domingo, julho 30, 2017

Lobel, o das perguntas claras em qualquer idade, por serem genuínas

 
Lobel dice algo interesante en la entrevista que le hicieron Roni Natov y Geraldine Deluca, publicada en The Lion and The Unicorn (ver bibliografía, abajo):
Cuando empecé a escribir, trataba de escribir historias “para” niños, que en realidad se encontraban fuera de mi propio campo de sentimientos. Me preguntaba qué les gustaría a los niños y veía cómo podía “entregárselo”. Escribí libritos más o menos encantadores, pero no tenían peso alguno. Y luego de repente me di cuenta de que si quería ser escritor, iba a tener que ser escritor como cualquier otro escritor y tenía que venir de mí mismo. Todas las historias de Sapo y Sepo vienen de preocupaciones, observaciones o preguntas adultas mías. De alguna manera logré orientarlas para que un niño pudiera apropiarse de esas preocupaciones, observaciones o preguntas también, hacerlas suyas, conectar con ellas. 
“Creo que un niño pasa por las mismas cosas que un adulto. No creo que perdamos nada cuando crecemos. Creemos que somos adultos y que nuestras emociones son adultas y nuestro pensamiento es adulto, pero en realidad pasamos por el mismo tipo de cosa por las que pasamos cuando éramos niños y pensamos en muchas de las mismas cosas también”. 
Hablábamos ayer [referencia al día anterior de las Jornadas] de encontrar un lugar genuino desde el que preguntar a los niños, y creo que podemos afirmar sin lugar a dudas que Lobel encontró uno. Y precisamente porque es genuino y se trata de compartir preguntas a partir de observaciones, preocupaciones, extrañamientos también compartidos, Lobel también ofrece un modelo a los niños -y a muchos adultos necesitados también-. Ofrece un modelo para mirar, pensar y preguntar sobre el mundo. Yo por lo menos a eso lo llamo literatura, con “L” mayúscula. Con “L” de Lobel. 





Lo leemos así: Preguntas desde el hogar. La mirada científica y filosófica en Arnold Lobel

Divemos

 
Conta en passant que passou frio e passou fome, mas hoje vive bem e já não se deixa abater pelo racismo. Quando percebe que está sendo seguida por um vendedor em uma loja, gosta de "dar nele uma canseira", andando de um lado para o outro. Levanta a voz contra a hipersexualização da mulher negra e, com segurança, conta que não quis ter filhos para que eles não passassem pelo sofrimento que ela passou. Fica ofendida quando perguntam se ela tem uma cuidadora (“a cuidadora de mim sou eu mesma”). Diz que, se ganhasse R$ 1 a cada visualização de seu vídeo, construiria casas populares. No fim das contas, apesar do susto, admite se divertir com o carinho recebido dos novos fãs.
— As pessoas estão falando que eu virei verbo! Eu divei, tu divaste, ele divou. Mas eu divei mesmo — ri, envergonhada.

Leia mais:
Um perfil de Diva Guimarães, a professora de 77 anos que roubou os holofotes na Flip - Jornal O Globo

quinta-feira, julho 27, 2017

País medroso é país pobre

 

"Quanto menos dinheiro temos, maior a insegurança e, portanto, menos dispostos estamos a dar as nossas opiniões mais sinceras e mais frontais. Somos obrigados a fazer uma série de contas de cabeça, para averiguarmos se esta ou aquela opinião pode ir ao ponto de prejudicar a nossa vida pessoal e profissional, o nosso acesso às escassas oportunidades de trabalho que ainda vão existindo…
Ora, o calculismo em relação aos interesses, quando levado demasiado longe, desvirtua a própria ideia de actividade intelectual, faz-nos perder o sentido da independência, obriga-nos a fazer fretes e a entrar em esquemas. Transforma-nos em bajuladores servis, em lacaios que cumprem fanaticamente as ordens dos chefes, sejam eles o director do jornal onde escrevemos, o editor que nos publica os livros, o catedrático da universidade onde damos aulas, etc. 
O que é bem revelador da pobreza do nosso ambiente cultural, onde o mais importante, aquilo que ajuda a explicar, por exemplo, os valores literários impostos e promovidos nos jornais, nas revistas e nas televisões se passa nos jogos de corredor e nos compromissos assumidos. Compromissos que, na maior parte dos casos, não precisam de passar do estado implícito, nem sequer precisam de ser verbalizados. 
Julgo que não há grandes dúvidas de que um ambiente cultural também se faz do confronto de ideias e de argumentos contrários, muitas vezes de forma contundente e retumbante (desde logo porque nos liberta da obrigação ou da necessidade de andarmos à pancada, o que oferece certas vantagens sociais nada desprezíveis). 
As culturas mais dinâmicas e desinibidas assentam nesse esforço do pensamento crítico, de onde por País vezes sai pólvora e chumbo. Porque, como diz o Ian McEwan, «a crítica fortalece, o louvor amolece». Como vivemos num país medroso – um país pobre tende a ser um país medroso –, acredito não só que há mais intimidação como as próprias pessoas se deixam intimidar, com medo das portas que se fecham caso não tenham o máximo de cuidado com aquilo que dizem."


