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quarta-feira, agosto 12, 2020

Direitos de Literacia - Cidadania Europeia




11 PONTOS DESTACADOS
ELINET - PROGRAMA EUROPEU LIFELONG LEARNING

Declaração dos Direitos de Literacia dos Cidadãos Europeus, ELINET - Rede Europeia de Literacia, 2016

Todas as pessoas na Europa têm direito à literacia. Os Estados-Membros da UE devem assegurar que sejam facultados às pessoas de todas as idades, independentemente da sua classe social, religião, etnia, origem e género, os recursos e as oportunidades necessários para desenvolverem competências de literacia suficientes e sustentáveis por forma a compreenderem e utilizarem de modo eficaz a comunicação escrita, seja ela manual, impressa ou digital.

Texto integral da Declaração aqui




segunda-feira, junho 15, 2020

Escola da Palavra : urgente

Lamberto Maffei - WOOKElogio da Palavra - Livro - WOOKElogio da Rebeldia - Livro - WOOK



"Maffei refere-se ao cérebro em todos os seus elogios. No Elogio da Palavra:  “A evolução demorou milénios a modificar o cérebro para dar a palavra ao homem. Este depois inventou a escrita para que as palavras tivessem significados permanentes e fossem próteses da memórias.” Embora reconhecendo o primado do social no humano chama a atenção dos perigos do “cérebro globalizado.” Como diria Magritte, “isso não é um cérebro”. A Internet está inundada de exibição em vez de informação, tagarelice em vez de debate, propaganda em vez de racionalidade: “O cérebro globalizado é entregue gratuitamente no domicílio através dos meios visuais e verbais, autênticos traficantes da mente, como o melhor dos cérebros possíveis, indispensável para o futuro, para o progresso e para o aumento do PIB”. O cérebro do autor – que é único - revolta-se contra esse “cérebro globalizado”, que recusa a lentidão e a palavra que o cérebro individual exigem.   
Para termos cérebros precisamos de escola. Maffei defende a “escola da palavra”. A sua posição está em linha com obras recentes da filósofa norte-americana Martha Nussbaum e do professor italiano de Literatura Nuccio Ordine, que ele cita. A primeira, em Sem Fins Lucrativos (Edições 70, 2019), defende que a democracia precisa das humanidades e o segundo, em A Utilidade do Inútil (Faktoria K, 2017), pugna pela necessidade do saber desinteressado. A escola deveria recuperar o poder da palavra, em vez de dar certificados a analfabetos funcionais. Maffei levanta a hipótese de que a actual incúria da escola tenha sido programada: “Súbditos mudos, não educados para a palavra e para o pensamento, são cidadãos funcionais para uma democracia de fachada.” Receio que ele tenha razão.
(...)
Se temos um cérebro, só nosso, é nossa obrigação usá-lo. Deveria ser óbvio, mas talvez valha a pena lembrar que não há liberdade se não houver pensamento, ou se apenas houver o pensamento único do “cérebro globalizado."
Carlos Fiolhais, numa bela recensão, aqui Lamberto Maffei. Elogio de Três Elogios (2020)

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

Escola Azul Parceria Laredo







Cetáceo Bonifácio, ilustração de Miguel Horta em Rimas salgadas (2015),  obra esgotada

Divulgação da actividade "Leitura, Literacia do Oceano e Agenda 2030"




A Agenda 2030 alerta-nos para a Literacia, o conhecimento dos oceanos e dos mares e a educação marinha multidisciplinar. Na Laredo, preparámos 10 actividades que podem ser realizadas em todo o país. Como sempre, com as Bibliotecas, as Artes, a Leitura e a Natureza no coração da aprendizagem. Para a rede Escola Azul, com condições muito especiais.

Formação. Mediação leitora e artistica. Oficinas.. Espectáculos Residências. Cursos.
Escola Azul é um programa educativo do Ministério do Mar que tem como missão promover a Literacia do Oceano em Portugal. É uma honra e um gosto sermos seus parceiros. 
Vejam aqui:

Pode ser que vos interesse e que queiram divulgar. Ou que vos inspire para olhar e amar o mar e as palavras que no-lo ensinam. Só isso, já me alegra o coração.






















segunda-feira, janeiro 27, 2020

Faltam perguntas

Eat time | 2017 | Cristiano Mangovo (cortesia do artista e da galeria MOVART)Eat time | 2017 | Cristiano Mangovo (cortesia do artista e da galeria MOVART)
















