quinta-feira, abril 23, 2020

Louvor do aprender (Dia Mundial do Livro)

Louvor do Aprender, um poema de Bertold Brecht

Fonte aqui

Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o!   E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c'os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela

sábado, abril 18, 2020

De muitos lados erguem-se barreiras ao incerto que virá


A imagem pode conter: céu, árvore, planta, nuvem, oceano, ar livre, natureza e água

Por ora

Testemunho de Cristina Taquelim, mediadora de leitura. 
“O silêncio tomou conta dos largos e da vida de novos e velhos. Só os pássaros resistem no canto e no voo. Por ora, as crianças não correm pelas ruas.” 
In Público, Diário da Quarentena,18 de Abril de 2020, 7:54 "A aldeia está mais deserta do que nunca. Tirando o ladrar dos cães, nada mais se escuta.
Sem dar ouvidos ao povo, mas pressentindo qualquer coisa no ar, os cães vadios correm como se fossem os donos das ruas. No largo alguns imigrantes eslavos, agora sem trabalho, ocupam os bancos do jardim e as portadas das casas, procurando resistir ao confinamento forçado em casas com três quartos que acolhem mais de 15 almas.
O silêncio tomou conta dos largos e da vida de novos e velhos. Só os pássaros resistem no canto e no voo. 
Por ora, as crianças não correm pelas ruas. Por ora, estão suspensas as histórias que habitam a minha mala de mediadora de leitura. Por ora, adormecem na minha boca, saudosas de ser contadas de olhos nos olhos. Imagino os livros a pedirem-me que os conte, o cheiro dos moços suando correrias, as risadas, a luz dos teatros e bibliotecas, o quente dos abraços, as tardes de orelhas emprestadas às memórias da D. Raimunda, o rirmos juntas, o chorarmos juntas. Por ora, só consigo imaginá-los. Até a morte estranha não ser chorada em companhia. 
Resistindo ao inominável, os anjos de batas brancas, incansáveis, dão o corpo às balas, contam as baixas e arregaçam as mangas para novos embates. De muitos lados erguem-se barreiras ao incerto que virá. O Estado tenta desesperadamente dar alma a um Serviço Nacional de Saúde profundamente fragilizado pelo capitalismo selvagem. O Papa ajoelha-se como um menino perdido, na gigantesca praça e suplica a Deus pelo milagre. 
Apesar de tudo, sei que poderia ser pior. Não estamos todos no mesmo barco. Se esta minha quarentena acontecesse em solidão, no Equador ou no Sudão, num qualquer campo de refugiados do mundo, num bairro de lata perto da minha cidade do coração. Se esta minha quarentena acontecesse na rua, sem casa, numa tenda na fronteira entre a Grécia e a Turquia, em Gaza onde Israel continua a bombardear escolas e praças, ou num Brasil governado por um tonto irresponsável, poderia ser pior.
A única certeza que tenho, para além do amor incondicional daqueles que nunca me abandonam, é que o meu coração tem de se preparar para o que quer que aí venha. 
Hoje mais do que nunca é preciso cuidar da minha casa interior. Hoje mais do que nunca é preciso acordar com as andorinhas e esticar o corpo como os gatos para receber o dia. Caminhar pela casa e abrir as janelas. Lavar as mãos, o rosto e cantar mentalmente duas vezes os parabéns. Ligar o rádio para ouvir as notícias da manhã. Abrir a porta do quintal para deixar entrar o cheiro do jasmim. Fazer o café, partir o pão e celebrar cada refeição do dia. Dar graças. Fazer as compras para quem precisa e caminhar pelos matos, na barragem. Hoje mais do que nunca é preciso encher os olhos de água e escutar os pardais, os cachapins e o seu agitar das asas por entre os juncos. Hoje mais do que nunca é preciso apanhar funcho, acelgas, mantrasto e no regresso a casa, limpar, arrumar, lavar, deitar fora, organizar. Enfrentar o desorganizado escritório e arrumar os livros. Limpar o pó. Dividir autores, alfabetar, escrever, ler... reler. Descobrir o que nunca se leu. Esvaziar caixas. Rasgar papéis. Arrumar estantes. Conseguir enganar o caos interior. Ser verbo e gerir no silêncio esta inquietação surda, pois no silêncio moram todas as histórias que temos dentro.
Só o silêncio, o tempo e o trabalho para ensinar a gerir os inomináveis. Só o tempo para nos ajudar a pensar neste confinamento imposto, nesta incerteza certa e nos mistérios da vida e da morte. O tempo talvez nos ajude a reaprender a humanidade. Talvez nos dê a verdadeira dimensão da urgência de cuidar. 
A Terra dá sinais, regenera-se, recupera da usura humana, do consumo. Talvez seja possível, muito em breve, voltarmos a sentir-nos plenos e como ela, a nos reinventarmos. Por ora, respiramos."

sexta-feira, abril 17, 2020

Pestes & Portugal Pobre

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Nos últimos cento e cinquenta anos, os portugueses conviveram com várias epidemias, cólera, peste bubónica, tifo, gripe pneumónica, varíola. 
O Porto foi uma cidade especialmente martirizada, porque, mais do que Lisboa, era um cidade industrial e tinha atraído milhares de pessoas vindas da província para as novas fábricas. As condições de vida deste operariado eram miseráveis. As "ilhas", que forneciam habitação barata aos operários, eram particularmente insalubres, e isso pagava-se em vidas. Poucas epidemias como o tifo eram tão declaradamente uma doença das "classes baixas", dos que viviam nas alfurjas das cidades. 
O tifo era transmitido pelo piolho e o mundo da pobreza era também o mundo do piolho. Este cartaz não datado, mas provavelmente dos anos 20-30, mostra o inimigo, o piolho, em todo o seu esplendor maligno.  

