quarta-feira, dezembro 09, 2020

Sampaio da Nóvoa: O Português como Língua Global – Ler o Mundo em Português

 


LP – Estamos a viver uma crise que parece não ter fim. Quando sentíamos que nada podia parar o desenvolvimento, eis que uma pandemia vem mostrar a nossa fragilidade, a fragilidade do nosso modo de vida. Como enfrentar estes tempos?

SN – Estamos a viver tempos dramáticos. Estamos desorientados, perdidos. Não sabemos como agir, nem o que pensar, mas sabemos que precisamos de mudar de via, como escreveu Edgar Morin, e de vida. O presente já não é o que era, e o futuro muito menos.

Precisamos urgentemente de libertar o futuro, adoptando três caminhos: uma valorização do comum, uma outra relação com o planeta e a participação de todos, incluindo os jovens, na definição do seu futuro. Recentemente, falando na Reunião Mundial da Educação (22 de Outubro de 2020), Angelina Jolie afirmava: “Com a conectividade que temos não há nenhuma razão para que não haja uma conversa nos dois sentidos, entre líderes, educadores e os jovens que são quem conhece os melhores desafios que enfrentam. Da mesma forma que a educação, também a participação é um direito”.

O pior que nos poderia acontecer seria considerar esta pandemia como um parêntesis, como se fosse possível, e desejável, regressar ao “normal” que aqui nos trouxe. Precisamos de libertar o futuro de ideias feitas, de preconceitos, de visões únicas e totalitárias do mundo, de comportamentos que estão a destruir a vida e a humanidade. Para isso, é urgente substituir as certezas pelas dúvidas, dar lugar a conversas plurais. E ninguém pode pensar fora das possibilidades da língua em que pensa, como escreve Vergílio Ferreira. Cultivar e alargar estas possibilidades é abrir a língua aos futuros possíveis e escolher os desejáveis. Porque é na língua que está a liberdade.

Segundo Bernard-Henri Lévy, o século passado ensinou-nos que, quando apostamos na nostalgia, apenas pavimentamos o caminho para o totalitarismo, mas “quando, em vez disso, nos comprometemos a seguir em frente, mergulhar no desconhecido e abraçar a nossa humanidade com todas as suas incertezas, então embarcamos numa aventura verdadeiramente bela e nobre – o próprio caminho para a liberdade”. O nosso futuro comum precisa das línguas, e da língua portuguesa



Sampaio da Nóvoa: O Português como Língua Global – Ler o Mundo em Português

sábado, novembro 28, 2020

Sei um ninho

 


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...  

Miguel Torga

quarta-feira, novembro 18, 2020

Fluir nº 6 - Novembro 2020

(a imagem da revista, de apuro gráfico assinalável, não é reproduzível: ide ler.
Fluir nº 6 - Novembro 2020

Tema Fronteiras
Dir. José Pacheco
Ed. apenas digital

A fruir!

terça-feira, novembro 10, 2020

sexta-feira, outubro 30, 2020

Pepe Mujica, Grandeza

 


Fazer política é procurar construir felicidade para todos.

Triunfar na vida não é ganhar, é recomeçar.

Pepe Mujica, 28.10.2020

quarta-feira, outubro 14, 2020

E-READ-COST - Declaração de Stavanger, 2020



Questões para futura investigação: 
À medida que aumenta a utilização de materiais digitais para uso educacional e pessoal,
surgem questões importantes sobre o futuro da leitura, a pedagogia da literacia e a importância
da comunicação textual: 
• Em que contextos de leitura e para que leitores pode o uso de textos digitais ser mais
vantajoso? 
• Inversamente, em que domínio de aprendizagem e da escrita literária deve ser
incentivado e defendido o suporte em papel? 
• Estará a tendência da leitura em ecrã para ser mais fragmentada, menos focada e com
um processamento mais superficial, a ser transferida para a leitura em papel e, assim,
transformando este padrão naquele que é mais frequentemente adotado
independentemente do suporte? 
• Estará a nossa suscetibilidade para as notícias falsas e ideias preconcebidas a ser
ampliada pelo excesso de confiança nas nossas competências para a leitura digital
• O que pode ser feito para incentivar um tratamento mais aprofundado dos textos em
geral e, em particular, daqueles que são lidos em ecrã?
Declaração de Stavangen, Fevereiro 2020 (pdf)

https://ereadcost.eu/wp-content/uploads/2020/03/DeclaracaodeStavangerPT.pdf



Quem somos? 

