quarta-feira, julho 18, 2007

Bibliotecas públicas - o que significa que o público (nós todos) as sustentamos, por isso por elas já as pagamos, por impostos... uma vez! Há quem queira que paguemos este serviço mais uma vez, e outra, e outra, de cada vez que ousarmos usar um documento por elas disponibilizado.

Transcrevo, com devida vénia, o texto da Luísa Alvim no blogue viva bilioteca viva

Leiam, divulguem, comentem, agreguem esforços ao Manifesto. As imagens são da BAD (Portugal) e da Non Pago di Leggere (Itália), e do Copyleft (Global).



Manifesto
em defesa do empréstimo público gratuito

nas bibliotecas portuguesas

A Comunidade Europeia aprovou, em 1992, uma directiva relativa ao direito de comodato e a certos direitos conexos de autor em matéria de propriedade intelectual, passando as bibliotecas, museus, arquivos e outras instituições privadas sem fins lucrativos a ter que pagar pelo empréstimo público dos seus documentos abrangidos por estes direitos de autor.
Depois de algumas intervenções em defesa pelo não pagamento, e lembro a famosa petição portuguesa em favor do empréstimo público gratuito nas bibliotecas, patrocinada pela BAD (Associação de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas), com 20.000 assinaturas em 2004, a situação é de condenação pelo Tribunal de Justiça da União Europeia sobre Portugal que isentou todas as categorias de estabelecimentos que praticam o comodato público da obrigação de pagar aos autores.
Esta é a grande questão. Actualmente, a Assembleia da República terá que apresentar uma proposta de lei diminuindo o número de isenções ao pagamento da remuneração pelo empréstimo público de documentos.
Entendo que esta normativa europeia e o decreto-lei vão contra todos os princípios que os profissionais da informação defendem e lutam, desde sempre, em apoiar a disponibilização de documentos que possibilitem a educação individual, a autoformação, a educação formal, o oferecer possibilidades de um criativo desenvolvimento pessoal, o estimular a imaginação, o promover o conhecimento e o apreço pelas artes e inovações científicas,o facilitar o acesso às diferentes formas de expressão cultural, o fomentar o diálogo inter-cultural, a assegurar o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação à comunidade, nas instituições públicas e privadas onde trabalham, de forma gratuita, princípios explícitos no Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas, no Código de Ética. Princípios defendidos internacionalmente pela IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions) e pela EBLIDA (European Association of Library Information and Documentation Associations).
A missão das bibliotecas sempre foi garantir aos cidadãos o acesso livre ao conhecimento, à cultura e à informação. O papel das bibliotecas públicas, escolares, universitárias, e outras, em Portugal, nos últimos anos é inquestionável no exercício das suas missões sociais e culturais.
A BAD apesar de defender estes princípios, optou, e muito bem, por apresentar uma proposta de alteração da lei, à Comissão da Assembleia da República, no sentido de salvaguardar algumas questões, como o não pagamento de direitos de autor pela consulta presencial de documentos nas bibliotecas, o mesmo se passando com o empréstimo inter-bibliotecas e a transmissão de obras em rede. Relativamente ao empréstimo de documentos que seja pago não pelo utilizador/cidadão mas pelos organismos que tutelam as bibliotecas (Ministério da Cultura/Câmaras?), e que este pagamento não se repercuta nos orçamentos das bibliotecas.

A proposta da BAD para alterar o Decreto-Lei n.º 332/97, apresentada à Comissão de Educação, Ciência e Cultura da Assembleia da República: circular nº8 Remuneração pelo Empréstimo Público

Ainda não sabemos como a lei vai figurar em Portugal, mas sabemos que já não é possível que a utilização de documentos seja disponibilizada gratuitamente nas bibliotecas. É necessário continuar a falar sobre este assunto, e de outras questões associadas, como o estabelecimento dos critérios para a fixação da remuneração a pagar, etc.
O papel dos profissionais da informação, e das associações, terá que ser de sensibilizar a opinião pública para a "indiscutível" defesa do direito à informação gratuita disponibilizada pelas instituições públicas, na nossa dita "sociedade democrática".

1. Solicito que reenviem esta mensagem, a discutam nos blogues, linkem os posts sobre este assunto entre blogues, escrevam nos jornais e em artigos nas redes sociais e fóruns, pelo menos não fiquemos calados quando nos pedirem alguns cêntimos pela consulta de um livro que precisamos para estudar ou para os nossos filhos aprenderem, numa qualquer biblioteca.

2. Aconselhemos os nossos amigos - Autores - (de livros, música, bd, cinema, etc.) que disponibilizem os seus conteúdos em livre acesso, com etiquetas de Creative Commons, GNU License (documentos-software), copyleft, etc. e prescindam dos direitos de autor, sempre que as suas obras sejam consultadas/emprestadas em bibliotecas, arquivos, centros de documentação e museus.

Ajudemos a partilhar informação.

ver Livro de Lawrence Lessig Free Culture (2004), primeiro livro licenciado sob CC.

ver blogue Entre Estantes, do Bruno Duarte Eiras

sexta-feira, junho 29, 2007

Isto é dois mil e sete? Really?

AVISO

NESTE BLOG NÃO
SE FAZ CROCHET
SE ESTUDA EM CIMA DAS MESAS
SE CRITICA MONSIEUR LE PRÉSIDENT, MR. PRESIDENT, SEÑOR PRESIDENTE, AMO

por supuesto presupuesto...



