quarta-feira, junho 09, 2021

YOURCENAR



A PALAVRA ESCRITA ENSINOU-ME A ESCUTAR A VOZ HUMANA

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.

Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso. Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais doce que este que nos é dado, por isso mesmo diferente e praticamente quase inabitável. Os filósofos, para poderem estudar a realidade pura, submetem-na quase às mesmas transformações a que o fogo ou o pilão submetem os corpos: coisa alguma de um ser ou de um facto, tal como nós o conhecemos, parece subsistir nesses cristais ou nessas cinzas. Os historiadores apresentam-nos, do passado, sistemas excessivamente completos, séries de causas e efeitos exactos e claros de mais para terem sido alguma vez inteiramente verdadeiros; dispõem de novo esta dócil matéria morta, e eu sei que Alexandre escapará sempre mesmo a Plutarco. Os narradores, os autores de fábulas milésias, não fazem mais, como os carniceiros, que pendurar no açougue pequenos bocados de carne apreciados pelas moscas. Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.

[MARGUERITE YOURCENAR, in 'MEMÓRIAS DE ADRIANO', tradução de Maria Lamas]

sexta-feira, maio 07, 2021

ALFINete: 365Dias Leitura

ALFINete: 365Dias Leitura:   Como se chega ao  logotipo do projeto 365DiasLeitura (Viseu, 2021), de que a Laredo Associação Cultural é parceira. Desenho original de Mi...

quarta-feira, maio 05, 2021

Dia Mundial da Língua Portuguesa

 5 de maio - DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

"Uma comunidade linguística não é um casaco que possa esquecer-se em qualquer canto, é uma pele comum queimada aqui e ali por sóis diferentes"
Eduardo Lourenço
Celebremos.


"Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer

Adeus, adeus
Pescador não esqueça de mim
Vou rezar pra ter bom tempo, meu nêgo
Pra não ter tempo ruim

Vou fazer sua caminha macia
Perfumada com alecrim"

(Dorival Caymmi)

Brasil (1941), partilhado Youtube (2011) 


E também...

 

 

Biblioteca da ilha de Moçambique (2021) https://www.facebook.com/maria.j.vitorino.3/videos/10224231589193015

nossa_lingua_nosso_chao_03__maio21.jpg

Portugal (2021)

https://www.rcg.pt/joomla30/index.php/podcast/nossa-lingua-nosso-chao?filter_order=a.publish_up&filter_order_Dir=desc&format=html&fbclid=IwAR1ZlkYZkQR4QI9Dnt0APLcLqK4V6gnv3pjjGpRLtlv91XO5JevWGYXTXEI


sexta-feira, abril 16, 2021

Dora Rodrigues, Rossana Rinaldi, Marco Alves dos Santos, André Henriques e Cristóvão Luiz | Agenda Cultural de Guimarães

"ROSSINI SACRO"
Convento de Santo António dos Capuchos
Almada, Portugal

Sábado, 3 de Abril 2021, 21.30
c. 1h

SINOPSE
Este concerto está marcado pela figura da Virgem Dolorosa.
Face à impossibilidade, pelas atuais circunstâncias pandémicas, de podermos executar esta magnífica obra com Coro e Orquestra, ouviremos todos os momentos pertencentes aos solistas.
Completaremos este programa “ Rossini Sacro “ com as intervenções solísticas da não menos maravilhosa “Petite Messe Solemnelle”.


Dora Rodrigues, Rossana Rinaldi, Marco Alves dos Santos, André Henriques e Cristóvão Luiz | Agenda Cultural de Guimarães

