sábado, março 31, 2018

Saber da poda




A ler, imediatamente.



Estas práticas [PODAS ABUSIVAS], que em alguns países configuram crimes ambientais, mesmo quando perpretadas em terrenos privados, aqui são sempre justificadas por qualquer razão irracional e mesquinha, ou simplesmente, como se diz no Algarve, porque “as árvores querem-se cortas”. Não há travão ético, estético, nem legal, para refrear o apetite crescente por madeira e outros detritos vegetais, que é a verdadeira força motriz que impulsiona toda esta voracidade podadora recente. Árvores e restante vegetação são em geral vistas entre nós como um estorvo ou apêndice inútil da paisagem, mas – que azar para elas e demais criaturas que delas dependem – cada vez mais uma fonte de rendimento irresistível, desde a venda de madeiras nobres, que atingem no mercado centenas de euros por metro cúbico, como o plátano, o jacarandá ou o cedro, até à transformação para composto, pellets e afins, biogás e electricidade. 
Quando podar, desvastar, recolher, só dava trabalho e nenhum lucro, esses serviços eram realizados por funcionários camarários. Embora as atrocidades tivessem aumentado na razão da evolução das “tecnologias da poda” e diminuição da formação dos podadores, ainda ia havendo uma certa indiferença tolerante. Quando começaram a dar lucro, e muito, rapidamente os mesmos serviços passaram para as mãos de empresas privadas, e desde então, não há erva ou árvore centenária que não esteja à merçê dos exércitos de sapadores recrutados por estas empresas – mão de obra barata não falta e quanto mais energúmeros melhor.
Maria José Castro 

A grande desmatação de 2018 – Observador

sexta-feira, março 30, 2018

Algo pagã me confesso




No Calendário, dizem-nos que estamos na Páscoa. No corpo e no mundo, clamamos pela Primavera - no Hemisfério Norte, as estrelas rodaram para posições mais alegres, o ar é menos frio, mais suave, e tudo o que vive sai das tocas e dos abrigos do longo inverno.

Mesmo as pedras e as águas ganham brilhos e cores mais alegres.

A Páscoa é uma festa que celebra a Primavera, tempo de ressurgir. Haja boas sementes, boa terra, água e sol.

O resto, com todo o respeito, são narrativas religiosas de conforto...
A espécie humana precisa de palavras em comum, comunicam menos com o corpo que outros seres vivos.

Olha em volta e verás o mundo sorrir nesta época de promessas... apesar das sombras!

Tema das "Quatro Estações" de Vivaldi, nascido em Veneza em 1678, com o dom de dar som às estrelas e ao nosso coração e um pai violinista em San Marco, que o ensinou. Pobre, a sobrevivência passou por entrar no Seminário. Ordenado padre, teve a sorte de ser castigado com a proibição de dar missa e consagrou-se à música: generoso, deixou-nos muitas centenas de composições Nem uma palavra.

terça-feira, março 27, 2018

Disability needs visibility

"A discriminação por deficiência na Europa é em média de 15%, mas em Portugal esse número aumenta para 65%. Surpreendentemente, o Governo Português não tem uma estratégia nacional para pessoas com deficiência."

2018, Relatório internacional



Disability needs visibility

quarta-feira, março 21, 2018

Poesia sem dia certo

Foto de perfil de Maria Cantinho

Irmãos

Somos irmãos da luz 
e bebemos o sonho
habitamos a folhagem
a noite e o tempo,
como quem nasce da água
e bebemos a voz
e a linguagem, descendo.
Somos irmãos da terra
cantamos dançamos
ao som do fogo
e olhamo-nos como espelhos
tememos comemos
as palavras dos homens.
Somos da sombra os nomes
lavradio do silêncio
apascentado na alba
e tudo nos habita:
lua, passagem, círculo,
olho, mão, salmo.
Somos irmãos da escuridão
olhamo-nos como espelhos
de uma luz íntima
sonhante, na dobra da língua.

Maria João Cantinho
in "Do Ínfimo"

terça-feira, março 20, 2018

the portuguese prison photo project - uma exposição, diferentes perspetivas atrás das grades



..belo prémio SPA, hoje!

Luís Barbosa

the portuguese prison photo project - uma exposição, diferentes perspetivas atrás das grades

Discordar, argumentando com nível




Um artigo saboroso e certeiro, de Paul Graham, sobre discurso argumentativo, cada vez mais presente na web, onde, como ele escreve "tornamos a escrita numa conversa".

Como discordar de outro em bom nível?

No nível mais baixo desta hierarquia do desacordo, " Chamar nomes".
No nível mais alto, "Refutar o ponto central" do argumento de outro.

Muito frequentes, porém não muito profícuos, " Ad hominem - atacar as caraterísticas do eescritor, ou de quem fala, sem abordar a substância do que escreve ou diz" e "Resposta ao tom, centrando-se no tom do discurso sem tratar do conteúdo do mesmo."