"não podemos dizer que em Itália não se produza cultura, antes pelo contrário existe um número significativo de pessoas que se ocupam de cultura a vários níveis. Publicam-se muitíssimos livros, há uma oferta cultural variada, o problema é que ela se dilui cada vez mais num sistema de eventos, festivais, lançamentos e recensões mútuas e de cortesia,  elementos que acabaram por criar um sistema fechado, solipsista e interdito à maioria das pessoas que o rotula como prerrogativa da “esquerda”, que representa para muita gente a velha ordem e que falhou infelizmente o seu objetivo de criar uma sociedade mais justa. 
O problema é que dentro de um sistema desse tipo, poucos e quase nada exercem um verdadeiro ofício crítico útil para a sociedade, vindo-se assim a esgotar qualquer função civil da cultura. 
Acaba assim por se construir na cena cultural uma contra-narrativa apenas superficial do populismo e do racismo reinante, que exerce uma função auto-reconfortante  alimentada pela constante autopromoção do que se escreve, se filma, se pinta, se encena etc.

São práticas que se tornam produtos de um mercado cultural profundamente narcisista incapaz de se abrir para um “nós sincero” como escreve ainda Fofi e que cria um sistema de hábitos sociais vistos pela maioria dos italianos, que hoje vivem descomplexadamente a sua ignorância, como manifestações sem sentido que promovem, muitas vezes contraditoriamente, valores vistos como inúteis quando não nocivos para a sociedade porque não respeitam o lema “prima gli italiani” e porque se inspiram em princípios solidários. 

Falta militância, pressuposto do verdadeiro exercício intelectual, no sentido de promover a capacidade de repensar o país partindo da educação."

https://www.buala.org/pt/a-ler/la-grande-bellezza-breve-apontamento-sobre-a-cultura-hoje?fbclid=IwAR2MJe_mNWTRcLdjtPKhRQU0w7Y-LpCFERrhVZWG8yMHyp9mftG2O12518I

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Micro-manifesto pela Cultura



Praticar desporto. Caminhar, respirar, dançar. Cantar. Contar histórias e escutá-las.
Ler um livro, ler jornais. Escrever uma ideia por dia, nova, menos nova, bonita, assim-assim.
Rir.

Apanhar ar. Conversar com gente real, na rua.
Ir a um concerto, ir ao teatro, sair de casa e da prisão dos écrans - televisão, computador, smartphone, tablet, telemóvel.

Lutar por tempo livre, para não ser preciso correr entre 2 empregos, 16 horas por dia, dinheiro sempre curto, juros e juros.
Fazer tudo isto por si, e com outros. Por todos.
Exigir investimento que modifique os hábitos culturais e a visão sobre a cultura, sem esquecer que isto anda tudo ligado.

O que não se cultiva não se colhe.
A cultura começa no povo.

Isto anda tudo ligado

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Literacia curta e ligeira, dá asneira

 GETTY IMAGES.

A solução está na educação (na escola E ao longo da vida).  O problema não é a tecnologia, mas a literacia. Ler e entender, dá saúde e faz crescer, individual e  colectivamente.
 Literacia curta e ligeira, dá asneira.

Como valorizar o rigor em vez da rapidez? A leitura em vez da partilha imediata? A compreensão em vez do comentário?
Como educar as crianças a navegarem criticamente por si mesmas nas marés de informação, em vez de repetirem o que outros lhes dizem e confiarem em assitentes digitais que lhes pensam por elas e lhes explicam o mundo?
Como garantir que as escolas voltem a ensinar a triangular informação, a arbitrar conflitos, a separar factos de opiniões, a identificar sequências de informação, a orientar uma pesquia o, simplesmente, a verificar e validar antes de formular juízos ou tirar conclusões?
Como voltar a ensinar a sociedade a pensar?
Como resgatar a cidadania na selva informativa digital cada vez mais saturada de falsidades, sem mapa nem bússola que nos dê segurança?

Resposta: ensinar à cidadania mundial as bases da literacia da informação. 
Navegar é uma arte, viver também.
Como escreveu Camões: quem não sabe Arte não a estima.


"Beneath the spread of all “fake news,” misinformation, disinformation, digital falsehoods and foreign influence lies society’s failure to teach its citizenry information literacy: how to think critically about the deluge of information that confronts them in our modern digital age. 