quinta-feira, abril 15, 2021

Teolinda Gersão - O leitor



"O LEITOR" - Para o Manuel Gusmão
«Sempre gostei de ler e nunca pensei que daí me pudesse vir algum mal.
Chegava a casa, atirava-me para cima da cama e mergulhava num livro. Sobretudo se era pelas duas da manhã, e eu tinha vindo do turno da noite. Começava a ler antes de me despir, de tomar um banho quente, de abrir o frigorífico. Essas coisas só faria mais tarde.
Ler era mais urgente do que tudo, varria-me o que trazia na cabeça – fadiga, preocupações, ansiedade, as coisas ruins do dia.
Frequentemente a vontade de saber o fim da história não me deixava parar antes da última página. Houve ocasiões em que adormeci de estômago vazio, vestido, sem tomar banho nem apagar a luz. O livro caía-me da mão, quando o sono me vencia.
Nessa época eu era maquinista. Durante várias horas diárias, cuja distribuição variava conforme os turnos, a minha vida era seguir linhas subterrâneas, entrando e saindo de túneis, ouvindo a fita magnética repetir incansavelmente o nome das estações e parando ao chegar às plataformas. Alguns segundos bastavam para as pessoas se precipitarem através das portas e o comboio ficar cheio, enquanto a estação se esvaziava, ou vice-versa. Era o momento de eu olhar de relance o espelho (que depois seria substituído por ecrãs de televisão) para controlar se ainda havia alguém entrando ou saindo, ou se as portas já tinham sido fechadas. Nesse caso metia novamente o comboio em marcha. Muitos não tinham conseguido apanhá-lo, embora estivessem já na plataforma, porque esta era demasiado longa para poder ser percorrida em poucos segundos, e os comboios não esperam.
Quando, na última carruagem, o factor accionava o comando e fechava as portas, os que ainda corriam perdiam a esperança de entrar. Tenho a certeza de que alguns terão pensado com raiva que era má vontade, que ele podia ter esperado dois segundos mais. E de facto, algumas vezes, creio que o terá feito.
Mas eu não tinha que me preocupar com isso. Bastava-me verificar que as portas estavam fechadas. Por esse motivo – para ter no retrovisor uma visão de todas as carruagens – devia parar sempre no topo da estação, junto do espelho rectangular da parede, e não no meio, como talvez parecesse mais lógico. Sobretudo aos que se irritavam por perderem o comboio, embora já estivessem na plataforma quando ele chegava.
No entanto, dentro de minutos, outro comboio vinha. Era essa, aliás, a vantagem do metro: havia sempre, logo a seguir, outro comboio, e portanto perder um era, a bem dizer, irrelevante. Muitas vezes me ocorreu que a vida deveria ser assim: com tantas oportunidades que não tivesse importância perder algumas.
Mas na vida, pelo contrário, não havia oportunidades. Bastava ver, por exemplo, o que se passava para arranjar emprego. Liam-se anúncios, colocavam-se anúncios, ia-se a entrevistas, e, para qualquer lado onde se concorresse, havia centenas ou milhares de candidatos.
E os lugares eram poucos, por vezes só um.
No fim da entrevista diziam que telefonariam a comunicar o resultado. Ou que este seria negativo, se não se recebesse um telefonema, dentro de cinco ou oito dias. E depois não havia telefonema.
Fiquei por isso satisfeito quando consegui o emprego. Achei fácil, desde a formação inicial. Nos primeiros dias, quase tive prazer.
Era tudo simples, bem coordenado, eficiente.
Comecei como ajudante, passei a factor, e depois a maquinista.
Sabia que com o tempo podia subir mais, chegar inclusive a chefe de estação, mas esse futuro sempre me pareceu remoto, ou pelo menos a uma distância considerável. Para já, contentava-me em ser maquinista.
Mas estou a afastar-me dos livros. Quais são os que prefiro? Policiais, claro, gosto sobretudo de policiais. De Agatha Christie, especialmente.
Embora também leia outros, para dizer a verdade leio tudo o que encontro. Mas prefiro Agatha Christie. Poirot Investiga, Crime no Vicariato, Cartas na Mesa, O Misterioso Senhor Quinn. Por exemplo. Ou O Mistério das Cartas Anónimas. Ou O Assassinato de Roger Ackroyd.