O projeto “Evolução da Leitura na Era da Digitalização (E-READ) (Evolution of Reading in the Age of Digitisation) é uma iniciativa de investigação europeia que reuniu cerca de 200 académicos e cientistas no domínio da leitura, edição de texto e literacia de toda a Europa, num esforço conjunto para pesquisar o impacto da digitalização nas práticas de leitura. Grande parte da nossa pesquisa concentrou-se na forma como os leitores, principalmente crianças e jovens, compreendem e recordam textos escritos quando utilizam materiais impressos ou digitais. Os membros desta Ação COST de investigação, financiada pela União Europeia e outras partes interessadas, reuniram-se a 3 e 4 de outubro de 2018 em Stavanger (Noruega) para debater as principais conclusões de quatro anos de investigação empírica e de discussões sobre o assunto (2014-2018). A Declaração de Stavanger sobre o Futuro da Leitura representa um resumo desses estudos e colaborações


Grupo Linkedin https://www.linkedin.com/groups/8456377/ - criado em 2015, 50 membros


sexta-feira, outubro 02, 2020

RIO DE CONTOS 17 OUTUBRO 2020


Assistir presencialmente - sujeito a inscrição, dependendo da lotação da sala
Assistir on-line - transmissão via zoom (inscrição prévia)
Posteriormente, será editado um video que ficará disponível nos canais da Câmara Municipal de Almada

sábado, setembro 26, 2020

Lisboa em 8 passeios ao som de podcasts 2020

© FG+SG Fotografia de Arquitectura
O Open House Lisboa 2020 tem um formato adaptado às restrições desta fase de pandemia, numa edição onde não está incluída a visita a espaços e a entrada em apartamentos, museus ou casas privadas. Assim, convidamos a serpentear por Lisboa de forma independente e segura, através de passeios sonoros narrados na 1ª pessoa por oito personalidades de diferentes áreas da cultura.
Ao descarregar os oito podcasts ou optar pela versão em streaming, o seu telemóvel ou dispositivo electrónico acompanham esta viagem sonora de inegável riqueza e diversidade. De mãos dadas com vozes únicas, este Open House Lisboa sugere formas singulares de ouvir, ver, sentir e viver o espaço público de Lisboa.
Com uma duração que varia entre os 21 e 71 minutos, estes passeios sonoros estão disponíveis na plataforma Soundcloud e nas aplicações habituais para Iphone a Android. Se usar o Spotify, pesquise nos podcasts por Open House Lisboa. No seu telemóvel pode ainda pesquisar na aplicação de podcasts que costuma utilizar.
Em 2020, o Open House Lisboa convida a sair de casa e não inclui qualquer visita a espaços.
Partilhe a sua experiência no instagram #openhouselisboa2020


Open House Lisboa

segunda-feira, setembro 14, 2020

sexta-feira, setembro 04, 2020

PORTUGAL 2030 - Visão 2030

Picture




Existem neste momento áreas de enorme incerteza que condicionarão a forma como olhamos para a presente crise. No entanto, há uma ameaça que surge clara desde já: a pressa, o imediatismo e a ausência de reflexão dos agentes políticos que terão a tentação em repor a ‘normalidade’ pré-crise, e o retorno ao business as usual, quando foi precisamente essa ‘normalidade’ que nos trouxe até aqui. 
Precisamos de visões de futuro, apoiadas em valores, e de políticos corajosos que as saibam implementar. 
A aceitação da pobreza, da desigualdade e da injustiça como inevitáveis, impede uma verdadeira transformação e limita o potencial de crescimento social e humano de que Portugal e a Europa precisam. O apelo e incentivo ao consumo, como narrativa para a superação imediata da crise económica, esquecendo todos os impactos ambientais decorrentes, é um erro que nos sairá muito caro a curto prazo. Precisamos de instituições fortes, valorização do conhecimento; de aproveitar a promessa da “Revolução Digital” para reduzir a pegada ecológica, desenvolvendo serviços e produtos de alto valor. Acima de tudo, precisamos de ancorar as políticas em ideais, na confiança, na ética e assumir um novo paradigma. Um paradigma em torno do qual os cidadãos e cidadãs portuguesas se possam unir para liderar esta transformação a nível mundial e construir uma sociedade ética.  
Documento coletivo divulgado por Susana Peralta, Portugal, Setembro 2020, no Público, aqui




