terça-feira, dezembro 31, 2019

Invencionáticos de todo o mundo, unamo-nos!


O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras fatigadas de informar. 
Dou mais respeitoàs que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo.Entendo bem o sotaque das águas 
Dou respeito às coisas desimportantes 
e aos seres desimportantes. 
Prezo insetos mais que aviões. 
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. 
Tenho em mim um atraso de nascença. 
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: 
Amo os restos como as boas moscas. 
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. 
Porque eu não sou da informática: 
eu sou da invencionática. 
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros, Poesia Completa

Sexta sugestão : ensina-a a ler

Capa


Ensina a Chizalum a ler. Ensina-a a gostar dos livros. A melhor maneira é dando o exemplo. Se ela te vir ler compreenderá que ler é uma actividade com valor. Pode argumentar-se que se ela não fosse para a escola e se limitasse a ler livros, obteria mais conhecimentos do que uma criança educada em moldes convencionais. Os livros vão ajudá-la a compreender e a questionar o mundo, vão ajudá-la a exprimir-se e a tornar-se no que quiser ser – uma chefe de cozinha, uma cientista, uma cantora, todas beneficiam das competências que se adquirem com a leitura. Não me refiro a livros escolares. Refiro-me a livros que não têm nada a ver com a escola, auto-biografias e romances e livros de História. Se nada mais resultar, paga-lhe para ler. Recompensa-a. Conheço uma nigeriana notável, Angela, uma mãe solteira que estava a criar a filha nos Estados Unidos; como a filha não mostrava inclinação para a leitura, ela decidiu pagar-lhe cinco cêntimos por página. Um esforço dispendioso, dizia ela mais tarde a brincar, mas foi um investimento que valeu a pena.

Chimamanda Ngozi Adiche
Querida Yeawelle : como educar para o feminismo, Leya, 2018, p. 19. trad. de original em inglês, 2017 

terça-feira, dezembro 24, 2019

sábado, dezembro 21, 2019

segunda-feira, dezembro 09, 2019

Poeta

Quinta Essência: Arquimedes da Silva Santos (1921-2019), entrevista realizada em 2008 ao médico pedopsiquiatra, ensaísta e poeta (os seus versos deram origem a canções

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Não mates a tua diversidade interior

mia couto solidão distância telecomunicação tecnologia

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.
Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.
A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.
No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.
A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.rio
Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.
É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.
Mia Couto, séc. XXI
*Mia Couto é um biólogo e escritor moçambicano – Trecho extraído do seu livro “E se Obama fosse africano

Literacia curta e ligeira, dá asneira

 GETTY IMAGES.

A solução está na educação (na escola E ao longo da vida).  O problema não é a tecnologia, mas a literacia. Ler e entender, dá saúde e faz crescer, individual e  colectivamente.
 Literacia curta e ligeira, dá asneira.

Como valorizar o rigor em vez da rapidez? A leitura em vez da partilha imediata? A compreensão em vez do comentário?
Como educar as crianças a navegarem criticamente por si mesmas nas marés de informação, em vez de repetirem o que outros lhes dizem e confiarem em assitentes digitais que lhes pensam por elas e lhes explicam o mundo?
Como garantir que as escolas voltem a ensinar a triangular informação, a arbitrar conflitos, a separar factos de opiniões, a identificar sequências de informação, a orientar uma pesquia o, simplesmente, a verificar e validar antes de formular juízos ou tirar conclusões?
Como voltar a ensinar a sociedade a pensar?
Como resgatar a cidadania na selva informativa digital cada vez mais saturada de falsidades, sem mapa nem bússola que nos dê segurança?

Resposta: ensinar à cidadania mundial as bases da literacia da informação. 
Navegar é uma arte, viver também.
Como escreveu Camões: quem não sabe Arte não a estima.


"Beneath the spread of all “fake news,” misinformation, disinformation, digital falsehoods and foreign influence lies society’s failure to teach its citizenry information literacy: how to think critically about the deluge of information that confronts them in our modern digital age. 

