapassando formas rotinadas de gestão por atividades sem planeamento coerente com um objetivo político, social e cultural claro; o suporte financeiro é essencial, mas também é essencial a participação da sociedade civil no desenho da política pública de leitura e escrita 
Exemplos positivos mencionados 
Do Estado: Biblioteca Luis Angel Arango, no centro de Bogotá, que cumpre em 2018 60 anos



quinta-feira, maio 03, 2018

La casa de papel - Bella Ciao



E a versão longa, aqui

Museus ICOM Portugal

 
A definição de estratégia está refém da reorganização administrativa prevista pela descentralização, situação que tem desde já a consequência evidente de profundas alterações à Lei-Quadro, único quadro normativo estruturado que, infelizmente, nunca chegou a ser integralmente implementado.
As preocupações manifestadas pelo ministério prendem-se essencialmente com o modelo de gestão dos museus e monumentos da administração central do Estado, tendo-nos sido transmitido que há um novo projeto de autonomia de gestão praticamente pronto. A intenção é a de dar maior autonomia na gestão científica e cultural dos museus, mas não financeira.
Quanto à situação deficitária das equipas técnicas nos museus não há nenhuma estratégia prevista para colmatar a sangria preocupante de profissionais, resultado do envelhecimento das equipas, sendo apontada a possibilidade de melhoria do quadro de assistentes técnicos para vigilância com recurso a mobilidade de outros ministérios.
À nossa questão para quando a reposição do PROMUSEUS para os museus RPM não foi apontada nenhuma continuidade ou alternativa.
Em suma, são vários os problemas dos museus portugueses e dos seus profissionais e a falta de capacidade de concretização de algumas medidas prometidas cuja justificação é apontada como impossível de concretizar até ao fim da legislatura por razões de equilíbrio financeiro.
ICOM, 18.04.2018




Comunicado ICOM – Dia Internacional de Monumentos e Sítios | ICOM Portugal

José Jorge Letria - "Arte poética" disco "Até ao Pescoço" (LP 1972)

quarta-feira, maio 02, 2018

Pela Vida Independente


No dia 5 de maio, Dia Europeu da Vida Independente, o Centro de Vida Independente vai realizar uma marcha na Av. da Liberdade, em Lisboa, pelas 14h30.
No Facebook a associação faz um forte apelo a que quem venha à marcha (de Lisboa ou de fora) possa oferecer boleia a quem tem dificuldades em locomover-se. Se vens de carro e puderes ajudar, envia um mail para vidaindependente.lx@gmail.com:

“Para muitas pessoas com deficiência, especialmente as que vivem fora de Lisboa ou Porto, o direito à mobilidade é ainda um sonho por cumprir. Sabemos as dificuldades que enfrentam quando precisam de se deslocar para um pouco mais longe do local onde habitam. Chegar até à Marcha pela Vida Independente é impossível para muitas pessoas seja porque não há transportes acessíveis, seja porque não têm rendimentos suficientes para pagar somas astronómicas pela deslocação num táxi ou ambulância dos bombeiros locais. 
Se quer ir à Marcha pela Vida Independente e não tem transporte, diga aqui nos comentários de onde parte e se pode ou não comparticipar as despesas com o combustível.
Se você é uma pessoa solidária, defende uma verdadeira inclusão das pessoas com deficiência e tem transporte disponível, diga também aqui nos comentários que percurso poderá fazer até à Av. Da Liberdade no dia 5 de Maio.
Também pode enviar o seu pedido ou a sua oferta de boleia para o mail vidaindependente.lx@gmail.com

terça-feira, maio 01, 2018

1º de Maio. O Povo, Unido, Jamais Será Vencido

Em Maio de 1974, celebrou-se pela primeira vez em Portugal após longos anos de interregno, o Primeiro de Maio, cinco dias após a Revolução dos Cravos, num clima de verdadeira tensão, onde eram esperados alguns confrontos e reacções provindas de sectores não familiarizados com as novas ideias que rapidamente emergiam após a recente revolução de Abril. No entanto, contrariamente ao esperado, as celebrações do dia 1 de Maio em Portugal, acabaram por ser pacíficas, transformando-se numa verdadeira manifestação espontânea e numa festa da união popular e dos trabalhadores portugueses.O mote “O povo unido jamais será vencido” foi repetido vezes sem conta por milhares de manifestantes no conjunto global de manifestações que se deram um pouco por todo o país
No Bairro do Vinil: Emissora Nacional

segunda-feira, abril 30, 2018

BIBLIODIVERSIDADE, PRECISA-SE

Na guerra contra a ignorância a leitura é a melhor arma!... Frase de Eduardo Tominaga.


