quinta-feira, setembro 28, 2017

Ler estatísticas. E tudo pode ser (mais) o que parece

Um artigo elucidativo de Nuno Serra, 2017


Ladrões de Bicicletas: E pur si muove: o mercado de trabalho e as suas es...: 1. Há cerca de três anos, quando a destruição de emprego atingia níveis sem precedentes, a emigração regressava a valores dos anos sessen...

terça-feira, setembro 26, 2017

Mulheres ibéricas, o passado conta



LAS SINSOMBRERO 

 é um projeto crossmedia com o objetivo de recuperar e divulgar o legado das mulheres olvidadas da primeira metade do século XX en Espanha. Recomenda-se.

segunda-feira, setembro 25, 2017

Olha nós em cinema


A Fábrica de Nada - Trailer from TERRATREME FILMES on Vimeo.
O argumento, escrito por Pinho, Luísa Homem, Leonor Noivo e Tiago Hespanha, parte de uma ideia de Jorge Silva Melo: adaptar a peça de Judith Herzberg e fazer um musical para crianças. Apesar de Silva Melo ter desistido do projecto, Pedro Pinho resolveu transformá-lo em filme.


Lisboa

  • Nimas

    Telefone:
    213574362
    Sessões:
    5ª Sáb Dom 2ª 3ª 4ª 14h, 17h30, 21h30 6ª 14h, 17h30
  • Cinema Ideal

    Telefone:
    210998295
    Sessões:
    5ª 6ª Sáb Dom 2ª 3ª 4ª 16h, 21h
  • UCI Cinemas - El Corte Inglés

    Telefone:
    Sessões:
    5ª 6ª Sáb Dom 2ª 3ª 4ª 18h30

domingo, setembro 24, 2017

Elogio da edição revolucionária : Orfeu Negro, Judith Butler, 2017



Há editoras que nos cabem no coração, e, ao mesmo tempo, o ampliam. É o caso da Orfeu Negro, um caminho arrojado a produzir desde 2007,  pela audácia dos temas e o primor na linguagem e na edição de cada título. Sou fan, tanto da linha "para estudiosos" como da maravilhosa colecção Orfeu Mini, encetada em 2008, para miúdos e graúdos, e da inquietadora Casimiro.

Ontem, lançou mais um ensaio, para estudiosos, algo hermético mas nem por isso menos significativo para o homem e a mulher comuns. Trata-se do livro de Judith Butler, Problemas de género, numa bela tradução em português de Nuno Quintas, com a colaboração de João Manuel Oliveira e João Berham.

Quando não são assim tão cuidadosamente publicados, traduzidos e preparados para a leitura e a fruição de muitos mais leitores, os livros correm o risco de serem muito citados mas pouco lidos. E de citação e citação, se tornam banais e, mesmo, incompreensíveis.


Em português, e por mão da Orfeu Negro, há menos perigo de tal continuar a acontecer com esta obra, no centro do debate sobre o género e o feminismo na atualidade. Coisas que, se forem bem discutidas, podem ajudar a viver melhor muita gente, por ajudarem a compreender o que são as pessoas, e o que somos, para além das palavras que usamos, e pelo efeito que as palavras têm no modo como nos pensamos.

As ideias de Butler já tinham sido introduzidas em Portugal na tese de doutoramento da investigadora Conceição Nogueira ( 1997, Universidade do Minho). Terá sido desde 1991 na dança contemporânea – com Vera Mantero, Francisco Camacho, Carlota Lagido, Miguel Pereira, João Fiadeiro – que se “notaram os primeiros efeitos” de “Problemas de Género”.