João Pedro George. "A promiscuidade no meio cultural é asquerosa"

Aprender a ser alegre

Duble herma of Socrates and Seneca Antikensammlung Berlin 07.jpg
Dupla representação - Séneca e Sócrates. Imagem daqui

"Não penses que te escrevo para dizer como o inverno que, aliás, foi curto e pouco rigoroso, se portou bem conosco, ou como a primavera está desagradável, ou, como o frio chegou fora de tempo! 
Isso são frioleiras próprias de quem fala por falar. Eu só escrevo aquilo que sinto ter utilidade, que para ti quer para mim. Que outra coisa posso, portanto, fazer além de incitar-te à conquista de sabedoria?

Queres saber qual o fundamento de sabedoria? Não tirar satisfação de coisas vãs. Falei em fundamento: na realidade é o ponto culminante. Só atinge o ponto supremo quem sabe em que consiste a verdadeira satisfação, quem não deixa a sua felicidade ao arbítrio dos outros. Fica sempre angustiado e inseguro de si o homem que se deixa solicitar por toda e qualquer esperança, ainda que ao seu alcance, ainda que fácil de realizar, ainda que nunca esse homem tenha sido iludido nas suas expectativas. 
O que tens a fazer antes de mais, caro Lucílio, é aprender a ser alegre. Estás a pensar que eu te quero privar de muitos prazeres ao afastar de ti os bens fortuitos, ao entender que devemos subtrair-nos ao doce canto das sereias que é a esperança? Pelo contrário, o meu desejo é que nunca te falte a alegria. O meu desejo é que a alegria habite sempre em tua casa; e fá-lo-á, se começar a habitar dentro de ti. Os outros tipos de alegria não satisfazem a alma; desanuviam o rosto, mas são superficiais. A menos que entendas que estar alegre é estar a rir! Não, a alma deve estar desperta, confiante, acima das contingências. Acredita-me, a verdadeira alegria é uma coisa muito séria. 

Julgas tu que se pode pensar em desprezar a morte, em abrir as portas à pobreza, em refrear os prazeres, em exercitar a capacidade de suportar a dor – e tudo isto sem franzir a testa, sempre o com o rosto, como diriam os nossos jovens pretensiosos, descontraído? Quem interioriza estes pensamentos alcança uma grande alegria, mas de ar pouco sorridente! O meu desejo é que tu possuas uma alegria deste tipo. Quando algum dia souberes de que fonte emana essa alegria, nunca mais ela deixará de te acompanhar. 
Os filões dos metais ligeiros encontram-se à superfície, mas os metais mais preciosos são aqueles cujos veios se encontram mais fundo e que, por isso mesmo, compensam muito mais quem os explora. Os prazeres com que o vulgo se deleita são ligeiros e superficiais, toda a alegria de importação carece de fundamento. A alegria de que estou falando e à qual me esforço por fazer-te aceder, essa é de natureza constante, e tanto mais dilatada, quanto mais íntima. Peço-te, Lucílio amigo, age da única maneira possível para obteres a felicidade, repele e despreza aqueles bens que só brilham por fora, que dependem das promessas de fulano ou das benesses de cicrano. Faz do verdadeiro bem o teu alvo, busca a alegria dentro de ti. (...)"

