sexta-feira, março 20, 2020

quinta-feira, março 19, 2020

josé mário branco - perfilados de medo





Perfilados de Medo - Poema de Alexandre O'Neil

Perfilados de medo agradecemos
o medo que nos salva da loucura
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura

Aventureiros já sem aventura
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos

Perfilados de medo, sem mais voz
o coração nos dentes oprimido
os loucos, os fantasmas somos nós

Rebanho pelo medo perseguido
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido

Alexandre O'Neil

Evocação da Democracia

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Razão e coração. 2020, Portugal.
Desafios a Abril - o poder local, frente de defesa da democracia e do bem comum.
Por tele-ocupação profissional coincidente com o horário da sessão de Câmara do meu concelho ontem, só depois pude ouvir o que aí se tratou, graças à tecnologia e à decisão que em bom tempo se tomou de transmitir pela internet e manter arquivo acessível universalmente. O momento é muito difícil, todos o sabemos. Trataram-se coisas importantes, mas o que mais me impressionou foi o tom empenhado, mais sereno ou mais apaixonado, mas claramente empenhado de todos os intervenientes, genuinamente preocupados com a população, procurando encontrar soluções para situações novas. Não sei se esta comunicação resultaria tão sensível em video-reunião.
Agradeço a todos - o Presidente, os vereadores e as vereadoras, os técnicos e outros presentes terem arriscado, pessoalmente, a presença, numa sala confinada, e compreendo que repetir o carácter público desta sessão será perigoso nos próximos tempos, fisicamente. Podem sempre ser transmitidas online, mas não é a mesma coisa. Mesmo acautelando, como estou certa que o será, a possibilidade de participação do público, remotamente.
Democracia vive do cara-a-cara, a sério, não aqui no facebook. Assunto de gente com gente, iguais.
Se por um lado a tecnologia nos permite maravilhas, por outro inquieta-nos. Fiquei a pensar que ainda bem que não somos governados por robots. Nem por vedetas da ribalta mediática. Com todos os defeitos e imperfeições de cada um e cada uma, ainda me sinto mais segura com humanos, com razão e coração. Erramos? Pois erramos, mas também somos capazes de corrigir e imaginar novos caminhos.
Por acasos da História, cabe-me partilhar a responsabilidade das autarquias em Portugal, como eleita na assembleia municipal (BE), com largas dezenas de cidadãos no concelho, e milhares no país. Espero, e sinto que todos e todas esperamos o mesmo, conseguir cumprir com a responsabilidade que o povo nos confiou, da forma mais positiva que for capaz, em colaboração.
Tempos extraordinários pedem-nos que sejamos extraordinários?
Não, apenas que sejamos gente como a outra gente, homens e mulheres comuns numa situação incomum, humildemente buscando assegurar o Bem Comum, defender a população e a Constituição.
Com razão e coração.
A sessão que me inspirou estas linhas pode ser vista aqui https://www.youtube.com/watch?v=5Sq6I1syZ6I&feature=youtu.be

domingo, março 15, 2020

A dor de todas as ruas vazias

Al Berto
Nasceu a 11 Janeiro 1948 (Coimbra, Portugal). Morreu em 13 Junho 1997 (Lisboa).  Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, foi um poeta, pintor, editor e animador cultural português

Notas para o diário

deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa 
na fragata do alfeite. 
basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o 
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al-Berto

ALFINete: E-Learning - Apoio a professores

ALFINete: E-Learning - Apoio a professores:   Grupo de apoio a professores que necessitam, neste momento, de apoio ao e-Learning. Aqui pretende-se partilhar informação sobre várias ...

Vírus & democracia


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Charge de Laerte Coutinho in Forum, 25.02.2020