"Definir identidades tem um problema: as identidades são pequenas demais para nos descreverem e ao descreverem-nos estão a produzir o sujeito que querem descrever”, entende João Manuel de Oliveira. “Descrever é já produzir um determinado sujeito. Quando se diz a uma menina que ela é muito feminina, está-se a construir, e a constranger, o que a menina vai ser. Não é apenas este discurso que contribui para isso, há outras estruturas sociais que o fazem. A ideia de ‘gay’, para a maioria das pessoas, incluindo muitos homossexuais, aponta para uma certa pertença a uma classe social, uma certa inserção racial, um certo capital económico. Mas há muitos gays que não são isso e, eventualmente, a palavra não esgota a possibilidade de serem outras coisas ao mesmo tempo. A Butler demonstra isso a partir da categoria ‘mulher’. Ele desconstrói a ideia de mulher, vem dizer que se trata de uma construção do discurso. Discurso não são apenas as palavras, são as instituições, desde logo o Estado, que geram representações.”
Notícia sobre o lançamento, 23.09.2017, Lisboa, aqui
Catálogo da Orfeu Negro:


C


sábado, setembro 23, 2017

Laredo Associação Cultural: Mediação para a literacia cultural e cidadã - Escritores.online

 
“Nós temos algumas palavras que nos caracterizam, que definem muito bem a nossa linha de trabalho, umas delas são a inclusão, a acessibilidade, a democracia – as palavras que vêm na Constituição – o acesso que as pessoas devem ter à cultura, à educação… As acessibilidades não têm a ver só com as questões da deficiência como também com as questões culturais”.


Laredo Associação Cultural: Mediação para a literacia cultural e cidadã - Escritores.online

A cabeça no ar





As coisas melhores são feitas no ar,

andar nas nuvens, devanear,

voar, sonhar, falar no ar,

fazer castelos no ar

e ir lá para dentro morar,

ou então estar em qualquer sítio só a estar,

a respiração a respirar,

o coração a pulsar,

o sangue a sangrar,

a imaginação a imaginar,

os olhos a olhar

(embora sem ver),

e ficar muito quietinho a ser,

os tecidos a tecer,

os cabelos a crescer.

E isso tudo a saber

que isto tudo está a acontecer!

As coisas melhores são de ar

só é preciso abrir os olhos e olhar,

basta respirar.






Manuel António Pina





A cabeça no ar

sexta-feira, setembro 22, 2017

Suffragist | Josefinas

Coisas que nos animam. " O lugar de uma mulher é na Resistência"



Não te esqueças do passado

Para construir um futuro melhor, nunca podemos esquecer o passado.


Suffragist | Josefinas

Qualquer cidade pode ser outra





CADA CIDADE PODE SER OUTRA

Mario Benedetti
Tradução Lerdoler


Os amorosos são os que abandonam
são os que mudam, são os que olvidam
Joaquim Sabines


Cada cidade pode ser outra
quando o amor a transfigura
cada cidade pode ser tantas
quantos os amorosos
que a percorrem

o amor passa pelos parques
quase sem os ver amando-os
entre a festa dos pássaros
e a homilia dos pinheiros

cada cidade pode ser outra
quando o amor pinta os muros
e dos rostos que entardecem
um é o rosto do amor

e o amor vem e vai e regressa
e a cidade é a testemunha
de seus abraços e crepúsculos
suas bonanças, seus aguaceiros

e se o amor se vai e não volta
a cidade carrega o seu outono
já só lhe ficam o luto
e as estátuas do amor




CADA CIUDAD PODE SER OTRA

Mario Benedetti


Los amorosos son los que abandonan,
son los que cambian, los que olvidan
.

Jaime Sabines

Cada ciudad puede ser otra
cuando el amor la transfigura
cada ciudad puede ser tantas
como amorosos la recorren

el amor pasa por los parques
casi sin verlos amándolos
entre la fiesta de los pájaros
y la homilía de los pinos

cada ciudad puede ser otra
cuando el amor pinta los muros
y de los rostros que atardecen
unos es el rostro del amor

y el amor viene y va y regresa
y la ciudad es el testigo
de sus abrazos y crepúsculos
de sus bonanzas y aguaceros

y si el amor se va y no vuelve
la ciudad carga con su otoño
ya que le quedan sólo el duelo
y las estatuas del amor


A FÁBRICA DE NADA, de Pedro Pinho.