A ignorância sai caríssima. E semeia-se.

E combate-se.

Os primeiros subscritores desta Carta (18 de Abril de 2018) são 
  • José Antunes Ribeiro (editor-livreiro na Espaço Ulmeiro Associação Cultural, ex-fundador da Assírio & Alvim e da Ulmeiro)
  • Assírio Bacelar (editor na Nova Vega, ex-fundador da Assírio & Alvim)
  • Daniel Melo (historiador, investigador em política cultural e história do livro e da leitura).
Sou a 57ª. 

Soube da petição pelo Facebook. O digital não é desculpa para não aderir a esta Carta, antes pelo contrário. Vale a pena antes de mais ler o que aqui se escreve, pensar no que nela se destaca e se propõe. Reparar melhor no que se passa à nossa volta, pensar no que nela se diz e se avança. E depois agir.
1.2. O desinvestimento na leitura pública como ameaça ao desenvolvimento cultural Uma política do livro democrática e sustentável tem necessariamente que se articular com uma política da leitura. A sustentabilidade impõe que se promova diariamente a diversidade cultural, para atenuar efeitos nefastos advindos da concentração e homogeneização. A diversidade cultural tornou-se uma prioridade consagrada em inúmeros documentos internacionais desde os anos 1970, da UNESCO [1] ao Conselho da Europa e à comunidade ibero-americana.
Nas últimas décadas, tem-se verificado a nível planetário que a redução da diversidade no sector do livro corrói o pluralismo de pontos de vista, experiências e criações, enfraquece o debate público e a experiência humana, debilita a capacidade emancipatória dos cidadãos e das suas comunidades. Como antídoto impôs-se a ideia da bibliodiversidade, que surgiu nos anos 1990, e a qual necessita da articulação entre políticas do livro e da leitura, e entre Estados e sociedades civis organizadas.
Mas não basta abraçar ideias, impõe-se dar-lhes conteúdo prático, na aplicação das políticas públicas nos vários níveis do Estado, envolvendo e responsabilizando os cidadãos e suas organizações. 
Em Portugal, um dos pilares duma política integrada do livro e da leitura têm sido as bibliotecas públicas municipais. Ora, estas atravessam uma crise grave que urge solucionar. A crise liga-se a severas restrições orçamentais mas é, acima de tudo, um problema programático. Que fins se pretendem atingir? Que resultados se têm atingido? Que meios se devem mobilizar?
Desde logo, em muitas bibliotecas não têm sido devidamente acautelados os seus fundos bibliográficos. As novidades tardam, e parte do atraso deve-se a ainda não ser sistemática a “catalogação na fonte” dos livros, o que evitaria a duplicação de trabalho e impõe um urgente reforço de meios específicos. Diversas juntas de freguesia e municípios deixaram de investir na actualização consistente da oferta de livros nas suas bibliotecas. O investimento parece ter sido desviado para o livro escolar, o que esvazia as bibliotecas locais. Além disso, há bibliotecas municipais que têm fundos preciosos de livros de autores portugueses dos séculos XIX e XX que estão em depósitos distantes, sob o pretexto de que estas bibliotecas só devem disponibilizar livros novos, quando o que devem é assegurar uma oferta o mais generalista possível, incluindo quanto a autores e edições mais recuadas. As reedições que se vão fazendo não cobrem tudo, há que atender públicos diversificados (incluindo os que necessitam de pesquisar, cada vez mais um requisito do próprio ensino, básico e superior), e nem todas as obras relevantes podem ser contempladas no orçamento bibliotecário.
Outro problema grave prende-se com o incumprimento da missão integral por estas bibliotecas, a que estão obrigadas dado o lugar central que detém nas respectivas comunidades, enquanto pólos culturais e educativos.
Como sustenta o Conselho da Europa desde 1970, a cultura não é somente bens de consumo, mas sobretudo um espaço no qual os cidadãos podem formar a sua própria cultura, posição que foi reiterada por resolução da 1.ª Conferência de Ministros Europeus responsáveis pelos Assuntos Culturais, em 1976.
Por isso, torna-se imperioso inverter o profundo desinvestimento em actividades culturais promotoras do livro e da leitura, da hora do conto à declamação de poesia e às oficinas artísticas. São estas e outras iniciativas afins que colocam em interacção os cidadãos com actores sociais e culturais diversos, permitindo e suportando a criação, a difusão e o pluralismo culturais, mas também a integração e coesão socioculturais. Para tal efeito, é crucial dotar estas iniciativas de recursos próprios, para acabar de vez com o mau hábito de se considerar que o trabalhador intelectual e artístico deve intervir nestes espaços a título gracioso. Só assim será possível respeitar a sua dignidade profissional e reforçar as vias de produção, participação e circulação culturais e de integração sociocomunitária. E só assim também se porá cobro ao financiamento de actividades culturais pelos próprios funcionários das bibliotecas (em dinheiro para materiais, em combustível para deslocações, em horas extraordinárias não pagas, etc.), um abuso do seu espírito de missão que tem ocorrido em várias bibliotecas municipais. O bom investimento em equipamentos promotores da literacia digital não deve comprometer o resto.
Por fim, estes espaços podem e devem dar um maior contributo para a coesão territorial, o que só se consegue com a sua mais eficiente distribuição territorial. Em primeiro lugar, o projecto de uma rede de bibliotecas públicas cobrindo todo o território está por concluir e marca passo, volvidos 31 anos (209 bibliotecas activas, para 308 municípios, ou c. 2/3), com o Estado central alheado do seu programa de cofinanciamento de bibliotecas municipais. Por outro lado, em muitos concelhos uma só biblioteca fixa não chega a todas as populações, pelo que se impõe que o pivot central estimule (e seja parceiro) do lançamento de bibliotecas itinerantes junto dos municípios interessados, o que tem descurado. Para ambos os programas deve procurar-se financiamento junto da União Europeia e doutro tipo de organizações com empenho neste sector. 
CARTA ABERTA PARA SAIR DA CRISE NO SECTOR DO LIVRO E DA LEITURA : Petição Pública

