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quinta-feira, abril 15, 2021

Teolinda Gersão - O leitor



"O LEITOR" - Para o Manuel Gusmão
«Sempre gostei de ler e nunca pensei que daí me pudesse vir algum mal.
Chegava a casa, atirava-me para cima da cama e mergulhava num livro. Sobretudo se era pelas duas da manhã, e eu tinha vindo do turno da noite. Começava a ler antes de me despir, de tomar um banho quente, de abrir o frigorífico. Essas coisas só faria mais tarde.
Ler era mais urgente do que tudo, varria-me o que trazia na cabeça – fadiga, preocupações, ansiedade, as coisas ruins do dia.
Frequentemente a vontade de saber o fim da história não me deixava parar antes da última página. Houve ocasiões em que adormeci de estômago vazio, vestido, sem tomar banho nem apagar a luz. O livro caía-me da mão, quando o sono me vencia.
Nessa época eu era maquinista. Durante várias horas diárias, cuja distribuição variava conforme os turnos, a minha vida era seguir linhas subterrâneas, entrando e saindo de túneis, ouvindo a fita magnética repetir incansavelmente o nome das estações e parando ao chegar às plataformas. Alguns segundos bastavam para as pessoas se precipitarem através das portas e o comboio ficar cheio, enquanto a estação se esvaziava, ou vice-versa. Era o momento de eu olhar de relance o espelho (que depois seria substituído por ecrãs de televisão) para controlar se ainda havia alguém entrando ou saindo, ou se as portas já tinham sido fechadas. Nesse caso metia novamente o comboio em marcha. Muitos não tinham conseguido apanhá-lo, embora estivessem já na plataforma, porque esta era demasiado longa para poder ser percorrida em poucos segundos, e os comboios não esperam.
Quando, na última carruagem, o factor accionava o comando e fechava as portas, os que ainda corriam perdiam a esperança de entrar. Tenho a certeza de que alguns terão pensado com raiva que era má vontade, que ele podia ter esperado dois segundos mais. E de facto, algumas vezes, creio que o terá feito.
Mas eu não tinha que me preocupar com isso. Bastava-me verificar que as portas estavam fechadas. Por esse motivo – para ter no retrovisor uma visão de todas as carruagens – devia parar sempre no topo da estação, junto do espelho rectangular da parede, e não no meio, como talvez parecesse mais lógico. Sobretudo aos que se irritavam por perderem o comboio, embora já estivessem na plataforma quando ele chegava.
No entanto, dentro de minutos, outro comboio vinha. Era essa, aliás, a vantagem do metro: havia sempre, logo a seguir, outro comboio, e portanto perder um era, a bem dizer, irrelevante. Muitas vezes me ocorreu que a vida deveria ser assim: com tantas oportunidades que não tivesse importância perder algumas.
Mas na vida, pelo contrário, não havia oportunidades. Bastava ver, por exemplo, o que se passava para arranjar emprego. Liam-se anúncios, colocavam-se anúncios, ia-se a entrevistas, e, para qualquer lado onde se concorresse, havia centenas ou milhares de candidatos.
E os lugares eram poucos, por vezes só um.
No fim da entrevista diziam que telefonariam a comunicar o resultado. Ou que este seria negativo, se não se recebesse um telefonema, dentro de cinco ou oito dias. E depois não havia telefonema.
Fiquei por isso satisfeito quando consegui o emprego. Achei fácil, desde a formação inicial. Nos primeiros dias, quase tive prazer.
Era tudo simples, bem coordenado, eficiente.
Comecei como ajudante, passei a factor, e depois a maquinista.
Sabia que com o tempo podia subir mais, chegar inclusive a chefe de estação, mas esse futuro sempre me pareceu remoto, ou pelo menos a uma distância considerável. Para já, contentava-me em ser maquinista.
Mas estou a afastar-me dos livros. Quais são os que prefiro? Policiais, claro, gosto sobretudo de policiais. De Agatha Christie, especialmente.
Embora também leia outros, para dizer a verdade leio tudo o que encontro. Mas prefiro Agatha Christie. Poirot Investiga, Crime no Vicariato, Cartas na Mesa, O Misterioso Senhor Quinn. Por exemplo. Ou O Mistério das Cartas Anónimas. Ou O Assassinato de Roger Ackroyd.
Não há como os policiais para nos levarem para longe de onde estamos. Não é que eu não gostasse de ser maquinista. Mas é uma vida solitária, conduzir comboios. Está-se no meio de gente, mas sozinho, e quase não se fala com ninguém.
As pessoas correm no cais como formigas, provavelmente nem se vêem umas às outras, ou só de relance – também elas são apanhadas num mecanismo de movimentos alternados, correr-parar, sair--entrar, esvaziar-encher. Há uma certa cadência hipnótica nessa repetição de movimentos e na sucessão, sempre igual, das estações.
Por vezes, nos turnos da noite, eu tinha medo de adormecer. Então pensava no que tinha lido na véspera, tentava desmontar a história do fim para o princípio, e verificar que tudo encaixava e não faltavam nem sobravam peças. Colocava-me no papel de Poirot (Próxima Estação: Marquês de Pombal) e conduzia as investigações: quais eram os álibis das personagens, quem tinha sido a última pessoa a ver o morto com vida, e a que horas, a quem aproveitaria o crime.