PORTUGAL 2030 - Visão 2030

domingo, agosto 30, 2020

Octavia Butler on How (Not) to Choose Our Leaders

Octavia Butler on How (Not) to Choose Our Leaders

"Choose your leaders with wisdom and forethought.To be led by a coward is to be controlled by all that the coward fears.To be led by a fool is to be led by the opportunists who control the fool.To be led by a thief is to offer up your most precious treasures to be stolen.To be led by a liar is to ask to be told lies.To be led by a tyrant is to sell yourself and those you love into slavery."
Octavia Butler (June 22, 1947–February 24, 2006)

Octavia Butler on How (Not) to Choose Our Leaders – Brain Pickings

quarta-feira, agosto 12, 2020

Direitos de Literacia - Cidadania Europeia




11 PONTOS DESTACADOS
ELINET - PROGRAMA EUROPEU LIFELONG LEARNING

Declaração dos Direitos de Literacia dos Cidadãos Europeus, ELINET - Rede Europeia de Literacia, 2016

Todas as pessoas na Europa têm direito à literacia. Os Estados-Membros da UE devem assegurar que sejam facultados às pessoas de todas as idades, independentemente da sua classe social, religião, etnia, origem e género, os recursos e as oportunidades necessários para desenvolverem competências de literacia suficientes e sustentáveis por forma a compreenderem e utilizarem de modo eficaz a comunicação escrita, seja ela manual, impressa ou digital.

Texto integral da Declaração aqui




domingo, julho 26, 2020

Marte, aqui


SONETO DA VIAGEM A MARTE

O tempo não tem sul e não tem norte
seja qual fôr a hora de quem parte,
não tem fronteiras, não possui estandarte,
quem fôr a Marte irá sem passaporte.
Nós teremos partido para a morte
quando os homens partirem para Marte
e embora Marte já não nos importe,
importante, ó futuro, é importar-te.
Importante, ó futuro, é quando a terra
falar da fome e descrever a guerra
como histórias lendárias de gnomos.
Os dias forem lúcidos, translúcidos,
e a vida, ao sabor dos dias lúcidos,
se esqueça dos selvagens que nós fomos.

Sidónio Muralha, "O Pássaro Ferido", 1972
Cantado por A. P. Braga
Estimado no blog A Viagem Dos Argonautas

How to Be Correct About Everything All the Time

sábado, julho 11, 2020

Emidio Santana - A Voz Resistente do Anarquismo

A Rua Emídio Santana, o homem que atentou contra Salazar em 1937 ...
Imagem daqui


Anarquistas, e mestres.

Reais, e presentes na nossa memória

Um bom documentário da RTP. Obrigada!

Serviço público pela sanidade mental e o desenvolvimento do capital que importa : o capital humano



Emidio Santana - A Voz Resistente do Anarquismo: Figura maior do movimento sindical anarquista português, Emídio Santana foi o elo de ligação entre o anarco-sindicalismo do início do século XX em Por