Humor (sentido de )
Ainda havemos de o ver à venda nas farmácias em unidoses com a recomendação
SE NÃO USAR TODAS ESTAS DOSES - DÊ AOS POBRES, QUE EMPRESTA AO ESPÍRITO SANTO!

Isto é um caso muito sério. Aliás, vários casos. E o tempo que nos faz perder em melindres de donzela, gasta-o este Governo à socapa em delitos de (isso mesmo que estais a pensar). Eficaz? E revelador.
Como se aplica o conceito de desobediência civil à gargalhada por ver um "superior hierárquico" perder completamente a compostura, ou seja, a noção do ridículo? Quem não consegue ver que a melhor maneira de aumentar as anedotas é proibir uma anedota?
Ora aí está: o que se pretende é aumentar desesperadamente a jocosidade nacional, em privado já se vê. À vista, tudo cinzentinho e conformado.
Depois contamina e há falta de inovação, criatividade, competitividade? Pois há, lá isso... riscos de privatizar exercícios de inteligência. Paciência! Não se pode ter tudo: para obediência, mesmo na inutilidade, sobretudo na inutilidade, a inteligência só atrapalha.
(agradecendo provocação ao Daniel)

quarta-feira, junho 27, 2007

Pobreza, riqueza e o que mais adiante se verá

A nossa riqueza provém da nossa disponibilidade em efectuarmos trocas culturais com os outros. (...)

Eu venho falar aqui de um diálogo muito particular de que poucas vezes se faz alusão. Refiro-me à nossa conversa com os nossos próprios fantasmas. O tempo trabalhou a nossa alma colectiva por via de três materiais: o passado, o presente e o futuro. Nenhum desses materiais parece estar feito para uso imediato. O passado foi mal embalado e chega-nos deformado, carregado de mitos e preconceitos. O presente vem vestido de roupa emprestada. E o futuro foi encomendado por interesses que nos são alheios.

Não digo nada de novo: o nosso país não é pobre mas foi empobrecido. A minha tese é que o empobrecimento de Moçambique não começa nas razões económicas. O maior empobrecimento provém da falta de ideias, da erosão da criatividade e da ausente interna de debate. Mais do que pobres tornamo-nos inférteis.

Mia Couto
in Economia- a fronteira da cultura (2003)

sábado, junho 23, 2007

Contas às contas


Essa vida é uma estranha hospedaria
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia.

Mário Quintana

Tênis x Frescobol


de Rubem Alves



Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\’ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo…’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\’ não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\’. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\’. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…(O retorno e terno, p. 51.)

terça-feira, junho 19, 2007

gente escaldada


"Não é fácil ser-se recibo verde em Portugal!"

O FERVE dá conta: Fartos dE Recibos VErdes.
Fartos e fartas!

O estilo é cru, ao jeito de comunicados mecanografados, mas a Ideia é urgente, como quase sempre. Dei pela fervura depois do Mayday, dou por eles e por elas todos os dias de todos os meses de há anos demais.

sexta-feira, junho 15, 2007

Transcrito Com Vénia

ISTO É MEU

isto é belo
isto é arte
Isto é meu

FANTASMAS: Queremos ser vanguarda/queremos o novo/vamos destruir o velho/teatro é chato/a arte com 'a' maiúsculo é elitista/vamos acabar com isso/vamos fazer um manifesto/a arte morreu/a arte morreu de novo/quem é hegel?/brillo box? O que é brillo box?/vamos demolir tudo, mesmo o que a gente não conhece

OUTROS: E se abríssemos mão dos cânones? E se tentássemos esquecer que eles existem? Por que você quer o lugar do velho? O velho fala muito alto? Você se sente ofuscado? Você não consegue abrir um buraco novo no mundo? Que saco isso de ter que ser novo.

O CANDIDATO A CÂNONE: O "novo" é a nova "aura".

CORO: Os cânones são opressores. Não podemos conviver com eles. Esquece o cânone. Esquece.

MEU: Não dá. Eu amo os cânones. A questão é que eles não podem ficar lá, sentados nas suas poltronas imaginárias. Eles precisam ser perturbados, eles precisam continuar falando, mas podem dizer outras coisas. Então convidamos os cânones a sair das bibliotecas, dos museus, das europas, e trazemos um ou outro pra uma mesa de bar. Vamos embriagar os cânones. Vamos fazer perguntas as mais constrangedoras. Vamos tirar a calcinha do cânone. Não, não precisa tanto, se não for o caso. Vamos só deixar a porta aberta (aquela "porta teórica e que de porta mesmo só tem uma indicação sumária" como diria Nelson Rodrigues). E então você entra no reduto sagrado do cânone. Você está de pé, afinal de contas – dizem – nossos joelhos não se dobram mais. Você passeia entre os nomes nos seus singelos ou suntuosos pedestais. Você olha em volta num estado de dispersão atenta. Você está pescando cânones. Sua isca, uma minhoca qualquer, que é o que você tem, está suspensa por ali. Uma coleção de sensibilidades antigas - ou até novas porém validadas – canta seu canto sedutor. E lá está você, preso no mastro talvez, mas esperando/procurando o seu peixe grande. Alguns nomes parecem olhar para o próprio pedestal com total indiferença. Eles dizem: "você pode me ler se você quiser". Outros praticamente se impõem. É difícil escolher. Você ouve... "me pega"... "me olha"... "me resgata"... "me analisa"... "me desloca"... "me contempla"... "me estuda"... "me copia"... "me tira daqui"... "me ama"... "essa moldura tá me machucando"... "me sublinha"... "me digitaliza"... "me destrói"... "me traduz"... "me compra"... "me come"... hein?

