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segunda-feira, junho 15, 2020

Escola da Palavra : urgente

Lamberto Maffei - WOOKElogio da Palavra - Livro - WOOKElogio da Rebeldia - Livro - WOOK



"Maffei refere-se ao cérebro em todos os seus elogios. No Elogio da Palavra:  “A evolução demorou milénios a modificar o cérebro para dar a palavra ao homem. Este depois inventou a escrita para que as palavras tivessem significados permanentes e fossem próteses da memórias.” Embora reconhecendo o primado do social no humano chama a atenção dos perigos do “cérebro globalizado.” Como diria Magritte, “isso não é um cérebro”. A Internet está inundada de exibição em vez de informação, tagarelice em vez de debate, propaganda em vez de racionalidade: “O cérebro globalizado é entregue gratuitamente no domicílio através dos meios visuais e verbais, autênticos traficantes da mente, como o melhor dos cérebros possíveis, indispensável para o futuro, para o progresso e para o aumento do PIB”. O cérebro do autor – que é único - revolta-se contra esse “cérebro globalizado”, que recusa a lentidão e a palavra que o cérebro individual exigem.   
Para termos cérebros precisamos de escola. Maffei defende a “escola da palavra”. A sua posição está em linha com obras recentes da filósofa norte-americana Martha Nussbaum e do professor italiano de Literatura Nuccio Ordine, que ele cita. A primeira, em Sem Fins Lucrativos (Edições 70, 2019), defende que a democracia precisa das humanidades e o segundo, em A Utilidade do Inútil (Faktoria K, 2017), pugna pela necessidade do saber desinteressado. A escola deveria recuperar o poder da palavra, em vez de dar certificados a analfabetos funcionais. Maffei levanta a hipótese de que a actual incúria da escola tenha sido programada: “Súbditos mudos, não educados para a palavra e para o pensamento, são cidadãos funcionais para uma democracia de fachada.” Receio que ele tenha razão.
(...)
Se temos um cérebro, só nosso, é nossa obrigação usá-lo. Deveria ser óbvio, mas talvez valha a pena lembrar que não há liberdade se não houver pensamento, ou se apenas houver o pensamento único do “cérebro globalizado."
Carlos Fiolhais, numa bela recensão, aqui Lamberto Maffei. Elogio de Três Elogios (2020)

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Micro-manifesto pela Cultura



Praticar desporto. Caminhar, respirar, dançar. Cantar. Contar histórias e escutá-las.
Ler um livro, ler jornais. Escrever uma ideia por dia, nova, menos nova, bonita, assim-assim.
Rir.

Apanhar ar. Conversar com gente real, na rua.
Ir a um concerto, ir ao teatro, sair de casa e da prisão dos écrans - televisão, computador, smartphone, tablet, telemóvel.

Lutar por tempo livre, para não ser preciso correr entre 2 empregos, 16 horas por dia, dinheiro sempre curto, juros e juros.
Fazer tudo isto por si, e com outros. Por todos.
Exigir investimento que modifique os hábitos culturais e a visão sobre a cultura, sem esquecer que isto anda tudo ligado.

O que não se cultiva não se colhe.
A cultura começa no povo.

Isto anda tudo ligado

quinta-feira, abril 11, 2019

Peniche, Museu da Resistência de da Liberdade

Domingos Abrantes walks to the former political prison in Peniche which has become a museum.


Celebremos os 45 anos do 25 de Abril, cuidando da Memória, e do Futuro.

No próximo dia 27 de Abril, pelas 16h, abre ao público o Museu da Resistência e da Liberdade, na antiga Prisão política de Peniche, com a inauguração da exposição "Por teu livre pensamento", título inspirado na letra do Fado do Abandono, de Amália Rodrigues, editado em 1962, poema de David Mourão-Ferreira e música de Alain Oulman.

É o resultado do trabalho do comité presidido pela diretora-geral do Património Cultural, Paula Silva, composto pelos ex-presos políticos Domingos Abrantes e Fernando Rosas, pelo historiador José Pacheco Pereira, pelos investigadores e museólogos Fernando Batista Pereira e Teresa Albino, pelo diretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Silvestre Lacerda, e pelo arquitecto do projeto de memorial João Barros Matos. A solução arquitectónica para a Fortaleza, edifício de longas história, foi a vencedora de um concurso em que participaram 20 propostas.