Instead, society has prioritized speed over accuracy, sharing over reading, commenting over understanding. Children are taught to regurgitate what others tell them and to rely on digital assistants to curate the world rather than learn to navigate the informational landscape on their own. Schools no longer teach source triangulation, conflict arbitration, separating fact from opinion, citation chaining, conducting research or even the basic concept of verification and validation. In short, we’ve stopped teaching society how to think about information, leaving our citizenry adrift in the digital wilderness increasingly saturated with falsehoods without so much as a compass or map to help them find their way to safety. The solution is to teach the world's citizenry the basics of information literacy.

A Reminder That 'Fake News' Is An Information Literacy Problem - Not  A Techology Problem

Kalev LeetaruAI & Big Data




Ler mais aqui
https://www.forbes.com/sites/kalevleetaru/2019/07/07/a-reminder-that-fake-news-is-an-information-literacy-problem-not-a-technology-problem/?fbclid=IwAR2smEqrxZg1kI1ul2XjYqDbJBoVijinPCmoMohFSP2lLRj8RCvTIYZMmBU#457b72986a6f

sexta-feira, novembro 08, 2019

Design Circular - por mundos sem lixo

4 modelos de design para a economia circular


"Agora que temos consciência das consequências negativas desse modelo, e da economia linear como um todo, é fundamental mudarmos os critérios que definem um bom design. Não podemos dizer que um produto é de boa qualidade se ele é tóxico para as pessoas ou para o planeta, e se os materiais usados na sua composição se transformam em lixo após o primeiro uso. Por isso, o desenho de produtos também precisa incluir critérios de circularidade e de saúde humana e ambiental.
Esse quadro é desafiador, mas traz uma enorme oportunidade de inovação através do design, em todas as indústrias. Assim como os designers contribuíram para o desenvolvimento da economia linear, eles têm o potencial de liderar a transição para uma economia circular.
Se o lixo é um erro de design, o design circular é um elemento crucial para criarmos um mundo sem lixo.  Ou seja, um mundo em que produtos e sistemas são projetados para manter o valor dos recursos em circulação para as gerações futuras. Em que, mais do que reduzir o impacto negativo de nossas atividades, podemos criar processos benéficos para os seres humanos e para a biosfera.
Os designers e fabricantes que quiserem se aventurar por este caminho não estarão sozinhos. Cada vez mais profissionais, empresas e organizações estão apostando neste modelo, e investigando os princípios que guiam a transição para um futuro circular."
3 princípios: (1) Resíduos são nutrientes (2) Energia limpa e renovável (3) Celebrar a diversidade (de espécies, de culturas, de soluções)

4 modelos: conforme The Great Recovery Project (UK, 2012 e 2016) -  design para (1) longevidade (2) serviço (3) remanufactura (4) recuperação de materiais

A Escolha do Público recaiu numa empresa chilena, a Triciclos

Escolha do Público no The Circulars 2019
Foto do site da TriCiclos em http://triciclos.cl/wp-content/uploads/2016/09/SLIDER1-ESPANHOL.jpg

quinta-feira, outubro 31, 2019

PALAVRAS COM CORPO E ALMA. PORQUE A POBREZA NÃO É FICÇÃO.




"Sete palavras foram escolhidas por sete pessoas que vivem ou já viveram em situação de pobreza e exclusão social: “desigualdade”, “solidão”, “violência”, “fardo”, “preconceito”, “justiça”,  dignidade”. Cada palavra foi pintada no corpo da pessoa que a escolheu. É a nova campanha da Rede Europeia Antipobreza —EAPN-Portugal, na sigla inglesa.
“Vivemos numa sociedade muito desigual”, salienta Sandra Araújo, directora da EAPN-Portugal. O risco de pobreza aumenta quando se cruza género com idade, origem, etnia, capacidade/incapacidade. “Os fenómenos de pobreza continuam a atingir muitas pessoas e muitas vezes a pobreza é mal compreendida. Há muitos preconceitos, muitos estereótipos, muitos mitos.”Desmontá-los parece-lhe “uma dimensão muito importante”.A palavra “desigualdade” foi escolhida por Neide Conceição."
in Público 20191031  https://www.publico.pt/2019/10/30/sociedade/noticia/pobreza-desigualdade-solidao-violencia-fardo-preconceito-justica-dignidade-1891438

7 videos, 7 histórias reais, uma campanha contra a pobreza. Combatendo a pobreza de espírito, pela dignidade de todos




https://www.eapn.pt/#

segunda-feira, abril 23, 2018

Literacia em Saúde em Portugal - um debate político e educacional

saude em portugal-02



Pela nossa e vossa Saúde, atentemos ao que se passa neste dias em Portugal e alimentemos o debate.