ME COME.
Eu já ouvi isso antes.
Me come. - diz o cânone.
Posso mesmo? - você pergunta.
Você me devora e, assim, me decifra.

Você fica enorme. Depois muito pequena. E às vezes não acontece nada. Nossos joelhos se dobram sim, mas é pra colocar as mãos no chão. Porque elas estão muito limpinhas. E não dá pra pegar no canône com as mãos limpas. Você está de quatro pelo cânone. Você fica de quatro pro cânone. Você e o cânone têm agora uma grande intimidade. Você está comendo o cânone. Aliás, vários.

Eles são amigos, mesmo quando rivais, o diálogo entre eles é intenso e prolixo, cheios de silêncios de Pinter e de discursos de Osborne; de convenções e seus negativos; de jogos e linguagens; solilóquios precisos e limpos, manchados de Beckett e Ensor; internos de família e espaços outros, explodidos, extintos. Nem todos se calam como Joyce nos seus finais. Pactos se estendem do nórdico ao grande sertão do Brasil. Muita Europa. Muita Europa... Faustos todos, pagaram seus preços. Até dar tiro na cabeça um ou outro já deu. "Muito trabalho" eles dizem. "Muito trabalho". Tanto trabalho pra ficar aqui embalsamado, feito múmia. O mofo é o preço da aura?

"Tira minha aura."

E você vai tirando, devagar, a aura do seu cânone. Eu disse: "seu canône". E assim vamos, devorando cânones, mastigando cânones, engolindo e cuspindo cânones. Há quem saiba até mesmo vomitar cânone. Mas passou da minha goela, é meu. Isso ninguém pode negar. Enzimas digestivas são criaturas sem cerimônia. Mas tem também as enzimas cerebrais. Despudoradas enzimas cerebrais. Tradutoras inatas, traidoras também. Devoradoras de esfinges. Mas toda europa tem suas fronteiras. Pois a fala, a escrita... aí são outros quinhentos. A polícia federal da linguagem produtiva é cascuda. Muita censura. Muita censura... O cânone tem passe livre pra entrar pelos olhos, ouvidos, por todos os sentidos tem passaporte de cidadão europeu, mas na hora de botar o cânone pra fora, mastigado, digerido, transformado, "meu", na hora de fazer ele sair pela garganta, pelas mãos que dóem de tanto escrever, pelas pontas dos dedos de unhas curtas pra digitar melhor... aí ele é muçulmano, latino, boliviano nos Estados Unidos, pária. Porque no espaço público a aura se reconfigura imediatamente. Passou o efeito: fiquei pequena de novo.

"Isto é meu" é muito difícil de dizer. Minha isca, minha minhoca qualquer, minha moqueca de peixe grande... se é belo, não sei, se é arte, não sei. Mas se é meu (será que é meu mesmo? Não é uma adaptação? Um plágio? Um pastiche? Tenho que pôr nota de pé de página?) tem que ter seu lugar no mundo. Mas "vale tudo"? "Vale tudo" é uma armadilha pros trouxas. Não vale tudo não, Pedro Bó. Do nada nada vem. E tira o seu nada daqui. O seu "nada" não pode devorar o meu "meu".

Quem pode dizer isto é arte, quem pode dizer isto é belo? Quem se interessa? Talvez seja isso, é quem se interessa que pode dizer "isto é belo", "isto é arte", no seu interesse desinteressado; os inferiores superiores atentos iguais do professor Jacotot. Por puro afeto. Mas dizer com afeto "isto é meu" está muito, mas muito fora de moda mesmo. Experimenta. Diz: Oi. É, você, você mesmo que não me conhece, quero te dar uma coisa, você que me olha e não me vê, presta atenção em mim um instante, você que troca meu nome e some nas altas da madrugada, que nem conhece essa música do Djavan que eu acabei de citar, que está distraído aí, olha pra cá: toma; ISTO É MEU, ISTO É BELO E ISTO É ARTE, é puro afeto, agora é seu. Faz o que você quiser, mas faz alguma coisa: me pega, me olha, me resgata, me analisa, me desloca, me contempla, me estuda, me copia, (me tira daqui), me ama, (essa moldura tá me machucando), me sublinha, me digitaliza, me destrói, me traduz, me compra, me come.