(c. 4 AC – 65 DC)
Cartas a Lucílio.

quinta-feira, julho 20, 2017

Mudar a cidade, mudar a vida. Aqui


Declaração de interesses: até 1 de Outubro, andarei em campanha eleitoral
De resto, tudo igual.
O nosso candidato a Presidente da Câmara Muncipal é o Carlos Patrão.  Um grande candidato!
Eu assumo o primeiro rosto da lista da Assembleia Municipal.
O cartaz junta-nos para estar nos muros das cidades, por algum tempo. A preparar os próximos 4 anos na nossa terra, por modos de vida e de cidade bem melhores, inclusivos e diferentes. Mudar. Mesmo.
Como se, daqui a 4 anos, sentíssemos que o país onde ficámos é um país para onde emigraríamos em busca de vidas melhores.

terça-feira, julho 18, 2017

Cidadania 2.0 - Forum dos Cidadãos, Lisboa, 2017

Infografia que descreve o Fórum dos Cidadãos


Um projeto com apoio na universidade, em empresas "do digital", e estratégais de crowdsourcing. Sinal positivo? Sim, mas também um desafio a pensar um pouco mais, para melhorar...



As ideias reunidas são essencialmete adequadas para a participação da população com literacia digital, o que corresponderá ao que predomina no painel inicial.

Estas propostas ganhariam coerência se também incluissem estratégias de combate à info-exclusão, que no nossso país é relevante, apesar do número de telemóveis e smartphones por habitante...

Se assim não cuidarmos que seja, multiplicam-se oportunidades de intervenção para os mesmos, e acentua-se a ocultação da realidade de parte do povo. E, sobretudo, não se aplicam recursos (financeiros, logísticos, de conhecimento, humanos) a alterar esta desigualdade.



Democracia confortável com a desigualdade já atemos tido, obrigada, e não queremos mais assim.



Democracia tem de ser para todos, com  todos, e  a cuidar de que essa margem não se  restrinja, antes se amplie até ao máximo possível.



Fórum dos Cidadãos: Nasceu para Revigorar a Democracia em Portugal | Cidadania 2.0

Cidadania 2.0 - Forum dos Cidadãos, Lisboa, 2017

Infografia que descreve o Fórum dos Cidadãos


Um projeto com apoio na universidade, em empresas "do digital", e estratégais de crowdsourcing. Sinal positivo? Sim, mas também um desafio a pensar um pouco mais, para melhorar...



As ideias reunidas são essencialmete adequadas para a participação da população com literacia digital, o que corresponderá ao que predomina no painel inicial.

Estas propostas ganhariam coerência se também incluissem estratégias de combate à info-exclusão, que no nossso país é relevante, apesar do número de telemóveis e smartphones por habitante...

Se assim não cuidarmos que seja, multiplicam-se oportunidades de intervenção para os mesmos, e acentua-se a ocultação da realidade de parte do povo. E, sobretudo, não se aplicam recursos (financeiros, logísticos, de conhecimento, humanos) a alterar esta desigualdade.



Democracia confortável com a desigualdade já atemos tido, obrigada, e não queremos mais assim.



Democracia tem de ser para todos, com  todos, e  a cuidar de que essa margem não se  restrinja, antes se amplie até ao máximo possível.



Fórum dos Cidadãos: Nasceu para Revigorar a Democracia em Portugal | Cidadania 2.0

Faltam sonho e visão à Câmaras Municipais

 Andrzej Kowalski: Faltam sonho e visão à Câmara de Leiria
Tal como na política em si, quando falamos em política cultural não é para um ou dois anos nem mesmo para um mandato. Trata-se de ter uma estratégia a longo prazo. Política cultural não é só a criação de eventos nem de espaços físicos. Ao nível de instalações, Leiria até está bem equipada. O problema está em dar alma a esses equipamentos, não com um evento, mas com actividade contínua. Fazer uma residência artística é bom. Mas, e depois? Uma política cultural implica uma estratégia de longo prazo, que não se esgota num mandato nem em decisões camarárias. Temos de envolver toda a sociedade. Para isso, temos de criar 'escolas de espectadores', de criação de públicos. Mais uma vez, os jovens têm uma importância fulcral. A cultura é algo que vive da expressão, do debate.
Andrzej Kowalski: Faltam sonho e visão à Câmara de Leiria

domingo, julho 16, 2017

A toque de cidadania



Cidades de qualidade, combates de cidadania e cegueiras de quem manda e pode

“… a maior aventura humana é dizer o que se pensa.”
Raduan Nassar
Menina a caminho (p. 75)