Domingos Abrantes, Fernando Rosas e José Pacheco Pereira transitam da Comissão de Instalação dos Conteúdos e da Apresentação Museológica (CICAM) para o futuro Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, que integrou ainda Diretora Geral do Património Cultural, Paula Silva, o Presidente da Câmara Municipal de Peniche, Henrique Bertino, o Chefe de Gabinete do Ministro da Cultura, Jorge Leonardo, Adelaide Pereira Alves, José Pedro Soares, Manuela Bernardino, Raimundo Narciso e João Bonifácio Serra. Participaram nos trabalhos da CICAM, sem direito de voto, os membros do Gabinete do Ministro da Cultura, Hernâni Loureiro e Fernando A. Batista Pereira; Teresa Albino da DGPC; Rui Venâncio da CM Peniche; Luis Farinha, do I.H.C da Universidade Nova de Lisboa; João Nunes do C.E.I, da Universidade de Coimbra; Amélia Polónia e Marzia Bruno do CITCEM da Universidade do Porto. 

A CICAM produziu um Guião para os conteúdos, publicado em Abril de 2018, e que está acessível em http://www.museunacionalresistencialiberdade-peniche.gov.pt/wp-content/uploads/2018/05/CICAM_Guiao_MNRL_Final_Abril_2018.pdf

Fontes
Site do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade 

Novo comité executivo vai acompanhar obras do Museu da Resistência em Peniche / DN-LUSA 2018.04.21


Notorious Portuguese political prison becomes museum of resistance / The Guardian 2019.03.31 https://www.theguardian.com/world/2019/mar/31/notorious-portuguese-political-prison-becomes-museum-of-freedom (acedido 20190411)







quinta-feira, abril 19, 2018

Antes de Abril, o caminho foi abrir o corpo e a mente


Homenagem humilde ao Pedro Lobo Antunes, ao Manuel Alegre e ao Francisco Fanhais
O tempo negro que nos oprimia haveria de clarear em Abril de 1974

segunda-feira, agosto 28, 2017

Há 64 anos, por trabalho e liberdade


I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character. I have a dream today.
Tenho um sonho de que os meus quatro filhos virão um dia a viver numa nação onde não sejam julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo do seu carácter. Tenho um sonho hoje.

"I Have a Dream," Address Delivered at the March on Washington for Jobs and Freedom | The Martin Luther King, Jr., Research and Education Institute



Martin Luther King, Jr. Memorial, Washington, D.C.. Carol M. Highsmith, photographer, September 2011. Highsmith (Carol M.) Archive. Prints & Photographs Division

sábado, julho 01, 2017

Helena Cidade Moura





Imagem partilhada pela ALEM. Portugal, 2017

Foi por ela que para sempre fiquei comprometida com a leitura e as pessoas.
Não sei quantas pessoas passaram a saber ler e escrever em Portugal, depois das campanhas de alfabetização de 1974, mas sei que muitos e muitos jovens que como eu nelas participaram nunca mais leram o seu País da mesma forma. Nem o escreveriam da mesma forma.
E este resultado não foi  casual, mas deliberado. Helena Cidade Moura soube sempre bem o que andou a fazer: cultura, política, educação, formação. A fazer Futuro, e Melhor Futuro.
Cinco anos depois da sua morte, no próximo dia 5 de Julho de 2017, em boa hora a A. L. E. M. e o Município de Lisboa a recordam, na sala do Arquivo dos Paços do Concelho, ali junto ao Terreiro do Paço. 
Será pouco? O que é pequeno cresce, como ela nos ensinou sobre Cidadania. Escassez não é pobreza - muita miséria se cria com abundâncias, arrogâncias e ganâncias.
Temos saudades da sua ideia clara, que foi partilhada por uma geração embalada nos bancos da Faculdade de Letras de Lisboa em plena ditadura, de que fizeram parte Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Maria Barroso, Sebastião da Gama, Lindley Cintra, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, na senda de Mestres como Hernâni Cidade e António Sérgio.
Felizmente, muito nos deixou para aprendermos.

Para saber mais:

Helena Cidade Moura (1924-2012) /Esquerda.net (2012)

domingo, maio 01, 2016

1º de Maio, 2016. Lutar e ler


Dizer Não

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'


sexta-feira, janeiro 23, 2015

Desabotoai os olhos, oh meus irmãos e irmãs



Coimbra, 26 de Janeiro de 1950 - O terror que se apoderou de todos transformou o mundo numa espécie de ordem religiosa, onde cada irmão vive sob o peso do pecado da consciência. Em vez de nos enfrentarmos com amor e coragem, andamos prudentemente ao lado uns dos outros com os olhos abotoados.

