terça-feira, abril 30, 2019

Homens do Futuro

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Homens do futuro:

ouvi, ouvi este poeta ignorado
que cá de longe fechado numa gaveta
no suor do século vinte
rodeado de chamas e de trovões,
vai atirar para o mundo
versos duros e sonâmbulos como eu.
Versos afiados como dentes duma serra em mãos de injúria.
Versos agrestes como azorragues de nojo.
Versos rudes como machados de decepar.
Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo
— essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos
para adormecer os poetas.

Fora, fora do planeta,
tu, mulher lânguida
de braços verdes
e cantos de pássaros no coração!

Fora, fora as árvores inúteis
— ninfas paradas
para o cio dos faunos
escondidos no vento...

Fora, fora o céu
com nuvens onde não há chuva
mas cores para quadros de exposição!

Fora, fora os poentes
com sangue sem cadáveres
a iludiremos de campos de batalha suspensos!

Fora, fora as rosas vermelhas,
flâmulas de revolta para enterros na primavera
dos revolucionários mortos na cama!

Fora, fora as fontes
com água envenenada da solidão
para adormecer o desespero dos homens!

Fora, fora as heras nos muros
a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre
de pé!

Fora, fora os rios
a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!

Fora, fora as papoilas,
tão contentes de parecerem o rosto de sangue heróico dum
fantasma ferido!

Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites
a teima das nossas garras
curvas de futuro!

Fora! Fora! Fora! Fora!

Deixem-nos o planeta descarnado e áspero
para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.
Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos úmidos
nem mulheres de flores nas planícies estendidas.
Uma planeta feito de lágrimas e montes de sucata
com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.
E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!
E cavalos negros nas nuvens de fumo das fábricas!
E flores de punhos cerrados das multidões em alma!
E barracões, e vielas, e vícios, e escravos
a suarem um simulacro de vida
entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,
montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de cadáveres
e pedras!

Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulamos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
— terríveis, à espera, na sombra do chão
sujo da nossa morte.


José Gomes Ferreira
Portugal, séc. XX

Saudades do Futuro

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“ (…) Senti saudades, não do passado, mas dum futuro qualquer, tão longe, tão lá no fundo, tão sonho, tecido apenas de pequenas coisas doces, num mundo menos pesado de cadáveres, sem outro heroísmo que não fosse o de vivermos teimosamente todos os dias e, sobretudo, sem a horrível morte colectiva a substituir a boa, a individual, a sagrada morte de cada um. (…)
Assim cogitei toda a tarde, no oitavo dia do mês de Maio de mil novecentos e quarenta e cinco, data em que findou a segunda guerra mundial, no meio de vivas e de bandeiras de triunfo, e em que tentei, em vão, resignar-me ao mundo dos outros e às montras de enchidos de porco, - sem estrelas reflectidas nos vidros.”



segunda-feira, abril 29, 2019

Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro


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As aventuras maravilhosas de João Sem Medo. Ed. Portugália, 1963.
Design João da Cãmara Leme

















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Adaptação e desenhos de José Paulo, Ed. Moraes, 1981
Ed. D. Quixote, 1989

As Aventuras de João Sem Medo ilustrações para o livro de José Gomes Ferreira | 2004The Adventures of Fearless John ilustrations for the book by José Gomes Ferreira | 2004

Apesar de ficar a pouca distância da povoação, ninguém se atrevia a devassar a floresta. Não só por se encontrar protegida pela altura descomunal do Muro, mas principalmente porque os choraquelogobebenses – infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite – mal tinham força para arrastar o bolor negro das sombras, quanto mais para se aventurarem a combater bichos de sete bocas, gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas. Preferiam choramingar, os maricas! (...)
O único que, talvez por capricho de contradizer o ambiente e instinto de refilar, resistia a esta choradeira pegada, era o nosso João que, em virtude duma contínua ostentação de bravata alegre e teimosa na luta, todos conheciam por João Sem Medo.
Ora um dia, farto de tanta choraminguice e de tanta miséria que gelava as casas e cobria os homens de verdete, disse à mãe que, conforme a tradição local, lacrimejava no seu canto de viúva:
- Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro.

Even though it wasn't very far from the village, no-one would venture into the forest. Not just because it was protected by the overwhelming height of The Wall, but mostly because the cryandyouwillbefeed'ers - sad whiners who would do nothing but pity themselves from sunrise till sunset - hardly had the strength to drag the dark mold of the shadows, let alone to fight seven-mouthed beasts, five-armed giants or dragons with two throats.
They prefer to whimper, those sissies! (...)
The only one who, maybe for a whim of contradicting the surrounding environment and a natural instinct for grumping, resisted this sticky whimper, was our dear John who, for a continuous ostentation of a happy and stubborn swagger in fighting, was known to all as Fearless John. 
One day, tired of all the crying and misery that chilled houses and covered men with verdigris, Fearless John told his mother, who, according to the local tradition, was weeping in her widow corner:
- Mother, I can't stand this anymore. I'm going to go over The Wall.

in: Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira, 1963 (translation - Nuno Lacerda, 2004, com adapt.)

sexta-feira, abril 26, 2019

Os meninos de amanhã (Elogio do Revolucionário)





Os meninos de amanhã
Vão acordar num mundo novo
Com a estrela da manhã
A iluminar o bem do povo
E nos livros da escola
Ouvirão contar
Quantas lutas se travaram
Pr’à vida mudar.