quinta-feira, setembro 21, 2017

Rala-me a pouca intensidade em conhecimento na estrutura produtiva portuguesa

Ladrões de Bicicletas


 Ler com olhos de quem trabalha em Eucação e Cultura

e ama a nossa terra e as suas gentes do futuro


Isto não significa porém que os problemas estruturais que afectam a economia portuguesa estejam resolvidos. Mantém-se uma estrutura produtiva assente em actividades pouco intensivas em conhecimento e muitos exposta à concorrência internacional, um tecido empresarial com debilidades significativas nas capacidades de gestão estratégica, uma população activa pouco qualificada, uma estrutura demográfica desfavorável ao crescimento económico, custos elevados e/ou funcionamento ineficiente de serviços fundamentais para as actividades económicas (energia, financiamento, justiça), um elevado endividamento dos sectores privado e público (que é hoje muito superior ao que era há uma década). A isto acresce a participação numa zona monetária com lacunas fundamentais e que coloca as economias mais frágeis numa posição particularmente vulnerável a crises financeiras internacionais, e cujas regras orçamentais restringem fortemente a capacidade dos Estados para combater as recessões económicas com os poucos instrumentos que têm ao seu dispor. 


Neste momento as condições externas são favoráveis, pelo que as fragilidades estruturais da economia portuguesa são pouco evidentes. Oxalá assim continue por mais uns tempos. Mas os problemas estão aí e não devem ser esquecidos. 

Ricardo Paes Mamede
2017 



Ladrões de Bicicletas: O recente crescimento da economia portuguesa é surpreendente. Até quando durará?

quinta-feira, setembro 14, 2017

Livro do dia IV - Salgueiro Maia

Salgueiro Maia : o homem do tanque da liberdade / José Jorge Letria, António Jorge Gonçalves

"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"  

Salgueiro Maia, capitãoMadrugada do dia 25 de abril de 1974, Santarém, Escola Prática de Cavalaria

quarta-feira, setembro 06, 2017

ALFINete: Rio de Contos 2017 Almada - Viral Agenda



ALFINete: Rio de Contos 2017 Almada - Viral Agenda: Rio de Contos 2017 Almada - Viral Agenda

Livro do dia. III - Para gostar de ler /Itaú


Era uma vez um filme que falava sobre a importância da leitura infantil na primeira infância. Um filme sobre ler histórias. E mudar histórias. O Itaú apresenta o documentário "Para Gostar de Ler”. Assista. Entenda. Leia para uma criança.
2017
Uma delícia!
Cosias que nos animam

terça-feira, setembro 05, 2017

Pensar sentindo - Tatiana Macedo

Fotografia de Orientalism and Reverse. Tatiana Macedo

Eu estou interessada em provocar o pensamento e pensar também passa por sentir. Talvez a minha prática se traduza em pensamento-acção pois materializa-se com aquilo que disseste e todas as outras linguagens plásticas que uso, como a “coreografia” e o som, mas parte primeiro de uma experiência, vivência-pensamento-acção-vivência-pensamento. Pensar também é físico e requer mudanças de posição em relação a algo, e mudanças de distância. Talvez o grande “motor” (não gosto de falar de temas porque não me movo por temas), o que me move é ver uma desumanização constante em tudo, e tentar resistir a isso. Se de um dia para o outro se instaurar uma Guerra Nuclear, as nossas prioridades vão mudar automaticamente. Se de um dia para o outro tiver que me atirar ao mar num bote com outras centenas de pessoas, de que me vale viver num mundo pós-internet? Afinal qual é a utopia? De quem? Onde? A utopia para uns é ter água potável, para outros é a Europa, os Estados Unidos… para outros é um avatar, uma realidade virtual, um pós alguma coisa que serve de escape do agora.
Tatiana Macedo, 2017

Entrevista a Tatiana Macedo: "O “aparente” à-vontade é resultado de muito trabalho." | Instituto Português da Fotografia

Livro do dia. II. As fabulosas histórias da Tapada de Mafra / Cristina Carvalho, Naná Sousa Dias, Teodora Boneva