Não há como os policiais para nos levarem para longe de onde estamos. Não é que eu não gostasse de ser maquinista. Mas é uma vida solitária, conduzir comboios. Está-se no meio de gente, mas sozinho, e quase não se fala com ninguém.
As pessoas correm no cais como formigas, provavelmente nem se vêem umas às outras, ou só de relance – também elas são apanhadas num mecanismo de movimentos alternados, correr-parar, sair--entrar, esvaziar-encher. Há uma certa cadência hipnótica nessa repetição de movimentos e na sucessão, sempre igual, das estações.
Por vezes, nos turnos da noite, eu tinha medo de adormecer. Então pensava no que tinha lido na véspera, tentava desmontar a história do fim para o princípio, e verificar que tudo encaixava e não faltavam nem sobravam peças. Colocava-me no papel de Poirot (Próxima Estação: Marquês de Pombal) e conduzia as investigações: quais eram os álibis das personagens, quem tinha sido a última pessoa a ver o morto com vida, e a que horas, a quem aproveitaria o crime.
Uma coisa levaria a outra, sem rupturas. Sem saltar capítulos nem páginas. Eu tinha feito aquele caminho milímetro a milímetro, os olhos deslizando sobre as linhas do livro, como um bicho lento e voraz. Também agora o comboio deslizava nas linhas, devorava-as com os seus grandes olhos acesos. Como um bicho rápido e voraz. Tinha de seguir toda a extensão do percurso, não podia saltar desta linha para aquela, passar do Cais do Sodré directamente para a Bela Vista, ou voar do Campo Pequeno à Pontinha. Seguia, obedientemente, a linha verde, a vermelha, a azul ou a amarela. Conforme os dias. Ou os turnos. Hoje era a azul. (Próxima Estação: Jardim Zoológico)
Houve uma noite em que sonhei que descia no Jardim Zoológico e abria as jaulas. Deixava uma girafa no Parque e punha o leão a comer as laranjas, debaixo das Laranjeiras. Embora no sonho o facto de o leão comer laranjas me parecesse absurdo.
Não era só eu que estava preso às linhas. Também as pessoas que corriam nas plataformas estavam presas a determinadas estações, em determinadas linhas. Corriam da estação onde moravam para a estação onde trabalhavam, e vice-versa (e isso era já uma sorte, porque havia quem ainda tivesse, além disso, de apanhar dois autocarros, um comboio suburbano ou o barco para a margem sul.) (Próxima Estação: Laranjeiras)
Mas era assim: não se podia morar na Baixa-Chiado, se se morava na Pontinha. Cada pessoa tinha o seu lugar, e o seu percurso. Aparentemente podiam entrar e sair onde quisessem, em todas as estações de todas as linhas – mas só aparentemente. A bem dizer, só nos passeios de domingo. Durante a semana as pessoas tinham percursos fixos, a que não podiam escapar.
Por falar em passeios de domingo, eu procurava sempre sítios altos, com amplas vistas. Miradouros, por exemplo. Santa Luzia, Santa Catarina, São Pedro de Alcântara, Castelo. Ou ia de barco atravessar o rio.
Tinha um grande desejo de ar e de luz, o que é compreensível. À força de viver soterrado, debaixo das luzes do néon, iguais de dia e de noite, a superfície ganhava contornos prodigiosos. Pensava em lojas brilhantes, vitrinas enfeitadas, objectos que se ofereciam ao olhar de quem passava; pensava nas ruas debaixo da chuva, nos cafés cheios, no cheiro bom do café (Próxima Estação: Alto dos Moinhos) nos cigarros que se acendiam (uma das coisas que mais me custava no trabalho era a proibição de fumar).
As ruas à chuva. Também nos livros de Agatha Christie muitas vezes chovia. Não, eu nunca tinha ido a Inglaterra. Gostaria de ver Londres, mas também gostaria de ver o campo, sempre ouvira gabar o campo inglês.
Agatha Christie também devia gostar do campo, porque a maior parte dos seus livros se passa em pequenas localidades provincianas, onde todas as pessoas se conhecem, têm estas profissões ou aquelas, estes hábitos, defeitos, virtudes e tiques, moram em casas com jardim, têm determinado tipo de cortinas, mobílias de estilo ou móveis antiquados, e muitas vezes chuva nas janelas.