Os meninos saberão
O amor dos revolucionários
Que lutaram sem descanso
P’ra mudar este fadário
E as memórias vigilantes
Saberão contar
Essas vidas que se deram
Sem desanimar

Os meninos de amanhã
Verão o corpo dessa ideia
Que perturba o rame-rame
Co’a revolta que semeia
E ao colo da liberdade
Ouvirão contar
o pão-pão e o queijo-queijo
Que te anda a faltar.

Vão encontrar o tesouro
Dentro do punho fechado
Do discreto combatente
Que está aí mesmo ao teu lado
E das bocas saciadas
Ouvirão contar
Os porquês insatisfeitos
Que o fazem lutar


Há tanta gente virada p’ra trás
Gente que vive

Do menos-mal e do tanto-faz
Mas o amor em que estou a pensar
Anda remando

Contra a maré, a desinquietar.


Fonte:
http://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/sites/arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/files/060_elogio_do_revolucionario.pdf?fbclid=IwAR0E1ASDfPDFGgFidN-BVCZiduQKYPAsZs0xGOftN3UjEgxJzWP_RHdkKHIo


quarta-feira, abril 24, 2019

Por fortuna, ser humano e mulher, nem mais nem menos

Generación del 45
A geração de 45.
Da esquerda para direita, em pé: Maria Zulema Silva Vila, Manuel Claps, Carlos Maggi, María Inés Silva Vila, Juan Ramón Jiménez, Idea Vilariño, Emir Rodríguez Monegal, Ángel Rama; sentados: José Pedro Díaz, Amanda Berenguer, [mujer no identificada], Ida Vitale, Elda Lago, Manuel Flores Mora.
FORTUNA 

Por años, disfrutar del error 
y de su enmienda, 
haber podido hablar, caminar libre, 
no existir mutilada, 
no entrar o sí en iglesias, 
leer, oír la música querida, 
ser en la noche un ser como en el día. 
No ser casada en un negocio, 
medida en cabras, 
sufrir gobierno de parientes 
o legal lapidación. 
No desfilar ya nunca 
y no admitir palabras 
que pongan en la sangre 
limaduras de hierro. 
Descubrir por ti misma 
otro ser no previsto 
en el puente de la mirada. 
Ser humano y mujer, ni más ni menos. 

Ida VitaleFonte: https://www.culturagenial.com/es/ida-vitale-poemas/

Ida Vitale (Montevideo, 1923-    ), uruguaia, Prémio Cervantes 2019

domingo, abril 21, 2019

domingo, abril 14, 2019

Alexandria e a história de uma fake new centenária

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DE JEVENOIS, Pablo (2009). Biblioteca de Alexandria : o enigma revelado. Lisboa : Ésquilo. Trad. Cleto Saldanha


Bela leitura, a desconstruir mitos - os da destruição da Grande Biblioteca de Alexandria, a sedutora, fundada em 295 a. C pelo rei Ptolomeu I  conjuntamente com o Museion, ou Mansão das Musas.
Afinal, a Grande Biblioteca de Alexandria terá sido destruída por uma manobra de Júlio César no séc. I a. C. A sua última parte, a Biblioteca Filha, acabaria no séc. IV, pela acção do bispo Teófilo e dos seus monges.
A memória, persistente, de tal maravilha alimentaria a sobrevivência de um mito, o da sua destruição durante a conquista de Alexandria pelos árabes (séc. VII), aparentemente contada por um bispo cristãp oriental, Abulfaragius (séc. XIII), que foi lido por um clérigo anglicano, Pococke, que a difundiu com eficácia no séc. XVII, consolidando uma lenda que chegou ao séc. XXI.  Hoje, diríamos: fake news...
Dois mil anos, tanto tempo para os humanos, mesmo que seja um breve suspiro na vida do planeta.

sábado, abril 13, 2019

Aspirar ao coração, exorcizarmo-nos pelo sonho, ser grato à Terra, seguir ao lado do nosso irmão




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«The action is complex, agitated, there isn’t a true focus for the narration and the whole scene is defined by a strong chiaroscuro (…) It’s noteworthy that all the characters are portrayed as common people. That’s because Caravaggio didn’t believe in the formal charity of upper classes, but only in the spontaneous generosity of people towards other people. (Here we can see) the visual and emotional intensity, the strong naturalism and the extreme expressiveness.»