Um beijo,
Daní
26 de maio de 2007

Perguntas em implosão


"As únicas respostas interessantes são aquelas que destroem as perguntas."
Susan Sontag
Mais: www.susansontag.com


domingo, junho 10, 2007

HonestIdade


“O segredo do êxito é a honestidade. Se puderes evitá-la, consegues lá chegar.”
Groucho Marx

com a devida vénia ao Corta-Fitas

sábado, junho 09, 2007

Ao alcance da mão ou dessacralizar a escrita

Escribir –esa tarea que parece un difícil arte pero que es más fácil de lo que creen si hay práctica y ganas- permite tener voz y ser visible es un mundo en el que unos pocos infelices se disputan la visibilidad para sentirse superiores. Y permite ser visibles y tener voz precisamente para decir las propias palabras, para gritar las propias opiniones, para proclamar que existimos a pesar de todo y de todos. Investigar y contar los resultados permite crear una nueva profesión, remodelarla de acuerdo a nuestras necesidades cotidianas.
Y construir teoría no es tan difícil. Ocurre que con la teoría podemos cambiar la práctica. Y hay muchos –muchísimos, como mi buen amigo el “gran editor”- que están muy contentos con el palacio de cristal del que son cortesanos, y no quieren que nada cambie
Civallero, 2007
e tem mais

simples coisas


Canción de las simples cosas
(César Isella - Gustavo Leguizamón)

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,
lo mismo que un árbol en tiempos de otoño muere por sus hojas.
Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,
esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.

Uno vuelve siempre a los viejos sitios en que amó la vida,
y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

Demórate aquí, en la luz mayor de este mediodía,
donde encontrarás con el pan al sol la mesa servida.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

Demórate aquí... por eso muchacho...


A voz é de Mercedes Sosa

Poema de calcular

Eu por mim escrevi isto a pensar na Emília, que também não é como os outros.

Concursos para Titular, Precarização & Escolas


Dificilmente a arbitrariedade gera a qualidade, mas muitas vezes cimenta pequenos poderes.
Esperemos conseguir resistir, individual e colectivamente, à tentação de nos virarmos uns contra os outros, incluindo esquecendo os não professores que trabalham nas escolas. A precarização avança, para todos. Fora das escolas, dentro delas.
Já não tenho filhos em idade escolar, mas a vontade de emigrar acontece-me como a quem os tem, e mais seria se os tivesse (pois ELES teriam de usar esta escola).
Difícil mesmo é, combatendo estas medidas mais ou menos canhestras, não deixar de defender mudanças na Escola, que bem precisa, pois como tem estado também não basta mesmo - o que se vem aprendendo, e como, está longe do que precisamos que se aprenda, e dos processos que desenvolvem cidadãos que sejam incapazes de arbitrariedades e de as apoiar (mesmo que se apliquem só aos outros...).
Em cada sector, temos de continuar, ou começar, a escrever, a intervir, e de formas diversas, não apenas no forum sindical - mas também aí.
Por mim, convido-vos a MOBErem-se, como o estamos a fazer sobre as bibliotecas escolares. Como os blogs que provocaram este post, Professor Sem Quadro, e o Tuga, e tantos outros, são felizmente prova. De vida. Devida, se não aos nossos filhos, certamente aos nossos netos, e aos netos de todos.

Tem dias

Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá


Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

Chico Buarque (1967) e MP4

sexta-feira, junho 08, 2007

MOBE Era uma vez uma petição sobre as Bibliotecas Escolares











Talvez já saibam, ou talvez não.
As Bibliotecas Escolares são objecto de uma petição que está neste momento aberta em linha/on line.

Depois de algumas peripécias, ficou aqui http://www.abaixoassinado.org/webroot/abaixoassinados/55.
Aproveitei para colocar a história deste texto, e o próprio texto, num blogue, aberto a comentários em http://rbeplus.blogspot.com/
Peço imensa desculpa a toda a gente, e solicito a quem já subscreveu que repita a operação. Bem hajam pela compreensão e a paciência.
Divulguem, por favor

Vou tentar retirar o primeiro publicado online, que estava ilegível por causa do império da grafia anglo-saxónica. Bem hajam pela compreensão e a paciência.
Divulguem, por favor
Se quiserem comentar no blogue, tabém ajuda a fazer movimento. Uma espécie de MOBE...-- Movimento Biblioteca Escolar. Com vénia a Civallero, lá na remota Córdova argentina, e na foto a escutar.

It's possible you've already heard about, or perhaps not yet.
Portuguese School Libraries are object of a petition online, available, after some troubles (usual websites for these purposes are anglosaxonic, and our graphics are not readable, with all our ~ and ç, and ´`^^), on
http://www.abaixoassinado.org/webroot/abaixoassinados/55
Full story and more details,
http://rbeplus.blogspot.com/
Please, read, spread, comment. It would help to build a Movement, a kind of MOBE/SLM (Movement for Schhool Libraries). And a smile to
Civallero, who writes in his distant Cordoba (Argentina).
Thanks

domingo, maio 20, 2007

Ler com outros pela mão de Karen, mesmo trilho, muitos pontos do mundo

Web 2.= is also a platform, perhaps one of the few available between generations of the same species (according to Human DNA)...
Web 2.0= também se trata de uma plataforma, talvez uma das poucas disponíveis entre gerações da mesma espécie (de acordo com o ADNHumano)...