Uma coisa levaria a outra, sem rupturas. Sem saltar capítulos nem páginas. Eu tinha feito aquele caminho milímetro a milímetro, os olhos deslizando sobre as linhas do livro, como um bicho lento e voraz. Também agora o comboio deslizava nas linhas, devorava-as com os seus grandes olhos acesos. Como um bicho rápido e voraz. Tinha de seguir toda a extensão do percurso, não podia saltar desta linha para aquela, passar do Cais do Sodré directamente para a Bela Vista, ou voar do Campo Pequeno à Pontinha. Seguia, obedientemente, a linha verde, a vermelha, a azul ou a amarela. Conforme os dias. Ou os turnos. Hoje era a azul. (Próxima Estação: Jardim Zoológico)
Houve uma noite em que sonhei que descia no Jardim Zoológico e abria as jaulas. Deixava uma girafa no Parque e punha o leão a comer as laranjas, debaixo das Laranjeiras. Embora no sonho o facto de o leão comer laranjas me parecesse absurdo.
Não era só eu que estava preso às linhas. Também as pessoas que corriam nas plataformas estavam presas a determinadas estações, em determinadas linhas. Corriam da estação onde moravam para a estação onde trabalhavam, e vice-versa (e isso era já uma sorte, porque havia quem ainda tivesse, além disso, de apanhar dois autocarros, um comboio suburbano ou o barco para a margem sul.) (Próxima Estação: Laranjeiras)
Mas era assim: não se podia morar na Baixa-Chiado, se se morava na Pontinha. Cada pessoa tinha o seu lugar, e o seu percurso. Aparentemente podiam entrar e sair onde quisessem, em todas as estações de todas as linhas – mas só aparentemente. A bem dizer, só nos passeios de domingo. Durante a semana as pessoas tinham percursos fixos, a que não podiam escapar.
Por falar em passeios de domingo, eu procurava sempre sítios altos, com amplas vistas. Miradouros, por exemplo. Santa Luzia, Santa Catarina, São Pedro de Alcântara, Castelo. Ou ia de barco atravessar o rio.
Tinha um grande desejo de ar e de luz, o que é compreensível. À força de viver soterrado, debaixo das luzes do néon, iguais de dia e de noite, a superfície ganhava contornos prodigiosos. Pensava em lojas brilhantes, vitrinas enfeitadas, objectos que se ofereciam ao olhar de quem passava; pensava nas ruas debaixo da chuva, nos cafés cheios, no cheiro bom do café (Próxima Estação: Alto dos Moinhos) nos cigarros que se acendiam (uma das coisas que mais me custava no trabalho era a proibição de fumar).
As ruas à chuva. Também nos livros de Agatha Christie muitas vezes chovia. Não, eu nunca tinha ido a Inglaterra. Gostaria de ver Londres, mas também gostaria de ver o campo, sempre ouvira gabar o campo inglês.
Agatha Christie também devia gostar do campo, porque a maior parte dos seus livros se passa em pequenas localidades provincianas, onde todas as pessoas se conhecem, têm estas profissões ou aquelas, estes hábitos, defeitos, virtudes e tiques, moram em casas com jardim, têm determinado tipo de cortinas, mobílias de estilo ou móveis antiquados, e muitas vezes chuva nas janelas.
À primeira vista tudo aquilo nos é familiar, porque as personagens são iguais a qualquer pessoa, (Próxima Estação: Colégio Militar) parecem-se connosco ou com alguém que conhecemos, e por isso são-nos simpáticas.
Em geral, julgo que não há pobres, ou não propriamente. (Verificar melhor, mas não me lembro de encontrar pobres.) Mas há os ricos, isso sim, e esses vivem cheios de conforto. Em Roger Ackroyd, por exemplo, há uma série de criados para umas cinco pessoas.
Senão vejamos: a criada Elisa, a cozinheira, a segunda criada, a criada de cozinha, a criada russa, e Parker, o mordomo. Portanto seis, nada menos do que seis criados. Além do secretário. O que se chama viver bem, não pode haver duas opiniões sobre isso.
Mas a seguir verifica-se que este pequeno mundo, ao contrário do que parece, não é acolhedor nem seguro. (Próxima Estação: Carnide)
As pessoas têm histórias, culpas, terrores, vícios secretos. Todas elas escondem qualquer coisa. A criada de mesa, Ursula Bourne, é a mulher de Ralph Paton, que parece ser o assassino, mas não é.
A governanta solteirona, miss Russel, afinal tem um filho, toxicodependente.
Flora não é namorada de Ralph Paton, mas do major Hector Blunt. O homem que cultiva abóboras afinal não é um cultivador de abóboras (Próxima Estação: Pontinha) é o detective Hercule Poirot. (Estação terminal. Mais uma vez. E agora o mesmo percurso, em sentido inverso.)
O que me irrita nos policiais (porque a verdade é que também me irritam) é que o autor nunca dá ao leitor todas as cartas, esconde sempre algumas na manga. Nunca consegui descobrir o assassino, mas não posso dizer que a culpa seja minha.
Em Roger Ackroyd, por exemplo, o autor diverte-se a gozar o leitor. Finge-se de cúmplice, dá-lhe inclusive um mapa da casa, do terraço e do jardim, e depois, como se não bastasse, fornece-lhe ainda um segundo mapa, desta vez da sala. O leitor, é claro, faz figura de estúpido e não descobre nada, apesar dos mapas. Mas o mordomo verifica que uma cadeira está fora do lugar habitual. (Próxima Estação: Carnide)
Essa será a primeira ponta solta, a partir da qual Poirot começará a tirar as consequências.
No fim ele encena o crime, reconstitui a cena. As personagens são empurradas para uma sala, de onde não podem sair sem que a verdade se esclareça. Entre elas, na sala-ratoeira, está o criminoso. Falta apenas chegar perto e tirar-lhe a máscara.
E então vemos, de rosto descoberto, o homem que matou. (Próxima Estação: Colégio Militar) Não é um rosto hediondo, quase sempre nos continua a ser familiar.