domingo, abril 29, 2018

O Museu das (minhas) Descobertas

Bairro Padre Cruz, Lisboa (Foto: Maria Vlachou)

Para o Museu das Descobertas ser um museu relevante no século XXI deve ser sobretudo, no meu entender, um museu de história social, que receberá contributos de várias outras áreas (história da expansão, história marítima, história militar, com objectos relacionados com estas áreas e ainda de criação contemporânea) e que terá que se preocupar também com o “contemporary collecting” (as minhas desculpas pelo uso do termo inglês). Que tipo de objectos serão estes, de onde virão, não sei dizer, haverá pessoas muito mais habilitadas do que eu para responder a isto. Sei que esta é uma história que se inicia no século XV, cujas consequências, boas e más, chegam aos nossos dias. É o presente e o futuro que se deve debater, olhando para o que foi o passado. É o presente e o futuro que se deve discutir com todos os que se sentem tocados pela história e pela actualidade.
Isto deve reflectir-se também nas experiências, memórias, conhecimentos, origens, género e cor de pele dos membros da equipa que se vai constituir. 
Maria Vlachou 

MUSING ON CULTURE: O Museu das (minhas) Descobertas

As falsas “provas” da TVI sobre o incêndio da Mata Nacional de Leiria – Observador

 
Obviamente, desconhecemos quem terá dado origem ao incêndio na Mata Nacional de Leiria e quais as suas motivações e não é nosso objetivo apresentar hipóteses alternativas à da jornalista Ana Leal. O que pretendemos mostrar é que a reportagem erra repetidamente na interpretação da evidência, distorcendo-a no sentido de concluir aquilo que, na realidade, já era pressuposto do trabalho e não apresenta provas capazes de suportar as afirmações que faz quanto ao incêndio de 15 de Outubro.


As falsas “provas” da TVI sobre o incêndio da Mata Nacional de Leiria – Observador

quinta-feira, abril 26, 2018

Evocar, mas tratá-las só pelo primeiro nome

25 de Abril de 1975: uma imensa fila de pessoas aguarda o momento de votar no exterior do edifício da Reitoria da Universidade de Lisboa ARQUIVO A CAPITAL 
(...) evocamos os nomes das 21 mulheres que responderam à chamada dos deputados na sessão inaugural da Constituinte: Maria José, Raquel, Etelvina, Maria Helena [Santos], Carmelinda, Fernanda [Paulo], Teresa, Rosa [Rainho], Sophia, Emília, Laura, Assunção, Élia, Augusta, Amélia, Nívea, Helena [Roseta], Fernanda [Patrício], Georgette, Hermenegilda, Alda.