Em Vila Franca de Xira, há uma passagem de nível que dá acesso ao Cais, um espaço em processo de resgate para o lazer dos cidadãos. O tráfego ferroviário é intenso, e a travessia tem de ser feita com cuidado. De há muito a empresa proprietária aboliu vigilante humano no local.
É verdade que muitas pessoas ainda não interiorizaram as cautelas redobradas que a localização da passagem exige - a visiblidade é escassa, e passam aqui comboios de alta velocidade. Existem cancelas automáticas, e uma alternativa de passagem aérea, mas a campainha de alarme continua a ser necessária.
Sendo necessária e útil, a solução da campainha de alarme nem por isso tem de ser estúpida e desumana.
Não estamos no deserto, nem numa zona rural desabitada. Trata-se do coração de uma cidade. Os níveis de ruído são poluição sonora que devem respeitar esta condição. A lei exige-o, a  saúde pública valoriza-o, o bom senso recomenda-o.
Junto à passagem, moram pessoas. Poucas que sejam, mas pessoas. Uma delas, durante mais de dois anos lutou para que a campainha tivesse um som menos estridente. Não conseguia dormir, e a sua saúde agravou-se. Correu Seca e Meca, de papel na mão, de email em riste, de conversas ao vivo. Respostas surdas, ou nem isso. O Nuno Bico era um combatente, e porfiou. Noutro dia falarei mais sobre o Nuno, amigo desde a infância. Hoje só o menciono neste caso. Esgrimiu com a lei, a saúde pública, a decência, a simples racionalidade. A sua saúde agravou-se. Morreu em 2017. Dias depois da sua morte, a REFER reduziu finalmente o som da campainha. Custou a engolir a aparente ironia, mas a suavidade do toque, que não perdeu o seu efeito de aviso, consolou-nos a gratidão ao Nuno.
A luz do cais sorri de outra maneira, e quem por ali encosta a cabeça no travesseiro, trabalha diariamente ou procura descanso e lazer ganhou um pouco mais de paz dia e noite. Por fora e por dentro, para pensar melhor e escutar melhor.  O direito ao silêncio faz parte do direito à liberdade.
Parecia uma história árdua, mas de final com um conforto e uma ténue confiança na democracia e na derrota da estupidez e da prepotência,
Não era. 
Passados alguns meses, alguém na REFER deve ter decidido que o som tinha de voltar aos níveis insuportáveis.
De repente, o Verão ficou mais escuro, e o rio Tejo engrossou de mágoa e de revolta.
Há quem ache que estas coisas são menores. Eu sei que não são. Por muitos "pormenores" destes é Portugal conhecido por má aplicação de fundos financeiros - a qualidade dos grandes investimentos é sabotada pelos pequenos poderes e a sua ignorância, incompetência ou maldade.
Há quem ache que não há nada a fazer. Não concordo.
Há quem ache que não é só esta a dificuldade que a passagem de nível acentua... Lembram a irregularidade do piso, a demora por vezes de muitas dezenas de minutos até ficar livre, a pouca confiança que a população tem na alternativa para atravessar a pé (passagem aérea junto à Fábrica das Palavras) por haver memória de avarias frequentes noutros elevadores sobre a via férrea na cidade. Concordo com os argumentos, e até posso ir adicionando outros, mas não os acho razões suficientes para adiar a questão.

A questão aqui é simples: conseguir que quem anulou a decisão sensata, embora tardia, de ajustar o nível de som da campainha corrija o erro. Se puder pedir desculpas, ficava bem.

Apelo a todos que o possam fazer que barafustem, escrevam, toquem campainhas nos canais da decisão cega, até que se reponha o nível sonoro decente do alarme.

Nunca esquecida, a questão da alteração da linha de caminho de ferro como barreira a outra qualidade de vida na cidade fica para outra publicação.

Maria José Vitorino


2017.07.16

Maurício Leite, feiticeiro azul

terça-feira, julho 11, 2017

Mudar

Imagem perplexa
Imagem partilhada por Albano Esteves Martins no Facebook (2017)

BIBLIOTECA, LARGO LUGAR DE ENCONTROS



Maria José Vitorino
Laredo Associação Cultural


Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje, é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.
O comboio matou o Largo.
Manuel da Fonseca, in “O Fogo e as Cinzas”, 1951


Agradeço o convite para este debate, saudando este dia em que se reunem profissionais de Pombal e da Região Centro de Portugal, parando para pensar nas nossas práticas e apontar novos caminhos para as bibliotecas, o que me deixa muito feliz.

Peço-vos que nos imaginemos no Ano da Graça de, por exemplo, 2037. Ultimamente tenho tido alguns problemas nos olhos, e talvez assim as perspectivas de futuro sejam mais acessíveis...