Como no caso de Ackroyd, em que é enorme o efeito de surpresa: ninguém ia nunca pensar que o assassino é o médico simpático, que conta a história, e no entanto, desde o princípio, está a mentir.Sem que ninguém suspeite, evidentemente. A verdade é reposta e o jogo acaba. Temos a sensação de que se restabeleceu a ordem, das coisas e do mundo. Os inocentes são recompensados e os culpados recebem o castigo.
Um jogo infantil. A vida (Próxima Estação: Alto dos Moinhos)não é exactamente assim. Estes livros são muito moralistas, apesar dos cadáveres e dos crimes.
Mas não deixamos de jogar o jogo, só porque o achamos infantil. É um passatempo, mas também os passatempos são terrivelmente sérios para quem os pratica, isto é, os ociosos e os ricos. Todos gostaríamos de ser ociosos e ricos e de poder gozar os passatempos.
Ler é uma excelente forma de passar o tempo, sempre achei. Na última página fico do lado dos inocentes e felizes. A história acabou e tive a satisfação da curiosidade satisfeita, porque fiquei
a saber tudo. Ponto final. Posso passar a outro livro, outra aventura. (Próxima Estação: Laranjeiras)
Pensei estas coisas e outras, um dia e outro dia, enquanto as estações se sucediam, e o comboio deslizava sobre as linhas. E assim poderia ter continuado, se de repente não me assaltasse a ideia de que podia trazer um livro, abri-lo no tablier ou sobre os joelhos, e ir lendo, um instante aqui e outro ali, quando o comboio parava. Com o auxílio de uma pequena pilha, se a luz da cabina e da estação não fosse suficiente.
Foi esta ambição que me perdeu. A princípio tudo ia bem, cheguei a ler vários livros deste modo, aproveitando todos os segundos, nas paragens. Mas depois isso não me pareceu suficiente para a minha fome de leitura, e experimentei continuar a ler dentro do túnel, depois de pôr de novo o comboio em marcha. Era perfeitamente possível, verifiquei com surpresa e regozijo, porque grande parte da condução era automatizada.
Nessa altura senti-me no melhor dos mundos e felicitei-me por ser tão inteligente. Conseguia fazer o que mais gostava, dedicar-me a um passatempo nas horas de trabalho, e para cúmulo ainda era pago para isso.
Podia não ter seis criados, como Roger Ackroyd, mas a minha situação não era menos invejável. Com a vantagem de eu não ser candidato a cadáver.
Estava longe de imaginar todavia que podia ser apanhado. Como o assassino. E na verdade pouco faltou para que me considerassem como tal.
O que nunca julguei possível, porque eu tomava todas as precauções para que nada pudesse acontecer e ninguém corresse nenhum risco. Embrenhava-me na leitura, mas não perdia a noção da realidade em volta. Estava perfeitamente atento às estações, à entrada e saída das pessoas, ao momento em que o factor fechava as portas. Controlava tudo, ao milímetro, no espelho.
O que falhou então? Uma coisa mínima, ridícula: A fita magnética descontrolou-se e ficou uma estação atrasada. Anunciava por exemplo “Próxima Estação: Arroios” quando chegávamos aos Anjos, ou “Próxima Estação: Intendente” quando íamos a chegar ao Martim Moniz.
Não dei conta, embrenhado na leitura não ouvia a voz da gravação. Concentrava-me nas linhas, do livro e do comboio, atento à circulação no sentido certo, evitando tudo o que pudesse prejudicar ou atrasar a marcha. Todo eu era olhos, e esqueci os ouvidos, ou eles esqueceram-se de mim e abandonaram-me.
Foi esse pormenor que me perdeu. Os passageiros claro que se aperceberam da dessincronização da fita, mas ninguém se preocupou minimamente com isso. Ninguém foi burro de sair na estação errada, de acreditar que estava no Martim Moniz, se lá fora, na parede, estava escrito Rossio. Ninguém se incomodou – excepto um dos passageiros, que se fixou nesse detalhe e veio até à cabina onde eu estava, para me avisar do descontrole da fita.
Imagino que abriu a boca, certamente para dizer isso, mas não disse nada, ficou de boca aberta, do lado de lá do vidro, a olhar para mim e para o livro que eu tinha aberto em frente.
Deduzi isso, e também que a seguir foi participar ao chefe da estação, porque fui apanhado em flagrante com o livro, na estação seguinte.
Tentei escondê-lo, obviamente, mas não o podia fazer desaparecer. Ali estávamos, portanto, na cabina-ratoeira, eu e o corpo de delito. Perdi o emprego e, segundo parece, ainda tive sorte de não ter sido julgado por pôr em risco a vida alheia, e ser considerado candidato a homicida. O que, segundo ouvi, só não aconteceu para não dar má imagem da empresa, e a administração do Metro não poder ser acusada de negligência, na escolha e no controle dos funcionários.
De um instante para o outro, fiquei na rua. Desde então, e já lá vão muitos meses, estou à procura de outro emprego, que cada vez parece mais difícil de conseguir, à medida que o tempo passa.
Aparentemente, agora teria muito tempo para ler. No entanto tudo o que leio são anúncios – essa preocupação, e a ida a algumas entrevistas que terminam sempre em exclusões, ocupa-me os dias.
No entanto, mesmo que tivesse muito tempo para mim, não sei se leria como antes. Embora me envergonhe de o dizer, tenho uma saudade imensa de ler na cabina de maquinista. Não porque quisesse pôr em risco a vida de ninguém, mas porque lá dentro tudo se ajustava tão perfeitamente. No comboio e no livro, as linhas eram de certo modo paralelas. Ler também era seguir assim, por um túnel escuro, e chegar, de quando em quando, a uma plataforma iluminada.»
TEOLINDA GERSÃO
in "Histórias de Ver e Andar"
(Lisboa: Publs. Dom Quixote, 2003)
Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, 2002