O combate pela Literacia é fundamental para a democracia. Neste  caso, a literacia em saúde terá de incluir a consciência do peso das decisões públicas - políticas de saúde - no corpo e na vida de cada um de nós, e dos que amamos.


 um livro recente que talvez tenha interesse, da Gulbenkian que mostra que, tendo existido progressos (as gerações mais novas, antes dos 40 anos, revelam níveis menos baixos de literacia em saúde - ver gráfico da p. 12), há muito a fazer nesta matéria em Portugal.

Realmente, é um paradigma novo na educação para a saúde, na escola, mas não só, estratégia educativa ao longo da vida, mobilizando meios formais (escolares, incluindo universidade) e informais - incluindo a chamada "praça pública", presencial e a distância. Educação trans-disciplinar, evidentemente. Pese isto o que pesar às taxonomias académicas - e / ou corporativas - conservadoras.


Literacia em Saúde em Portugal - Fundação Calouste Gulbenkian

terça-feira, março 20, 2018

Discordar, argumentando com nível




Um artigo saboroso e certeiro, de Paul Graham, sobre discurso argumentativo, cada vez mais presente na web, onde, como ele escreve "tornamos a escrita numa conversa".

Como discordar de outro em bom nível?

No nível mais baixo desta hierarquia do desacordo, " Chamar nomes".
No nível mais alto, "Refutar o ponto central" do argumento de outro.

Muito frequentes, porém não muito profícuos, " Ad hominem - atacar as caraterísticas do eescritor, ou de quem fala, sem abordar a substância do que escreve ou diz" e "Resposta ao tom, centrando-se no tom do discurso sem tratar do conteúdo do mesmo."

Daí para cima, para discordar com jeito, temos de acautelar não apenas a posição que se toma (concordo, discordo, total ou parcialmente, nisto ou  naquilo), mas os argumentos que a justificam .- evidências, citações de erros ou enganos e proposta da sua correção. O mais exigente: distinguir o essencial do acessório, e abordar o essencial, confrontando posições diferentes

O mais importante, como disse Passos Manuel (1852) no Parlamento português, será a atitude:

Se não pode mudar de opinião, então não serve de nada a discussão.

The hierarchy of disagreement: The best and worst argument techniques | Big Think

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Bibliotecas & tecnologia, para quem?

survey process

Investigação desenvolvida nos EUA a partir de 2013. Últimos resultados : 31.12.2017, aqui https://impactsurvey.org/sites/impactsurvey.org/files/cumulative_report.pdf

Este estudo apresenta um entendimento de como é que a oferta de serviços de acesso público à tecnologia beneficia cada comunidade. Para ajudar a sua biblioteca a usar efetivamente estes resultados nos seus esforços de advocacy, convidam-nos a visitar o sítio web do estudo e aí encontrar algumas ferramentas para argumentação (http://impactsurvey.org/advocacy). 

Um extracto dos resultados

In addition to use while traveling, research has shown that there are several other reasons that drive people with alternative means of access to use technology resources at the library: 
  • Lack of access to high speed Internet at home: Library Internet allows people to download large files or websites requiring a high speed connection. 
  • Gaps in access: Such as when moving or during power outages. 
  • Household competition: Especially among youth, competition with siblings or parents over a single household computer drives users to the library. 
  • A change of scenery: People who work at home sometimes use library computers and wireless to get out of the house. 
  • Job seekers also use computers in the library to maintain a normal schedule and stay connected to the community. 
  • During lunch breaks or while out running errands: People stop in to check email, look up phone numbers or directions, or other quick tasks. 
  • As a supplement to the library catalog: Users look up book reviews, reading lists, and other aids for selecting materials.