Uma atitude plástica indomável
e arrebatamento rítmico nas figuras,
eis o que me interessa transmitir:
sou panteísta,
e sei como nas cores há um luxo físico
que torna o que é palpável
imaterial
– de modo que o que faço
é da rua que vem,
para que se transfigure em dom de imanência
e a alma e o espírito se cumpram nos pigmentos
para que tudo seja obra compassiva,
como um enigma de arrebatamento.

A minha vida é a cor
– e o recorte que o relevo da luz
lhe introduz
serve para que o universo vibre
e uma tensão grandíloqua se estabeleça,
entre a detonação da tela
e o espectador,
num repto total,
esmagador.
Ouso o fascínio,
mas, mais do que o fascínio,
aspiro ao coração
dos que vêem a tela interiormente,
sendo que os olhos
acumulam sortilégio
para que o entendimento desmorone
a falsidade que nos cerca e mata.

Eis a encomenda:
um quadro de grandes dimensões
que patenteie
as sete obras de misericórdia corporais,
dando relevo aos justos, obviamente,
mas também aos pecadores,
já que cada um deles é cada um de nós,
se a nossa prudência souber dizê-lo
de modo a não ardermos na fogueira.
Deu-me trabalho, o esboço:
a caridade existe,
mas é tão raro vê-la
que um pintor não sabe onde encontrar
modelo adequado,
mesmo que vá de igreja em igreja
a cuidar que, de repente,
encontra exemplo para a missão.

Tentei de tudo. Tentei, até, de mais.
Mas os dias passavam, e as noites,
e não me satisfazia com o que via,
os palácios a abarrotar de nobres
sem magnanimidade, e os pobres
sempre mais pobres, a morrer à míngua.
O mundo, agora, é só hipocrisia.
E, por isso mesmo, a minha regra
é não ter regra nenhuma
– em busca da brandura
vou de sítio em sítio,
a procurar um sentido nos sentidos,
ou alguém que não difame,
ou que não roube.
Só posso pelo sonho exorcizar-me;
mas o facto é que na rua é que anda tudo
– abrindo bem os olhos, em lida
extenuante, mas de grande prazer,
basta só olhar em volta e ver:
e ver é uma arte que faz toda a diferença.
E assim foi que vi os anjos nesta esquina,
e uma profusão de personagens
a perfazer o périplo das obras
misericordiosas:
a visitar os presos,
a dar de comer a quem tem fome,
a enterrar os mortos,
a cuidar dos enfermos,
a vestir os nus,
a dar de beber a quem tem sede,
a dar pousada aos peregrinos.

Olhando o quadro, agora pronto,
exposto na igreja do Pio Monte della Misericordia,
em Nápoles,
entendo que é pelo arrojo
que vou bem
– e fico impressionado
pelo que faço dos temas,
e como os meus impulsos artísticos resultam
em explosões categóricas de beatitude
de que até eu me assombro.

Toda a beleza é transcendência,
afirmo, de mim para comigo.
No meu tempo poucos haverá
que isto entendam, embotados
que estão de dogmas e preceitos
em que se relega o mundo
e nada vive como a vida é.
Martinho tira a capa e dá-a a um pobre.
Uma jovem mulher oferece o seio
a um velho preso da sua miserável condição
matando-lhe a fome e aliviando-o
do desgaste do castigo.
Um diácono clemente
manda que os coveiros
abram a terra e sepultem os cadáveres.
Um jovem, em tronco nu, ampara os doentes.
Um Sansão, sequioso, dessedenta-se com água
que alguém pôs no maxilar de um asno.
E Santiago aloja os peregrinos
com a ajuda de um almocreve adolescente.

Eis o meu quadro, a que juntei,
sobre a multidão,
uns anjos
para que se saiba
que não são dos anjos as tarefas dos homens,
e que o que é possível pode até tocar-se
se estendermos a mão ao nosso semelhante
– mesmo que ninguém veja,
mesmo que fique no segredo dos anjos a nossa acção,
mesmo que a partilha seja, apenas, nossa
e que nada, nem ninguém, nos agradeça
o gesto,
o acto.


Chamo-me Michelangelo Merisi Caravaggio
e ignoro
se sou cristão, ou não.
No caso, interessa pouco quem eu sou.
Sei é que deixo nesta terra
uma pequena herança
de luz
e movimento
e cor
que me fará feliz
se os homens se lembrarem
que pior que o esquecimento é a ingratidão,
e que ser ingrato nesta terra é não estar ao lado
de quem na vida vai ao nosso lado
e é nosso irmão.

Amadeu Baptista
Sobre um dos quadros de Michelangelo Caravaggio, componente de “Os Sete Trabalhos de Misericórdia”


Grata à Isabel Duarte que mo deu a descobrir,  a Caravaggio e à Mae West que nos inspiram.