Manuela Goucha Soares faz um bom artigo. É positivo conhecer a nossa História, e pensar sobre ela. Para além dos nomes - sem apelido, como nas chamadas dos call-centers: está, é a Dona Maria? - e das histórias de cada uma, é interessante ler as propostas que estas mulheres eleitas fizeram, nos trabalhos árduos da Constituinte.



Expresso | Amélia esteve na Constituinte. Ela e mais vinte deputadas

segunda-feira, abril 23, 2018

Literacia em Saúde em Portugal - um debate político e educacional

saude em portugal-02



Pela nossa e vossa Saúde, atentemos ao que se passa neste dias em Portugal e alimentemos o debate.

O combate pela Literacia é fundamental para a democracia. Neste  caso, a literacia em saúde terá de incluir a consciência do peso das decisões públicas - políticas de saúde - no corpo e na vida de cada um de nós, e dos que amamos.


 um livro recente que talvez tenha interesse, da Gulbenkian que mostra que, tendo existido progressos (as gerações mais novas, antes dos 40 anos, revelam níveis menos baixos de literacia em saúde - ver gráfico da p. 12), há muito a fazer nesta matéria em Portugal.

Realmente, é um paradigma novo na educação para a saúde, na escola, mas não só, estratégia educativa ao longo da vida, mobilizando meios formais (escolares, incluindo universidade) e informais - incluindo a chamada "praça pública", presencial e a distância. Educação trans-disciplinar, evidentemente. Pese isto o que pesar às taxonomias académicas - e / ou corporativas - conservadoras.


Literacia em Saúde em Portugal - Fundação Calouste Gulbenkian

Curso de Cultura Geral (II) - Episódio 13 - RTP Play - RTP

Resultado de imagem para curso cultura geral

Ouvir bem conversar, por bem pensar - Sobrinho Simões, Teresa Salema Levy, Teresa Calçada.

Pela mão e a atenção de Anabela Mota Ribeiro.

O último programa da segunda série. Uma delícia, quase uma hora, boa.

Se nunca viu, pode começar por este, graças ao arquivo digital. Uma espécie de livro.

Curso de Cultura Geral (II) - Episódio 13 - RTP Play - RTP

domingo, abril 22, 2018

Recuperar palavras, e força - contra os riscos da hegemonia medianocrática





Alain Deneault é um filósofo francês, e alerta: 

A medianocracia não nos leva também ao enfraquecimento do discurso político?


Sem surpresa, é o meio, o centro, o médio que dominam o pensamento político. As diferenças entre os discursos de uns e de outros são mínimas, os símbolos, mais que os fundamentos, divergem, numa aparência de discórdia. As "medidas equilibradas", o "meio virtuoso" ou o " compromisso" são erigidos em noções fétiches. É a ordem política do extremo centro cuja posição corresponde menos a um ponto no eixo esquerda-direita que ao desaparecimento deste eixo em proveito duma única abordagem e duma única lógica. Sem surpresa, é o meio, o centro, a mediania que dominam o pensamento político.



Neste contexto medíocre, reina o combinado. Os governantes fazem-se eleger segundo uma linha política e aplicam uma outra, depois de eleitos; os eleitores aproveitam eleições municipais para protestar contra a política nacional, votam Frente nacional [em França] para exprimir a sua cólera, os media favorecem estas derrapagens quando só se interessam pelas estratégias dos actores. Não há qualquer visão de futuro, todo o jogo político é de vistas curtas, no bricolage permanente. 


Como resistir à medianocracia?



Resistir ao banquete para onde nos convidam, às pequenas tentações pelas quais ireis entrar no jogo. Dizer não. Não, não vou ocupar esse cargo, não, não aceitarei essa promoção, renuncio a essa vantagem ou a esse reconhecimento, porque estão envenenados. Resistir, nesse sentido, é uma ascese, e não é fácil.
Voltar à cultura e às referências intelectuais é igualmente uma necessidade. Se nos empenharmos em ler, pensar, afirmar o valor de conceitos hoje varridos como se fossem insignificantes, e reinjectarmos sentido onde ele já não existe, ou se tornou residual, avançamos politicamente. Não é por acaso que a própria linguagem está hoje sob ataques. Vamos restabelecê-la.
Para ler mais devagar:

Gouvernance, le management totalitaire / Alain Deneault, éd. Lux (2013)
La Médiocratie / Alain Deneault, éd. Lux (2015)
En politique comme dans les entreprises, “les médiocres ont pris le pouvoir”

quinta-feira, abril 19, 2018

Antes de Abril, o caminho foi abrir o corpo e a mente


Homenagem humilde ao Pedro Lobo Antunes, ao Manuel Alegre e ao Francisco Fanhais
O tempo negro que nos oprimia haveria de clarear em Abril de 1974

segunda-feira, abril 16, 2018

Robert Ingpen

How the Alphabet was Made by Robert Ingpen
Como foi feito o alfabeto / How the Alphabet was Made

Um grande ilustrador australiano. Esta imagem acompanha um conto com o mesmo título no clássico do Rudyard Kipling, Just So Stories.

Website: http://robertingpen.com/about/

Uma obra dele publicada em português: Religiões do mundo



Wonderlands: the whimsical worlds of Robert Ingpen – in pictures

sexta-feira, abril 06, 2018

Desculpe incomodar, estou só a cumprir a Constituição | P3



PAULO PIMENTA

Crónica

Desculpe incomodar, estou só a cumprir a Constituição

Parece que é sempre o dinheiro, não é? A actual contestação ao modelo de apoio às artes não é apenas sobre o dinheiro. É sobre a dignidade. Sobre a dignidade de pensares num projecto artístico. De poderes fazer contratos de trabalho. E também é sobre luta


Sara Barros Leitão

2018



É sobre a dignidade de teres um seguro de acidentes de trabalho. É sobre a dignidade de teres uma secção de cultura num jornal. É sobre a dignidade ter um Ministério, um ministro. É sobre a dignidade de poderes fazer o teatro de amanhã, e não o de hoje, e desse teatro de amanhã não resultar e de estar tudo bem. É sobre a dignidade de estares aqui há muito tempo e sobre a dignidade de teres acabado de chegar. É sobre a dignidade de aprendermos juntos. É sobre a importância da diversidade para te lembrar que vivemos numa democracia.

Vale mesmo a pena ler tudo, aqui http://p3.publico.pt/cultura/palcos/25846/desculpe-incomodar-estou-so-cumprir-constituicao#.WsZO7fYVL70.facebook

quarta-feira, abril 04, 2018

Porta mágica



"PORTA DE PAPEL 
Mariana estava fora de si:
- A imbecil! Isso mesmo: imbecil. É o que ela é. Pode dizer pra ela. Não faz a mínima diferença, que se ela vier pra cima de mim eu recebo de murro na cara. Murro. Na cara. Que a cara dela vai ficar inda mais torta. Pode fofocar, que eu nem estou aí. A burra! Burrona, burríssima, burralda! Mentirosa, é?
Fanfa, a Intrigante, não entendeu direito:
- Como é mesmo?
Mariana faliu pausadamente separando as sílabas:
- Mentirosa é a comadre da madrinha dela! Entendeste agora? Se não entendeste, fala, que eu parto tua cabeça em duas como quem divide uma melancia e cuspo dentro. Vai, vai correndo, vai e diz a ela, mas diz direito, diz como eu disse, repete palavra por palavra que tenho aqui duas testemunhas: o Tripa-de-Boi e a Duda. O Tripa-de-Boi não falta jamais à verdade. E a Duda é essa flor aí, pedra noventa, gente muito fina. É. Vai, Falsália, que eu sei muito bem que tu só estás espionando para contar do outro lado. Espiã! Espiã que não sabe nem bisbilhotar, que a gente vê logo a gatina escondida com o rabão de fora. Reage, mulher. Tu não falas nada, não dizes nada, tu não te defendes, tu és essa água morna aí.
- Mariana...
Mariana sabia arremedar, entortava a boca, ficava com ar de debilóide:
- "Mariana"... "Mariana"... É só o que tu dizes, é? Fala. Reage, mostra que tu tens sangue nas veias e não água mineral. Não dizes nada, nunca dizes nada, estás gravando tudo-tudo para contar de joelhos diante da patroazinha. Santarrona de pau oco, sonsa, pau de dois bicos é tudo isso e muito mais o que tués. Olha, Fanfa Fals´lia, vai ver se eu estou ali na esquina. Mas vai correndo, se não eu sou capaz de sumir e tu não me encontrares. Corre. Depressa, que se tu demoras muito eu não te espero. Se tu chegares e eu não estiver, me espera que não demoro. Vai. Vai. Tchauzinho, Fanfazinha Falsaliazinha.
Tripa-de-Boi por pouco não estoura uma gargalhada. Duda não gostava dessas presepadas da Mariana. Rir, não ria. Nem sorria. Mas Tripa-de-Boi sabia cortejar:
- Tu és de morte, Mariana. A pobre da Fanfa saiu que nem um foguete. Como é que pode, Mariana? Ela parece que tem medo de ti. Tu, eu acho que nasceste pra deputado, sei lá!, pra líder, pra general. Olha, minha querida, eu te quero para amiga. Quando tu belisca é beliscão que torce a carne, que a carne fica doendo.
Mariana inchava feito perua e rodava admirando a própria cauda e só faltava mesmo gorgolejar: gluglu, gluglu.
Duda interrompeu aquele namoro escandalosíssimo da Mariana, namorando-se como se estivesse diante de um espelho:
- Mariana: agora fala. Agora chega, né? Eu quero saber como é mesmo essa história da porta. Porta encantada, foi o que ti falaste?
Mariana ficava sempre excitada quando falava da sua porta.
- É. Pode ser Porta Encantada. Mas eu falei Porta Mágica. Porta Mágica é que é. Encantada é se antes de ser porta fosse um sapo e uma fada transformasse o sapo em porta. Aí era Porta Encantada, que poderia a fada transformar de novo em sapo. Nada de portas encantadas. A minha porta é mágica. É diferente, Duda. Tu olhas, parece que é de madeira, podes até pegar, podes cheirar, que é de madeira mesmo. Mas atravessas por ela como se fosse uma porta de papel."