quarta-feira, maio 06, 2020

O principal

"O que é o principal?"
Aqui, ao minuto 22:27, Filipa Leal, a propósito de um livro de Mónica Baldaque, "Mulheres com máscaras de ferro", conta uma pequena história.
Agustina responde à pergunta da filha, "O que é o principal?", com uma lição do Livro do Bambi, a sabedoria da velha perdiz: "o principal é resistir a levantar vôo quando se ouvem os tiros".
Mesmo Agustina Bessa Luís, que dizia que nascera adulta, tinha lido este livro para crianças, ou visto o filme...
Ler em família é fundamental.

Vejam aqui, serviço público de cultura e cidadania, RTP. Episódio 32, 2020.05.05
NADA SERÁ COMO DANTE, RTP2
Play - Nada Será Como Dante
ep. 32 27m
Artes e Cultura
12AP
Inspirados pelo universo dantesco d´A Divina Comédia, Filipa Leal e Pedro Lamares apresentam-nos, todas as semanas, um programa com Inferno, Paraíso e um Purgatório a meio com perguntas, dúvidas e confronto de argumentos para reflexão. Em cada uma das partes, nem sempre opostas, há segmentos de leitura, reportagens e rubricas voltadas para a importância da palavra escrita. Os livros que nos mudam, as histórias que nos levam em viagem e as palavras que viajam e mudam o (nosso) mundo. É um programa de Literatura feito com a certeza de que, por melhor que seja, nada será como Dante

sábado, abril 18, 2020

De muitos lados erguem-se barreiras ao incerto que virá


A imagem pode conter: céu, árvore, planta, nuvem, oceano, ar livre, natureza e água

Por ora

Testemunho de Cristina Taquelim, mediadora de leitura. 
“O silêncio tomou conta dos largos e da vida de novos e velhos. Só os pássaros resistem no canto e no voo. Por ora, as crianças não correm pelas ruas.” 
In Público, Diário da Quarentena,18 de Abril de 2020, 7:54 "A aldeia está mais deserta do que nunca. Tirando o ladrar dos cães, nada mais se escuta.
Sem dar ouvidos ao povo, mas pressentindo qualquer coisa no ar, os cães vadios correm como se fossem os donos das ruas. No largo alguns imigrantes eslavos, agora sem trabalho, ocupam os bancos do jardim e as portadas das casas, procurando resistir ao confinamento forçado em casas com três quartos que acolhem mais de 15 almas.
O silêncio tomou conta dos largos e da vida de novos e velhos. Só os pássaros resistem no canto e no voo. 
Por ora, as crianças não correm pelas ruas. Por ora, estão suspensas as histórias que habitam a minha mala de mediadora de leitura. Por ora, adormecem na minha boca, saudosas de ser contadas de olhos nos olhos. Imagino os livros a pedirem-me que os conte, o cheiro dos moços suando correrias, as risadas, a luz dos teatros e bibliotecas, o quente dos abraços, as tardes de orelhas emprestadas às memórias da D. Raimunda, o rirmos juntas, o chorarmos juntas. Por ora, só consigo imaginá-los. Até a morte estranha não ser chorada em companhia. 
Resistindo ao inominável, os anjos de batas brancas, incansáveis, dão o corpo às balas, contam as baixas e arregaçam as mangas para novos embates. De muitos lados erguem-se barreiras ao incerto que virá. O Estado tenta desesperadamente dar alma a um Serviço Nacional de Saúde profundamente fragilizado pelo capitalismo selvagem. O Papa ajoelha-se como um menino perdido, na gigantesca praça e suplica a Deus pelo milagre. 
Apesar de tudo, sei que poderia ser pior. Não estamos todos no mesmo barco. Se esta minha quarentena acontecesse em solidão, no Equador ou no Sudão, num qualquer campo de refugiados do mundo, num bairro de lata perto da minha cidade do coração. Se esta minha quarentena acontecesse na rua, sem casa, numa tenda na fronteira entre a Grécia e a Turquia, em Gaza onde Israel continua a bombardear escolas e praças, ou num Brasil governado por um tonto irresponsável, poderia ser pior.
A única certeza que tenho, para além do amor incondicional daqueles que nunca me abandonam, é que o meu coração tem de se preparar para o que quer que aí venha. 
Hoje mais do que nunca é preciso cuidar da minha casa interior. Hoje mais do que nunca é preciso acordar com as andorinhas e esticar o corpo como os gatos para receber o dia. Caminhar pela casa e abrir as janelas. Lavar as mãos, o rosto e cantar mentalmente duas vezes os parabéns. Ligar o rádio para ouvir as notícias da manhã. Abrir a porta do quintal para deixar entrar o cheiro do jasmim. Fazer o café, partir o pão e celebrar cada refeição do dia. Dar graças. Fazer as compras para quem precisa e caminhar pelos matos, na barragem. Hoje mais do que nunca é preciso encher os olhos de água e escutar os pardais, os cachapins e o seu agitar das asas por entre os juncos. Hoje mais do que nunca é preciso apanhar funcho, acelgas, mantrasto e no regresso a casa, limpar, arrumar, lavar, deitar fora, organizar. Enfrentar o desorganizado escritório e arrumar os livros. Limpar o pó. Dividir autores, alfabetar, escrever, ler... reler. Descobrir o que nunca se leu. Esvaziar caixas. Rasgar papéis. Arrumar estantes. Conseguir enganar o caos interior. Ser verbo e gerir no silêncio esta inquietação surda, pois no silêncio moram todas as histórias que temos dentro.
Só o silêncio, o tempo e o trabalho para ensinar a gerir os inomináveis. Só o tempo para nos ajudar a pensar neste confinamento imposto, nesta incerteza certa e nos mistérios da vida e da morte. O tempo talvez nos ajude a reaprender a humanidade. Talvez nos dê a verdadeira dimensão da urgência de cuidar. 
A Terra dá sinais, regenera-se, recupera da usura humana, do consumo. Talvez seja possível, muito em breve, voltarmos a sentir-nos plenos e como ela, a nos reinventarmos. Por ora, respiramos."

