quarta-feira, agosto 31, 2011

Dizer-se vive de outras palavras



As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste.
João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, agosto 24, 2011

Borges




Poema de los dones


Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche


Jorge Luis Borges


no dia do seu 112º aniversário

segunda-feira, agosto 22, 2011

Ray Bradbury



You don’t have to burn books to destroy a culture. Just get people to stop reading them.

— Author Ray Bradbury, whose birthday is today and who once said, “Libraries raised me.” 


Happy birthday, Ray.

Ray Bradbury faz hoje anos. 


Um dos meus escritores de sempre! 
Os meus livros preferidos da sua vasta bibliografia

quarta-feira, agosto 17, 2011

Des-desejar

Imagem daqui


Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

terça-feira, agosto 16, 2011

Cidade




Utopia 

Zeca Afonso

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?



Homenagem à comunidade Art.º 21º do Facebook


Artº 21º da Constituição da República Portuguesa em vigor (2011):

Direito de resistência
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

segunda-feira, agosto 15, 2011

Fluir



Evgeny Kissin interpreta Liszt-Liebestraume no.3"O lieb"

O que eu gosto do Youtube!

Cinema em férias



de Soderbergh (vi no King, Lisboa)



Belo filme.  A fazer pensar no frio que entre nós se instala, até ao tutano da intimidade possível, nestes tempos e lugares globalizados, troikizados, "mercadizados" que nos couberam na roda da História. Sexo, claro, gente, sempre. tema eterno do cinema, da literatura, de todas as artes.

domingo, agosto 14, 2011

Ladrões de Bicicletas: Organizar a desglobalização


Ladrões de Bicicletas: Organizar a desglobalização: "Defender a “desglobalização”, na linha do último livro de Jacques Sapir e de outros bons economistas ditos neo-proteccionistas..."
"Alternativas existem: do controlo de capitais, que muitos países estão a redescobrir, à necessidade de incentivar a emergência de modelos de desenvolvimento nacionais e regionais muito mais focados na procura interna, passando pela política industrial selectiva, o que exige, no caso de Portugal, desafiar nacionalmente as regras do mercado interno europeu, porque sem base industrial não há economia que nos valha, ou pela necessidade de mecanismos de protecção comercial bloqueadores da erosão dos standards ambientais e laborais.

Trata-se de gerar uma maior margem de manobra política face às forças de um mercado global incontrolável e gerador de desequilíbrios sistemáticos. Alternativas que podem evitar que a utopia liberal em que demasiados países embarcaram acabe, uma vez mais, muito mal. É impressão minha ou muita esquerda tem andado, nos últimos tempos, demasiado silenciosa, sido demasiado complacente, nestas áreas?"

sexta-feira, agosto 12, 2011

terça-feira, agosto 09, 2011

Verdes são os campos


Luis de Camões pela voz de Zeca Afonso

Os pobrezinhos


"OS POBREZINHOS»
 leitura de Mário Viegas


Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados

Todos sujinhos
e tão magrinhos
a linda graça
dos pobrezinhos

De porta em porta
sempre rotinhos
tão delicados
os pobrezinhos

Não façam mal
aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
e uns tostõezinhos

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados



Armindo Mendes de Carvalho 

sexta-feira, agosto 05, 2011

Racionalizar/"Emocionalizar"


A Menina De Asperger cresceu: Racionalizar/"Emocionalizar":
"Julgo que nunca perdi as emoções; julgo que, na maioria das vezes, só me perdi das emoções. Embora elas nasçam no centro mais centro do eu,...
Racionalizar é muito fácil; emocionalizar é um labirinto sem esquerda nem direita, sem pontos de referência, nevoeiro cerrado entre o eu e a luz. Deve ser por isso que escrevo, é como se criasse veias de linhas por onde circulo as emoções montadas em palavras para fora de mim. E, fora de mim, consigo ler-me melhor, consigo ler o mundo melhor... Acho eu... Eu chamo-me Ana e julgo que o nevoeiro que me faz cega ao mundo, sem ser cega, que me faz surda ao mundo, sem ser surda, que não me deixa  emocionalizar como processo inconsciente, não está entre mim e mundo, está entre o eu e o mim."

Erro





Erro de Português

Quando o português
chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio.
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha
Despido o português.



Oswaldo de Andrade

The Epidemic of Digital Distraction



The Epidemic of Digital Distraction

Paráfrase


PARÁFRASE


este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.



A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.


Uma hipérbole, finalmente,

diz que me fazes muita falta



PEDRO MEXIA, in 

366 POEMAS QUE FALAM DE AMOR 
Antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Quetzal, 2003



quinta-feira, agosto 04, 2011

Shh!