Daí para cima, para discordar com jeito, temos de acautelar não apenas a posição que se toma (concordo, discordo, total ou parcialmente, nisto ou  naquilo), mas os argumentos que a justificam .- evidências, citações de erros ou enganos e proposta da sua correção. O mais exigente: distinguir o essencial do acessório, e abordar o essencial, confrontando posições diferentes

O mais importante, como disse Passos Manuel (1852) no Parlamento português, será a atitude:

Se não pode mudar de opinião, então não serve de nada a discussão.

The hierarchy of disagreement: The best and worst argument techniques | Big Think

sábado, março 17, 2018

Uma rosa na tromba do elefante

RosaTrombaElefante_CPweb_grande



Um dos meus autores preferidos, numa edição em 2018 (ilustrada por Mariana Malhão) do maravilhoso livro de António José Forte, em 2001 ilustrado por Aldina Forte, apresentado por um dos meus blogues mais amados, o da Rita Pimenta. Os dois imprescindíveis

Veio de longe muito longenuma bicicleta pretae trazia na mão uma florque era também uma caneta


Letra Pequena

quarta-feira, março 07, 2018

Tocar a pele, salvar a vida (dos homens também)

Animals help to alleviate loneliness for old people
Pessoas mais velhas recorrem a terapias com animais para compensar a falta de toques


A falta de toque está a destruir os homens. Porque precisam eles (e elas) de mais toque platónico na sua vida? E porque os  rapazes e os homens são mais prejudicados pels códigos sociais repressores do toque não sexualizado? (Artigo de Films for action, 2018)
"But at the root of all these flawed rationalizations is the fact that most American men are never taught to do gentle non-sexual touch. We are not typically taught that we can touch and be touched as a platonic expression of joyful human contact. Accordingly, the very inappropriate over-sexualized touch our society fears runs rampant, reinforcing our culture’s self fulfilling prophecy against men and touch. Meanwhile, this inability to comfortably connect via touch has left men emotionally isolated, contributing to rampant rates of alcoholism, depression and abuse."


How a Lack of Touch Is Destroying Men

O problema dos mitos é grave; esquerda sobre a Síria, 2018

 Foto de Isabel Duarte.
Síria, 2018
"A Síria da minha infância era um estado policial repressivo. Cresci a acreditar que as paredes tinham ouvidos e que não se podia criticar o regime, mesmo nas nossas próprias casas."
"Nas escolas recebíamos lavagens cerebrais diariamente. Eu frequentei as escolas do partido Baath, onde o retrato do presidente adornava cada parede. Todas as manhãs, durante a saudação da bandeira, pedíamos a imortalidade de Hafez al-Assad antes de irmos para as aulas. Memorizámos canções louvando-o e ao Partido Baath, tínhamos de recitar os seus discursos. Ele era nosso líder e pai." (...) 
A Arábia Saudita, o Qatar, a Turquia, os EUA e Israel estão todos envolvidos neste conflito, mas pode dizer-se o mesmo da Rússia e do Irão. Grupos rebeldes mataram civis, e também o regime – e também em grande escala. Não se pode condenar os crimes de um lado sem condenar os crimes do outro e continuar a achar que se está a defender a justiça."  
 Loubna Mrie, 2018


O problema dos mitos à esquerda sobre a Síria | Esquerda

sábado, março 03, 2018

Homo Ludens with a book is free

wislawa_books


A frase em título é da poeta polaca e Prémio Nobel Wisława Szymborska, citada num artigo da BrainPicks que começa assim (tradução Lerdo Ler):

"Um livro é um coração que só bate no peito de outro", escreveu Rebecca Solnit na sua bela reflexão sobre porque lemos nós. Para Galileu, os livros eram um modo de ter poderes sobrehumanos; para Kafka, "o eixo para o mar gelado dentro de nós"; para Carl Sagan, "a prova de que os humanos são capazes de fazer magia"; para James Baldwin, uma maneira de mudar o nosso destino. "Ler", escreveu E. B. White enquanto encarava o futuro da leitura em 1951, " é o trabalho de uma mente alerta, é exigente, e em condições ideiais produz finalmente uma espécie de êxtase."
“A book is a heart that only beats in the chest of another,” Rebecca Solnit wrote in her beautiful meditation on why we read. For Galileo, books were a way of having superhuman powers; for Kafka, “the axe for the frozen sea within us”; for Carl Sagan, “proof that humans are capable of working magic”; for James Baldwin, a way to change our destiny“Reading,” E.B. White wrote as he contemplated the future of reading in 1951, “is the work of the alert mind, is demanding, and under ideal conditions produces finally a sort of ecstasy.”


Why We Read: Polish Poet and Nobel Laureate Wisława Szymborska on What Books Do for the Human Spirit – Brain Pickings