quinta-feira, agosto 31, 2017

Pela re-humanização das montanhas de Portugal


Prof. Jorge Paiva, Biólogo, Universidade de Coimbra, in Público, 2006.
"Antes da última glaciação, Portugal estava coberto por uma floresta sempre-verde (laurissilva).
Durante essa glaciação, a descida drástica da temperatura fez desaparecer quase por completo essa laurissilva, tendo sido substituída por uma cobertura florestal semelhante à actual taiga. Após o período glaciar, a temperatura voltou a subir, ficando o país com um clima temperado, como o actual. Assim, a floresta glaciar foi substituída por florestas mistas (fagossilva) de árvores sempre-verdes (algumas delas relíquias da laurissilva) e outras caducifólias, transformando o país num imenso carvalhal caducifólio (alvarinho e negral) a norte, marcescente (cerquinho) no centro e perenifólio (azinheira e sobreiro) para sul, com uma faixa litoral de floresta dominada pelo pinheiro manso e os cumes das montanhas mais frias com o pinheiro-da-casquinha (relíquia glaciárica).
Por destruição dessas florestas, particularmente com a construção das naus (três a quatro mil carvalhos por nau) durante os Descobrimentos (cerca de duas mil naus num século) e da cobertura do país com vias-férreas (travessas de madeira de negral ou de cerquinho para assentar os carris), as nossas montanhas passaram a estar predominantemente cobertas por matos de urzes ou torgas, giestas, tojos e carqueja.
A partir do século XIX, após a criação dos "Serviços Florestais", foram artificialmente re-arborizadas com pinheiro bravo, tendo-se criado a maior mancha contínua de pinhal na Europa.
A partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa. Sendo o pinheiro resinoso e o eucalipto produtor de óleos essenciais, produtos altamente inflamáveis, com pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas.
Sempre fomos contra o crime da eucaliptização desordenada e contínua. Fomos vilipendiados, maltratados, injuriados, fomos chamados à Judiciária, etc. Mas sabíamos que tínhamos razão. Infelizmente, não vemos nenhum dos que defenderam sempre essa eucaliptização vir agora assumir as culpas destes "piroverões" que passámos a ter e que, infelizmente, vamos continuar a ter.
Também sempre fomos contra o delapidar, por sucessivos Governos, dos Serviços Florestais (quase acabaram com os guardas florestais). Isso e o êxodo rural (os eucaliptos são cortados de 10 em 10 anos e o povo não fica 10 anos a olhar para as árvores em crescimento, tendo, por isso, sido "forçado" a abandonar as montanhas e a ficar numa dependência económica monopolista, que "controla" o preço da madeira a seu bel-prazer) tiveram como resultado a desumanização das nossas montanhas pelo que, mal um incêndio florestal eclode, não está lá ninguém para acudir de imediato e, quando se dá por ele, já vai devastador e incontrolável.
Infelizmente, vamos continuar a ter "piroverões" por mais aviões "bombeiros" que comprem ou aluguem. Isto porque, entre essas medidas, não estão as duas que são fundamentais, as que poderiam travar esta onda de incêndios devastadores que nos tem assolado nas últimas décadas:
- Uma é a re-humanização das montanhas, que pode ser feita com pessoal desempregado que, depois de ter frequentado curtos "cursos de formação" durante o Inverno, iria vigiar as montanhas, percorrendo áreas adequadas durante a Primavera e Verão.
- A outra medida fundamental seria, após os incêndios, arrancar logo a toiça dos eucaliptos e replantar a área com arborização devidamente ordenada. Isto porque os eucaliptos rebentam de toiça logo a seguir ao fogo, renovando-se a área eucaliptada em meia dúzia de anos, sem grande utilidade até porque o diâmetro da ramada de toiça não é rentável para as celuloses. Mas como tal não se faz, essa mesma área de eucaliptal torna a arder poucos anos após o primeiro incêndio e assim sucessivamente.
Muitas vezes, essas mesmas áreas são também invadidas por acácias ou mimosas, bastando para tal que exista um acacial nas proximidades ou nas bermas das rodovias, pois as sementes das acácias são resistentes aos fogos e o vento ajuda a dispersá-las por serem muito leves. As acácias, como são heliófitas (plantas "amigas" do Sol), e não havendo sombra de outras árvores após os incêndios, crescem depressa, aproveitando a luminosidade e ocupando aquele nicho ecológico antes de as outras espécies se desenvolverem.
Mas, como vivemos numa sociedade cuja preocupação predominante é produzir cada vez mais, com maior rapidez e o mais barato possível, as medidas propostas são economicamente inviáveis por duas razões:
- primeiro, porque é preciso pagar aos vigilantes e respectivos formadores;
-segundo, porque arrancar a toiça dos eucaliptos é muito dispendioso (custa o correspondente ao lucro da venda de três cortes, isto é, o lucro de 30 anos).
É bom também elucidar que os eucaliptais só são lucrativos até ao terceiro corte (30 anos). Depois disso, estão a abandoná-los, o que os torna um autêntico "rastilho" ou, melhor, um terrível "barril de pólvora", áreas onde os seus óleos essenciais, por vaporização ao calor, são explosivos e, quando a madeira do eucalipto começa a arder, provocam a explosão dos troncos e respectiva ramada, lançando ramos incandescentes a grande distância. Este "fenómeno" tem sido bem visível nos nossos "piroverões".
Por outro lado, pelo menos uma destas medidas (arranque da toiça e re-arborização ordenada) não tem resultados imediatos, mas a longo prazo. Por isso, os governantes não estão interessados na aplicação dessas medidas, pois interessa-lhes mais resultados imediatos (as eleições são de quatro em quatro anos...) do que de longo prazo.
Assim, sem resultados imediatamente visíveis e com uma despesa tão elevada, os governos nunca vão adoptar tais medidas. Preferem gestos, por vezes caricatos, como distribuir telemóveis aos pastores, mas que nunca acabarão com os "piroverões".
Finalmente, após a referida delapidação técnica e funcional dos Serviços Florestais (antigamente, os incêndios florestais eram quase sempre apagados logo no início e apenas pelo pessoal e tecnologia dos Serviços Florestais), esqueceram-se da conveniente profissionalização e apetrechamento dos bombeiros, mais bem adaptados a incêndios urbanos.
Se os nossos governantes continuarem, teimosamente, a não querer ver claramente o que está a acontecer, caminharemos rapidamente para um amplo deserto montanhoso, com a planície, os vales e o litoral transformados num imenso acacial, tal como já acontece em vastas áreas de Portugal."
____________________________________
Texto importante, divulgado por listas de contacto como a Museum, administradas pelo Prof. José d'Encarnação.