quarta-feira, janeiro 15, 2020

Revista Nova Síntese já está à janela na internet

nova síntese

Pela mão generosa do Vítor Dias, a Revista Nova Síntese já tem um blog que divulga na web os seus números - título, descrição bibliográfica sucinta, capa e índice de cada um.
https://revnovasintese.blogspot.com/?fbclid=IwAR33b9vj-RNIdaHK6prhGyhpMH_TBQnwCdNEw3iPiaHU6w4QZ0ta2H1fDwU


Nova Síntese - Textos e Contextos do Neo-Realismo

Uma alegria nunca vem só, e encontrámos um outro blog sobre o mesmo tema, de autor anónimo
http://revistanovasintese.blogspot.com/


Vivam os amigos da Associação Promotora do Museu do Neorealismo!
Vivam os autores da Nova Síntese!
Vivam os leitores que escrevem blogues!

sábado, dezembro 21, 2019

sábado, fevereiro 02, 2019

Vitórias. Behrouz Bouchani

Manus Island refugee Behrouz Boochani.
Finte: BBC News

Victorian Premier's Literary Awards - Behrouz Boochani, No Friend But the Mountains: Writing from Manus Prison 

O jornalista curdo escreveu um livro sobretudo com mensagens WhatsApp enviadas da prisão. Foi um dos 6 nomeados para o Prémio Literário, na secção  de não-ficção.
Ganhou o primeiro prémio.
"É uma vitória não apenas para nós, mas também para a Literatura e a Arte, e é, sobretudo, uma vitória para a Humanidade - uma vitória para os seres humanos e a dignidade humana. Uma vitória contra um sistema que nos reduziu a números. Este é um belo momento.", afirma.
O Prémio é o mais importante prémio literário australiano. 


Ler mais aqui

quinta-feira, agosto 02, 2018

Ler é um verbo activo




"Como a Literatura nos transforma", Alberto Manguel
"A literatura pode ser transformadora, mas não necessariamente. Uma pessoa pode ler a Divina Comédia e não sentir nada, entediar-se. Porque o livro que o leitor cria lendo-o é o produto da troca entre essas palavras que estão na página e a experiência íntima do leitor. (...)
A Comédia que eu leio responde a dúvidas secretas, desejos ocultos, paixões não confessadas que estão diante de mim. Então eu respondo à leitura da Comédia que me dá a possibilidade de transformação. Eu me sinto transformado depois da leitura de certos livros. Mas essa transformação ocorre porque, nos elementos que o texto me dá, eu encontrei a matéria para estimular a minha transformação. É um verbo activo o verbo "ler". É um verbo que preciso de um sujeito que quer transformar-se, que busca transformar-se."

quarta-feira, abril 04, 2018

Óscar Lopes


Faz parte da galeria dos meus mestres.

Um dos seus textos porventura menos conhecidos, Gramática simbólica do Português (um esboço), de 1971, abriu-me horizontes de conhecimento que nunca lhe agradecerei bastante. A História da Literatura Portuguesa, que escreveu com António José Saraiva, numa valente edição da Estúdios Cor (1966-1973), depois repetida inúmeras vezes por outras editoras, iluminou gerações de portugueses, e continua a ser uma obra de referência. Pelas mãos de ambos descobrimos autores, épocas, títulos, num guia que nos tornou mais conscientes da nossa língua e dos nossos criadores, desde D. Dinis e os seus cantares de amigo ao século XX.

Antes e depois de 1974, a sua intervenção cidadã e académica sempre me inspirou.  Sou grata, e sei que a memória é fundamental para o futuro. Também por isso estou feliz com a notícia da homenagem que lhe é prestada por ocasião do centenário do seu nascimento.
Em 1983, Como eu gosto deste livro, o notável prefácio que escreveu para o magnífico livro de Haroldo Maranhão A Porta Mágica que editámos na Vértice assinala um dos momentos felizes de leitura e escrita em que pude participar.

Entre 4 de abril e 22 de Novembro de 2018 , a sua Faculdade de Letras da Universidade do Porto, homenageia este grande mestre, em curadoria de Fátima Oliveira e Isabel Pires de Lima.