Instead, society has prioritized speed over accuracy, sharing over reading, commenting over understanding. Children are taught to regurgitate what others tell them and to rely on digital assistants to curate the world rather than learn to navigate the informational landscape on their own. Schools no longer teach source triangulation, conflict arbitration, separating fact from opinion, citation chaining, conducting research or even the basic concept of verification and validation. In short, we’ve stopped teaching society how to think about information, leaving our citizenry adrift in the digital wilderness increasingly saturated with falsehoods without so much as a compass or map to help them find their way to safety. The solution is to teach the world's citizenry the basics of information literacy.

A Reminder That 'Fake News' Is An Information Literacy Problem - Not  A Techology Problem

Kalev LeetaruAI & Big Data




Ler mais aqui
https://www.forbes.com/sites/kalevleetaru/2019/07/07/a-reminder-that-fake-news-is-an-information-literacy-problem-not-a-technology-problem/?fbclid=IwAR2smEqrxZg1kI1ul2XjYqDbJBoVijinPCmoMohFSP2lLRj8RCvTIYZMmBU#457b72986a6f

terça-feira, novembro 26, 2019

Épico


GEDEÃO, António, pseud.
Poema épico / [António Gedeão]. – 1960 Out. 1. – [2] p. 1 f. ; 14,3 x 9,3 cm
Autógrafo a tinta azul com alguns riscados e acrescentos. – 1.º v.: «O rapazão da camisola vermelha sacode a melena da testa». – Suporte com vestígio de dobra. – Com a menção de data na margem inferior da 2.ª p. – Abaixo do título, nota de Natália Nunes, a lápis: «[Public. em Máquina de Fogo, de 1961]». V. p. 73-74.
BN Esp. E40/cx. 13

POEMA ÉPICO, ANTÓNIO GEDEÃO, «Máquina de Fogo» (1961)
O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa
e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso.
Dorme a sesta
o involuntário ocioso.
A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela
e sumiu-se na noite escura do mundo.
Quis respirar mais fundo
e isso de ser coitada é lá com ela.
O homem da barba por fazer conta os filhos e as moedas
e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufenho.
Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas:
- Eu já venho!
O da face doente,
o que sofre por tudo e por nada, sem querer,
abana a cabeça negativamente:
- Isto não pode ser! Isto não pode ser!
Sentados às soleiras das portas,
mordendo a língua na tarefa inglória,
com letras gordas e por linhas tortas
vão redigindo a História.



Após " Movimento Perpétuo", surge o segundo livro de poemas de António Gedeão, "Máquina de Fogo". Esta é a obra da confirmação do poeta enquanto cientista, do cientista enquanto poeta, da consolidação da sua presença no panorama literário português.
Ler mais aqui 

sexta-feira, novembro 15, 2019

João Villaret

A caminho das Jornadas de Bibliotecas da Maia e daquela fabulosa Comunidade de Leitores...
Grandes mediadores / promotores de leitura, guias no encontro com a Natureza, o Outro, o Eu.
4. João Villaret, RTP, acompanhado por Carlos Villaret. Programa de 29-3-1959

Pedro Lamares, Leonard Cohen

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sentadas e ar livre
A caminho das Jornadas de Bibliotecas da Maia e daquela fabulosa Comunidade de Leitores...
Grandes mediadores / promotores de leitura, guias no encontro com a Natureza, o Outro, o Eu.
3. Pedro Lamares, Literatura Aqui, desde 2016. RTP. Aqui, lendo Leonard Cohen, magistralmente traduzido por Vasco Gato.

Video aqui


quarta-feira, novembro 13, 2019

Mário Viegas e Manuela de Freitas dizem poesia do disco "Poemas de Bibe"...