Comentário de Vítor Oliveira Jorge, Agosto de 2017
Os incêndios e toda a tragédia associada - provavelmente cada vez mais ameaçadora devido à degradação das condições climáticas globais, que constantemente se faz sentir através de desgraças humanas e materiais em muitos pontos do mundo - nada têm de surpreendente, nomeadamente em Portugal, onde se tem insistido sempre na praga de plantio de eucaliptos que, entre outras espécies, são de crescimento rápido, provocam a prazo a exaustão dos solos e dão origem a esta autêntica "fornalha em potência" que rodeia habitações, localidades, estradas, e constitui uma autêntica armadilha para os incautos, ou para as pobres pessoas que não têm outro sítio onde viver.

segunda-feira, agosto 28, 2017

Ter voz e fazer música, não é a mesma coisa...

Há 64 anos, por trabalho e liberdade


I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character. I have a dream today.
Tenho um sonho de que os meus quatro filhos virão um dia a viver numa nação onde não sejam julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo do seu carácter. Tenho um sonho hoje.

"I Have a Dream," Address Delivered at the March on Washington for Jobs and Freedom | The Martin Luther King, Jr., Research and Education Institute



Martin Luther King, Jr. Memorial, Washington, D.C.. Carol M. Highsmith, photographer, September 2011. Highsmith (Carol M.) Archive. Prints & Photographs Division

domingo, agosto 27, 2017

BY the people vs FOR the people


Anarquismo é um processo, defende Carne Ross
O que sente é a necessidade de mudar o processo de governar a vida da gente. Já agora, e para melhor.

Votar



1965. Há 52 anos. Havia eleições em Portugal? Haver, havia mas não era a mesma coisa. Recordemos que era um país de analfabetos - em 1960, 4 em cada 10 portugueses não sabiam ler nem escrever. 

Só podiam votar os que tivessem sexo masculino, soubessem ler e escrever ou, não sabendo, tivessem algum rendimento (analfabeto e pobre então, nem pensar). 

E as mulheres? Ainda menos, tinham que ter cursos médios, não bastava saber ler nem escrever, ou serem chefes de família (leia-se "sem homem que as guiasse" - viúvas, por exemplo), com rendimentos. Se fossem casadas e tivessem rendimentos, mesmo analfabetas, para votar tinham de pagar o dobro dos homens anualmente, para terem o mesmo direito de voto. Uma lei de 1946, que se manteve em vigor. 

Ora aconteceu que muitas destas mulheres criaram filhos e netos, e filhas e netas, e incentivavam gerações a ir à escola, aprender e formar capacidade de ler e entender, criticar e mudar. 9 anos depois destas eleições, e 38 depois daquela lei fascista, muitas mulheres de todas as condições e graus de instrução apoiaram os militares de Abril, quase todos com menos de 40 anos de idade, e a revolução. 

Nas primeiras votações depois do 25 de abril, elas eram imensas, eles eram muitos, faziam filas e filas, e votaram. A melhor resposta à ditadura - não ter medo, participar, sentir-se igual e cidadão. E votar. Agradeço a partilha da imagem à Helena Pato, no precioso grupo do FB Fascismo nunca mais, que vai em mais de 12000 membros.

