sexta-feira, janeiro 31, 2020

Do Rigor da Ciência





«Sobre o Rigor na Ciência

…Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava uma cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo, estes Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as gerações seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade entregaram-no às Inclemências do sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.

(Suárez Miranda: Viajes de Varones Prudentes, libro cuarto, capítulo XIV, Lérida, 1658.)
Jorge Luís Borges, “Sobre o Rigor na Ciência”, in História Universal da Infâmia, trad. de José Bento, Assírio e Alvim,1982, 117.

quarta-feira, janeiro 29, 2020

tão tem que ser, agora - e a doer

Também o que é Eterno

Também o que é eterno morre um dia.
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;
O doutor quer por força a ecografia,
Mas eu não estou pra tantas precisões.

Eu rio à morte com um riso largo:
Morrer é tão banal, tão tem que ser!
Disto ou daquilo, que me importa a mim?
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!

A tanta exactidão mata o mistério.
O pH, o índice quarenta...
Não quero as pulsações, os eritrócitos,
O temeroso alzaimer, ou o cancro,
Nem sequer o tão raro, do coração.

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,
A palpitar a cores no computador?
Eu morro, eu morro, não se preocupem,
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,
Ou doutra coisa.

Manuel Resende, in 'O Mundo Clamoroso, Ainda'

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Faltam perguntas

Eat time | 2017 | Cristiano Mangovo (cortesia do artista e da galeria MOVART)Eat time | 2017 | Cristiano Mangovo (cortesia do artista e da galeria MOVART)
















"não podemos dizer que em Itália não se produza cultura, antes pelo contrário existe um número significativo de pessoas que se ocupam de cultura a vários níveis. Publicam-se muitíssimos livros, há uma oferta cultural variada, o problema é que ela se dilui cada vez mais num sistema de eventos, festivais, lançamentos e recensões mútuas e de cortesia,  elementos que acabaram por criar um sistema fechado, solipsista e interdito à maioria das pessoas que o rotula como prerrogativa da “esquerda”, que representa para muita gente a velha ordem e que falhou infelizmente o seu objetivo de criar uma sociedade mais justa. 
O problema é que dentro de um sistema desse tipo, poucos e quase nada exercem um verdadeiro ofício crítico útil para a sociedade, vindo-se assim a esgotar qualquer função civil da cultura. 
Acaba assim por se construir na cena cultural uma contra-narrativa apenas superficial do populismo e do racismo reinante, que exerce uma função auto-reconfortante  alimentada pela constante autopromoção do que se escreve, se filma, se pinta, se encena etc.

São práticas que se tornam produtos de um mercado cultural profundamente narcisista incapaz de se abrir para um “nós sincero” como escreve ainda Fofi e que cria um sistema de hábitos sociais vistos pela maioria dos italianos, que hoje vivem descomplexadamente a sua ignorância, como manifestações sem sentido que promovem, muitas vezes contraditoriamente, valores vistos como inúteis quando não nocivos para a sociedade porque não respeitam o lema “prima gli italiani” e porque se inspiram em princípios solidários. 

Falta militância, pressuposto do verdadeiro exercício intelectual, no sentido de promover a capacidade de repensar o país partindo da educação."

https://www.buala.org/pt/a-ler/la-grande-bellezza-breve-apontamento-sobre-a-cultura-hoje?fbclid=IwAR2MJe_mNWTRcLdjtPKhRQU0w7Y-LpCFERrhVZWG8yMHyp9mftG2O12518I

AGUAVIVA Los cuentos

Maria Rueff lê Etty Hillesum

domingo, janeiro 26, 2020

Projeto Inocência. Serão todos os condenados, de facto, culpados? - DN







Uma pessoa que continue a declarar-se inocente depois de ter sido condenada em tribunal não tem quaisquer atenuantes. É como se o facto de insistir na sua inocência fosse, em si, encarado como uma agravante. Sobretudo para o sistema judicial. Vencedor da segunda edição da bolsa de jornalismo da Fundação Calouste Gulbenkian, o Projeto Inocência que o DN acolhe está a investigar casos de processos-crime em que os condenados continuaram a declarar-se inocentes, quer tenham recorrido da sentença ou não.



Projeto Inocência. Serão todos os condenados, de facto, culpados? - DN

ANGELA DAVIS | A liberdade é uma luta constante [tradução simultânea PT BR]





19.10.2019



Transmissão ao vivo da conferência "A LIBERDADE É UMA LUTA CONSTANTE ", de Angela Davis. Encerramento do Seminário Internacional "Democracia em colapso?". Mediação de Adriana Ferreira da Silva (Marie Claire Brasil).

Um dos maiores ícones na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, Angela Davis é considerada por muitos uma das grandes personificações globais da resistência ao racismo. Pela primeira vez em São Paulo, a ativista e professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia compartilhará sua trajetória pessoal e política a fim de refletir de forma crítica sobre as correntes do pensamento feminista hoje, bem como sobre a contribuição da luta de mulheres negras na construção de sociedades mais justas e democráticas. Na ocasião, lança sua autobiografia pela Boitempo.