Poemas de bibe (1990)
A grande poesia portuguesa (e os grandes poetas), escolhida para os mais "pequenos",mas não necessariamente poesia infantil...
Alinhamento do disco: 1. Eugénio de Andrade / Faz de conta 2. Eugénio de Andrade / Aquela nuvem 3. Sidónio Muralha / Eu tenho um cão 4. Antero de Quental / Pequenina 5. António Botto / Cantiga de embalar 6. António Ramos Rosa / Quem bate a uma porta de folhas na noite 7. Teixeira de Pascoaes / Canção final 8. José Gomes Ferreira / Chove 9. Eugénio de Andrade / O pastor 10. Eugénio de Andrade / Andanças do poeta 11. Camilo Pessanha / Vénus/II 12. Eugénio de Andrade / Frutos 13. Cesário Verde / De tarde 14. Miguel Torga / Brinquedo 15. Alexandre O'Neill / Periclitam os grilos 16. Pedro Oom / Actuação escrita 17. Mário Cesariny de Vasconcelos / Os anos felizes 18. Tossan / O sapo e o papo 19. Bocage / Epigrama 20. Eugénio de Andrade / Canção de Leonoreta 21. Luíz de Camões / Cantiga 22. Almada Negreiros / Rondel do alentejo 23. Camilo Pessanha / Rufando apressado 24. Fernando Pessoa / Não sei, ama , onde era 25. Fernando Pessoa/Alberto Caeiro / O guardador de rebanhos/XXXIII 26. Fernando Pessoa/Álvaro de Campos / O binómio de newton é tão belo como a vénus de milo... 27. Fernando Pessoa/Ricardo Reis / Para ser grande, sê inteiro: nada 28. Gomes Leal / Dedicatória 29. Mário Cesariny de Vasconcelos / Xácara das 10 meninas 30. António Nobre / O sono do João 31. Eugénio de Andrade / Romance de D. João 32. Sebastião da Gama / Descoberta 33. Eugénio de Andrade / Verão 34. Jorge de Sena / Poema desentranhado de 1 poema de Manuel Bandeira 35. Tossan / A morte do rato 36. Mário-Henrique Leiria / Cinegética 37. Mário-Henrique Leiria / Rifão quotidiano 38. Fernando Pessoa / Pia, pia, pia 39. Fernando Pessoa / Poema pial 40. Zeca Afonso / Balada do sino 41. Herberto Hélder / Ritual da chuva 42. Fernando Pessoa / Levava eu um jarrinho 43. João de Deus / Boas noites 44. Raul de Carvalho / Os meus poemas 45. Sophia de Mello Breyner / Coral 46. António Botto / Palavras de um roussinol 47. Jorge de Sena / Os paraísos artificiais 48. Florbela Espanca / Nas salas da embaixada 49. Matilde Rosa Araújo / Caixinha de música 50. Vitorino Nemésio / Até sempre 51. Ruy Belo / O Portugal futuro 52. António Botto / O mais importante na vida 53. António Aleixo / 5 quadras Disco na integra c/ detalhe de capa (53 poemas / textos)

LP
Mário Viegas e Manuela de Freitas ‎– Poemas De Bibe (LP) Porto - imagem 2

CD
Poemas De Bibe (Vinyl, LP, Album) album cover

Caderno de Poesias (1) - Maria Bethânia



CADERNO DE POESIAS
 2015Com direção, roteiro e repertório de Maria Bethânia, o DVD Caderno de Poesias, que integra o livro homônimo editado pela UFMG, da Universidade Federal de Minas Gerais, já pode ser adquirido separadamente
O DVD (Quitanda/Biscoito Fino) traz a interpretação de Maria Bethânia para poemas, canções e textos que estão no livro, ilustrados com recursos de animação gráfica. Gringo Cardia assina a direção do vídeo e o projeto gráfico do livro. A obra é resultado de um projeto concebido por Bethânia em parceria com a UFMG, voltado para divulgar poesia, literatura e canção popular na escola pública.
Esse projeto começou em 2009 com a iniciativa da historiadora Heloisa Maria Murgel Starling de convidar Maria Bethânia para participar do projeto “Sentimentos do Mundo”, da UFMG. A artista criou o espetáculo “Leituras de Textos”, no qual resgatava a arte de declamar poemas. “Nesse livro, Maria Bethânia reafirma a equivalência entre a chamada ‘alta literatura’ e as canções populares, entre o culto à soberania da abordagem literária em sua inesgotabilidade de sentido e de permanência, e o nosso hábito, meio distraído de fazer da canção o complemento natural da atividade cotidiana de viver”, observa a escritora.
Enquanto a artista interpreta poemas, animações gráficas conduzem o espectador ao universo lúdico dos textos. O DVD registra o espetáculo apresentado pela cantora em Diamantina, Minas Gerais, sete clipes extras sobre os poetas e um filme com poesia escrita do tamanho do show.
O Livro não acompanha o DVD.