Julian Treasure: Shh! Sound health in 8 steps | Video on TED.com
Julian Treasure afirma que o crescente aumento na intensidade de barulho no mundo está acabando com nossa saúde mental -- chegando a custar vidas. Ele expõe um plano de 8 passos para minimizar essa agressão sonora (que começa com fones de ouvido baratos) e retomar nossa relação com o som.

Pensar elástico

Banner Munari por Giampiero Bianchi, aqui
Os mestres : Bruno Munari sempre entre eles.
L'esperienza dell'arte cinetica e programmata ha contribuito alla formazione di un pensiero più elastico e più preciso, pronto alle mutazioni della realtà, attento alle trasformazioni delle forme, di come una cosa si trasforma in un'altra. Prima dell'arte cinetica una mela era una mela e i pittori la dipingevano tale e quale. Nel pensiero cinetico una mela è un momento della trasformazione dell'albero delle mele, da seme a seme. L'arte cinetica e programmata segna il passaggio dal pensiero meccanico a quello elettronico.
[Bruno Munari, Maio 1983] 

Europa, terra de museus e-acessíveis (2)

Arthur Segal (1875/1944),  Woman in reading (detalhe)


Se este tempo fosse meu
Eu mandava-o preencher
Em cada dia, um museu
Ver, sentir e aprender.

1. Museu Histórico Judeu de Berlim. Exposição Do Dada ao Surrealismo (até 2 de Outubro)
Exposição Virtual via Europeana  aqui

Europa, terra de museus e-acessíveis (1)

Tristan Tzara (1916/1959) Caligrama 

Se este tempo fosse meu
Eu mandava-o preencher
Em cada dia, um museu
Ver, sentir e aprender.

1. Museu Histórico Judeu de Berlim. Exposição Do Dada ao Surrealismo (até 2 de Outubro)
Virtual via Europeana  aqui

Matar o luto



Matar o luto

No Journal de deuil de Barthes, onde ele dá conta do luto pela morte da mãe dele, há mais apontamentos universais do que pessoais, como ele próprio suspeitava, apesar do medo de expor uma rara banalidade.

O livro saiu em 2009, mas só agora é que estou a lê-lo. Esta última, parva, frase é mais um exemplo do erro que a morte de uma pessoa corrige para sempre. Não são nem a altura nem o tempo que interessam: é o ser ou o não ser; o poder ler, mais do que o ter lido.

"Mal alguém morre, construções frenéticas do futuro (mudar móveis, etc.): futuromania". Barthes chama "futuromania" à culpa de pensar: "E agora? E agora, que ela morreu, que vou eu fazer?". Em vez de chorá-la, de permanecermos no passado, traímos a pessoa amada da maneira mais prática, mesquinha e futura: que vou eu agora (ou seja, depois) fazer? Onde vou eu viver?

No caso de Barthes, que vivia com a mãe, a traição futuromaníaca foi saber que não havia outro sítio onde ele poderia (continuar a) viver.

"Na frase "ela já não está a sofrer" a que coisa, a que pessoa é que "ela" se refere? O que é que pode querer dizer este presente do indicativo?"

Barthes mostra, num diário que é sublime, patético e banal, que pensar no futuro é desrespeitar não o passado, mas o presente interrompido. A mãe dele morreu. O amor dela por ele também. O amor dele por ela e pelo amor dela por ele continuou. É esse o luto; é esta a vida. Também tinham de morrer. Ele não sobreviveria se não as matasse.

Miguel Esteves Cardoso, in Público 04.08.2011

    Listening Oiçam


    In our louder and louder world, says sound expert Julian Treasure, "We are losing our listening." In this short, fascinating talk, Treasure shares five ways to re-tune your ears for conscious listening -- to other people and the world around you.
    Salvemos o saber ouvir. Enquanto é tempo.

    Viva língua

    Viva língua:



    Quando Fernando Pessoa escreveu “a minha pátria é a língua portuguesa”, já tinha havido uma tentativa séria de estabelecer uma norma linguística que visava sobretudo o controlo, pelo estado português, dessa norma. Depois desta frase, muitas tentativas foram feitas para que essa norma existisse. Em 1992, foi estabelecido o Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa. Agora, enquanto escrevo este texto, desrespeito o acordo que entrou em vigor este ano.
    Contudo, não desrespeito a língua. Escrevo em português, e ao escrever produzo uma língua diferente da que falo. Fernando Pessoa, quando pensou essa frase, que tão bem tem servido os interesses de uma pátria que quase nunca respeita a herança deixada pelos grandes escritores do passado, não teria com certeza em mente esta irreprimível vontade de regular essa coisa volúvel (e como a palavra se aproxima de volúpia) que é a língua. A pátria de Fernando Pessoa foi o instrumento usado para deixar a sua marca no mundo. Criar uma nova língua dentro da língua que antes havia. E se outra prova não houvesse, bastaria o facto de esta, e outras frases, do poeta continuarem a ser repetidas mais de setenta anos depois da sua morte.