Miguel Torga, Diário V

sábado, maio 24, 2014

Sim e Não


Dizer Não


Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.
Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.
Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.
Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.
Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.
Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.
Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.
Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenarmo-nos em gado sob o comando de um pastor.
Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.
Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.
E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.




quarta-feira, novembro 20, 2013

Liberdade


Pájaros prohibidos1976Libertad 

Los presos políticos uruguayos no pueden hablar sin permiso, silbar, sonreír, cantar, caminar rápido ni saludar a otro preso. Tampoco pueden dibujar ni recibir dibujos de mujeres embarazadas, parejas, mariposas, estrellas ni pájaros.
Didaskó Pérez, maestro de escuela, torturado y preso por tener ideas ideológicas, recibe un domingo la visita de su hija Milay, de cinco años. La hija le trae un dibujo de pájaros. Los censores se lo rompen a la entrada de la cárcel.
Al domingo siguiente, Milay le trae un dibujo de árboles. Los árboles no están prohibidos, y el dibujo pasa. Didaskó le elogia la obra y le pregunta por los circulitos de colores que aparecen en las copas de los árboles, muchos pequeños círculos entre las ramas:
- ¿Son naranjas? ¿Qué frutas son?
La niña lo hace callar:
- Ssshhhh.
Y en secreto le explica:
- Bobo. ¿No ves que son ojos? Los ojos de los pájaros que te traje a escondidas.


Pássaros proibidos
1976
Liberdade

O presos políticos urugaios não podem falar sem autorização, nem assobiar, sorrir, cantar caminhar depressa nem saudar outro preso. Tampouco podem desenhar nem receber desenhos de mulheres grávidas, casais, borboletas, estrelas ou pássaros.
Didaskó Perez, professor da escola primária, torturado e preso por ter ideias ideológicas, recebe num domingo a visita da sua filha Milay, de cinco anos. A filha traz-lhe um desenho de pássaros. Os censores rasgam-no à entrada da prisão.
No domingo seguinte, Milay traz-lhe um desenho de árvores. As árvores não estão proibidas, e o desenho passa. Didaskó elogia-lhe a obra e pergunta-lhe pelos circulozinhos de cores que aparecem entre as copas das árvores, muitos pequenos círculos entre os ramos:
- São laranjas? Que frutas são?
A menina fá-lo calar-se:
- Ssshhhh.
E em segredo explica-lhe:
- Tonto. Não vês que são olhos? Os olhos dos pássaros que te trouxe às escondidas.
Trad. livre para português (PT) 
Maria José Vitorino (2013)

Obra traduzida em português (BR)
Notícia/compra também aquiaqui e também aqui

quarta-feira, agosto 21, 2013

Quando a comunicação social se suicida


 
A correspondente de guerra não nega a crise dos jornais: "Existe uma crise dos media, mas não dos leitores." Para ela, essa crise explica-se pela corrida para o simplismo e o sensacionalismo, acompanhada pelos cortes abruptos na qualidade da comunicação social. Os leitores continuam a querer compreender aquilo que acontece no mundo e isso exige um jornalismo que vá para além da histeria das aparências, feito por jornalistas que vão aos locais para contar as histórias e entender as pessoas e as suas circunstâncias.

 Mais escandaloso que o tempo e o modo como Judite Sousa entrevistou um jovem milionário com pouca história é o facto de nenhum órgão de comunicação social nacional ter conseguido enviar um jornalista para o Egipto. Não é o público que só consegue ler as Pepas e os Lorenzos desta vida, é a comunicação social que está a decretar o seu próprio suicídio.
Se lermos a "História de Portugal" organizada por José Mattoso, verificamos que no início do século xx, com uma população escassamente alfabetizada, "O Século" e o "Diário de Notícias" vendiam, cada um, cerca de 100 mil exemplares por dia. Em pleno século xxi, os nossos jornais têm muito menos leitores. Não foram eles que desapareceram, são os jornais, a comunicação social e os jornalistas que não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade. O que fazem não serve.
Nuno Ramos de Almeida, Agosto 2013 

Quando a comunicação social se suicida | iOnline - Notícias de Portugal, Mundo, Economia, Desporto, Boa Vida, Opinião e muito mais.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Um rio, só se for claro