On this subject, I find an interesting resource from Karen Bonanno (2007), one of IASL Directors, Visions of Learning in a Networked World / K. Bonanno (Singapore, 2007) .ppt (I've already put it in our Sharing Links)

Sobre este ponto, achei interessante o recurso on-line de Karen Bonanno (2007), uma das Directoras do IASL,
Visions of Learning in a Networked World / K. Bonanno (Singapore, 2007) .ppt,(já coloquei no nosso Partilhando Pistas)
She quote Prensky, M (2001 and 2005):
Ela cita Prensky, M (2001, 2005)

The Boomers [Baby Boomers]  Digital immigrants
“..those of us who were not born into the digital world but have, at some later point in our lives, become fascinated by and adopted many or most aspects of the new technology.
[Prensky, M 2001, ‘Digital natives, digital immigrants’ in On the horizon,
Vol. 9, No. 5, see http://www.marcprensky.com/writing/]

Os Baby Boomers
Imigrantes digitais
"... aqueles de nós que não nasceram no mundo digital mas ficaram, num qualquer momento mais tardio das nossas vidas, fascinados e adoptaram muitos ou a maior parte das facetas da nova tecnologia."
[Prensky, M 2001, ‘Digital natives, digital immigrants’ in On the horizon,
Vol. 9, No. 5, see http://www.marcprensky.com/writing/]

Technology DNA
“Our young people have a much better idea of what the future is bringing than we do. They’re already busy adopting new systems for communicating (instant messaging), sharing (blogs), buying and selling (eBay), exchanging (peer-to-peer technology), creating (Flash), meeting (3D worlds), collecting (downloads), coordinating (wikis), evaluating (reputation systems), searching (Google), analyzing (SETI), reporting (camera phones), programming (modding), socializing (chat rooms), and even learning (Web surfing).”
(Prensky, M 2005, ‘Listen to the natives’ in Educational Leadership)


ADN Tecnologia
"Os nossos jovens têm uma ideia muito melhor sobre o futuro nos vai trazer do que nós temos. Eles já estão ocupados a adoptar sistemas novos para comunicar (mensagens instantâneas), partilhar (blogs), comprar e vender (eBay), trocar (tecnologias peer-to-peer), criar (Flash), encontrar ou reunir (mundos 3D), recolher (downloads), coordenar (wikis), avaliar (sistemas de certificação/credibilização), pesquisar (Google), analisar (SETI), relatar (telefones com câmara), programar (modding), socializar (salas de chat) e mesmo aprender (Web surfing)."
(Prensky, M 2005, ‘Listen to the natives’ in Educational Leadership)
Mostrar contexto e seguimento

terça-feira, maio 15, 2007

Tempo e Formação E-learning



(Entrada para um portfolio construído numa Formação e-learning, usando a Plataforma CRIE)

A dimensão essencial, e um dos reais problemas de gestão desta formação e-learning.


Tempo exterior, cronometrável, calendarizável.
  • horários - verifico que a mancha horária mais utilizada por mim foi entre as 23 h e as 3 h
  • calendários - o fim de semana foi mais utilizado, com custos pessoais no lazer



Tempo interior, mensurável apenas na fluência do produto ou do processo (leitura rende ou não rende..), nascido da gestão do cansaço e da atitude, mas também elástico quando interesse das propostas aumenta. Ilusão, no sentido castelhano (ilusión), alarga o tempo.
  • menos lazer, mais stress, menos tempo "útil"
  • neste caso, aumenta o valor desse tempo quando NÃO afectamos o fim de semana a estas tarefas - um minuto depois de descansar vale mais que 30 em stress.. do ponto de vista do produto-aprendizagem e do ponto de vista do produto-partilha (textos, comentários, etc)




Tempo digital, dependendo dos recursos electrónicos, computador+ligação à web+custos efectivos para o utilizador.
  • o mais cómodo para mim tem sido o computador fixo em casa, netcabo ou sapoadsl; estou estudando os custos dos vários serviços de banda larga
  • imagino que estes processos de formação elearning excluem à partida, para além do óbvio requisito de alguma destreza na utilização do computador e dos acessos à web
    • quem não tenha computador em casa (no seu suposto espaço/tempo de lazer)
    • (em alternativa) quem, tendo embora acesso a meios informáticos no local de trabalho (o que lhe libertaria o espaço/tempo de lazer, conquistado a duras penas desde o séc. XIX por lutas sociais), tenha efectivamente que cumprir actividades no horário total de trabalho, dedicadas à produção e não à sua produção
    • quem viva/trabalhe em áreas geográficas com acesso instável ou caro - para quando a banda larga gratuita e veloz em todo o País?
  • o mais caro, para mim, aconteceu a 26 de Abril - por desconhecimento das regras do contrato TMN, dispendi 40 minutos a trabalhar, depois das 23 h (a Happy hour Não funciona em Roaming!) e a descarregar ficheiros - o que elevou o custo das comunicações via Banda TMN (placa no computador portátil) de uns regulares 15 € para cerca de 500 € (regras de roaming - estava na Áustria - o que vale é a dimensão dos ficheiros descarregados); aprendi:
  • a não descarregar ficheiros quando estou fora, usando a placa do computador portátil - vou a um cibercafé e levo uma pen, por exemplo,ou escolho um hotel com internet gratuita (há muitos);
  • a colocar sempre a informação também em ficheiros zip, ou rar - para ajudar os outros...
  • que a placa funciona lindamente, nem senti o tempo (do relógio) passar
  • a concluir que se a educação é cara, muito mais cara é a ignorância... cool


Quanto maior foi a coincidência destes 3 tempos, maior o rendimento em termos de participação e de aprendizagem.

Viver não custa?
Ai, saibamos viver.
MJV

sábado, maio 12, 2007

As leituras são como as cerejas


Lágrimas também ela sabia pesar. Lispector, a C.
E eu, a ler sem balança, mesmo ali no meio deles.


Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes quem sabe a ser dita
Tem o peso de
uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector

Partilhas do dia de hoje (doze do cinco) - 4


Fontes para saber mais sobre Gianni Rodari – vício de Biblioteca!