1
Programa completo aqui 
"Notabilizou-se como ensaísta, linguista e crítico literário e, entre muitos outros epítetos que cabem num percurso singular, foi o primeiro diretor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) no pós-25 de abril. Óscar Lopes é a Figura Eminente da U.Porto 2018, iniciativa que, ao longo do ano, se propõe a celebrar o legado desta personalidade ímpar da história da Universidade e figura central da cultura portuguesa da segunda metade do século XX e início do século XXI.", citado de:
Óscar Lopes é a Figura Eminente da U.Porto 2018 « Notícias UP


quinta-feira, dezembro 07, 2017

Miúdos & Neorealismo

Foto de Fátima Faria Roque.

14 de dezembro - já para a semana, 5ªfeira. Inaugura-se a exposição, no Museu do Neorealismo, com curadoria de Violante Magalhães e Ana Carina Infante do Carmo.

Em Janeiro, e inicia-se um Curso Livre / Curso de Formação associado:http://www.comparatistas.edu.pt/…/miudos-a-vida-as-maos-che…
Entrada sessão a sessão - livre.  Frequência do curso completo, creditado e certificado, sujeita a inscrição.

Até setembro de 2018, esta exposição traz no regaço outras flores - valerá a pena percorrer o programa http://www.comparatistas.edu.pt/images//programa%E7%E3o_mi%FAdos_05122017.pdf

Entre outras coisas, há sessões de cinema gratuitas, desde 10 de janeiro. As escolas do concelho podem pedir transporte à Câmara Municipal... A programação pode ser interessante para os mais velhos - 3º ciclo, Ensino Secundário.
Tudo em Vila Franca de Xira, acessível.
Recordo que há muito desapareceram todas as salas de cinema do concelho.

O Neorealismo é património cultural comum nosso, e uma riqueza a partilhar com as próximas gerações. O mais importante é mesmo isso - o que permanece depois da espuma dos dias, por mais intenso que hoje nos pareça o frio de alguns dias de Inverno.

Está prevista a publicação dos textos do Curso na revista Nova Síntese, da Associação Promotora do Neorealismo, que desde há décadas amorosamente labora pela Cultura e pelo desenvolvimento e divulgação do Museu, e que tenho a honra de integrar.

sexta-feira, outubro 13, 2017

domingo, julho 30, 2017

Lobel, o das perguntas claras em qualquer idade, por serem genuínas

 
Lobel dice algo interesante en la entrevista que le hicieron Roni Natov y Geraldine Deluca, publicada en The Lion and The Unicorn (ver bibliografía, abajo):
Cuando empecé a escribir, trataba de escribir historias “para” niños, que en realidad se encontraban fuera de mi propio campo de sentimientos. Me preguntaba qué les gustaría a los niños y veía cómo podía “entregárselo”. Escribí libritos más o menos encantadores, pero no tenían peso alguno. Y luego de repente me di cuenta de que si quería ser escritor, iba a tener que ser escritor como cualquier otro escritor y tenía que venir de mí mismo. Todas las historias de Sapo y Sepo vienen de preocupaciones, observaciones o preguntas adultas mías. De alguna manera logré orientarlas para que un niño pudiera apropiarse de esas preocupaciones, observaciones o preguntas también, hacerlas suyas, conectar con ellas. 
“Creo que un niño pasa por las mismas cosas que un adulto. No creo que perdamos nada cuando crecemos. Creemos que somos adultos y que nuestras emociones son adultas y nuestro pensamiento es adulto, pero en realidad pasamos por el mismo tipo de cosa por las que pasamos cuando éramos niños y pensamos en muchas de las mismas cosas también”. 
Hablábamos ayer [referencia al día anterior de las Jornadas] de encontrar un lugar genuino desde el que preguntar a los niños, y creo que podemos afirmar sin lugar a dudas que Lobel encontró uno. Y precisamente porque es genuino y se trata de compartir preguntas a partir de observaciones, preocupaciones, extrañamientos también compartidos, Lobel también ofrece un modelo a los niños -y a muchos adultos necesitados también-. Ofrece un modelo para mirar, pensar y preguntar sobre el mundo. Yo por lo menos a eso lo llamo literatura, con “L” mayúscula. Con “L” de Lobel. 





Lo leemos así: Preguntas desde el hogar. La mirada científica y filosófica en Arnold Lobel

domingo, julho 02, 2017

Mia Couto - O poder de contar e ouvir histórias | Fronteiras do Pensamento

  
Acho que houve um momento em que eu, já jornalista, fui tentado a escrever as histórias que escutava. Essas histórias estavam tão vivas, tinham tanta força, que pediam que fossem transportadas dessa oralidade para a escrita.Mas aí percebi que a própria escrita tinha de mudar. Aquela que eu sabia e reconhecia não acomodava essa riqueza, essa coloração e, sobretudo, a música, a prosódia. Comecei a procura de uma escrita que fosse plástica e permitisse essa inundação da oralidade.
(...) 
Não escolhi a literatura, escolhi a escrita, que é provavelmente outra coisa. A construção que fizeram da escrita me parece que a complicou muito, a intelectualizou e construiu um edifício com vários andares e hierarquias. Quando começamos a escrever e a querer usar a escrita do ponto de vista criativo, estamos muito longe da escolha dessa grande construção e dessa grande estrutura que é a literatura.
Eu sou salvo por ser várias coisas, e sempre que tenho de enfrentar “a" literatura, que depois se manifesta nessas coisas muito solenes dos congressos e das conferências, puxo logo o chapéu de biólogo…
Esse universo me apraz, mas na maior parte das vezes é uma grande chatice. Estão ali os grandes estudiosos, os filósofos, os próprios escritores que, algumas vezes, dão demasiada importância a si mesmos e àquilo que fazem, e estou sempre a pensar qual o momento que tenho para escapar ( risos). Esse discurso parece uma arrogância disfarçada de humildade, mas na verdade não sinto que pertenço a essa construção. Sou mais de uma pequena tribo que é a dos contadores de histórias, e podem fazer isso mesmo sem usarem da escrita.


