segunda-feira, maio 23, 2011

Acordar




Os manifestantes, reunidos na Praça do Rossio, conscientes de que esta é uma acção em marcha e de resistência, acordaram declarar o seguinte:


Nós, cidadãos e cidadãs, mulheres e homens, trabalhadores, trabalhadoras, migrantes, estudantes, pessoas desempregadas, reformadas, unidas pela indignação perante a situação política e social sufocante que nos recusamos a aceitar como inevitável, ocupámos as nossas ruas. Juntamo-nos assim àqueles que pelo mundo fora lutam hoje pelos seus direitos frente à opressão constante do sistema económico-financeiro vigente.

De Reiquiavique ao Cairo, de Wisconsin a Madrid, uma onda popular varre o mundo. Sobre ela, o silêncio e a desinformação da comunicação social, que não questiona as injustiças permanentes em todos os países, mas apenas proclama serem inevitáveis a austeridade, o fim dos direitos, o funeral da democracia.

A democracia real não existirá enquanto o mundo for gerido por uma ditadura financeira. O resgate assinado nas nossas costas com o FMI e UE sequestrou a democracia e as nossas vidas. Nos países em que intervém por todo o mundo, o FMI leva a quedas brutais da esperança média de vida. O FMI mata! Só podemos rejeitá-lo. Rejeitamos que nos cortem salários, pensões e apoios, enquanto os culpados desta crise são poupados e recapitalizados. Porque é que temos de escolher viver entre desemprego e precariedade? Porque é que nos querem tirar os serviços públicos, roubando-nos, através de privatizações, aquilo que pagámos a vida toda? Respondemos que não. Defendemos a retirada do plano da troika. A exemplo de outros países pelo mundo fora, como a Islândia, não aceitaremos hipotecar o presente e o futuro por uma dívida que não é nossa.

Recusamos aceitar o roubo de horizontes para o nosso futuro. Pretendemos assumir o controlo das nossas vidas e intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Estamos a fazê-lo, hoje, nas assembleias populares reunidas. Apelamos a todas as pessoas que se juntem, nas ruas, nas praças, em cada esquina, sob a sombra de cada estátua, para que, unidas e unidos, possamos mudar de vez as regras viciadas deste jogo.

Isto é só o início. As ruas são nossas.



Primeiro Manifesto do Rossio, Lisboa (Portugal) 2011

domingo, maio 22, 2011

Olhar

A arte de ser feliz 

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.  
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.  
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crinças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refelectidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.  
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. 
Cecília Meireles

sábado, maio 21, 2011

Callejerando


Open your eyes
Dare to dream
Into any street

Abre tus ojos
Osa el sueño
En todas las calles

Abre os olhos
Ousa o sonho
Em cada rua

sexta-feira, maio 20, 2011

Estar lá

Quarenta e cinco minutos em silêncio, a ler.
Ideia da biblioteca escolar, cumprida a 4 de Maio do Ano da Graça de 2011, em Lisboa


Este post parece excepção à decisão do blog de apenas registar poesia, prosa, filosofia.
Parece mas não é.
Serve o presente e suave cartaz para recordar a preciosa e discreta valia
que se vai produzindo nos dias das bibliotecas
que nas escolas persistem, mesmo se contra vozes mais ouvidas
a fazer valer silêncio e palavra, 
matérias úteis à criação de pensamento.

Em cada vez mais escolas, sem precisar de mais dinheiro nem equipamentos, só de vontade e imaginação, fazem-se re-valer os livros que já se reuniram, mais os que quase todos têm para mostrar e partilhar. São dias que podiam ser como todos os outros, mas de repente não são, inconformam-se, descobrem minutos ou mesmo horas aprazadas para o silêncio e a leitura, sem medidas de quantas linhas, quantas obras, quantas respostas certas.
Estes dias reconciliam-nos.

No cartaz não se vê a alegria, nem os serenos sorrisos e olhares, o tempo a ganhar alcance e dimensão em cada leitor, cada leitora. Sem limite de idade, categoria, condição académica, posição no ranking dos exames. Basta ser e ler. E são, e lêem.

 Alegria e sentir transparecem nas fotografias que sempre se tiram, qualquer telemóvel serve, e qualquer mão tem um telemóvel a jeito.
E o mistério maior é a adesão de toda a gente, e a replicação simples e sem directivas oficiais ou outras, que se vai fazendo por esse País fora, sempre de modos diferentes, com um toque "da casa".
Às vezes fui feliz, e pude estar lá.

Assim seja!