No já longínquo ano de 2017, Trump, à época Presidente de um grande país que existia a Sul do Canadá, rompeu com os acordos de Paris, assumindo a sua descrença dos objetivos de desenvolvimento sustentável que a ONU aprovara em 2015 para uma modesta agenda de 15 anos, até 2030.

Houve um momento de susto, até porque nesses anos aconteciam guerras mais intensas junto ao Mediterrâneo, e o poder do EUA, grande fornecedor de armas, era reconhecido. Todos sabemos que nos anos seguintes os acontecimentos surpreenderam muitos, e fizeram cair no esquecimento vozes que até aí se afirmavam como detentoras da única verdade sobre a História e o futuro. Escassos vinte anos depois, ninguém se lembra deles, e apenas os estudiosos dos arquivos de vez em quando tropeçam, sem se deter, num dos seus discursos inflamados e repletos de figuras numéricas – usava-se muito, ao tempo, compor palavras com gráficos mais ou menos opacos. Há quem diga que a crença na ilegibilidade da informação resultava de sobrevivências de práticas tribais, esconjurando os inimigos dos poderosos com rituais mais ou menos inúteis, porém de grande efeito dramático.

Coisa que hoje nos parece incrível: nos jornais da região da Europa da época, Trump ocupava muito espaço, mas o ITER nem por isso.

O ITER – sigla inspirada no palavra latina “iter” (caminho) e acrónimo de International Thermonuclear Experimental Reactor é um megaprojecto que visa a construção da instalação que permitirá - esperam os cientistas - demonstrar a viabilidade da produção de energia a partir da fusão nuclear. O projecto é, por agora (2017), fruto da colaboração da UE, EUA, Rússia, China, índia, Coreia e Japão, envolvendo muitas centenas de entidades de todos estes parceiros. Para além da mega-estrutura com milhares de sofisticados componentes, é surpreendente a complexidade de o levar por diante, sabendo-se que cada país interveniente é responsável por diversas partes. E depois tentar entender o entusiasmo dos que estão envolvidos, sabendo-se que a construção não estará concluída antes de 2025 e as primeiras experiências terão lugar lá para 2035. Fica em Cadarache, a 40km de Aix-en-Provence, França.

Para saber, em 2017, o que era o ITER, tinha de se ser frequentador de fontes alternativas, as “redes sociais” e os canais menos sustentados pelos financiamentos mais gordos. Frequentador e competente na leitura das mesmas fontes, para poder antecipar a História, ou uma parte dela.

O nosso futuro coletivo, mais ou menos previsível, depende destes canais e de quem, onde, quando e como neles navega e deles aproveita para agir.

As bibliotecas são um dispositivo consolidado em democracias que prezam a universalidade do acesso à informação e ao conhecimento, do mais simples ao mais complexo, fazendo parte dos mínimos obrigatórios na qualidade de vida dos cidadãos e no potencial de desenvolvimento da sociedade. Garantir o seu pleno funcionamento e o seu valor é, porém, mais que assegurar instalações e respostas tecnológicas, mais até que dotá-las de meios humanos, físicos, financeiros, por essenciais que estes sejam. Preciso é conseguir povoá-las, fazer com que se integrem na normalidade do quotidiano das pessoas, de todas as idades e perfis de interesse, como qualquer outro recurso de higiene diária.

Preciso é não apenas criá-las e não deixar que as matem, como conseguir que façam parte do essencial da vida – tornando uma utopia numa necessidade básica, por evolução do paradigma cultural dominante na população.

Cada biblioteca é diferente das outras, e todos os tipos de biblioteca são relevantes, mas neste trabalho de fomentar as condições de povoamento nenhumas se destacam tanto como as bibliotecas públicas e as escolares. Entenda-se aqui bibliotecas públicas como as que se assumem como parte da Cidade, no sentido lato – onde vivem as pessoas. Entendam-se por bibliotecas escolares as que se associam a instituições educativas formais – do jardim de infância ao ensino superior.

Convirá, no entanto, promover a coerência dos princípios para que a diversidade floresça pela colaboração, e o resultado seja um futuro melhor para toda a gente e em toda a parte. Esta tarefa, sempre urgente, nunca foi fácil. Pela sua complexidade, exige preparação permanente e atualizada dos seus agentes. Pela sua urgência, só se cumprirá sem pressas, com planeamento e determinação, agindo em simultâneo no longo, médio e curto prazo, nos territórios locais, regionais, nacionais e globais.