Haroldo Maranhão
A Porta Mágica, Coimbra : Vértice, 1983
Prefácio de Óscar Lopes
Capa de Júlio Resende
Prémio Vértice

Até hoje, este bando me acompanha em todas as infâncias, e em todos os lugares de sermos humanos, mais Marianas, menos Fanfas, às vezes Tripas-de-Boi, às vezes Dudas... Sempre buscando a porta de papel e atravessando a porta mágica.
Livro disponível nesta edição portuguesa, em alfarrabistas e bibliotecas, e em edições brasileiras, em bibliotecas, nos mercados do sebo e do novo

Óscar Lopes


Faz parte da galeria dos meus mestres.

Um dos seus textos porventura menos conhecidos, Gramática simbólica do Português (um esboço), de 1971, abriu-me horizontes de conhecimento que nunca lhe agradecerei bastante. A História da Literatura Portuguesa, que escreveu com António José Saraiva, numa valente edição da Estúdios Cor (1966-1973), depois repetida inúmeras vezes por outras editoras, iluminou gerações de portugueses, e continua a ser uma obra de referência. Pelas mãos de ambos descobrimos autores, épocas, títulos, num guia que nos tornou mais conscientes da nossa língua e dos nossos criadores, desde D. Dinis e os seus cantares de amigo ao século XX.

Antes e depois de 1974, a sua intervenção cidadã e académica sempre me inspirou.  Sou grata, e sei que a memória é fundamental para o futuro. Também por isso estou feliz com a notícia da homenagem que lhe é prestada por ocasião do centenário do seu nascimento.
Em 1983, Como eu gosto deste livro, o notável prefácio que escreveu para o magnífico livro de Haroldo Maranhão A Porta Mágica que editámos na Vértice assinala um dos momentos felizes de leitura e escrita em que pude participar.

Entre 4 de abril e 22 de Novembro de 2018 , a sua Faculdade de Letras da Universidade do Porto, homenageia este grande mestre, em curadoria de Fátima Oliveira e Isabel Pires de Lima.

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Programa completo aqui 
"Notabilizou-se como ensaísta, linguista e crítico literário e, entre muitos outros epítetos que cabem num percurso singular, foi o primeiro diretor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) no pós-25 de abril. Óscar Lopes é a Figura Eminente da U.Porto 2018, iniciativa que, ao longo do ano, se propõe a celebrar o legado desta personalidade ímpar da história da Universidade e figura central da cultura portuguesa da segunda metade do século XX e início do século XXI.", citado de:
Óscar Lopes é a Figura Eminente da U.Porto 2018 « Notícias UP