Estatísticas de educação - ver pg. 18 do vol. II sobre a evolução do analfabetismo
http://www.dgeec.mec.pt/np4/172/

quinta-feira, agosto 24, 2017

A portuguesa que pode mudar o mundo

 Helena Braga fixou-se nos Estados Unidos em fevereiro de 2016
Helena Braga fixou-se nos Estados Unidos em fevereiro de 2016
foto Ilana Panich-Linsman, daqui

O fascínio pela Física surgiu pelos “15 ou 16 anos”, depois de ler a obra Um Pouco Mais de Azul, do astrofísico Hubert Reeves. Decidiu escrever-lhe uma carta, na qual expôs dúvidas sobre entropia, e a resposta deixou-a “derretida”: o franco-canadiano prometeu que esclareceria as questões no livro seguinte, enviou-lhe o mais recente traduzido em português e convidou-a para uma conferência em Aveiro. Na sua “inocência”, como agora lhe chama, fez-se luz sobre uma indecisão crítica na adolescência: “Oh meu Deus, se todos os físicos são assim tão simpáticos, eu quero ir para Física.” E foi.
 (...)
E se uma nova geração de baterias, com uma arquitetura diferente, pudesse mais do que triplicar a capacidade de armazenamento e, como bónus, ter custos mais comportáveis? Eureka! É esta a solução apresentada por John Goodenough e Helena Braga. Abre-se a porta para “aumentar drasticamente” a autonomia dos carros elétricos – a maioria só circula cerca de 200 quilómetros de cada vez – e torná-los competitivos, também no preço, face aos que usam combustíveis fósseis. Ganha também realismo a ambição de armazenar um grande volume de energia renovável, até aqui impossível. É um novo mundo que se projeta, mais sustentável e amigo do ambiente."


A portuguesa que pode mudar o mundo

Aldina Duarte - não querer ser mais, querer ser melhor

Aldina Duarte

É feliz quando canta?Nem sempre. A felicidade é uma coisa impermanente, e a cantar também. Cantar torna-me uma pessoa melhor, põe-me em contacto com coisas que me dão prazer, tenho momentos de felicidade que decorrem daí. Gosto muito de viver, a felicidade é o meu sentido para a vida. Mas não tenho uma propensão natural para a alegria. Sou muito crítica de mim mesma e dos outros. Quando corre bem, é uma memória que nos fortalece. É o nosso reservatório de alegria, de esperança, que nos ajuda a aguentar os momentos maus. Mas viver com esta lucidez e exigência diária, é duro. As pessoas querem mais, mas não querem ser melhores.


Palavras que nos chegam pela escrita de Anabela Mota Ribeira e que nos ajudam a ser melhores. Sobretudo a querer ser melhores.





Aldina Duarte

segunda-feira, agosto 21, 2017

Sangue derramado

Por Barcelona, pela liberdade

Sangre derramada
La explicación está pura y simplemente en el fanatismo, aquella forma de ceguera ideológica y depravación moral que ha hecho correr tanta sangre e injusticia a lo largo de la historia. Es verdad que ninguna religión ni ideología extremista se ha librado de esa forma extrema de obcecación que hace creer a ciertas personas que tienen derecho a matar a sus semejantes para imponerles sus propias costumbres, creencias y convicciones. 


Mario Vargas Llosa. 2017





Tribuna | Sangre derramada

sábado, agosto 19, 2017

Leia no sentido da luz, em papel

PÚBLICO -
Teresa Paiva, neurologista, especialista em sono:
O sol faz bem ao sono?
O sol de manhã faz muito bem ao sono.
Como?
Somos animais altamente adaptados ao planeta Terra e temos nos nossos olhos umas células particularmente sensíveis ao espectro azul da luz. E o espectro do azul da luz é o azul do amanhecer. A luz do princípio da manhã é carregada do espectro do azul, e a do fim do dia, do espectro do vermelho. Estamos feitos para apanhar a luz azul de manhã, isso estimula-nos e põe-nos acordados. A luz do entardecer dá-nos calma e tranquilidade para dormir. É o acordar e estimular a vigília e a tranquilidade para ir dormir. O que acontece agora é que com os LED [díodos emissores de luz] e os computadores estamos a apanhar luz azul à hora do nascer do sol e, depois disso, à noite. Não dormimos.
Nada como ler em papel?
Sim, no sentido da luz.
Ler mais aqui:



“O sono pode ficar definitivamente escangalhado”

Leia no sentido da luz, em papel

PÚBLICO -
Teresa Paiva, neurologista, especialista em sono:
O sol faz bem ao sono?
O sol de manhã faz muito bem ao sono.
Como?
Somos animais altamente adaptados ao planeta Terra e temos nos nossos olhos umas células particularmente sensíveis ao espectro azul da luz. E o espectro do azul da luz é o azul do amanhecer. A luz do princípio da manhã é carregada do espectro do azul, e a do fim do dia, do espectro do vermelho. Estamos feitos para apanhar a luz azul de manhã, isso estimula-nos e põe-nos acordados. A luz do entardecer dá-nos calma e tranquilidade para dormir. É o acordar e estimular a vigília e a tranquilidade para ir dormir. O que acontece agora é que com os LED [díodos emissores de luz] e os computadores estamos a apanhar luz azul à hora do nascer do sol e, depois disso, à noite. Não dormimos.
Nada como ler em papel?
Sim, no sentido da luz.
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“O sono pode ficar definitivamente escangalhado”