Caber




Essa é a última oração 
Para salvar seu coração 

Coração não é tão simples quanto pensa 
Nele cabe o que não cabe na despensa 
Cabe

o meu amor

Beirut (edição Youtube)

2011

quinta-feira, maio 19, 2011

Imaginar


Se a sua casa estivesse a arder, que levaria consigo na fuga?
Uma ideia simples, grandes fotografias, e o rasto dos dias mais vazios de indispensáveis do que por vezes pensamos.

Um blog criado à conta disto The Burning House.com
que desvenda alguns incêndios imaginários e outras tantas listas e imagens-colecção de vestígios.
Quer experimentar?

Agir



25 de Abril, sempre!

Copiado descaradamente daqui

quarta-feira, maio 18, 2011

Ver

UMA CASA ILUMINADA À NOITE

Sunday, August 29th, 2010
Quando a Vera foi pela primeira vez à Aguieira viu coisas que nunca tinha visto. Viu um sardão de cabeça empinada, ao sol, viu um ninho de ratos feito com pedaços de tecido e papéis, viu, caído, um ninho pequenino que devia ser de uma família de pardais, viu uma cobra a tirar água e outra a regar o jardim, viu um gaio a voar muito depressa para ir ter a uma árvore com uma gaia. Sabes o que estão a fazer, perguntou-lhe a mãe. Estão a fazer um gaiato. E viu uma magnólia enorme, com os ramos ao vento quase a varrerem o chão. Que bonita que é a papoila. Como são bons os figos picados pelos pássaros. E uma casa assim iluminada à noite, com azulejos vermelhos lá ao fundo, com o céu em cima cheio de estrelas, a Vera também nunca tinha visto. E pensou: como é bonita esta casa, assim iluminada à noite.

Crescer



Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.

 

terça-feira, maio 17, 2011

Dar


As BalasDá o Outono as uvas e o vinho 
Dos olivais o azeite nos é dado 
Dá a cama e a mesa o verde pinho 
As balas dão o sangue derramado 

Dá a chuva o Inverno criador 
As sementes da sulcos o arado 
No lar a lenha em chama dá calor 
As balas dão o sangue derramado 

Dá a Primavera o campo colorido 
Glória e coroa do mundo renovado 
Aos corações dá amor renascido 
As balas dão o sangue derramado 

Dá o Sol as searas pelo Verão 
O fermento ao trigo amassado 
No esbraseado forno dá o pão 
As balas dão o sangue derramado 

Dá cada dia ao homem novo alento 
De conquistar o bem que lhe é negado 
Dá a conquista um puro sentimento 
As balas dão o sangue derramado 

Do meditar, concluir, ir e fazer 
Dá sobre o mundo o homem atirado 
À paz de um mundo novo de viver 
As balas dão o sangue derramado 

Dá a certeza o querer e o concluir 
O que tanto nos nega o ódio armado 
Que a vida construir é destruir 
Balas que o sangue derramado 

Que as balas só dão sangue derramado 
Só roubo e fome e sangue derramado 
Só ruína e peste e sangue derramado 
Só crime e morte e sangue derramado. 

Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"

Declaração do blog


A partir de hoje, no Lerdoler 
só postarei poesia, prosa literária ou filosofia.
Pelo menos enquanto me lembrar desta decisão.

Nos momentos agudos, 
há que tomar decisões graves, densas, certeiras. 
Não há escola maior de rigor que a boa literatura.

Alteremos o ângulo de visão


ESTRELAS
O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.

Chamo um astrólogo amigo:
«Então?»
«O céu parou. É o fim do mundo».
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
«Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão».
Sigo o conselho: e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.
[Carlos de Oliveira, "Sobre o Lado Esquerdo"]

sexta-feira, maio 13, 2011

Manuel António Pina, o Grande!

 A Floresta das Adivinhas
No Meio da Florestahavia uma adivinha.Quem a adivinhava voltava para casa, quem não a adivinhava nunca mais vinha. 

A Sara gostava muito da casamas ainda gostava mais de adivinhas. Meteu-se pela Floresta sem nenhum receio e só parou mesmo no Meio. 

Vê se és capaz de adivinhar esta- disse o Homem Mau Dono da Floresta adivinha se vais voltar para casa ou se não, se vais ficar aqui para sempre presa ao chão. 

A Sara também gostava muito das árvores mas não queria ficar ali para sempre a arborizar! Antes queria ser menina e falar e andare ter as pernas soltas para saltar. 

Se dissesse que ia voltar para casao Homem Mau dizia-lhe que não, que ia ficar ali presa na Floresta, e ela ficava mesmo, porque não tinha adivinhado a adivinha. 

Vais-me prender - disse então a Sara - E o Homem Mau ficou muito atrapalhado com a resposta. Porque, se a prendesse, ela adivinhava e tinha que ir para casa, mas, se fosse para casa, não tinha adivinhado e devia ficar presa. 