À primeira vista tudo aquilo nos é familiar, porque as personagens são iguais a qualquer pessoa, (Próxima Estação: Colégio Militar) parecem-se connosco ou com alguém que conhecemos, e por isso são-nos simpáticas.
Em geral, julgo que não há pobres, ou não propriamente. (Verificar melhor, mas não me lembro de encontrar pobres.) Mas há os ricos, isso sim, e esses vivem cheios de conforto. Em Roger Ackroyd, por exemplo, há uma série de criados para umas cinco pessoas.
Senão vejamos: a criada Elisa, a cozinheira, a segunda criada, a criada de cozinha, a criada russa, e Parker, o mordomo. Portanto seis, nada menos do que seis criados. Além do secretário. O que se chama viver bem, não pode haver duas opiniões sobre isso.
Mas a seguir verifica-se que este pequeno mundo, ao contrário do que parece, não é acolhedor nem seguro. (Próxima Estação: Carnide)
As pessoas têm histórias, culpas, terrores, vícios secretos. Todas elas escondem qualquer coisa. A criada de mesa, Ursula Bourne, é a mulher de Ralph Paton, que parece ser o assassino, mas não é.
A governanta solteirona, miss Russel, afinal tem um filho, toxicodependente.
Flora não é namorada de Ralph Paton, mas do major Hector Blunt. O homem que cultiva abóboras afinal não é um cultivador de abóboras (Próxima Estação: Pontinha) é o detective Hercule Poirot. (Estação terminal. Mais uma vez. E agora o mesmo percurso, em sentido inverso.)
O que me irrita nos policiais (porque a verdade é que também me irritam) é que o autor nunca dá ao leitor todas as cartas, esconde sempre algumas na manga. Nunca consegui descobrir o assassino, mas não posso dizer que a culpa seja minha.
Em Roger Ackroyd, por exemplo, o autor diverte-se a gozar o leitor. Finge-se de cúmplice, dá-lhe inclusive um mapa da casa, do terraço e do jardim, e depois, como se não bastasse, fornece-lhe ainda um segundo mapa, desta vez da sala. O leitor, é claro, faz figura de estúpido e não descobre nada, apesar dos mapas. Mas o mordomo verifica que uma cadeira está fora do lugar habitual. (Próxima Estação: Carnide)
Essa será a primeira ponta solta, a partir da qual Poirot começará a tirar as consequências.
No fim ele encena o crime, reconstitui a cena. As personagens são empurradas para uma sala, de onde não podem sair sem que a verdade se esclareça. Entre elas, na sala-ratoeira, está o criminoso. Falta apenas chegar perto e tirar-lhe a máscara.
E então vemos, de rosto descoberto, o homem que matou. (Próxima Estação: Colégio Militar) Não é um rosto hediondo, quase sempre nos continua a ser familiar.
Como no caso de Ackroyd, em que é enorme o efeito de surpresa: ninguém ia nunca pensar que o assassino é o médico simpático, que conta a história, e no entanto, desde o princípio, está a mentir.Sem que ninguém suspeite, evidentemente. A verdade é reposta e o jogo acaba. Temos a sensação de que se restabeleceu a ordem, das coisas e do mundo. Os inocentes são recompensados e os culpados recebem o castigo.
Um jogo infantil. A vida (Próxima Estação: Alto dos Moinhos)não é exactamente assim. Estes livros são muito moralistas, apesar dos cadáveres e dos crimes.
Mas não deixamos de jogar o jogo, só porque o achamos infantil. É um passatempo, mas também os passatempos são terrivelmente sérios para quem os pratica, isto é, os ociosos e os ricos. Todos gostaríamos de ser ociosos e ricos e de poder gozar os passatempos.
Ler é uma excelente forma de passar o tempo, sempre achei. Na última página fico do lado dos inocentes e felizes. A história acabou e tive a satisfação da curiosidade satisfeita, porque fiquei
a saber tudo. Ponto final. Posso passar a outro livro, outra aventura. (Próxima Estação: Laranjeiras)
Pensei estas coisas e outras, um dia e outro dia, enquanto as estações se sucediam, e o comboio deslizava sobre as linhas. E assim poderia ter continuado, se de repente não me assaltasse a ideia de que podia trazer um livro, abri-lo no tablier ou sobre os joelhos, e ir lendo, um instante aqui e outro ali, quando o comboio parava. Com o auxílio de uma pequena pilha, se a luz da cabina e da estação não fosse suficiente.