ROTEIRO

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

SIDONIO MURALHA

domingo, fevereiro 24, 2013

domingo, outubro 14, 2012

Esta gente/Essa gente

Lisboa, 13.10.2012


O que é preciso é gente

gente com dente 

gente que tenha dente

que mostre o dente 


Gente que não seja decente

nem docente 

nem docemente 

nem delicodocemente 


Gente com mente 

com sã mente 

que sinta que não mente 

que sinta o dente são e a mente 


Gente que enterre o dente

que fira de unha e dente 

e mostre o dente potente 

ao prepotente 


O que é preciso é gente 

que atire fora com essa gente 


Essa gente dominada por essa gente 

não sente como a gente 

não quer 

ser dominada por gente 

NENHUMA! 


A gente 

só é dominada por essa gente 

quando não sabe que é gente 


Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades" 

Dito nesta Praça de Espanha por Maria do Céu Guerra

quinta-feira, junho 21, 2012

Biblioteca Pedro Ivo, Porto

Criada em 1951. Biblioteca Infantil Pedro Ivo (municipal), Porto.
Encerrada em 2001, nunca mais foi biblioteca até 2012
10 anos devoluta, 
enquanto as prioridades municipais eram ocupadas por outras coisas

Ocupada em 2012, limpa, arranjada, equipada e recheada com alguns livros, porta aberta.



Pessoal, os livros da Biblioteca Popular do Porto estão na Polícia Municipal, na Pasteleira. 
Quem tiver possibilidade de os ir buscar, por favor, façam-no, senão o mais provável é acabarem no  EcoPonto ao lado dos "resíduos sólidos" = estantes, cadeiras, sofás...
Por favor, venham rápido 
(mensagem no Facebook, 19.06.2012)

Nos últimos dias, foi ocupada uma pequena biblioteca pública abandonada no jardim do Marquês no Porto. Tanto quanto se pode perceber, o processo é o mesmo usado na Escola da Fontinha: um edifício público devoluto é ocupado pacificamente, não apenas por pessoas mas por actividades próximas às  projectadas originalmente para aquele local. Aulas, actividades recreativas, espaços de leitura, tudo pontuado por assembleias populares.
Desde há anos que se vão fechando escolas, centros de saúde, linhas de comboio, bibliotecas, cinemas, por todo o país mas especialmente nas periferias, argumentado a poupança e racionalização dos recursos, o excesso de despesa pública. O que sobrou é um deserto pontuado por concentrações de recursos aqui e ali, cada vez menos acessíveis a quem viva fora dos centros, tenha menos dinheiro ou disponibilidade para navegar a burocracia toda.

Ler mais aqui:
http://opiniao.porto24.pt/2012/06/20/a-biblioteca-popular-do-marques/


Numa altura em que a crise económica e, bem pior, uma crise identitária de valores se instaura um pouco por todo o mundo ocidental, nesta época de profunda desilusão, desmotivação e agravamento sistemático do poder de compra dos cidadãos e da sua qualidade de vida, urgem movimentos cívicos semelhantes. Os livros, e a sua vertente máxima, a cultura, sempre foram tidos desde a génese da cidade grega como instrumentos de formação cívica, de enriquecimento individual e pessoal.
Encerrar gratuitamente uma biblioteca é um dos actos mais tiranos perpetuados pelo poder instituído.

Ler mais aqui:
http://ressabiator.wordpress.com/2012/06/19/desironizar/

sexta-feira, abril 27, 2012

Luz

Foto Javier Ortega (Chile, 2012)


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.



Jorge de Sena
in FIDELIDADE, 1958

(ao Miguel Portas, 2012)

terça-feira, abril 24, 2012

Há pessoas assim. Pessoas que fazem tudo o que está ao alcance delas para ajudar os outros a ser felizes. O capitão de Abril, Salgueiro Maia, foi, sem dúvida, um herói que ajudou a escrever a História recente do nosso país. Já tinhas ouvido falar dele?
Texto de Gi Negrao aqui

sábado, abril 07, 2012

Pequenos deuses caseiros


Poema de Sidónio Muralha
Cantado por Manuel Freire

Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.

Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
pequenos deuses caseiros.

Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas
servido em taças roubadas

Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas  

quarta-feira, março 21, 2012

Dia Mundial da Poesia


LIVRE



(Não há machado que corte
a raíz ao pensamento) [bis]
(não há morte para o vento
não há morte) [bis]
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão
Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre
Carlos de Oliveira

Música e voz de 
Manuel Freire (1968)