terça-feira, janeiro 21, 2020

Estão a chegar, são as bibliotecas do futuro

future-libraries
Future Libraries: Workshops Summary and Emerging Insights [e-Book] . London, Arup University, 2015
Las bibliotecas están experimentando un renacimiento, tanto en lo que respecta a la infraestructura social que proporcionan como a la diversificación del servicio y las experiencias que ofrecen. En los entornos corporativos están jugando un papel cada vez más importante en la provisión de espacios de trabajo colaborativos y diversos. En las comunidades, se están convirtiendo en centros de educación, salud, entretenimiento y trabajo. Las bibliotecas están animando a la gente a volver al espacio físico mediante la integración de, por ejemplo, cafeterías, Wi-Fi gratuito, makerspaces o guarderías” (p.5). 
Future Libraries, publicado en julio de 2015 por Arup2, (p. 5)
Texto completo do Relatório Future Libraries (2015, em inglês, aqui
Resulta de trabalhos de investigação. Analisa a relevância que as bibliotecas terão no contexto físico e digital - uma base para prosseguir o debate sobrte o seu papael nas comunidades que servem

domingo, janeiro 19, 2020

Cinema


Cuidar de mães, amor de filhos, segurança de todos


A propósito de uma notícia no JN (Janeiro de 2020), em que se destaca 
Aumento do número de inspetoras causa inquietação na Judiciária 
Nos últimos dois cursos as mulheres inspetoras estiveram em maioria na PJ, mas esta tendência crescente estará a criar problemas. Menos disponibilidade, maior absentismo e menor apetência para o crime violento são pontos fracos identificados
 https://www.dn.pt/edicao-do-dia/19-jan-2020/aumento-do-numero-de-inspetoras-causa-inquietacao-na-judiciaria-11715742.html


Para além da reflexão sobre os critérios de recrutamento de homens e mulheres para as mesmas funções, o texto suscita pensamentos sobre a forma como no trabalho as pessoas com família podem contar com capacidade de gestão dos serviços e horários, seja qual for a sua profissão. E como tudo isso diz respeito a todos, pois as crianças desenvolvem-se conforme os pais e as mães as conseguem acompanhar, e no futuro do desenvolvimento das crianças dependemos todos.

Os direitos de parentalidade também absorvem, ou deveriam absorver, inspetores masculinos que sejam pais. Na verdade, em verdade vos digo: o problema é que é preciso pagar a mais inspetores para ao mesmo tempo ter gente para o serviço e garantir os direitos sociais e a renovação das gerações - sem haver mais crianças, dificilmente haverá futuro, e sem maternidade/paternidade elas pura e simplesmente não aparecem. Cuidar mal das mães dá mau resultado, e não é preciso ser inspetor para o perceber. O viés da notícia é claro, com raízes na nostalgia da "mulher dona de casa e mãe que desiste da carreira pela família" e depende do salário do marido ou de herança de família. Poderiam dizer que havia falta de pessoal na PJ, mas isso seria menos cómodo e muito menos conveniente ideologicamente.
Ora bolas! como diria a Mafalda do Quino

Afago na autoestima lusa, aviso à navegação geral


"Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal .Os portugueses - de direita ou de esquerda - não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam.Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos.Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afecto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de Abril para celebrar.Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia."
Ruth Manus, é advogada e professora universitária e escreve num blogue num Jornal de S. Paulo. E escreveu isto sobre Portugal (2020)

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Micro-manifesto pela Cultura



Praticar desporto. Caminhar, respirar, dançar. Cantar. Contar histórias e escutá-las.
Ler um livro, ler jornais. Escrever uma ideia por dia, nova, menos nova, bonita, assim-assim.
Rir.

Apanhar ar. Conversar com gente real, na rua.
Ir a um concerto, ir ao teatro, sair de casa e da prisão dos écrans - televisão, computador, smartphone, tablet, telemóvel.

Lutar por tempo livre, para não ser preciso correr entre 2 empregos, 16 horas por dia, dinheiro sempre curto, juros e juros.
Fazer tudo isto por si, e com outros. Por todos.
Exigir investimento que modifique os hábitos culturais e a visão sobre a cultura, sem esquecer que isto anda tudo ligado.

O que não se cultiva não se colhe.
A cultura começa no povo.

Isto anda tudo ligado

Guifões - reabre a oficina. Vivam os comboios!


Põe amor em tudo o que fazes e as coisas terão sentido. Retira delas o amor, e elas tornar-se-ão vazias.
Santo Agostinho, Sermão 138,2

CP, Caminhos de Ferro, Portugal, 2020

Decisão boa (2019): reabertura da oficina, recuperação de material ferroviário circulante. Voltar a produzir, recuperar, aumentar a capacidade do País. 140 novos postos de trabalho até finais de 2021 (90 dos quais especializados).
Reabertura do complexo industrial ferroviário. 
A destruição não é inevitável.
Há futuro.

quarta-feira, janeiro 15, 2020

Revista Nova Síntese já está à janela na internet

nova síntese

Pela mão generosa do Vítor Dias, a Revista Nova Síntese já tem um blog que divulga na web os seus números - título, descrição bibliográfica sucinta, capa e índice de cada um.
https://revnovasintese.blogspot.com/?fbclid=IwAR33b9vj-RNIdaHK6prhGyhpMH_TBQnwCdNEw3iPiaHU6w4QZ0ta2H1fDwU


Nova Síntese - Textos e Contextos do Neo-Realismo

Uma alegria nunca vem só, e encontrámos um outro blog sobre o mesmo tema, de autor anónimo
http://revistanovasintese.blogspot.com/


Vivam os amigos da Associação Promotora do Museu do Neorealismo!
Vivam os autores da Nova Síntese!
Vivam os leitores que escrevem blogues!

sexta-feira, janeiro 03, 2020

Sidónio Muralha, 1920-1982



História sem fim

Do ovo da rola
saiu uma rola
que botou de novo
um ovo de rola
que tinha uma rola 
que botou um ovo.

Escreve com graça e leveza:
Pedi uma pluma
ao colibri
e escrevi
escrevi
escrevi...
...e o bico-de-lacre veio
e lacrou todo o meu correio.

E com uma mágoa triste e bonita:
Nos jardins abandonados
por culpa de certos senhores
ficaram desempregados
os beija-flores.

Sidónio Muralha, 1920-1982