Há livros com perfume. Neste, odores a urze, e a mato. Uma homenagem a um belo sítio, a Tapada de Mafra, e um itinerário de histórias que nos traz companheiros inesquecíveis, viventes entre as árvores. Para ler e reler, saboreando palavras e imagens. Cristina Carvalho prepara assim o nosso encontro com a Natureza:


"Na Tapada de Mafra, nesse reduto de inacreditáveis cores, variedades de espécies vegetais e  animais, quando passeamos ao fim da tarde, num morno fim de tarde, por caminhos de terra batida, sentimos cheiros. Cheiros intensos pelos ares. São cheiros extraordinários e, ainda que estranhos, fixar-se-ão para todo o sempre no nosso cérebro, num canto do cérebro, esse destinado aos cheiros. São as urzes do mato a invadir toda a atmosfera! Com as suas flores pequeninas cor-de-rosa, este arbusto aromático tem sido sempre preferido por todos os artistas dos perfumes, essas pessoas que se dedicam a criar novos aromas a partir das fragrâncias da própria natureza. Esses artistas descobrem pétalas, recolhem folhinhas tenras, retiram o casco dos troncos e aspiram de nariz no ar a atmosfera da floresta e depois, lá nos seus laboratórios mágicos com fornos e fogos e tubos e caixas, aqueles narizes experimentam, experimentam, misturam, dilatam as narinas, tudo num frenesim de descobertas e vão sempre cheirando e cheirando até atingir a improvável leveza dos aromas. O melhor aroma sobrevive sempre. É por esse trabalho de incrível sabedoria e conhecimento da natureza que depois, mais tarde, compramos, para aplicar nos nossos pescoços, nos nossos cabelos e na nossa roupa, vislumbres de clareiras, de moitas de flores, charcos largos de luar, madrugadas leves, algumas rosas colhidas em certas noites do verão. O cheiro da urze invade o caminho por onde andamos a passear neste fim de tarde. O cheiro da urze é subtil, delicado e transparente. Também muitas abelhas preferem as urzes! Talvez não saibam que muitos champôs e cremes do corpo e chás e tantos outros produtos têm como componente a urze! E quem diz a urze, diz as silvas dos silvados, diz as folhas dos regatos, diz papoilas, diz também musgos orvalhados."

Texto retirado das primeiras páginas, aqui.
Mais informação sobre o livro, aqui
Mas o melhor, melhor, é mesmo lê-lo.

segunda-feira, setembro 04, 2017

Parar para pensar - memória e História


Peça de exposição sobre tortura e escravidão


Nos dias que correm debate-se o problema da antiga escravatura de uma forma indirecta e por referência ao que se passa nos Estados Unidos com a remoção de estátuas de certas figuras históricas. Mas seja de forma indirecta ou directa, nesse ou noutros debates sobre o passado, é muito frequente confundir-se memória e História. Ao contrário do que geralmente se diz, a História não é escrita pelos vencedores — a memória sim, é imposta por eles. A História é escrita pelos historiadores e há-os de várias correntes ideológicas e a produzir trabalho cujo mérito não depende da eventual proximidade aos vencedores, mas sim da sua profundidade e solidez. A História deve ser sempre informada, crítica e plural. A memória não tem essas exigências. É parcial e selectiva — é a visão que um determinado grupo tem do passado — e é ela que costuma ser alvo de apropriações e imposições. Ora, a memória e a maneira como a usam são ou podem ser perigosas. Porquê? Porque há pessoas que acham, erradamente, que as memórias têm o mesmo rigor e valor da História. Acham, também, que podem impor a “sua” memória dos factos, invadir a História e calar os historiadores; há, até, quem diga que a História não precisa de sentinelas (para que — acrescento eu — o seu território seja mais facilmente invadido e tomado). Tudo isso tem sido muito evidente no debate sobre a antiga escravatura e sobre o que deve ser a nossa posição relativamente a ela, e é justamente sobre isso que quero contar-vos um episódio muito esclarecedor sobre o teor de veneno que as memórias “certas”, e os que se dizem seus paladinos e defensores, podem trazer.
JOÃO PEDRO MARQUES
2017
Compreender o passado requer ferramentas teóricas, trabalho e ética de investigação. O que não significa que os historiadores sejam infalíveis, e ainda menos que não possam ser interpelados e contestados. 
Os "arquivos coloniais" foram durante muito tempo ignorados, ou ocultados, e a sua própria génese é uma parte do passado de grande interesse para estudo pelos historiadores contemporâneos. A questão da escravatura é do foro da memória individual e coletiva, e da História, mas também ganha atualidade por evolução do acesso a informação, que recentemente ganhou alento, até por decisões políticas internacionais, aplicando esse documento fundamental que é a Declaração dos Direitos Humanos a todo o Planeta Terra e a todas as populações. 
A repressão pela Lei e pelo Estado de versões do passado é intolerável por quem defenda a liberdade, por muito que discordemos de uma e outra versão - e esta não é uma posição da História nem da memória, mas uma escolha política do presente em que vivemos como cidadãos, com memória, memórias, e mais ou menos partilha de resultados da investigação em História pela sociedade em geral.