O que há de comum em todas essas dimensões? A tecnologia, responderão. É verdade, mas a tecnologia é frágil, sujeita a ameaças, e à sua própria natureza, que é de permanente alteração. O essencial, como sempre, é a gente, a sua existência e, sobretudo, a sua exigência, alimentada pela cultura, a arte, a ciência e a educação em todas as vertentes, do formal ao não formal.

Num mundo governado por algoritmos, nunca como hoje o domínio da palavra e do pensamento lógico foi tão determinante, e tão expressivo das desigualdades e iniquidades sociais. As palavras são preciosas, a escrita e a leitura redescobertas diariamente como instrumentos decisivos. A literatura vem-se reafirmando como uma das artes, e todas as artes e as ciências afinam ideias e palavras reconhecendo a mais valia do contributo literário. Como fruidores? Como criadores? A resposta é ambos. E o que há 100 anos pareceria desconcertante – dizia a Cecília Meireles “Ou isto ou aquilo” - surge hoje como evidente – teremos de ser e querer isto E aquilo.

Desafios e mudanças nas Bibliotecas passam por as fazer para todos, para tudo, para fruir e criar, aprender e ensinar, memória e informação, inquietação e abrigo. Sobretudo, lugar de gente em criação de si mesma como sujeito de futuro. Lugar corrente e quotidiano, acessível e facilitador de acessos, de encontro, e de encontros. Lugar de liberdade, pensamento e acção.

Que seja a biblioteca a casa onde cabe e se sabe toda a gente, um centro deste mundo que tantas vezes nos parece sem núcleo fixo. Algo de comum e primordial, como o Largo de que escreveu Manuel da Fonseca, e não um mero cruzamento de estradas.


Qual o lugar das bibliotecas? O lugar para onde se mudou a vida, e que nos ajuda a mudar de vida.


Texto apresentado em DESAFIOSE MUDANÇAS NAS BIBLIOTECAS : PERSPECTIVAS DE FUTURO. Pombal, 10 de Julho de 2017. Painel com Pedro Príncipe e Maria José Vitorino

domingo, julho 09, 2017

Perfeitos são os corpos mutantes

 
A maior incidência estatística, em matéria de corpo, é a diversidade. Logo, artificial e violenta é a tentativa de disciplinar um corpo que, por definição e experiência, prossegue desordeiro. É dessa desordem que se produz vida, através de um corpo grávido que se transforma a cada segundo. É também dessa desordem que se produz o desejo, a empatia, a consciência antirracista, o reconhecimento de direitos a pessoas com diversidade funcional ou deficientes, pessoas transgénero e intersexo, pessoas com doença crónica ou cujos corpos não se encaixam numa claustrofóbica fórmula numérica. É urgente contribuir para padrões alternativos de beleza.

Opinião - Perfeitos são os corpos mutantes

quinta-feira, julho 06, 2017

o Sexo dos Anjos | João Veloso



A propósito dos propósitos de escrita com os/as... e outrso assuntos correlativos. 

"Dizem que os anjos não têm sexo e que discuti-lo é perder tempo com verbo inútil e desperdiçada razão. A gramática, assim sendo, é angelical também: ela não tem sexo e por isso defendo que discutir o sexo da gramática é como discutir o sexo dos anjos. Género, desafortunadamente chamado como tal até aos nossos dias, tem-no sem dúvida, mas de forma largamente independente dessa propriedade biológica e cultural. 
Não culpem a gramática da dominação masculina do mundo, que é um problema social e cultural inegável. Não confundam a gramática com a linguagem e com o poder fascizante que certos usos da linguagem podem ter. Mas, já agora, lembremo-nos também do uso libertador, revolucionário, criativo e criador que a linguagem, edificada sobre a gramática, também torna possíveis. 
E através da linguagem e desses usos libertadores que dela podemos fazer concentremo-nos num mundo mais razoável e mais racional, menos discriminatório, mais pacífico e mais igual. Concentremo-nos naquilo com que se constrói a paz e a liberdade, em que a língua, a palavra e a gramática não são ameaças: são sim portas e veredas para o diálogo, para o pensamento livre e esclarecido sem o qual não há o mundo sem desigualdades, sem opressões e sem discriminações que é o mundo que eu também quero."
Texto de março de 2017