Fonte: Ephemera Diário, 2020

quinta-feira, abril 16, 2020

Rubem Fonseca - Correntes d"Escritas 2012 Póvoa de Varzim - Portugal. "...



Assista a "Rubem Fonseca - Correntes d"Escritas 2012 Póvoa de Varzim - Portugal. " Todo autor é louco"" no YouTube https://youtu.be/QqjLOOs8h5k  @williamRatts




Obituários



Luís Sepúlveda, Rubem Fonseca, Lee Konitz. Dia tramado!


Lee Konitz's solo on "All The Things You Are" by Hammerstein/Kern
album: Lennie Tristano, Atlantic Records, 1956

quarta-feira, abril 15, 2020

Luiz Goes - Cantiga para quem sonha



CANTIGA PARA QUEM SONHA

Tu que tens dez reis de esperança e de amor
grita bem alto que queres viver.
Compra pão e vinho, mas rouba uma flor.
Tudo o que é belo não é de vender
Não vendem ondas do mar
nem brisa ou estrelas, sol ou lua-cheia
Não vendem moças de amar
nem certas janelas em dunas de areia.

Canta, canta como uma ave ou um rio
Dá o teu braço aos que querem sonhar
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
nem é preciso que saiba cantar.

Tu que crês num mundo maior e melhor
grita bem alto que o céu está aqui.
Tu que vês irmãos, só irmãos em redor,
Crê que esse mundo começa por ti.
Traz uma viola, um poema,
um passo de dança, um sonho maduro.
Canta glosando este tema,
Em cada criança há um homem puro.

Canta, canta como uma ave ou um rio
Dá o teu braço aos que querem sonhar
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
nem é preciso que saiba cantar.

Letra de Leonel Neves
Música de João Gomes
Canta Luiz Goes

Luís Cilia / António Gedeão Dez Reis de Esperança

sexta-feira, abril 10, 2020

Ladrões de Bicicletas: Aplausos para a orquestra, no naufrágio do Titanic...


No mesmo dia em que ficámos a saber que o Banco de Inglaterra vai financiar directamente o Estado britânico durante o tempo que o governo considerar necessário para combater as consequências económicas do covid-19, o Eurogrupo anunciou um acordo "histórico" que produz efeitos irrisórios face às actuais condições de financiamento dos Estados membros e que não preenche nem um quinto das necessidades de Portugal até ao fim do ano. Isto pedindo "apenas" em troca que os países cumpram as regras orçamentais europeias. As mesmas que, nas condições actuais, nos conduzirão a mais uma década de austeridade.
Parece que no final da reunião do Eurogrupo os ministros das finanças da zona euro bateram palmas. Faz lembrar os passageiros da 1ª classe do Titanic a aplaudir a valsa acabada de tocar pela orquestra, enquanto o navio se afundava.
Ricardo Paes Mamede, 10.04.2020

Ladrões de Bicicletas: Aplausos para a orquestra, no naufrágio do Titanic...: No mesmo dia em que ficámos a saber que o Banco de Inglaterra vai financiar directamente o Estado britânico durante o tempo que o governo ...

quarta-feira, abril 01, 2020

Águas de Abril


in Observadores de Nuvens, JF - Facebook. Imagem de José Manuel Costa


"Na nuvem havia gotinhas de água. Algumas dormiam, outras contavam aventuras e outras sonhavam com rios e mares. De repente, surgiu lá ao fundo o pico de uma grande montanha."  

in O sonho de Mariana, texto de António Mota, il. D. Wojciechowska, Gailivro, 2003 (10ªed. 2010)
Biblioactiva.ler: "O sonho de Mariana", um livro de António Mota 

LER, UMA MANEIRA DE REDUZIR DISTÂNCIAS ENTRE NÓS, E ATRAVESSAR FRONTEIRAS

Author-illustrator Baek Heena

Korean picture book. JangSutang (Bathhouse) Fairy Godmother by ...
Fairy Godmother, by Baek Heena
Cloud Bread" and "Pom Pom & Friends" Licensed by Frederator ...
Cloud Bread, by Baek Heena

During the prize presentation, Swedish minister for culture and democracy Amanda Lind spoke of the award’s special importance at this moment in history, when children and families across the world are staying at home. “Reading is a way of reducing distances and crossing borders,” she said. Lind also explained that the idea for Lindgren’s most famous book, Pippi Longstocking, was sparked when her daughter was sick with pneumonia and asked to hear a story about a girl of that name.

Reading the award citation, jury member Elina Druker said, “With exquisite feeling for materials, looks and gestures, Baek Heena’s filmic picture books stage stories about solitude and solidarity. In her evocative miniature worlds, cloud bread and sorbet moons, animals, bath fairies and people converge. Her work is a doorway to the marvelous: sensuous, dizzying, and 
sharp.” 
#ALMA2020