Na China, a capacidade de controlo de Xi Jinping vai ao ponto de conseguir medir a temperatura dos distribuidores de comida a cada duas horas e, na embalagem, é obrigatório que constem os valores da temperatura de quem confeccionou a refeição. Os passos das pessoas são controlados por uma aplicação no telemóvel. Em contrapartida, cada cidadão tem, por exemplo, garantidas cinco máscaras 
gratuitas por semana. Por oposição ao exemplo italiano e ao dos Estados Unidos, com Donald Trump a recusar responsabilizar-se pelo que quer que esteja relacionado com “o vírus estrangeiro” e incapaz de tornar acessíveis os cuidados de saúde de que os norte-americanos precisam, não falta já quem questione se uma ditadura não estará mais bem preparada para conter o vírus. “Se se confirmar o aparente sucesso que a China está a ter a controlar isto, por contraste com países democráticos, mais gente pode começar a concluir que, afinal, o autoritarismo pode dar jeito, mesmo que em sacrifício de alguns direitos”, preocupa-se Aguiar-Conraria. O facto de a China ter, por via do seu desempenho económico, “deitado por terra aquela ideia dos anos 1980 e 90 de que eram os países com democracias mais sólidas que tinham melhores performances económicas”, não ajuda a pôr travão a tais ameaças aos regimes democráticos. 
“O perigo de as democracias saírem fragilizadas desta pandemia é enorme”, vaticina também Manuel Loff.“O que é que disse [o deputado do CDS] Telmo Correia? Que é preciso uma ‘voz de comando’! E de onde é que isto está a sair? Está a sair de onde sempre esteve: durante a II Guerra Mundial, a questão, mesmo nas democracias opositoras do nazismo, era se uma ditadura não seria mais eficaz a mobilizar os seus soldados, a dar-lhes moral para enfrentar os inimigos. Em pleno século XXI, está a voltar à superfície este elogio permanente do autoritarismo”, compara.O que mais preocupa o historiador é perceber que, à boleia da covid-19 tal como à boleia da crise dos refugiados, grassa a ideia de que a complexificação das relações e dos problemas sociais e políticos requer um “comando forte”. “Essa crítica nacional-populista ao funcionamento da democracia, que não dispensa uma retórica oportunista de mais democracia, foi o que levou Bolsonaro ao poder e o que deu força o Orbàn na Hungria e a Putin na Rússia”, insiste para sustentar que, ao reavivar medos ancestrais, a covid-19 “reforça discursos de natureza messiânica ou autárcica, que, perante um vírus que vem de fora, defendem que o país tem de se fechar sobre si próprio”. E, submergidas pelo pânico social, as pessoas tornam-se permeáveis à erosão dos seus direitos. 
“A lógica de que os países têm de fechar o contacto com os outros começou em 2017, a seguir à tomada de posse de Trump, e, do dia para a noite, o passo foi dado”, situa Loff, referindo-se à decisão do Presidente norte-americano de “fechar” os voos provenientes da Europa. A Itália, por seu turno, “isolou-se a si própria, num estado de emergência com efeitos de natureza policial”, diz ainda, convencido de que, “criados os mecanismos legais, estas medidas terão impactos duradouros”.“Se incorporarmos este estado de emergência dentro das nossas cabeças, ninguém se lembrará de ir perguntar ao Estado quando é que isto acaba. E efectivamente os processos de securitização de áreas da nossa vida colectiva e individual só têm sucesso quando a sociedade os entende como naturais”, prossegue o investigador, subscrevendo as teorias do filósofo italiano Giorgio Agamben, que no livro Estado de Excepção (Edições Setenta, 2018) conclui que o mundo vive em permanente estado de excepção desde os ataques terroristas de 11 de Setembro. “A ideia que perdura desde então”, conclui Loff, “é que sempre que há um ataque temos de suspender a Declaração Universal dos Direitos Humanos, detendo e vigiando pessoas sem necessidade de qualquer autorização judicial”. No caso português, “é sintomático que uma das primeiras discussões suscitadas pela covid-19 visava perceber se, à luz da Constituição, o Estado pode ou não impor determinadas práticas de reclusão domiciliária”, recorda Aguiar-Conraria, para acrescentar que, se se concluir que não tem, “de certeza absoluta que, bem ou mal, na próxima revisão constitucional isso é alterado”.E assim "ficaremos com mais um exemplo de como as crises são aproveitadas para erodir direitos e tornar as sociedades menos liberais”.
in O vírus do medo já contagiou as democracias, Público, 15.03.2020

sábado, março 14, 2020

Gente Humilde



MULHERES DO SUL de Adriana Queiroz

Gente Humilde de Vinicius de Moraes

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece
De repente
Como um desejo de eu viver sem me notar
Igual a tudo, quando eu passo
Num subúrbio
Eu muito bem, vindo de trem
De algum lugar
Aí me dá uma inveja
Dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada, escrito em cima
Que é um lar
Pela varanda, flores tristes
E baldias
Como a alegria que não tem
Onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito de eu não ter
Como lutar
E eu não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

quinta-feira, março 12, 2020

Filipe Froes - falar claro sobre a pandemia

Grande Entrevista: Filipe Froes - O novo coronavírus chegou a Portugal. O que é que a ciência sabe da doença? O especialista em doenças respiratórias, Filipe Froes, na G