sexta-feira, julho 10, 2020

Ser aluno das aves do céu

Pré-visualizar(abre num novo separador)
Recebemos uma generosa oferta de livros para a Laredo e o seu projeto Livralhada, em que fazemos circular exemplares entre bibliotecas de todo o tipo e, assim, entre quem ama a partilha e a leitura. De um deles, partilho uma história que veio ao meu encontro.
SER ALUNO DAS AVES DO CÉU
Conta o P. Schaluck que nas montanhas frias da sua aldeia natal, as aves voam em geral aos bandos e em forma de V. E dizem os entendidos nesses segredos das aves, que voando dessa maneira, umas aproveitando o esforço das outras, todo o bando ganha mais 71 por cento de capacidade de voo do que se cada uma voasse sozinha por sua conta e risco.
E quando alguma ave sai dessa formatura e cede à tentação de voar por sua conta e risco, ao sentir a resistência do ar e a dificuldade em manter o ritmo do bando, logo volta à formatura para poder tirar vantagem da ave que vai à sua frente.
E se o chefe do bando se sente cansado, passa para trás e outro toma naturalmente o seu lugar na liderança do grupo, sem que dispute esse lugar mas também sem fugir a essa responsabilidade.
E diz ainda a parábola que em geral as aves que vão atrás grasnam para encorajar as que vão à frente e todas sentirem que o bando caminha unido.
E quando uma ave fica doente ou é ferida ou abatida por algum caçador indesejado, duas outras saem da formatura e acompanham aquela que está em dificuldade para a amparar e proteger. E ficam com ela até a ave ferida poder de novo voar ou então até que ela morra. Depois, as duas partem de novo e, ou recuperam o seu próprio bando ou se integram noutro que esteja ao seu alcance.
Estais a ver como ao contar a história destas aves eu estou a pensar na história das nossas comunidades.
A melhor maneira de caminhar das pessoas que têm o mesmo voo e caminham para as mesmas distências é juntar-se às outras e com elas repartir o custo da caminhada. O milagre da multiplicação das forças repete-se todos os dias numa comunidade que acerta o passo, tendo em conta as forças de cada um. É natural que os que vão à frente se cansem mais depressa, mas lá estão os que vêm atrás para os substituir. É um ciclo que devia ser normal numa comunidade onde a liderança não é um privilégio de classe nem um carisma de carreira.
O grasnar das aves da retaguarda fala-nos do espírito de entreajuda, da colaboração de todos, da convergência na caminhada.
E se alguém adoece ou por qualquer motivo não pode acompanhar o ritmo do conjunto, não é abandonado à sua sorte ou à sua crise. Há sempre alguém que em nome da comunidade fica ao seu lado para o encorajar e amparar. Uma comunidade não rejeita aqueles que se cansaram do voo, mas antes procura ajudá-los a recuperar a alegria de voar.
NEIVA, P. Adélio Torres (2017). Parábolas, ed. do autor, p. 241/242

domingo, junho 28, 2020

Destemidas

Destemidas: Leymah Gbowee - Histórias de mulheres excecionais, ousadas e decididas que fizeram o que quiseram e lutaram pelos seus sonhos. Mulheres de ideais, épo

quarta-feira, junho 24, 2020

Como um peixe que voa por cima de um país

Desmanchamos o tempo como se um sobressalto
nos atingisse o corpo e o metesse dentro de uma caixa.
Precisamos de ar,
de respirar no meio da gente,
subir aos degraus com os pássaros,
gritar para o asfalto,
para que acordem as crianças e os velhos,
dizendo que está aí a luz do Verão,
os dias abertos para as encostas e para os rios.
Estamos aqui dentro de uma aldeia
pintada de xisto e de oliveiras,
ouvindo a água que corre das cascatas para os vales
longe das cidades, mas no coração das casas,
como um peixe que voa por cima de um país.

Poema a partir de José Mário Silva e Margarida Vale de Gato, a partir de Ruy Belo

Ouvir aqui https://conta-meumconto.blogspot.com/2013/09/poema-partir-de-jose-mario-silva-e.html?fbclid=IwAR2K6S3O2Q12e06ZRROHJdmYgC5UTHot-prE5RHFOaK0GspD8gHReB_9tzE

Capitalism Rethinking?

2 economistas de renome convergem na sinalização da crise e em propostas para o capitalismo.