Derradeira citação:

«Quanto pesa una lacrima?» «Secondo: la lacrima di un bambino capriccioso pesa meno del vento, quella di un bambino affamato pesa più di tutta la terra.» (Favole al telefono)

“Quanto pesa uma lágrima?” “Depende: a lágrima de um menino mimado pesa menos que o vento, a de um menino com fome pesa mais que a Terra inteira.” (Histórias ao telefone)

Imagem de Mosaico de Yone Lins in
http://yonelins.tripod.com/


Partilhas do dia de hoje (doze do cinco) - 3

17. CAPUCHINHO VERMELHO DE HELICÓPTERO

Vi fazer este jogo em algumas escolas. Dão-se às crianças algumas palavras, sobre as quais deverão inventar uma história. Cinco palavras, por exemplo, surgem em série e sugerem a história do Capuchinho Vermelho: “menina”, “floresta”, “flores”, “lobo” e “avó”. A sexta desfaz a série: por exemplo, “helicóptero”.

Os professores, ou os outros autores da experiência, medem com este jogo-exercício a capacidade que têm as crianças de reagir a um elemento novo e, em relação a uma certa série de acontecimentos, inesperado; e de absorver a palavra dada na história conhecida; e de fazer reagir as palavras do costume ao novo contexto em que virão a encontrar-se.

Visto de perto, o jogo tem a forma de um binómio fantástico: de um lado está o Capuchinho Vermelho, do outro, o helicóptero. O segundo termo do binómio é uma única palavra. O primeiro uma série de palavras, que no entanto em relação à palavra helicóptero se comportam como um conjunto. Assim, tudo é claro do ponto de vista da lógica fantástica.

Os resultados mais interessantes para o psicólogo obtêm-se, penso eu, quando este tema fantástico se dá a frio, sem preparação, embora sem um mínimo de explicação.

Pessoalmente, tendo ouvido falar desta experiência a um professor de Viterbo de quem infelizmente perdi o nome e a morada, decidi servir-me dela durante um encontro com algumas crianças alunas da segunda classe bastante bloqueadas por uma rotina didáctica da pior espécie (cópias, ditados e análogos). Em resumo, nas piores condições. Tentara em vão fazer que deles nascesse uma história: empresa difícil, quando se aparece de repente, como um estranho, que custa a perceber-se o que quer. De resto, tinha poucos minutos à minha disposição porque me esperavam outras aulas. Mas não me agradava deixar aquelas crianças sem lhes dar algo que não fosse apenas a lembrança de um tipo esquisito que para se armar em palhaço se sentava no chão ou se punha em cima de uma cadeira (gestos necessários, naquele contexto, para quebrar a atmosfera burocrática criada pela presença do professor e do inspector escolar). Se ao menos tivesse trazido uma harmónica de boca, u pífaro, um tambor…

Finalmente lembrei-me de perguntar de algum queria contar a história do Capuchinho Vermelho. As raparigas indicam um rapaz, os rapazes apontam para uma menina.

“E agora”, peço depois de o rapazinho ter acabado de me debitar já não a história do Capuchinho Vermelho como lha deveria ter contado a avó, mas uma insípida lengalenga (recordação de uma récita escolar, coitado), “agora digam-me uma palavra qualquer”.

Não compreendem o que quer dizer qualquer, naturalmente. Temos de nos explicar. Por fim dizem-me: “cavalo”. Posso contar a história do capuchinho Vermelho que na floresta encontra um cavalo, montando-o e chegando a casa da avó antes do lobo…

Então vou ao quadro e escrevo, no meio de um belo silêncio finalmente cheio de expectativa, caloroso como uma fogueira: “menina”, “floresta”, “flores”, “lobo”, “avó “helicóptero”… Volto-me para a sala. Nem preciso de explicar o novo jogo. Os mais desembaraçados já somaram dois mais dois e levantaram a mão. Surge, a várias vozes, uma bela história em que o lobo, ao bater à porta da avó, é surpreendido por um helicóptero da polícia de trânsito lá em cima… “Mas o que está aquele a fazer? O que quer?”, interrogam-se os agentes. E descem em voo picado, mesmo a tempo de pô-lo em fuga precisamente na direcção do caçador…

Poder-se-ia discutir o conteúdo ideológico da nova criação, mas não creio que seja caso disso. É mais precioso o que se põe em movimento. Tenho a certeza de que aquelas crianças, de quando em quando, pedirão que se volte a fazer o jogo do Capuchinho Vermelho com uma palavra nova: conhecerão o prazer de inventar.

Uma experiência de invenção é boa quando as crianças se divertem com ela, mesmo que, para se chegar a esse objectivo (a criança como objectivo), possamos infringir as regras da própria experiência.

(Rodari, Gramática...p. 75-77)

Partilhas do dia de hoje (doze do cinco) - 2

Onde ia ele buscar as ideias?

Se tivéssemos também uma Fantástica, tal como temos uma Lógica, descobrir-se-ia a arte de inventar.

Novalis (1772-1801)

Citado por Gianni Rodari (o.c., p. 4)


[Citando Dewey (1859-1952), em Como pensamos]

O pensamento deve ser reservado ao novo, ao precário, ao problemático. Daqui, o sentimento de contrição mental e de perda de tempo que as crianças experimentam quando lhes pedem que reflictam sobre coisas familiares.