Foi esta ambição que me perdeu. A princípio tudo ia bem, cheguei a ler vários livros deste modo, aproveitando todos os segundos, nas paragens. Mas depois isso não me pareceu suficiente para a minha fome de leitura, e experimentei continuar a ler dentro do túnel, depois de pôr de novo o comboio em marcha. Era perfeitamente possível, verifiquei com surpresa e regozijo, porque grande parte da condução era automatizada.
Nessa altura senti-me no melhor dos mundos e felicitei-me por ser tão inteligente. Conseguia fazer o que mais gostava, dedicar-me a um passatempo nas horas de trabalho, e para cúmulo ainda era pago para isso.
Podia não ter seis criados, como Roger Ackroyd, mas a minha situação não era menos invejável. Com a vantagem de eu não ser candidato a cadáver.
Estava longe de imaginar todavia que podia ser apanhado. Como o assassino. E na verdade pouco faltou para que me considerassem como tal.
O que nunca julguei possível, porque eu tomava todas as precauções para que nada pudesse acontecer e ninguém corresse nenhum risco. Embrenhava-me na leitura, mas não perdia a noção da realidade em volta. Estava perfeitamente atento às estações, à entrada e saída das pessoas, ao momento em que o factor fechava as portas. Controlava tudo, ao milímetro, no espelho.
O que falhou então? Uma coisa mínima, ridícula: A fita magnética descontrolou-se e ficou uma estação atrasada. Anunciava por exemplo “Próxima Estação: Arroios” quando chegávamos aos Anjos, ou “Próxima Estação: Intendente” quando íamos a chegar ao Martim Moniz.
Não dei conta, embrenhado na leitura não ouvia a voz da gravação. Concentrava-me nas linhas, do livro e do comboio, atento à circulação no sentido certo, evitando tudo o que pudesse prejudicar ou atrasar a marcha. Todo eu era olhos, e esqueci os ouvidos, ou eles esqueceram-se de mim e abandonaram-me.
Foi esse pormenor que me perdeu. Os passageiros claro que se aperceberam da dessincronização da fita, mas ninguém se preocupou minimamente com isso. Ninguém foi burro de sair na estação errada, de acreditar que estava no Martim Moniz, se lá fora, na parede, estava escrito Rossio. Ninguém se incomodou – excepto um dos passageiros, que se fixou nesse detalhe e veio até à cabina onde eu estava, para me avisar do descontrole da fita.
Imagino que abriu a boca, certamente para dizer isso, mas não disse nada, ficou de boca aberta, do lado de lá do vidro, a olhar para mim e para o livro que eu tinha aberto em frente.
Deduzi isso, e também que a seguir foi participar ao chefe da estação, porque fui apanhado em flagrante com o livro, na estação seguinte.
Tentei escondê-lo, obviamente, mas não o podia fazer desaparecer. Ali estávamos, portanto, na cabina-ratoeira, eu e o corpo de delito. Perdi o emprego e, segundo parece, ainda tive sorte de não ter sido julgado por pôr em risco a vida alheia, e ser considerado candidato a homicida. O que, segundo ouvi, só não aconteceu para não dar má imagem da empresa, e a administração do Metro não poder ser acusada de negligência, na escolha e no controle dos funcionários.
De um instante para o outro, fiquei na rua. Desde então, e já lá vão muitos meses, estou à procura de outro emprego, que cada vez parece mais difícil de conseguir, à medida que o tempo passa.
Aparentemente, agora teria muito tempo para ler. No entanto tudo o que leio são anúncios – essa preocupação, e a ida a algumas entrevistas que terminam sempre em exclusões, ocupa-me os dias.
No entanto, mesmo que tivesse muito tempo para mim, não sei se leria como antes. Embora me envergonhe de o dizer, tenho uma saudade imensa de ler na cabina de maquinista. Não porque quisesse pôr em risco a vida de ninguém, mas porque lá dentro tudo se ajustava tão perfeitamente. No comboio e no livro, as linhas eram de certo modo paralelas. Ler também era seguir assim, por um túnel escuro, e chegar, de quando em quando, a uma plataforma iluminada.»
TEOLINDA GERSÃO
in "Histórias de Ver e Andar"
(Lisboa: Publs. Dom Quixote, 2003)
Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, 2002