Nobel Prize - Winning Economist And Columbia University Professor Of Economics Joseph Stiglitz Interview


Joseph Stiglitz

Photographer: Simon Dawson/Bloomberg
"Speaking at the Bloomberg Invest Global virtual conference, Nouriel Roubini predicted the recovery from the pandemic crisis will soon fizzle out and be more anemic than the one that followed the global financial meltdown more than a decade ago. Joseph Stiglitz said politicians must fight that by assuring citizens that public support programs will continue as long as needed.
The pandemic has spurred fears globally that social inequalities will deepen, dampening overall consumption as people put more money aside as they face uncertain future. U.S. savings rates have already soared to an unprecedented one-third of disposable income. 
It has also sparked renewed debate over whether this is a moment to fix some of the pre-existing weaknesses of the modern political economy.
Stiglitz said countries where there’s bigger trust in government have done better getting out of the pandemic. The U.S. should focus on a green transition, fix its infrastructure, health-care and school systems, and make sure and making sure everyone who “wants a job, has a job.”
Still, he said he’s “hopeful” that this crisis will provoke a changed attitude toward running the economy. "
Stiglitz Urges Capitalism Rethink as Roubini Invokes Stagflation - Bloomberg

domingo, junho 21, 2020

Carlos Do Carmo - Bernardo Sassetti/Gracias A La Vida

O Amor é (Fim de Semana)

O Amor é (Fim de Semana): A saúde mental e o tanto que nos afecta - Série de episódios de 'O Amor é', na Edição de fim-de-semana, versão longa. Júlio Machado Vaz em conversas s

Amor fóssil



POEMA DO AMOR FÓSSIL

Quem de nós falará aos homens que hão de vir
quando o grande clarão encher de luz
e pasmo as nossas bocas?
E como?
Que língua entenderão eles?
Que símbolos, que sinais, que apagados murmúrios,
lhes falarão de nós,
desta fluida e versátil multidão,
destes seres que aparentam rosto humano
e como tal comovem
mas que olhados do alto são lepra do planeta.

Que significará sofrer, amar, lutar,
quando as nossas misérias e tormentos
não forem mais do que pégadas fósseis?
Que palavras há-de o poeta reservar
para o coração de plástico dos homens que hão-de vir?
Que santo e senha entenderão?
Que de nós restará neles?
Que parecenças terão com estes hominídeos
que amaram a Natureza porque lhes era hostil
e suportaram o próximo porque não eram livres?

Que verbo deverá ficar gravado na pedra que o vento não corroa,
que lhes fale dos humilhados e dos ofendidos,
dos sonhadores e dos impotentes,
dos ansiosos, dos bêbados e dos ladrões,
desta ridícula, miserável e corrupta humanidade
que instala os arraiais da morte alegremente
num campo que foi verde e que não volta a sê-lo?

Amor?
Como será amor em língua cibernética?

António Gedeão
Poemas escolhidos : antologia organizada pelo autor. Lisboa : João Sá da Costa, 2010, p. 90

Carlos Do Carmo, Bernardo Sassetti - O Sol

Carlos Do Carmo, Bernardo Sassetti - O Sol

sexta-feira, junho 19, 2020

Sonho Impossível - Chico Buarque e Maria Bethania Ao Vivo


Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão


Chico Buarque faz hoje 76 anos


Que bom!

quarta-feira, junho 17, 2020

Não há pachorra para o faz de conta: pobreza e desemprego a subir e anda tudo entretido a falar de estátuas

Os números do Emprego - Notícias & Actualidade - Geral - Guia de ...

A autora não tem olhado muito para os debates em meios sindicais e de movimentos de trabalhadores e trabalhadoras, mas não deixa de ter razão na denúncia do que mais interessa e tantas vezes se apaga dos temas visíveis - nas discussões, e o que é pior, nas decisões políticas que afectam o futuro próximo.
"A recuperação no próximo ano espera-se que apareça robusta, mas para já há aumento da pobreza, desemprego e perspetivas mais escuras. Leio que em Portugal 90% dos empregos destruídos pela resposta à covid foram empregos de mulheres. Das cerca de 50 mil pessoas que perderam o emprego entre fevereiro e abril, 44 mil foram mulheres. Em dois meses, o desemprego feminino aumentou 1,9%, face ao masculino, que aumentou 0,2%. Algo para que a OIT já havia alertado.

Esta catástrofe que cai em cima das mulheres junta-se às desigualdades já pré-existentes. É porque as mulheres geralmente têm vínculos laborais mais precários, ocupam posição mais baixa na hierarquia das empresas, ganham menos (logo as indemnizações são mais baratas) que são agora mais despedidas. A isto junta-se os empregos concentrarem-se nos serviços, no comércio e no turismo, setores mais afetados pelo confinamento. Este período de desemprego não é um mero capítulo na vida das mulheres. Tempos de paragem diminuem ordenados futuros e significam, décadas mais tarde, pensões mais baixas.