sexta-feira, março 06, 2020

Bullying & linchamento - semear ódio, efeito da competição

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"O linchamento moral é algo que se assemelha ao linchamento físico. Deseja-se a morte de seu objeto. Se ela não é possível de fato, quer-se alcançar a destruição e/ou o afastamento/expulsão de seus alvos.
O bullying infanto-juvenil escolar é um tipo de assédio moral absurdamente irracional que rompe com as velhas regras de coleguismo e de espírito de grupo. É muito diferente das antigas brigas de turma de colégio, isto é, confrontos entre grupos de origens diversas. Ele ocorre no seio da mesma instituição, entre alunos que se conhecem e muitas vezes são vizinhos. São comuns entre adolescentes de várias faixas etárias. Alguém é escolhido para ‘pato’. Nesta pessoa, o ódio do grupo é depositado com vigor, incluindo-se xingamentos e episódios lamentáveis de violência física. Com as facilidades de gravação e difusão disponíveis, estas barbaridades chegam algumas vezes à Internet e até a TV.
O assédio moral no ambiente adulto assume inúmeras variações, que respeitam o contexto específico onde ele ocorre. Trata-se de uma forma de abuso, que usa de subterfúgios para tentar destruir o objeto escolhido. A ‘fofoca’ transforma-se na intriga, na invencionice e na maledicência. Os limites entre o público e o privado são abandonados e desconsiderados. As pessoas são atacadas de acordo com os preconceitos acreditados. São pressionadas, admoestadas e maltratadas, sem que isto se relacione de modo direto com as atividades que desenvolvem.
Há sempre objetivos não revelados nestes ataques. A variação é muito grande. Há quem tenha prazer pessoal sádico enlouquecido de agir assim, destruindo pessoas. O ódio pode ser alimentado por ciúmes, invejas e demais sentimentos dos baixos instintos. É comum que estas manifestações também escondam outros motivos de ordem política, ideológica e moral. Os que praticam o assédio raramente revelam os seus verdadeiros motivos para tentar destruir alguém que está tão próximo. Normalmente, eles projetam em seus alvos suas frustrações e incapacidades profissionais e pessoais.
Estes fatos ocorrem nas áreas públicas e privadas, sendo comum em sociedades com a vivência histórica e social de alto grau de violência real e simbólica. A existência de mídias centradas na exibição acrítica da violência explica parcialmente o problema. A fragilidade da capacidade de mobilização macropolítica atual tem outro quinhão. Há registros da ocorrência de casos em escolas de qualquer nível. Tais práticas refletem a dificuldade de integração dos grupos, porque não existe o entendimento mútuo, ou porque ele não é desejado por quem detêm o poder micropolítico em cada organização. Isto leva a algumas pistas para compreender o que vem acontecendo.
Com o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, o individualismo e a competição interpessoal cresceram muito. Quanto mais alienado e convencido pelas prédicas do sistema, as pessoas mais se imaginam como indivíduos isolados que deveriam disputar todo o dia uma espécie de corrida pela taça de ouro, pisando em quem estiver por perto ou possa atrapalhar. Junto a isto, o velho carreirismo transformou-se em algo natural. Quem não o adota é visto como uma avis rara, que precisa ser eliminada. (...)
A violência do bullying escolar transforma-se facilmente em vias de fato. O assédio moral, entre adultos, raramente, gera episódios físicos de contato direto. Todavia, são conhecidos inúmeros casos de violência verbal, de isolamento de pessoas e outros atos de hostilidade direta ou disfarçada. Os mestres do assédio são hábeis manipuladores, capazes de arregimentar a outros, com suas mentiras e intrigas. Procuram, como na inquisição medieval, ‘queimar’ suas vítimas, buscando um consenso de grupo sobre os alvos escolhidos. Os danos provocados são evidentes. Perde o grupo por produzir sua própria autofagia. Perde a vítima que nem sempre consegue suportar e resistir, desestruturando-se.
No assédio moral, há elementos do fascismo líquido já comentado em outras oportunidades. Não é necessário que os executores do assédio saibam sua coloração política ou compreendam a que deuses servem. Estando envolvidos no processo, eles simplesmente repetem o que apreenderam com outros manipuladores. Manipulam e acabam sendo presos da mesma teia que ajudam a tecer. Os verdadeiros donos da teia, por vezes, estão longe e são invisíveis para os algozes e suas vítimas. Urge rasgar a cortina e revelá-los.
Em todas sociedades humanas sempre existiram fortes e fracos. As crianças, principalmente as mais pobres, são os mais fracos de nosso tempo. Mas, há outros e outros grupos que precisam de proteção. Diz-se que há civilização, direitos humanos etc, se os fracos são protegidos dos que tem mais poder. Se isto não existe, vive-se em plena barbárie."

Fonte: http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=263&tit=a-hrefhttpwww.sociologia.seed.pr.gov.brmodulesnoticiasarticle.phpstoryid263Bullying-e-assedio-moral-outros-ovos-da-serpentea

domingo, março 01, 2020

Ser diferente

 A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e pessoas sentadas

“A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; 
tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; 
não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; 
ser ele; 
não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; 
no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.”

AGOSTINHO DA SILVA (Porto, 13 de Fevereiro de 1906 — Lisboa, 3 de Abril de 1994), filósofo, poeta e ensaísta, in “Diário de Alcestes
SILVA (Agostinho da).— DIÁRIO DE ALCESTES. (Gráficas Minerva.Vila Nova de Famalicão. 1945). 12x17,5 cm.  69-IV págs. B. - Reedição pela Ulmeiro, Lisboa, 1990