Descrição das faixas e condições de aquisição:
https://biscoitofino.com.br/produto/caderno-de-poesias/#descricao

Mediação


"Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo".
Hermann Hesse

Café Filosófico: Alegria como força revolucionária, ética e estética dos afetos



"Alegria. Alegria como vontade. Como a filosofia trata desse assunto aparentemente trivial? Para o filósofo e psicanalista Daniel Lins a experiência da alegria contém um aspecto divino, porque envolve uma força que transcende o sujeito, e também um componente de loucura, porque é marcada por uma perda de controle, por um instante de inconsciência.
Experimentar a alegria significa apostar no devir, na capacidade do homem de se transformar constantemente. Mas não se trata de uma transformação solitária. A alegria deve ser pensada como o resultado de um encontro dos homens, entre si, e dos homens com o mundo."

Mais de uma hora de boa conversa que ajuda a pensar e aprender

segunda-feira, novembro 11, 2019

Camané & Mário Laginha - Com Que Voz [Official Music Video]

2019
Camões, Oulmain, Laginha, Camané


Com que voz chorarei meu triste fado
Que em tão dura paixão me sepultou
Que mor não seja a dor que me deixou
O tempo, que me deixou o tempo
De meu bem desenganado
De meu bem desenganado
Mas chorar não estima neste estado
Aonde suspirar nunca aproveitou
Triste quero viver, pois se mudou
Em tristeza a alegria do passado
A alegria do passado
De tanto mal, a causa é amor puro
Devido a quem de mim tenho ausente
Por quem a vida e bens dele aventuro
Por quem a vida e bens dele aventuro
Com que voz chorarei meu triste fado
Que em tão dura paixão me sepultou
Que mor não seja a dor que me deixou
O tempo, que me deixou o tempo
De meu bem desenganado
De meu bem desenganado
(Assim a vida passo descontente
Ao som nesta prisão do grilhão duro
Que lástima ao pé que a sofre e sente.)

Poema de Luís Vaz de Camões, séc. XVI

sexta-feira, novembro 08, 2019

Design Circular - por mundos sem lixo

4 modelos de design para a economia circular


"Agora que temos consciência das consequências negativas desse modelo, e da economia linear como um todo, é fundamental mudarmos os critérios que definem um bom design. Não podemos dizer que um produto é de boa qualidade se ele é tóxico para as pessoas ou para o planeta, e se os materiais usados na sua composição se transformam em lixo após o primeiro uso. Por isso, o desenho de produtos também precisa incluir critérios de circularidade e de saúde humana e ambiental.
Esse quadro é desafiador, mas traz uma enorme oportunidade de inovação através do design, em todas as indústrias. Assim como os designers contribuíram para o desenvolvimento da economia linear, eles têm o potencial de liderar a transição para uma economia circular.
Se o lixo é um erro de design, o design circular é um elemento crucial para criarmos um mundo sem lixo.  Ou seja, um mundo em que produtos e sistemas são projetados para manter o valor dos recursos em circulação para as gerações futuras. Em que, mais do que reduzir o impacto negativo de nossas atividades, podemos criar processos benéficos para os seres humanos e para a biosfera.
Os designers e fabricantes que quiserem se aventurar por este caminho não estarão sozinhos. Cada vez mais profissionais, empresas e organizações estão apostando neste modelo, e investigando os princípios que guiam a transição para um futuro circular."
3 princípios: (1) Resíduos são nutrientes (2) Energia limpa e renovável (3) Celebrar a diversidade (de espécies, de culturas, de soluções)