Mia Couto - O poder de contar e ouvir histórias | Fronteiras do Pensamento

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Conversar sobre o que se escreve é ler devagar


No âmbito da Exposição “Arsénio Mota: uma vida como obra”, patente no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, decorrerá no próximo dia 21 de fevereiro, pelas 16h00, uma sessão sob o tema “Arsénio Mota: literatura infanto-juvenil”.


A sessão conta com as presenças de Arsénio Mota, António Gomes Marques, curador da Exposição, Violante Magalhães, docente na Escola Superior de Educação João de Deus em Lisboa e doutorada em Literatura Portuguesa, Álvaro Gomes, licenciado em Filologia Românica e doutorado em Educação, e do pintor Emerenciano Rodrigues.

Integrada na sessão, decorrerá a cerimónia de Doação do Espólio Literário de Arsénio Mota ao Museu do Neo-Realismo, um importante acervo documental que integra, entre outros, produção literária do autor, correspondência, documentos relativos à sua história pessoal, fotografias, obras de artes plásticas, monografias e publicações periódicas.

Entrada gratuita.

domingo, janeiro 18, 2015

Literatura Agora

Um programa de TV novo. Na 1ª edição, os últimos minutos, acompanhando imagens o embalsamador, são memoráveis.

Literatura Agora. 2015, Portugal




COMO
DIZER POESIA
 
Texto de Leonard Cohen, tradução de Vasco Gato, leitura de Pedro Lamares
Tomemos a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é preciso fazer com que a voz pese menos de um grama nem dotá-la de asinhas poeirentas. Não é preciso inventar um dia de sol nem um campo de narcisos. Não é preciso estar-se apaixonado, nem estar-se apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Existe a palavra e existe a borboleta. Se confundires estas duas coisas darás razão a quem queira rir-se de ti. Não atribuas grande importância à palavra. Estarás a tentar insinuar que amas as borboletas de uma forma mais perfeita do que qualquer outra pessoa, ou que compreendes a sua natureza? A palavra borboleta não passa de informação. Não é uma oportunidade para pairares, levitares, aliares-te às flores, simbolizares a beleza e a fragilidade, nem de modo nenhum personificares uma borboleta. Não representes palavras. Nunca representes palavras. Nunca tentes tirar os pés do chão ao falares de voar. Nunca feches os olhos, tombando a cabeça para um dos lados, ao falares da morte. Não fixes em mim os teus olhos ardentes ao falares de amor. Se quiseres impressionar-me ao falares de amor mete a mão no bolso ou por baixo do vestido e toca-te. Se a ambição e a sede de aplausos te levaram a falar de amor deverás aprender a fazê-lo sem te envergonhares a ti mesmo nem às tuas fontes. Qual é a expressão exigida pela nossa época? A época não exige expressão nenhuma. Já vimos fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia dos teus órgãos remexidos. Não há nada que possas estampar no teu rosto que se equipare ao horror desta época. Nem sequer tentes. Apenas te sujeitarás ao desdém daqueles que sentiram profundamente as coisas. Já assistimos a películas de seres humanos em pontos extremos de  dor e desenraizamento. Toda a gente sabe que andas a comer bem e que estás até a ser pago para estares aí em cima. Estás a actuar diante de pessoas que passaram por uma catástrofe. Tal facto deverá tornar-te bastante discreto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Toda a gente sabe que estás a sofrer. Não poderás contar à plateia tudo o que sabes sobre o amor a cada verso de amor que disseres. Chega-te para o lado e as pessoas saberão o que tu sabes por já o saberes. Nada tens para lhes ensinar. Tu não és mais belo do que elas. Não és mais sábio. Não lhes grites. Não forces uma penetração a seco. É mau sexo. Se revelares o contorno dos teus genitais, então cumpre o que prometes. E lembra-te que as pessoas não desejam propriamente um acrobata na cama. De que é que nós precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não finjas que és um cantor adorado com um público vasto e leal que tem vindo a acompanhar os altos e baixos da tua vida até ao momento presente. As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias. Destruíram igualmente o palco. Achaste que a tua profissão escaparia à destruição geral? Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Fica a sós. Fica no teu canto. Não te insinues.Trata-se de uma paisagem interior. É por dentro. É privado. Respeita a privacidade do texto. Estas obras foram escritas em silêncio. A coragem da actuação é dizê-las. A disciplina da actuação é não as violar. Deixa que o público sinta o teu amor pela privacidade ainda que não haja privacidade. Sejam boas putas.

O poema não é um slogan. Não poderá publicitar-te. Não poderá promover a tua reputação de seres sensível. Tu não és um garanhão. Tu não és uma mulher fatal. Toda essa treta relacionada com os bandidos do amor. Vocês são estudantes da disciplina. Não representes as palavras. As palavras morrem se as representares, murcham, e a única coisa que sobrará será a tua ambição.Diz as palavras com a exacta precisão com que verificas uma lista de roupa suja. Não te comovas com a blusa de renda. Não fiques de pau feito ao dizer cuecas. Não te arrepies todo só por causa da toalha. Os lençóis não deverão suscitar à volta dos olhos uma expressão sonhadora. Não é preciso chorar agarrado a um lenço. As meias não estão lá para te recordar viagens estranhas e longínquas. É só a tua roupa suja. São só as tuas peças de roupa. Não espreites através delas. Veste-as.