quarta-feira, janeiro 10, 2018

Artes, museus e literacia - cultura e democracia

Imagem: Raoul Hausmann
"O combate à precarização laboral nas artes funciona em paralelo com valorização da cultura. É essencial, em primeiro lugar, combater a suborçamentação crónica reforçando os eixos: património, investigação, educação para a cultura. Usar o museu como centro dinamizador na preservação da experiência coletiva, criando um espaço que é do comum, fundamental na capacitação para o exercício de cidadania. Disponibilizar espaços de exposição informais, reconversão de edifícios para artista em residência reforçando práticas e experiências e criando territórios indiferenciados de crítica e questionamento que pensem outros modos de democratização e de maior articulação com os públicos. Consolidar as coleções das instituições com critérios de aquisição objetivos que permitam promover e apoiar o trabalho dos artistas. Construir públicos, colocando os serviços educativos como centrais na democratização dos conteúdos, criando, por exemplo, à semelhança de um Plano Nacional de Leitura e de Cinema, um plano de literacia para as artes formando públicos para os museus." 
Patrícia Barreira
Vale a pena ler o texto todo, nem sequer é muito grande, datado de Novembro de 2017, em Portugal, União Europeia.

O artista precário | Patrícia Barreira

sexta-feira, outubro 13, 2017

terça-feira, julho 11, 2017

Mudar

Imagem perplexa
Imagem partilhada por Albano Esteves Martins no Facebook (2017)

BIBLIOTECA, LARGO LUGAR DE ENCONTROS



Maria José Vitorino
Laredo Associação Cultural


Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje, é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.
O comboio matou o Largo.
Manuel da Fonseca, in “O Fogo e as Cinzas”, 1951


Agradeço o convite para este debate, saudando este dia em que se reunem profissionais de Pombal e da Região Centro de Portugal, parando para pensar nas nossas práticas e apontar novos caminhos para as bibliotecas, o que me deixa muito feliz.

Peço-vos que nos imaginemos no Ano da Graça de, por exemplo, 2037. Ultimamente tenho tido alguns problemas nos olhos, e talvez assim as perspectivas de futuro sejam mais acessíveis...

No já longínquo ano de 2017, Trump, à época Presidente de um grande país que existia a Sul do Canadá, rompeu com os acordos de Paris, assumindo a sua descrença dos objetivos de desenvolvimento sustentável que a ONU aprovara em 2015 para uma modesta agenda de 15 anos, até 2030.

Houve um momento de susto, até porque nesses anos aconteciam guerras mais intensas junto ao Mediterrâneo, e o poder do EUA, grande fornecedor de armas, era reconhecido. Todos sabemos que nos anos seguintes os acontecimentos surpreenderam muitos, e fizeram cair no esquecimento vozes que até aí se afirmavam como detentoras da única verdade sobre a História e o futuro. Escassos vinte anos depois, ninguém se lembra deles, e apenas os estudiosos dos arquivos de vez em quando tropeçam, sem se deter, num dos seus discursos inflamados e repletos de figuras numéricas – usava-se muito, ao tempo, compor palavras com gráficos mais ou menos opacos. Há quem diga que a crença na ilegibilidade da informação resultava de sobrevivências de práticas tribais, esconjurando os inimigos dos poderosos com rituais mais ou menos inúteis, porém de grande efeito dramático.

Coisa que hoje nos parece incrível: nos jornais da região da Europa da época, Trump ocupava muito espaço, mas o ITER nem por isso.

O ITER – sigla inspirada no palavra latina “iter” (caminho) e acrónimo de International Thermonuclear Experimental Reactor é um megaprojecto que visa a construção da instalação que permitirá - esperam os cientistas - demonstrar a viabilidade da produção de energia a partir da fusão nuclear. O projecto é, por agora (2017), fruto da colaboração da UE, EUA, Rússia, China, índia, Coreia e Japão, envolvendo muitas centenas de entidades de todos estes parceiros. Para além da mega-estrutura com milhares de sofisticados componentes, é surpreendente a complexidade de o levar por diante, sabendo-se que cada país interveniente é responsável por diversas partes. E depois tentar entender o entusiasmo dos que estão envolvidos, sabendo-se que a construção não estará concluída antes de 2025 e as primeiras experiências terão lugar lá para 2035. Fica em Cadarache, a 40km de Aix-en-Provence, França.

Para saber, em 2017, o que era o ITER, tinha de se ser frequentador de fontes alternativas, as “redes sociais” e os canais menos sustentados pelos financiamentos mais gordos. Frequentador e competente na leitura das mesmas fontes, para poder antecipar a História, ou uma parte dela.

O nosso futuro coletivo, mais ou menos previsível, depende destes canais e de quem, onde, quando e como neles navega e deles aproveita para agir.

