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segunda-feira, junho 15, 2020

Escola da Palavra : urgente

Lamberto Maffei - WOOKElogio da Palavra - Livro - WOOKElogio da Rebeldia - Livro - WOOK



"Maffei refere-se ao cérebro em todos os seus elogios. No Elogio da Palavra:  “A evolução demorou milénios a modificar o cérebro para dar a palavra ao homem. Este depois inventou a escrita para que as palavras tivessem significados permanentes e fossem próteses da memórias.” Embora reconhecendo o primado do social no humano chama a atenção dos perigos do “cérebro globalizado.” Como diria Magritte, “isso não é um cérebro”. A Internet está inundada de exibição em vez de informação, tagarelice em vez de debate, propaganda em vez de racionalidade: “O cérebro globalizado é entregue gratuitamente no domicílio através dos meios visuais e verbais, autênticos traficantes da mente, como o melhor dos cérebros possíveis, indispensável para o futuro, para o progresso e para o aumento do PIB”. O cérebro do autor – que é único - revolta-se contra esse “cérebro globalizado”, que recusa a lentidão e a palavra que o cérebro individual exigem.   
Para termos cérebros precisamos de escola. Maffei defende a “escola da palavra”. A sua posição está em linha com obras recentes da filósofa norte-americana Martha Nussbaum e do professor italiano de Literatura Nuccio Ordine, que ele cita. A primeira, em Sem Fins Lucrativos (Edições 70, 2019), defende que a democracia precisa das humanidades e o segundo, em A Utilidade do Inútil (Faktoria K, 2017), pugna pela necessidade do saber desinteressado. A escola deveria recuperar o poder da palavra, em vez de dar certificados a analfabetos funcionais. Maffei levanta a hipótese de que a actual incúria da escola tenha sido programada: “Súbditos mudos, não educados para a palavra e para o pensamento, são cidadãos funcionais para uma democracia de fachada.” Receio que ele tenha razão.
(...)
Se temos um cérebro, só nosso, é nossa obrigação usá-lo. Deveria ser óbvio, mas talvez valha a pena lembrar que não há liberdade se não houver pensamento, ou se apenas houver o pensamento único do “cérebro globalizado."
Carlos Fiolhais, numa bela recensão, aqui Lamberto Maffei. Elogio de Três Elogios (2020)

quinta-feira, julho 19, 2018

Leituras obrigatórias

Resultado de imagem para os maias

A propósito de uma discussão efémera sobre a obrigatoriedade da leitura de Os Maias de Eça de Queirós no Ensino Secundário.

As histórias do que lemos e quando são sempre curiosas.

A primeira vez que li Os Maias foi há imensos anos, quase às escondidas. Na época, incentivada por uma frase de grande efeito:"esse não é para a tua idade" (13 anos), seguida de uma outra ainda melhor "isso não é próprio para meninas".. Não há nada como uma beatice para promover a leitura num adolescente... Já agora, não era mesmo para a minha idade, achei-o uma chatice, ao contrário de outros do Eça, como A cidade as serras, ou os Contos...

Depois, com 15 ou 16 anos, li-o com mais gosto, mas mesmo assim sem grande entusiasmo, e com ajuda de professora em sala de aula. O incesto era tabu, nesse tempo, mas por essa altura tive a sorte de a professora de Português e a de Grego falarem uma com a outra, e ambas connosco, e ambas estarem disponíveis para nos escutarem. E ambas terem lido o livro, e muitos outros livros.

Mas quando o entendi melhor foi quando tive de reler para o ensinar a alunos adultos, num curso noturno, tinha eu 18 anos, e todos eles muitos mais - ajudou imenso imaginarmos a história num filme, e claro que descobri que a idade interessa para apreciar o romance. As palavras saltaram do livro para a nossa voz, e foi um prazer que ainda recordo, grata. Mais tarde, o Botelho fez o filme. Ou fez um dos filmes possíveis. Não vi, acredito que será bom, pelo que me disseram.

Voltei ao livro algumas vezes, e de cada vez reagi de modo diferente. Uma das grandes vantagens dos livros é que alguns - os bons - não são como os iogurtes, e não têm prazo de validade... Como leitora livre, aluna da escola secundária e professora, fui sempre poupada aos resumos para efeitos escolares, até ter que apoiar estudantes em tarefas sujeitas a avaliação. Foi uma trabalheira conseguirmos chegar ao livro propriamente dito... mas os resumos ajudavam imenso a treinar as respostas para exames e testes. Aprendi assim que se pode escrever sobre um livro sem nunca o ter lido. Parecer que se leu - na verdade, lemos outra coisa, a versão do livro, uma imagem numa fotografia de alguém que nunca conhecemos.
O Eça, hoje, faria disto um romance, inventava uma casa de espelhos e traria para papel as dores e os amores da gente real. De tal modo o escreveria, que o leríamos, não por estar numa lista de obrigações, mas porque a vida nos obriga a procurar compreender, sentir e imaginar. Uma empresa diária, em que contamos com ajudas - por exemplo, dos bons livros, acessíveis no momento certo, é da nossa disponibilidade interior para nos encontrarmos com eles, e neles.

quinta-feira, maio 17, 2018



Alberto Soler, 07.05.2018 (51:30)

Destaco de entre as suas propostas:

  • conceito de co-paternidade, em que os homens não "ajudam em casa", antes se responsabilizam, consistindo a parentalidade no reconhecer e dar espaço para a educação de mães e de pais, com as suas diferenças e peculariedades;
  • aviso para os riscos do ensino com "etiquetas" e da obediência cega: o futuro das crianças passa mais pela educação em valores como a assertividade, o pensamento crítico e a autonomia;
  • crítica ao sistema académico (escola) que se centra demasiado nos resultados (classificações, notas - incluindo os prémios por boas classificações, com os seus efeitos nefastos) e pouco no empenho e no esforço, e no que se aprende;
  • referência a Hanna Arendt, às experimentações de Milgram e aos perigos da acção dos burocratas aborrecidos que cumprem ordens... 
  • abordagem do tema dos limites, da protecção durante o crescimento e das obsessões securitárias : " se de repente tudo é importante, tudo perde importância".