A ditadura da memória: um caso exemplar - PÚBLICO

Livro do dia. I. E se Obama fose africano? / Mia Couto

14165_gg

Neste livro, encontramos um magnífico texto de 2007 de Mia Couto que nos guia no desarmadilhamento do mundo.



Armadilha da realidade
A realidade é uma construção social e é, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira. Nós não temos sempre que a levar tão a sério.A imensa felicidade que a escrita me deu foi a de poder viajar por entre categorias existenciais. Na realidade, de pouco vale a leitura se ela não nos fizer transitar de vidas. De pouco vale escrever ou ler se não nos deixarmos dissolver por outras identidades e não reacordarmos em outros corpos, outras vozes. A questão não é apenas do domínio de técnicas de decifração do alfabeto. Tratase, sim, de possuirmos instrumentos para sermos felizes. E o segredo é estar disponível para que outras lógicas nos habitem, é visitarmos e sermos visitados por outras sensibilidades. É fácil sermos tolerantes com os que são diferentes. É um pouco mais difícil sermos solidários com os outros. Difícil é sermos outros, difícil mesmo é sermos os outros. 
Armadilha da identidade
Esta biologização da identidade é uma capciosa armadilha. Simone de Beauvoir disse: a verdadeira natureza humana é não ter natureza nenhuma. Com isso ela combatia a ideia estereotipada da identidade. Aquilo que somos não é o simples cumprir de um destino programado nos cromossomas, mas a realização de um ser que se constrói em trocas com os outros e com a realidade envolvente. 
Armadilha da hegemonia da escrita
Uma terceira armadilha é pensar que a sabedoria tem residência exclusiva no universo da escrita. É olhar a oralidade como um sinal de menoridade. Com alguma condescendência, é usual pensar a oralidade como património tradicional que deve ser preservado. O culto de uma sabedoria livresca pode contrariar o propósito da cultura e do livro que é o da descoberta da alteridade. 
Vale mesmo a pena ler tudo, ler o livro. Há lá mais...

O texto que destaco hoje, apresentado numa Conferência em São Paulo em 2007, pode também ser lido na íntegra aqui:


"Quanto menos entendemos, mais julgamos." - Mia Couto

Saber comer, saber ler e saber escrever o próprio corpo



Os alimentos são veículos de comunicação. Se fizer uma refeição de gordura saturada – uma sopa com um chouriço e depois um cozido à portuguesa – dá um sinal à cárdia (esfíncter entre o estômago e o esófago) para alargar e é assim que ocorrer o refluxo gastroesofágico e aparece a azia. A gordura saturada é um sinal que se dá à cárdia para se manter aberta. Se no dia seguinte a mesma pessoa só comer azeite ou gorduras de peixe não terá azia. Sabe porquê? É que o azeite ajuda a fechar a cárdia. Este é outro exemplo que ilustra a importância do conhecimento. Pessoas mais esclarecidas fazem escolhas mais acertadas.
Cristina Sales, 2017 


Saber comer é pura informação