O poema não é senão informação. É a Constituição do país interior. Se o declamares e deres cabo dele com nobres intenções, então não serás melhor do que os políticos que desprezas. Não passarás de uma pessoa a agitar uma bandeira e a realizar o apelo mais reles a uma espécie de patriotismo emocional. Pensa nas palavras como sendo ciência e não arte. Elas são um relatório. Tu estás a falar num encontro do Clube de Exploradores da National Geographic. As pessoas que tens à tua frente conhecem todos os riscos do montanhismo. Honram-te partindo desse princípio. Se lhes esfregares isso na cara, será um insulto à sua hospitalidade. Fala-lhes da altura da montanha, do equipamento que usaste, sê rigoroso em relação às superfícies e ao tempo que demoraste a escalá-la. Não manipules o público à caça de bocas abertas e suspiros. Se mereceres as bocas abertas e os suspiros, isso não se deverá à avaliação que fizeres do acontecimento, mas à que o
público fizer. Resultará da estatística e não do tremer da tua voz nem das tuas mãos a cortar o ar. Resultará dos dados e da discreta organização da tua presença. 
Evita os floreados. Não tenhas medo da fraqueza. Não tenhas vergonha do cansaço. O cansaço dá-te bom ar. O ar de quem seria capaz de nunca mais parar. Agora, entrega-te aos meus braços. Tu és a imagem da minha beleza.

segunda-feira, março 31, 2014

Dia do Livro para Crianças 2014


Depois de amanhã comemora-se no dia 2 de Abril o Dia Internacional do Livro Infantil. Esta data, festejada desde 1967, foi escolhida peloInternational Board on Books for Young People (IBBY) por celebrar o nascimento do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.

Desde então, todos os anos um país diferente escolhe um tema, cria uma ilustração e redige uma mensagem de incentivo à leitura e chamada de atenção sobre o valor dos livros para crianças.

Imagine Nations Through Stories é o tema que serve de inspiração à mensagem e ao cartaz deste ano, com origem na Irlanda.

A efeméride é assinalada em todo o mundo por bibliotecas, escolas e outras instituições, onde escritores e ilustradores marcam presença e os mais jovens vivem a alegria e o prazer do convívio com os livros e os seus autores.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Calma



Imagem de Marcello Paradisio, partilhada no FB


Estava explicado na bíblia dos serviços: uma força pequena bem organizada e solidária e com objectivos claros pode vencer sem dificuldade uma força muito maior,sobretudo se esta for fácil de dispersar e apenas conseguir simulacros de unidade durante o par de horas que duram as primeiras manifestações. Regra número um da governação: dividir é sempre mais fácil que somar. Desmoralizar sempre aposta mais segura que moralizar. Os humanos, tais como os outros materiais, desgastam-se depressa.
O problema é que a mulher não diz nenhuma destas coisas. A mulher não resmunga, não protesta, não se exalta. Parece calma. A calma é perigosa. A calma mete medo.

Rui Zink, A instalação do medo, ed. Teodolito, 2012

2013


Há sempre um acreditar
maior, levando-nos
na teima a prosseguir



Firmados nas raízes fundadoras
prontas a tecer a ventania
feita de ideais e de porvir
de vontade, de sonho e poesia

Pois existe um voo e um lutar
uma batalha pronta a impedir
a violência, o medo, o proibir

Há sempre um acreditar
maior, levando-nos 
na teima a resistir

Exigindo o direito a inventar
um outro futuro a construir
apesar do vender e do roubar

Pois existe uma constância
em desagravo, outros modos 
de amar, outra maneira
a fazer da vida um canto aberto

E da liberdade uma bandeira


Maria Teresa Horta | Lisboa | 30 Dez 2012


quinta-feira, junho 07, 2012

Mestre


Notícia com humor, daqui 



Ray Bradbury deixou-nos, com 91 anos de idade e incontáveis leitores das suas obras. Inesquecíveis obras. A sua gargalhada, o fino humor, o amor à liberdade e à imaginação sempre me farão pensar melhor e viver melhor.




Desde o seu primeiro livro publicado em Portugal (O Mundo Marciano, na extraordinária coleção Argonauta da Livros do Brasil, 1954) até ao mais recente (creio que  O Regresso das Cinzas, da Europa-América, 2004), sempre teve leitores ávidos de todas as idades, que também acorreram aos filmes e séries televisivas inspirados nas suas obras. 


Brinquedos construídos a partir  do livro.  Daqui

Celebrating a lifetime of wonder and imagination (lema ilustrado no seu website).





sexta-feira, maio 06, 2011

Antes do Jantar, agora que os dias cresceram, em Lisboa


Dprograma, eis as ofertas (sessões gratuitas coordenadas por Maria do Céu Guerra!) para Maio e Junho:
MAIO
 3 de Maio. Cartas de Cesariny e Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes - Correspondência
10 de Maio. Carlos Mota d’Oliveira O Poeta ao Sul (com presença do poeta) - Poesia
17 de Maio. Seara de Vento - Ficção, Manuel da Fonseca 
24 de Maio. O Homem que se Arranjou - Teatro, Ramada Curto 
JUNHO
 7 de Junho. Adolfo Casais Monteiro - Correspondência familiar
14 de Junho. O Feminino em Pessoa – com a particip. de João D’Ávila - Poesia
21 de Junho. O Senhor Ventura - Ficção, Miguel Torga
28 de Junho. Gladiadores - Teatro, Alfredo Cortez

Ler mais aqui