Inimigo do pensamento é o aborrecimento. Mas e convidarmos as crianças a pensar “o que aconteceria se a Sicília perdesse os botões”, posso apostar todos os meus botões que elas não se aborreceriam. (p. 207)

Partilhas do dia de hoje (doze do cinco) - 1



Café da manhã, sol & bica.

Hoje deu-me para ler. E pude ler: houve tempo, silêncio a alargar o tempo, livros e serenidade. Há Prazer no Poder, de facto! Pelo menos neste Poder de Ler.


Topei com a Gramática da Fantasia: introdução à arte de contar histórias, de Gianni Rodari (1920-1980), e não resisti a partilhar convosco o reencontro com uma das vozes culpadas do meu apego à Educação e, nela, à rua que há entre Artes, Ciências e Filosofia, só transitáveis por quem o faz de olhos postos nas crianças e nos jovens.

Se alguém ainda não o conhecia, ficarei só por isso perdoada por este atrevimento?

A edição citada é a 5ª da tradução de José António Colaço Barreiros, publicada pela Editorial Caminho em 2004, feita a partir do texto La Grammatica della Fantasia - Introduzione all'arte di inventare storie ( Não refere a edição de origem da tradução. A mais antiga que eu conheço é da preciosa Casa Einaudi, em Milão, 1974)

Imagens - site da BPF La torta in rete

quinta-feira, abril 12, 2007

9º Congresso BAD


Para mim, trabalheiras (desta vez estive entre os voluntários da Organização) recompensadas pela afluência, a vivacidade, as críticas, os encontros e desencontros, a aprendizagem imensa e rápida. Incluindo daquilo que devemos fazer de outra maneira, que é imenso!
Apesar da fraca afluência de público aos Painéis (2 sobre Bibliotecas Escolares, eles integrarm comunicações estimulantes de Katarina Berg/IASL Brasil-Caribe, Kathy Lemaire/SLA-UK, Lourense Das/Ensil,IASL-Europa, IFLA, Ana Melo/THEKA, Javier Fierro Gómez/Fundacion German Sanchez Ruipèrez, Maria Antónia Barreto/ISEL, Odília Baleiro/RBE, incluindo a colaboração de Maria Isabel Lopes Rodrigues / Direcção Regional de Educação dos Açores.
Apresentei uma comunicação pessoal, sobre Bibliotecas Escolares & os seus recursos humanos, Agora toda a gente vai à escola, que espero fique em breve disponível, como todos os textos, no site da BAD. Assim que descobrir como, coloco-a também aqui.
O momento de video-conferência Skype foi uma experiência interessante, moderada por Niels Damgaard/IFLA Section 11 , a partir de Oslo, que deveremos repetir com mais preparação.
O painel sobre weblogs , dinamizado pela colega Luísa Alvim, foi um sucesso, e dele muito se tem comentado na blogosfera, prolongando assim o Congresso em espaços virtuais. Júlio Anjos e Pedro Príncipe destacam-se nestas matérias, e como de costume oferecem-nos portais de reflexão.
A beleza de Ponta Delgada e da Ilha de São Miguel deixam saudades e um brilho na memória.
Foi boa a persistência dos colegas do Delegação Regional da BAD nos Açores, que desde 1999 propuseram esta realização! Parabéns!

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

SIM

foto de Joyce (2002)

simsimsimsimsimsimsim

Mais de metade dos votantes
Em quase metade dos votáveis

Mais um passo GRANDE

Obrigada

domingo, fevereiro 11, 2007

Assis Pacheco II (a ministros que falam e a alguns que calam)

ESTE MINISTRO É UM MENTIROSO

Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!

bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha

Fernando Assis Pacheco

Assis Pacheco I

MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,

não limpei o óleo do cano,

dizem que a guerra mata: a minha

desfez-me logo à chegada.


Não houve pois cercos, balas

que demovessem este forçado.

Viram-no à mesa com grandes livros,

com grandes copos, grandes mãos aterradas.


Viram-no mijar à noite nas tábuas

ou nas poucas ervas meio rapadas.

Olhar os morros, como se entendesse

o seu torpor de terra plácida.


Folheando uns papeis que sobraram

lembra-se agora de haver muito frio.

Dizem que a guerra passa: esta minha

passou-me para os ossos e não sai.



Fernando Assis Pacheco.

Homem de jornais e histórias, poeta.
Galego da estirpe mais rara, a da ironia. Gente da mais pura água. Ou da mais pura névoa, cinza como as manhãs frias bordando ribeiras em Coimbra e fragas por Fisterra. Carne e osso, mais aquela que este.
Qualquer coisa de nós todos, do verbo raro de Bocage, palavras letra a letra marteladas com um dedo só, na máquina de escrever.
Palavras mágicas quando as contava, sons de encantar, sempre com um fio verde amargo indistinto a grão de lucidez. A propósito, aposto que odiava homenagens e tudo o que é chato, evangélico e previsível. Ou seja, falso.
Dele vão falar na Casa Fernando Pessoa, nas próximas quintas-feiras. Os amigos, claro, e os que depois vieram. Nos livros, do Walt à poesia, das crónicas espalhadas pelos arquivos dos jornais e pela rádio. Pai de filhas, mais, e filho, um. Ventania, brisa, ar que por aí anda à espera que o respiremos.
Coisa ruim no-lo levou, Novembro adiante, há uns tempos atrás, junto à livraria. Ainda livre, para sempre livro.
Outras ruindades o tinham ferido por dentro, muito antes.

domingo, fevereiro 04, 2007

Antes de votar


SIM


REFERENDO

11 DE FEVEREIRO



Vera Drake

Filme de Mike Leigh (2004)

Legendado em português


Ver e pensar. Conversar e formar opinião.