A adivinha ainda podia ter solução, mas a resposta da Sara é que não. E o Homem Mau pensava no assunto com toda a força que tinha a ver se adivinhava a solução da resposta à adivinha. 

E tantos pensamentos o Homem Mau pensou, encheu a cabeça com tantos pensamentos que chegou uma altura em que já Lá não cabia mais nenhum, e quando ele pensou em mais outro, a cabeça, pum! 

(Quem diz que se pode pensar muito e que os pensamentos não ocupam lugar de certeza que nunca pensou muito no assunto se não também acabava por rebentar...) 

A Sara libertou todas as árvores e nós ficamos a saberque uma maneira de ganhar é forçar os homens maus donos das coisas a perder. (Se calhar não é nada disto, mas também pode ser...)


Manuel António Pina (Prémio Camões 2011)
O TÊPLUQUÊ e outras histórias. Edições Afrontamento

terça-feira, maio 10, 2011

E porque não noutras paragens?





Our public schools belong to all of us. They could and should be thriving hubs of every Ontario community—
hubs of learning, of support for families and of neighbourhood activity.
Annie Kidder
Executive Director
People for Education

Website, incluindo muitos idiomas... Em português http://www.peopleforeducation.com/portuguese
Brochura em inglês: http://www.peopleforeducation.com/englishbrochure2010.pdf
Página no Facebhook: http://www.facebook.com/peopleforeducation

sexta-feira, maio 06, 2011

Antes do Jantar, agora que os dias cresceram, em Lisboa


Dprograma, eis as ofertas (sessões gratuitas coordenadas por Maria do Céu Guerra!) para Maio e Junho:
MAIO
 3 de Maio. Cartas de Cesariny e Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes - Correspondência
10 de Maio. Carlos Mota d’Oliveira O Poeta ao Sul (com presença do poeta) - Poesia
17 de Maio. Seara de Vento - Ficção, Manuel da Fonseca 
24 de Maio. O Homem que se Arranjou - Teatro, Ramada Curto 
JUNHO
 7 de Junho. Adolfo Casais Monteiro - Correspondência familiar
14 de Junho. O Feminino em Pessoa – com a particip. de João D’Ávila - Poesia
21 de Junho. O Senhor Ventura - Ficção, Miguel Torga
28 de Junho. Gladiadores - Teatro, Alfredo Cortez

Ler mais aqui

Confissão


Confissão 

De um e outro lado do que sou,da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade. 
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

Nuno Júdice, in
Meditação sobre ruínas, Ed. Quetzal

quarta-feira, maio 04, 2011

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades



Belas palavras de Camões pela voz e pelo gesto de Isabela Salim, recolhida em Um Poema por Semana, iniciativa RTP em forma de blog. Serviço público de televisão e de promoção da leitura.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Luís de Camões, 1524?-1580
Sonetos de Luís de Camões
escolhidos por Eugénio de Andrade. Ed. Assírio & Alvim

terça-feira, maio 03, 2011

Pedro Tamen, Poeta Maior

(a pretexto de mais um prémio)


NOÉ

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão 
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos, 
gasto o martelo. E o pior também: 
correr o mundo a recolher os bichos, 
coisas de nada como formigas magras, 
e os outros, os grandes, os que mordem 
e rugem. E sei lá quantos são! 
Em que assados me pões. Tu 
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo. 
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda, 
a escolher os melhores, os de melhor saúde, 
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto. 
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares 
- o espaço que isso ocupa. 

Mas não é ser carpinteiro, 
não é ser caminheiro, 
não é ser marinheiro o que mais me inquieta. 
Nem é poder esquecer 
a pulga, o ornitorrinco. 
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual. 


(Analogia e Dedos, 2006)



Mais sobre Pedro Tamen

domingo, maio 01, 2011

De que lado estamos?



Com abraço ao José Manuel Pureza, que o partilhou, em homenagem ao António Chora e à Paula Gil.

Which Side Are You On? 

Come all of you good workers,

Good news to you I'll tell
Of how the good old union
Has come in here to dwell.

CHORUS:
Which side are you on?
Which side are you on?
Which side are you on?
Which side are you on?

My daddy was a miner
And I'm a miner's son,
And I'll stick with the union
'Til every battle's won.

CHORUS

They say in Harlan County
There are no neutrals there;
You'll either be a union man,
Or a thug for J. H. Blair.

CHORUS

Oh workers can you stand it?
Oh tell me how you can.
Will you be a lousy scab
Or will you be a man?

CHORUS

Don't scab for the bosses,
Don't listen to their lies.
Us poor folks haven't got a chance
Unless we organize.



Colos



A leitura segundo as pinceladas de Charles Webster Hawthorne, ao colo da mãe. Imagem via Facebook,  Editora Casa das Letras