4 modelos: conforme The Great Recovery Project (UK, 2012 e 2016) -  design para (1) longevidade (2) serviço (3) remanufactura (4) recuperação de materiais

A Escolha do Público recaiu numa empresa chilena, a Triciclos

Escolha do Público no The Circulars 2019
Foto do site da TriCiclos em http://triciclos.cl/wp-content/uploads/2016/09/SLIDER1-ESPANHOL.jpg

segunda-feira, novembro 04, 2019

E AGORA, JOSÉ?


 Vitor, menino de rua, recita poema de Carlos Drummond de Andrade (2019, Brasil)
O poema "José" de Carlos Drummond de Andrade foi publicado originalmente em 1942, na coletânea Poesias. Ilustra o sentimento de solidão e abandono do indivíduo na cidade grande, a sua falta de esperança e a sensação de que está perdido na vida, sem saber que caminho tomar.
José



E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?



Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?



E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio — e agora?



Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?



Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!



Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?

sábado, novembro 02, 2019

Jorge de Sena :: Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya / Por...





"Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão."



Goya, Sena, Viegas e nós. E vós.
100 anos do nascimento do poeta de palavras escritas, Jorge de Sena

quinta-feira, outubro 31, 2019

PALAVRAS COM CORPO E ALMA. PORQUE A POBREZA NÃO É FICÇÃO.




"Sete palavras foram escolhidas por sete pessoas que vivem ou já viveram em situação de pobreza e exclusão social: “desigualdade”, “solidão”, “violência”, “fardo”, “preconceito”, “justiça”,  dignidade”. Cada palavra foi pintada no corpo da pessoa que a escolheu. É a nova campanha da Rede Europeia Antipobreza —EAPN-Portugal, na sigla inglesa.
“Vivemos numa sociedade muito desigual”, salienta Sandra Araújo, directora da EAPN-Portugal. O risco de pobreza aumenta quando se cruza género com idade, origem, etnia, capacidade/incapacidade. “Os fenómenos de pobreza continuam a atingir muitas pessoas e muitas vezes a pobreza é mal compreendida. Há muitos preconceitos, muitos estereótipos, muitos mitos.”Desmontá-los parece-lhe “uma dimensão muito importante”.A palavra “desigualdade” foi escolhida por Neide Conceição."
in Público 20191031  https://www.publico.pt/2019/10/30/sociedade/noticia/pobreza-desigualdade-solidao-violencia-fardo-preconceito-justica-dignidade-1891438

7 videos, 7 histórias reais, uma campanha contra a pobreza. Combatendo a pobreza de espírito, pela dignidade de todos




https://www.eapn.pt/#

sábado, outubro 19, 2019

Espanha aqui tão perto - mais tolerância, menos sangue


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Quijote pelo Ballet de Catalunha

























• Público • Sábado, 19 de Outubro de 2019

O país que “deu” o Quixote merece tudo, menos muita da sua política. É também por admiração e estima por Espanha que escrevo isto

José Pacheco Pereira

A Espanha nem una nem grande nem livre
“La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros
que encierran la tierra y el mar: por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida.”
(Cervantes, Don Quijote)

