terça-feira, dezembro 31, 2019

Invencionáticos de todo o mundo, unamo-nos!


O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras fatigadas de informar. 
Dou mais respeitoàs que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo.Entendo bem o sotaque das águas 
Dou respeito às coisas desimportantes 
e aos seres desimportantes. 
Prezo insetos mais que aviões. 
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. 
Tenho em mim um atraso de nascença. 
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: 
Amo os restos como as boas moscas. 
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. 
Porque eu não sou da informática: 
eu sou da invencionática. 
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros, Poesia Completa

Sexta sugestão : ensina-a a ler

Capa


Ensina a Chizalum a ler. Ensina-a a gostar dos livros. A melhor maneira é dando o exemplo. Se ela te vir ler compreenderá que ler é uma actividade com valor. Pode argumentar-se que se ela não fosse para a escola e se limitasse a ler livros, obteria mais conhecimentos do que uma criança educada em moldes convencionais. Os livros vão ajudá-la a compreender e a questionar o mundo, vão ajudá-la a exprimir-se e a tornar-se no que quiser ser – uma chefe de cozinha, uma cientista, uma cantora, todas beneficiam das competências que se adquirem com a leitura. Não me refiro a livros escolares. Refiro-me a livros que não têm nada a ver com a escola, auto-biografias e romances e livros de História. Se nada mais resultar, paga-lhe para ler. Recompensa-a. Conheço uma nigeriana notável, Angela, uma mãe solteira que estava a criar a filha nos Estados Unidos; como a filha não mostrava inclinação para a leitura, ela decidiu pagar-lhe cinco cêntimos por página. Um esforço dispendioso, dizia ela mais tarde a brincar, mas foi um investimento que valeu a pena.

Chimamanda Ngozi Adiche
Querida Yeawelle : como educar para o feminismo, Leya, 2018, p. 19. trad. de original em inglês, 2017 

terça-feira, dezembro 24, 2019

sábado, dezembro 21, 2019

segunda-feira, dezembro 09, 2019

Poeta

Quinta Essência: Arquimedes da Silva Santos (1921-2019), entrevista realizada em 2008 ao médico pedopsiquiatra, ensaísta e poeta (os seus versos deram origem a canções

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Não mates a tua diversidade interior

mia couto solidão distância telecomunicação tecnologia

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.
Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.
A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.
No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.
A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.rio
Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.
É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.
Mia Couto, séc. XXI
*Mia Couto é um biólogo e escritor moçambicano – Trecho extraído do seu livro “E se Obama fosse africano

Literacia curta e ligeira, dá asneira

 GETTY IMAGES.

A solução está na educação (na escola E ao longo da vida).  O problema não é a tecnologia, mas a literacia. Ler e entender, dá saúde e faz crescer, individual e  colectivamente.
 Literacia curta e ligeira, dá asneira.

Como valorizar o rigor em vez da rapidez? A leitura em vez da partilha imediata? A compreensão em vez do comentário?
Como educar as crianças a navegarem criticamente por si mesmas nas marés de informação, em vez de repetirem o que outros lhes dizem e confiarem em assitentes digitais que lhes pensam por elas e lhes explicam o mundo?
Como garantir que as escolas voltem a ensinar a triangular informação, a arbitrar conflitos, a separar factos de opiniões, a identificar sequências de informação, a orientar uma pesquia o, simplesmente, a verificar e validar antes de formular juízos ou tirar conclusões?
Como voltar a ensinar a sociedade a pensar?
Como resgatar a cidadania na selva informativa digital cada vez mais saturada de falsidades, sem mapa nem bússola que nos dê segurança?

Resposta: ensinar à cidadania mundial as bases da literacia da informação. 
Navegar é uma arte, viver também.
Como escreveu Camões: quem não sabe Arte não a estima.


"Beneath the spread of all “fake news,” misinformation, disinformation, digital falsehoods and foreign influence lies society’s failure to teach its citizenry information literacy: how to think critically about the deluge of information that confronts them in our modern digital age. 

Instead, society has prioritized speed over accuracy, sharing over reading, commenting over understanding. Children are taught to regurgitate what others tell them and to rely on digital assistants to curate the world rather than learn to navigate the informational landscape on their own. Schools no longer teach source triangulation, conflict arbitration, separating fact from opinion, citation chaining, conducting research or even the basic concept of verification and validation. In short, we’ve stopped teaching society how to think about information, leaving our citizenry adrift in the digital wilderness increasingly saturated with falsehoods without so much as a compass or map to help them find their way to safety. The solution is to teach the world's citizenry the basics of information literacy.

A Reminder That 'Fake News' Is An Information Literacy Problem - Not  A Techology Problem

Kalev LeetaruAI & Big Data




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https://www.forbes.com/sites/kalevleetaru/2019/07/07/a-reminder-that-fake-news-is-an-information-literacy-problem-not-a-technology-problem/?fbclid=IwAR2smEqrxZg1kI1ul2XjYqDbJBoVijinPCmoMohFSP2lLRj8RCvTIYZMmBU#457b72986a6f