Alto Soler é psicólogo, Mestre em Psicologia e da Saúde, com mais de 100 anos de experiència clínica e de aconselhamento a pais, conferências, contributos na imprensa, na rádio e na televisão. Publicou o livro "Hijos y padres felices" e do videoblog "Píldoras de Psicologia".

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Com elas

 
«Vieram de longe, dos lugarejos lá para o âmago das florestas de pinheiros e carvalhais nos planaltos e caramulinhos de onde se avista o Caramulo e já o vulto da Estrela. Levantaram-se ainda com escuro, beberam a malga de café ou engoliram o caldo de cebola adubado com unto, algumas talvez só um naquito de broa. Lá vieram dentro dos xailes, batendo os tamancos cardados sobre os caminhos pegajosos, rechinantes do gelo e da geada. Aqui estão, os pés roxinhos, mãos encolhidas e vermelhas, nariz dormente, olhos lacrimejantes de tanto frio, sentadas nos degraus de granito, muito juntas umas às outras, à espera que se abra a grande porta da escola. Estou entre elas. Estou com elas.»
in Memórias da Escola Antiga (1981)
Sobre as colegas da escola primária de uma aldeia beirã que frequentou no final dos anos 20 e início dos anos 30 do século passado.

«Na década de 30, do século XX, o Estado Novo acabava de se implantar. A nível político vivia-se ainda, sobretudo nas cidades, o rescaldo das lutas dos últimos tempos da República, embora de uma forma muito interiorizada, pois, dada a existência de polícia política, era pouco prudente expressar certas opiniões. Portugal era um país pobre, com cerca de 50% da população vivendo da agricultura, com um índice de analfabetismo de mais de 75% para as mulheres e 70% para os homens, que assim se viam privados do direito de votar. A mortalidade infantil era grande. Sendo as famílias numerosas, era usual ouvir-se "tive seis filhos mas morreu-me um".

terça-feira, agosto 20, 2013

The Learning Generalist: Why my daughter doesn't deserve school

De vez em quando, é bom recentrarmo-nos no essencial. Cada criança é de facto uma oportunidade para melhorar.


The Learning Generalist: Why my daughter doesn't deserve school:

 " I do have a few things in mind that I want my daughter to get out of her education - and I'm particular about these to the extent that I'm more than happy to homeschool her if necessary.

  • Enjoy her childhood and grow organically
  • Develop a respect for nature
  • Experience the dignity of labour
  • Build respect for tradition and indigenous livelihoods; learn extensively from them
  • Gain mastery over all our family languages - Hindi, Bengali and Marathi
  • Pursue knowledge for its own sake - not for curriculum
  • Discover the ability to follow her passion without fear
  • Question the status quo of the current world
  • Learn to work with others, not against them
  • Apply her learning in real life through inter-disciplinary challenges"


'via Blog this'

domingo, fevereiro 10, 2013

Forma de vida : a aventura de ensinar

Se a relação educativa não é a produção da aprendizagem e sim o encontro entre a pessoa do professor e a pessoa do aluno, então o trabalho do ensino não pode ser visto como uma função que se desempenha no interior de uma linha de montagem. O professor não é só a sua ação eficaz ou ineficaz de ensinar (como se a ação de ensinar pudesse não derivar da inteira razão e vida do professor!), nem o aluno o sucedido ou não sucedido acontecimento de aprender. Se o homem for um somatório das suas ações, papéis ou contextos, então é verdade que, do professor, à escola interessa só a sua ação de ensinar. O professor pagará na mesma moeda considerando que a ação de ensinar nada tem a ver com a sua pessoa. E o aluno encontrará na aula apenas aquilo que um robot poderia também desempenhar: um programa, melhor ou pior construído, de aprendizagem do português ou da matemática. Não admira que proliferem cursos via internet ou que os alunos se desinteressem cada vez mais da escola e do estudo. Para que isto não aconteça é preciso que um homem não seja um somatório contingente e acidental das tarefas que desempenha e dos contextos em que a sua existência se desenrola, mas sim uma unidade de razão e vida. 

sábado, agosto 07, 2010

Ver a escola com bons olhos passa por pensar a educação também fora dela

Tem de mudar a noção que temos de recursos educativos de cada comunidade local. Bibliotecas, museus, centros de ciência, jornais e rádios, centros de saúde e serviços de segurança e solidariedade social, fundações e associações culturais, juntas de freguesia e câmaras municipais são alguns exemplos de recursos educativos (de proximidade) que podem e devem ser mobilizados para que as oportunidades educativas cheguem a todos os cidadãos, ao longo de toda a vida. Esta participação é também um caminho irrecusável para a manifestação de um ambiente social menos negativo em relação às escolas e mais propício e incentivador da qualidade do ensino e da formação.

CNE Conselho Nacional de Educação (2007).
Debate Nacional sobre Educação : relatório final. [Lisboa], CNE, p. 151
http://www.debatereducacao.pt/index.php?option=com_docman&task=cat_view&gid=21&Itemid=10 (acedido 2010.08.07)

Documentos anexos a este relatório que referem bibliotecas escolares: 2