Este é um artigo indignado e como eu sou de raras indignações podem parar de o ler aqui. Nestas alturas estou-me positivamente “marimbando” — sem desculpa pelo plebeísmo porque preciso da sua força — para as nossas tricas nacionais, e para o gigantesco espectáculo de hipocrisia que é a União Europeia, capaz de se mobilizar pelas mais minoritárias causas da moda, mas indiferente ao que se passa na Catalunha.
Como cá. São todos muito liberais, todos muito preocupados pelas liberdades (económicas), todos muito tradicionais, alguns muito revoltados com a repressão (na Venezuela ou em Cuba), e chega-se à Catalunha e ficam todos muito indignados com a “violência” na rua, todos muito legalistas, todos indiferentes a um processo político persecutório, todos olhando para o lado para não verem as multidões na rua, e acima de tudo para não verem as faces dessa multidão. Para não verem que eles são iguais a nós, velhos, mulheres, donas de casa, trabalhadores, jovens casais, moradores, professores, funcionários, gente LGBT, gente conservadora, gente cujos pais e avós conheceram a guerra civil e guardam a memória dos fuzilamentos de dirigentes catalães ou dos movimentos estudantis e operários que confrontaram o franquismo numa Catalunha mais irridente do que muitas partes de Espanha. Eles olham para a rua e vêem os capuzes, e como o El País e a imprensa portuguesa que o segue estão muito preocupados com a Constituição e com a lei, com revoltas, golpes de Estado, revoluções, sedições, separatismo, independentismo. O que não vêem ou admitem é que possa haver uma vontade, uma determinação, uma razão pela independência da maioria dos catalães.
O problema é que na rua catalã não estão fascistas de pata ao alto, nem gente a marchar detrás de variantes da suástica, ou de runas nórdicas, nem a gritar contra os refugiados, nem a atacar mesquitas e sinagogas — está gente como nós. Mas o mesmo não se pode dizer das setas da Falange, nem da bandeira espanhola transformada no estandarte da “España, una, grande y libre” do franquismo, que recrudesceram nos dias de hoje em resposta ao independentismo catalão, numa causa que já mereceu em Espanha muitos milhares de mortos.
Na verdade, os nossos anticatalães, parte do PS e quase toda a direita acabam por ser muito amigos de uma das mais sinistras tradições do país ao nosso lado, o espanholismo de Castela, historicamente muito agressivo, tradicional inimigo de Portugal, a pátria que supostamente lhes enche o peito antes de chegarem a Bruxelas, onde desincha. O espanholismo que encontrou os seus melhores porta-vozes em partidos de extrema-direita como o Vox, que Nuno Melo branqueou, ou num PP minado pela corrupção, ou na sua versão modernizada, o Ciudadanos, o partido que o CDS gostaria de ser quando for grande. E em Espanha nesse partido que nem é socialista, nem operário, mas que agora é muito espanhol e que aceitou ser chantageado pelos herdeiros de Francisco Franco e que não teve a coragem de evitar o julgamento político dos independentistas.
Podem não ser favoráveis à independência catalã, não podem ser indiferentes aos presos políticos e às suas sentenças punitivas. E só por ironia é que se vê ficarem muito ofendidos com a comparação entre Hong Kong e Barcelona, eles que não mexeram uma palha sobre Hong Kong porque o seu anticomunismo pára na EDP e na REN, e não têm muita autoridade para fazer essa distinção. O mesmo com a “progressiva” e de “referência” comunicação social espanhola cuja agressividade anticatalã é repulsiva. E o mesmo para a portuguesa.
E repetem-se argumentos absurdos. O argumento contra o referendo então é o de máxima hipocrisia. O referendo não valeu porque correu sem qualquer controlo. Não é inteiramente verdade, mas é natural que não tenha ocorrido em condições ideais com a polícia a roubar as urnas, a ocupar lugares de votação e a bater nos que queriam votar. Mas, se o problema foram as condições do referendo, então que se faça outro em condições de liberdade e paz civil. Resposta: não, não, nunca, jamais em tempo algum.
Eu sou um grande admirador de Espanha, da sua cultura, das suas gentes. Li o Quixote mais de que uma vez e não é por falta de vontade que não o leio outra vez. Tudo o que de grande existe na história da literatura e da arte está nesse livro, de Ulisses a Leopold Bloom. O país que “deu” este livro merece tudo, menos muita da sua política. Não é um país de história fácil, como se viu na matança da guerra civil, de que o actual conflito é demasiado herdeiro. Em política sempre foi dado a pouca tolerância e a muito sangue, mas os seus grandes homens e mulheres nos últimos 200 anos foram-no exactamente por contrariarem isso. Unamuno é um exemplo. É também por admiração e estima por Espanha que escrevo isto.

Historiador