    Duvido que os belos bastardos da língua portuguesa se interessem minimamente pelo Acordo Ortográfico, com a sua regra e a sua excepção, com as supostas vantagens comerciais desta normalização forçada. Não precisam, usam a língua portuguesa como pátria, e isso é suficiente. Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Rubem Fonseca; tudo o que eles escrevem é prova dura a superar pelos académicos bafientos que querem impor regras gramaticais e ortográficas ao resto do mundo. José Saramago e seu desengonçado flamenco prova que nada é tão rígido que não possa ser dobrado pelos anos de contacto com outra língua – ninguém poderá recusar o enriquecimento estilístico que as derivações cervantinas que os últimos romances de Saramago trouxeram. Escrever abraçando a música de outra língua abre o leque, balança o swing das mãos sobre as teclas. Há quem ouça música de negros para escrever; talvez eu precise apenas de derrogar por momentos a autoridade do meu português num longínquo gingar brasileiro para que todo meu pensamento se mova e se contorça, perca a palidez da normalidade.

    A questão é simples: queremos uma língua pura ou uma língua mestiça? A resposta é um pouco mais complexa do que poderia parecer. O Acordo visa normalizar a mestiçagem da língua. E isso, parece-me bem claro, é um paradoxo. Nenhuma norma poderá obrigar um português a escrever como um brasileiro ou um angolano, e vice-versa. A mestiçagem é um fenómeno livre, o cruzamento de influências um fluxo libertário que não deverá ser constrangido. Ao defender isto, não colocamos em causa a existência de uma gramática. Ela existe, é verdade, e deverá existir, sobretudo para não ser respeitada. A tradição literária contemporânea vive desta liberdade. O uso de coloquialismos, calão, gíria de bandidos, é traço comum em muitos autores brasileiros actuais e começa a ser também em alguma literatura portuguesa. A invenção passa por aqui; e mesmo que continuemos a admirar o divino português do Padre António Vieira, as duas coisas não são incompatíveis: basta pensar nos diálogos nos filmes de João César Monteiro para se perceber isto.

    A única posição esteticamente correcta nesta questão é esta: promover uma gramática comum a todos os países de língua portuguesa, na esperança de que esta seja continuamente desrespeitada por quem escreve e fala, contribuindo deste modo para que a língua portuguesa seja uma coisa viva, em permanente evolução, como qualquer língua deve ser. Se esta posição for a que vingar, não se duvide de que será o único modo de combater o predomínio da língua inglesa no actual mundo globalizado.

    (Escrevi parte deste texto em 2008. Alterei algumas referências desactualizadas. Não mudei de opinião.)
    Sérgio Lavos, no Arrastão (2011)

    Pinzellades al món: Les il·lustracions de Rie Nakajima... color, imagi...



    Pinzellades al món: Les il·lustracions de Rie Nakajima... color, imagi...: "La bellesa de les il·lustracions de Rie Nakajima és innegable. Dins del seu univers personal, poètic, on els xiquets i xiquetes tenen un p..."

    quarta-feira, agosto 03, 2011

    Luares

    Amorzade


    Isto, de criar, palavra de honra que é muito difícil, mas é a única forma de as dores secretas abrandarem. E então fingimos que não há nada e continua-se. O que custa um livro, o que deve custar um desenho, um simples traço até. Porém é um tormento que equilibra e igualmente, em certas alturas, um júbilo indizível. Felizmente que ando com um livro, numa altura em que a minha relação comigo me tem feito sofrer, por razões que não interessam aos outros.

    António Lobo Antunes (2011)

    Ler mais: http://aeiou.visao.pt/amorzade=f614833#ixzz1Tz94HZ3c

    segunda-feira, agosto 01, 2011

    Escabeches.pt




    Há qualquer coisa no trabalho autárquico que protege a saúde de quem o executa. Creio que é a absoluta ausência de preocupações. O autarca, em princípio, sabe que não há nada que o apanhe. Se fizer falcatruas, em princípio não é condenado. Mas, se for condenado, mais depressa é reeleito. Se for reeleito, não pode ir preso. Mas, se for preso, foge para o Brasil. O destino do autarca oscila entre o poder perpétuo e o turismo tropical. São minimonarquias que podem ser interrompidas por miniexílios dourados.

    Ler mais:
    Crónica de Ricardo Araújo Pereira Perdiz com alecrim e manjerona - Visao.pt