As bibliotecas são um dispositivo consolidado em democracias que prezam a universalidade do acesso à informação e ao conhecimento, do mais simples ao mais complexo, fazendo parte dos mínimos obrigatórios na qualidade de vida dos cidadãos e no potencial de desenvolvimento da sociedade. Garantir o seu pleno funcionamento e o seu valor é, porém, mais que assegurar instalações e respostas tecnológicas, mais até que dotá-las de meios humanos, físicos, financeiros, por essenciais que estes sejam. Preciso é conseguir povoá-las, fazer com que se integrem na normalidade do quotidiano das pessoas, de todas as idades e perfis de interesse, como qualquer outro recurso de higiene diária.

Preciso é não apenas criá-las e não deixar que as matem, como conseguir que façam parte do essencial da vida – tornando uma utopia numa necessidade básica, por evolução do paradigma cultural dominante na população.

Cada biblioteca é diferente das outras, e todos os tipos de biblioteca são relevantes, mas neste trabalho de fomentar as condições de povoamento nenhumas se destacam tanto como as bibliotecas públicas e as escolares. Entenda-se aqui bibliotecas públicas como as que se assumem como parte da Cidade, no sentido lato – onde vivem as pessoas. Entendam-se por bibliotecas escolares as que se associam a instituições educativas formais – do jardim de infância ao ensino superior.

Convirá, no entanto, promover a coerência dos princípios para que a diversidade floresça pela colaboração, e o resultado seja um futuro melhor para toda a gente e em toda a parte. Esta tarefa, sempre urgente, nunca foi fácil. Pela sua complexidade, exige preparação permanente e atualizada dos seus agentes. Pela sua urgência, só se cumprirá sem pressas, com planeamento e determinação, agindo em simultâneo no longo, médio e curto prazo, nos territórios locais, regionais, nacionais e globais.

O que há de comum em todas essas dimensões? A tecnologia, responderão. É verdade, mas a tecnologia é frágil, sujeita a ameaças, e à sua própria natureza, que é de permanente alteração. O essencial, como sempre, é a gente, a sua existência e, sobretudo, a sua exigência, alimentada pela cultura, a arte, a ciência e a educação em todas as vertentes, do formal ao não formal.

Num mundo governado por algoritmos, nunca como hoje o domínio da palavra e do pensamento lógico foi tão determinante, e tão expressivo das desigualdades e iniquidades sociais. As palavras são preciosas, a escrita e a leitura redescobertas diariamente como instrumentos decisivos. A literatura vem-se reafirmando como uma das artes, e todas as artes e as ciências afinam ideias e palavras reconhecendo a mais valia do contributo literário. Como fruidores? Como criadores? A resposta é ambos. E o que há 100 anos pareceria desconcertante – dizia a Cecília Meireles “Ou isto ou aquilo” - surge hoje como evidente – teremos de ser e querer isto E aquilo.

Desafios e mudanças nas Bibliotecas passam por as fazer para todos, para tudo, para fruir e criar, aprender e ensinar, memória e informação, inquietação e abrigo. Sobretudo, lugar de gente em criação de si mesma como sujeito de futuro. Lugar corrente e quotidiano, acessível e facilitador de acessos, de encontro, e de encontros. Lugar de liberdade, pensamento e acção.

Que seja a biblioteca a casa onde cabe e se sabe toda a gente, um centro deste mundo que tantas vezes nos parece sem núcleo fixo. Algo de comum e primordial, como o Largo de que escreveu Manuel da Fonseca, e não um mero cruzamento de estradas.


Qual o lugar das bibliotecas? O lugar para onde se mudou a vida, e que nos ajuda a mudar de vida.


Texto apresentado em DESAFIOSE MUDANÇAS NAS BIBLIOTECAS : PERSPECTIVAS DE FUTURO. Pombal, 10 de Julho de 2017. Painel com Pedro Príncipe e Maria José Vitorino