Sobre o aborto, o filme, a vida dos portugueses e das portuguesas e o referendo de Domingo que vem.


8 de Fevereiro de 2006, 21 h,

Auditório da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira

Entrada livre


org. Núcleo concelhio do Bloco de Esquerda

Domingo que vem

Domingo que vem vamos votar. Espero que muitos e muitas, que desta vez não haja mais desculpas para recusar o voto.
Votar é dar opinião, a parte na decisão sobre as coisas da vida de toda a gente. Toda a gente é mesmo toda a gente, os outros, as outras, e nós.

Não se trata aqui de escolher para um cargo, um conjunto de promessas, um mandato de Presidente, Vereador, Deputado.
Não é um cargo, é um encargo que temos o poder de dar a alguém. Seja qual for o Governo, esteja quem estiver no Parlamento, fica com este encargo, dado pelo referendo, de mudar as leis de acordo com o referendo. Mas só se mais de 50% puserem o voto na urna, domingo que vem.

Ter opinião é pensar. Pensar por nós mesmos, com a nossa memória e nossa esperança, uma espécie de memória ao contrário, a gente a lembrar-se do que ainda não aconteceu.
Memória do que passámos e soubemos que outras pessoas passam, naquela parte da vida de cada um que devia ser privada, íntima, resultado de escolhas pessoais e intransmissíveis, aberta ao apoio e à amizade, mas fechada à coscuvilhice e à tirania. Decisões tomadas com consciência, mas sem pavor. Com conhecimento e tranquilidade. A tempo.

Votarei SIM. Faço campanha pelo SIM.
Tenho memória, lembro-me de tantas conversas, tantos casos, tão diferentes uns dos outros e tão parecidos no respeito que merecem.
Tenho conhecimento. Sei que todos os métodos podem falhar, e que nem sempre conseguimos apanhar a tempo as rédeas da nossa vida, há muitas coisas que às vezes não são o que parecem.
Tenho esperança, não há-de ser sempre assim cruel esta terra, nem as suas leis tão toscas, sobretudo para quem é mais pobre, com menos conhecimento, com vidas mais precárias, com aflições muito suas. E que merece o mesmo respeito que aqueles e aquelas com mais recursos materiais ou mais felicidade, ou mais fé...

Espero que o SIM ganhe, por todas as meninas que agora ainda mal gatinham, que já nasceram, e por quem me sinto responsável, pelo simples facto de serem os crescidos, como eu e vós, leitores e leitoras, que lhes preparam o futuro.
Espero que o SIM ganhe, por todos os meninos que as hão-de amar, e ser amados por elas. A felicidade de uns ganha com a serenidade das outras.

Deixaremos de sentir a surdina e o silêncio do aborto clandestino, em más condições de saúde na sua realização e, também, no momento da sua decisão.
Só procura ajuda, só conversa sobre o que lhe dói aquele, aquela, que acredita que alguém ouvirá com atenção e sem preconceito nem hipocrisia.
Ganhando o sim, quem decide não interromper a gravidez mantém, intacta, a sua liberdade de o fazer. Ganhando o não, só é consentido um caminho, e negado o respeito a quem não o seguir. Despenalizar é isso mesmo: despenalizar, acabar com a situação actual que castiga as mulheres e nos envergonha a todos e a todas.

Podemos, devemos, havemos de continuar a trabalhar e debater depois do referendo muita coisa da vida de toda a gente, muita maneira de fazer este País muito melhor do que é. Cá estaremos.

Domingo que vem, usemos a democracia para mostrar que temos opinião, que encomendamos a quem o deve fazer leis mais justas, um país onde haja direito à saúde e à liberdade, onde seja melhor viver. Todos os dias. Mesmo naqueles em que há problemas difíceis, pessoais, intransmissíveis. Mesmo para aqueles, aquelas, que não pensam como nós.

sábado, janeiro 27, 2007

Sim no referendo, com humor


SIM. Argumentar é preciso, vamos a isso!

Tenho vergonha de uma lei que condena as mulheres a penas até três anos de cadeia porque decidiram abortar. É um problema grave, eu sei. Não se resolve com a despenalização, também sei. De resto não sei mais nada. Não sei nada da vida e tenho perguntado às coisas vivas. Não sei nada da consciência e tenho estudado o Sistema Nervoso Central. Não sei quando as coisas começam ou acabam. Não sei nada dos outros. Vejo o sofrimento e como somos desiguais no sofrimento. E vejo os que sabem e os que julgam que sabem e agradeço-lhes a convicção e o esforço que fazem para que a luz da sua sabedoria se derrame também sobre os que não receberam a graça. Mas enquanto não é tempo, suspendamos os juízos.

Da Natureza do Mal
e também do
Blog do SIM

Assim leio, lemos, nos lemos.
Melhor não digo hoje, e aqui vou repicando o SIM, como posso, para que dia 11 se vire a página, juízos suspensos, respeito entre nós activo. Mesmo.