Exmº Srº Drº, Senhora Presidenta, Car@s Amig@s e o Sexo dos Anjos | João Veloso

domingo, julho 02, 2017

Mia Couto - O poder de contar e ouvir histórias | Fronteiras do Pensamento

  
Acho que houve um momento em que eu, já jornalista, fui tentado a escrever as histórias que escutava. Essas histórias estavam tão vivas, tinham tanta força, que pediam que fossem transportadas dessa oralidade para a escrita.Mas aí percebi que a própria escrita tinha de mudar. Aquela que eu sabia e reconhecia não acomodava essa riqueza, essa coloração e, sobretudo, a música, a prosódia. Comecei a procura de uma escrita que fosse plástica e permitisse essa inundação da oralidade.
(...) 
Não escolhi a literatura, escolhi a escrita, que é provavelmente outra coisa. A construção que fizeram da escrita me parece que a complicou muito, a intelectualizou e construiu um edifício com vários andares e hierarquias. Quando começamos a escrever e a querer usar a escrita do ponto de vista criativo, estamos muito longe da escolha dessa grande construção e dessa grande estrutura que é a literatura.
Eu sou salvo por ser várias coisas, e sempre que tenho de enfrentar “a" literatura, que depois se manifesta nessas coisas muito solenes dos congressos e das conferências, puxo logo o chapéu de biólogo…
Esse universo me apraz, mas na maior parte das vezes é uma grande chatice. Estão ali os grandes estudiosos, os filósofos, os próprios escritores que, algumas vezes, dão demasiada importância a si mesmos e àquilo que fazem, e estou sempre a pensar qual o momento que tenho para escapar ( risos). Esse discurso parece uma arrogância disfarçada de humildade, mas na verdade não sinto que pertenço a essa construção. Sou mais de uma pequena tribo que é a dos contadores de histórias, e podem fazer isso mesmo sem usarem da escrita.


Mia Couto - O poder de contar e ouvir histórias | Fronteiras do Pensamento

sábado, julho 01, 2017

Helena Cidade Moura





Imagem partilhada pela ALEM. Portugal, 2017

Foi por ela que para sempre fiquei comprometida com a leitura e as pessoas.
Não sei quantas pessoas passaram a saber ler e escrever em Portugal, depois das campanhas de alfabetização de 1974, mas sei que muitos e muitos jovens que como eu nelas participaram nunca mais leram o seu País da mesma forma. Nem o escreveriam da mesma forma.
E este resultado não foi  casual, mas deliberado. Helena Cidade Moura soube sempre bem o que andou a fazer: cultura, política, educação, formação. A fazer Futuro, e Melhor Futuro.
Cinco anos depois da sua morte, no próximo dia 5 de Julho de 2017, em boa hora a A. L. E. M. e o Município de Lisboa a recordam, na sala do Arquivo dos Paços do Concelho, ali junto ao Terreiro do Paço. 
Será pouco? O que é pequeno cresce, como ela nos ensinou sobre Cidadania. Escassez não é pobreza - muita miséria se cria com abundâncias, arrogâncias e ganâncias.
Temos saudades da sua ideia clara, que foi partilhada por uma geração embalada nos bancos da Faculdade de Letras de Lisboa em plena ditadura, de que fizeram parte Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Maria Barroso, Sebastião da Gama, Lindley Cintra, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, na senda de Mestres como Hernâni Cidade e António Sérgio.
Felizmente, muito nos deixou para aprendermos.

Para saber mais:

Helena Cidade Moura (1924-2012) /Esquerda.net (2012)

Que faremos nós

Amar os filhos e os demais descendentes: fazer isso é, já, tornar a vida mais que cegueira e cobardia.






Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente
Vais crescendo, meu filho, com a difícil
luz do mundo. Não foi um paraíso,
que não é medida humana, o que para ti
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo homem, todo,
tem direito a sê-lo inteiramente
até ao fim. Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez,
se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil
besta fardada é tudo o que nos resta;
abutres e chacais que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.

Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que a cegueira e cobardia?

Eugénio de Andrade
séc. XX-XXI

Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente - Eugénio de Andrade

Gratidão

 Foto de Joaquim Melro.


Simone Weil. (Nice, 13 de julho de 1927 – Paris, 30 de junho de 2017)!🇨🇵

“Nada no mundo pode impedir o homem de se sentir nascido para a liberdade. Jamais, aconteça o que acontecer, ele pode aceitar a servidão: pois ele pensa.” 
Simone Weil