sábado, julho 01, 2017

Helena Cidade Moura





Imagem partilhada pela ALEM. Portugal, 2017

Foi por ela que para sempre fiquei comprometida com a leitura e as pessoas.
Não sei quantas pessoas passaram a saber ler e escrever em Portugal, depois das campanhas de alfabetização de 1974, mas sei que muitos e muitos jovens que como eu nelas participaram nunca mais leram o seu País da mesma forma. Nem o escreveriam da mesma forma.
E este resultado não foi  casual, mas deliberado. Helena Cidade Moura soube sempre bem o que andou a fazer: cultura, política, educação, formação. A fazer Futuro, e Melhor Futuro.
Cinco anos depois da sua morte, no próximo dia 5 de Julho de 2017, em boa hora a A. L. E. M. e o Município de Lisboa a recordam, na sala do Arquivo dos Paços do Concelho, ali junto ao Terreiro do Paço. 
Será pouco? O que é pequeno cresce, como ela nos ensinou sobre Cidadania. Escassez não é pobreza - muita miséria se cria com abundâncias, arrogâncias e ganâncias.
Temos saudades da sua ideia clara, que foi partilhada por uma geração embalada nos bancos da Faculdade de Letras de Lisboa em plena ditadura, de que fizeram parte Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Maria Barroso, Sebastião da Gama, Lindley Cintra, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, na senda de Mestres como Hernâni Cidade e António Sérgio.
Felizmente, muito nos deixou para aprendermos.

Para saber mais:

Helena Cidade Moura (1924-2012) /Esquerda.net (2012)

terça-feira, março 07, 2017

Ideas Box - Access to education, information and culture in humanitarian...




Bibliotecários sem fronteiras.
Combates pela Literacia.
Por e para sermos mais humanos.
Ler mais aqui
Literacy: Libraries Without Borders | Library of Congress Blog


libraries-wo-borders


The Ideas Box, Libraries Without Borders’ portable media center, provides young Congolese refugees with information and education resources in a camp in Burundi. Photo courtesy Libraries Without Borders

segunda-feira, dezembro 12, 2016

Literacia na saúde - uma biblioteca a construir, para todos os profissionais

Constantino Sakellarides

30.11.2016, Lisboa
Explicou, também, que a literacia na saúde não depende exclusivamente do setor, mas da literacia de um determinado público ou sociedade, de aspetos socioeconómicos e das desigualdades existentes.
Para o orador, é essencial existir uma uniformidade na comunicação entre todos os intervenientes, desde os hospitais até às farmácias. Para que isto seja possível, Constantino Sakellarides defende a ideia de que é necessário existir uma “biblioteca digital ou física”, onde os profissionais possam compartilhar ideias e enriquecer os seus conhecimentos no que se refere à informação e comunicação.

Literacia na saúde em debate

quarta-feira, setembro 23, 2015

Um país que não vem nas sondagens e anda a treinar a imaginação


Parece um rio, é um rio mas também faz parte de uma bacia hidrográfica, amiga de lençóis friáticos. A leitura, as literacias, a imaginação e a palavra fluem em Portugal, nas profundezas da sua gente, e alimentam muitas e boas iniciativas, neste último fim de semana de Setembro. 
O povo inventa, e em lado nenhum se nega a palavra, como se não deve negar a água a quem tem sede. A água e a imaginação são de todos, quanto mais se partilham mais se estimam e cultivam.

Este fim de semana, vai ser assim na Caparica e na Trafaria, o Rio de Contos, Encontro de Narração Oral de Almada, org. Laredo.
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O movimento começa mais cedo, com uma fabulosa Conferência Internacional em Beja, dias 25 e 26, que nos chega pela mão do TALES – Stories for Learning in European Schools, um Projecto Multilateral Comenius que procura divulgar técnicas de narração oral no contexto da sala de aula, desenvolvendo metodologias e recursos pedagógico: raízes europeias, mediterrânicas, atlânticas.

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Na verdade, aflorou desde o dia 22, em Évora, com o Contanário, até 24, org. Contabandistas.
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Noutra frente, com números a fazerem de palavras e +alavras a conversar com números e imagens, em Lisboa, no dia 21 de Setembro, a PORDATA lançou o seu Pordata Kids.




E em Outubro, preparem-se: há mais!
Em Almada, em Coimbra, em Évora, em Óbidos, em Estarreja, em Lisboa, Vila Real, em Madrid e Marília (S. Paulo).
Numa fonte perto de si, vai ver que estes rios também espreitam, e que muitos nadam neles como peixes voadores. É preciso saber olhar, e ver.

Como dizia Galileu: move-se!

segunda-feira, setembro 08, 2014

8 de setembro

Dia Internacional da Literacia (também designado Dia Internacional da Alfabetização).

Este ano o Dia é dedicado à ligação intensa entre Literacia e Desenvolvimento Sustentável.
Num tempo de ameaças cada vez mais fortes ao equilíbrio do planeta, em aquecimento perigoso, e aos direitos humanos de quem nele vive, a literacia é uma emergência global.


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Unesco 

World Literacy Summit