Com o emprego dos jovens, o mesmo: 38% dos empregos que desapareceram eram ocupados por jovens. Sendo que a geração dos adultos mais novos vai já na segunda crise económica em poucos anos.

Parecem-me factos mais graves e urgentes que uns gatafunhos desenhados em estátuas.
Se as mulheres e os mais novos são desproporcionalmente afetados pela presente crise, é de elementar justiça que as políticas públicas se concentrem em compensar estes efeitos junto destes grupos. Mas já viu em algum lado esta discussão? Eu não vi."
Maria João Marques, 2020

segunda-feira, junho 15, 2020

é aqui

Escola da Palavra : urgente

Lamberto Maffei - WOOKElogio da Palavra - Livro - WOOKElogio da Rebeldia - Livro - WOOK



"Maffei refere-se ao cérebro em todos os seus elogios. No Elogio da Palavra:  “A evolução demorou milénios a modificar o cérebro para dar a palavra ao homem. Este depois inventou a escrita para que as palavras tivessem significados permanentes e fossem próteses da memórias.” Embora reconhecendo o primado do social no humano chama a atenção dos perigos do “cérebro globalizado.” Como diria Magritte, “isso não é um cérebro”. A Internet está inundada de exibição em vez de informação, tagarelice em vez de debate, propaganda em vez de racionalidade: “O cérebro globalizado é entregue gratuitamente no domicílio através dos meios visuais e verbais, autênticos traficantes da mente, como o melhor dos cérebros possíveis, indispensável para o futuro, para o progresso e para o aumento do PIB”. O cérebro do autor – que é único - revolta-se contra esse “cérebro globalizado”, que recusa a lentidão e a palavra que o cérebro individual exigem.   
Para termos cérebros precisamos de escola. Maffei defende a “escola da palavra”. A sua posição está em linha com obras recentes da filósofa norte-americana Martha Nussbaum e do professor italiano de Literatura Nuccio Ordine, que ele cita. A primeira, em Sem Fins Lucrativos (Edições 70, 2019), defende que a democracia precisa das humanidades e o segundo, em A Utilidade do Inútil (Faktoria K, 2017), pugna pela necessidade do saber desinteressado. A escola deveria recuperar o poder da palavra, em vez de dar certificados a analfabetos funcionais. Maffei levanta a hipótese de que a actual incúria da escola tenha sido programada: “Súbditos mudos, não educados para a palavra e para o pensamento, são cidadãos funcionais para uma democracia de fachada.” Receio que ele tenha razão.
(...)
Se temos um cérebro, só nosso, é nossa obrigação usá-lo. Deveria ser óbvio, mas talvez valha a pena lembrar que não há liberdade se não houver pensamento, ou se apenas houver o pensamento único do “cérebro globalizado."
Carlos Fiolhais, numa bela recensão, aqui Lamberto Maffei. Elogio de Três Elogios (2020)

sexta-feira, junho 12, 2020

Um festival de incerteza. Artigo de Edgar Morin

Foto: Pixabay


2020. 9 junho



"A crise deveria, sobretudo, abrir nossas mentes, há bastante tempo reduzidas ao imediato, ao secundário e ao frívolo, para o essencial: a importância do amor e da amizade para nosso florescimento pessoal, para a comunidade e para a solidariedade de nossos “eus” nos “nossos”, para o destino da Humanidade, dentro da qual cada um de nós é uma mera partícula. Em suma, o confinamento físico deveria favorecer o desconfinamento mental."


Um festival de incerteza. Artigo de Edgar Morin - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

quinta-feira, junho 11, 2020

Ou o vedes ou não o vedes


Eugène Grasset, 1845-1917, Three Women and Three Wolves, 1900


A Cegueira da Governação

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. 
Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? 
Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 
Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? 
Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.”

Padre António Vieira, "Sermões", séc. XVII
in


Retrato do Padre António Vieira, de autor desconhecido
 do início do século XVIII