quarta-feira, abril 14, 2021

carlos de oliveira / descida aos infernos




carlos de oliveira / descida aos infernos

 
 
10
Lá em cima, terra,
parecias em torpor
adormecida
no sonho espesso do teu sono.
 
E quantas noites
com luar a murmurar à nossa porta
pensámos nós que te fingias morta
só para não acordares com a tua vida
os filhos que criaste
e de novo chamaste
ao teu silêncio.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001


fonte:
poesia: carlos de oliveira / descida aos infernos:     10 «Lá em cima, terra, parecias em torpor adormecida no sonho espesso do teu sono.   E quantas noites com luar a murmurar à nossa porta ...

poesia: herberto helder / lugar lugares

poesia: herberto helder / lugar lugares: Era uma vez um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno a ...


Quando estou triste, Herberto Helder ilumina-me

sexta-feira, abril 09, 2021

quarta-feira, abril 07, 2021

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore


Filme: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore Autor/Ilustrador: William Joyce Co-Diretor: Brandon Oldenburg

Versão integral da curta-metragem de animação ganhadora do Oscar 2012, na mesma categoria.
A "curta" demonstra a importância da leitura realizando uma belíssima homenagem aos livros físicos. Inspirado igualmente pelo furacão Katrina, Buster Keaton, O Mágico de Oz e pelo amor aos livros, "Morris Lessmore" trata-se de uma história bem humorada, sobre pessoas que dedicam suas vidas aos livros e livros que devolvem este favor.

quinta-feira, março 25, 2021

Das moedas devoradoras de meninos


La aurora de Nueva York tiene
cuatro columnas de cieno
y un huracán de negras palomas
que chapotean las aguas podridas.

La aurora de Nueva York gime
por las inmensas escaleras
buscando entre las aristas
nardos de angustia dibujada.

La aurora llega y nadie la recibe en su boca
porque allí no hay mañana ni esperanza posible.
A veces las monedas en enjambres furiosos
taladran y devoran abandonados niños.

Los primeros que salen comprenden con sus huesos
que no habrá paraíso ni amores deshojados;
saben que van al cieno de números y leyes,
a los juegos sin arte, a sudores sin fruto.

La luz es sepultada por cadenas y ruidos
en impúdico reto de ciencia sin raíces.
Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes
como recién salidas de un naufragio de sangre.

Federico Garcìa Lorca, 1929-1930

sábado, março 20, 2021

António Botto :: O Mais Importante na Vida / Por Manuela de Freitas (Eng...

"Saudades da Terra" António Gedeão - Catarina Marques


SAUDADES DA TERRA

Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.
E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver.
Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro.
Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.
E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.
A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.
Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente.
E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.
Mas ... saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.

Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.
De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,
ou estará por nascer - quem sabe? - ou talvez ande
nalgum atalho deste mundo grande
para lá dos confins do horizonte perdido.
Triste de quem não tem,
na hora que se esfuma,
saudades de ninguém
nem de coisa nenhuma.

ANTÓNIO GEDEÃO - "Máquina de Fogo" - 1961

terça-feira, março 16, 2021

Pequenos deuses caseiros - Sidónio Muralha, Manuel Freire



Pequenos deuses caseiros
Que brincais aos temporais,
Passam-se os dias, semanas,
Os meses e os anos
E vós jogais, jogais
O jogo dos tiranos.
O jogo dos tiranos.
O jogo dos tiranos.
Pequenos deuses caseiros
Cantai cantigas macias
Tomai vossa morfina,
Perdulai vossos dinheiros
Derramai a vossa raiva
Gozai vossas tiranias,
Pequenos deuses caseiros.
Pequenos deuses caseiros.
Erguei vossos castelos
Elegei vossos senhores
Espancai vossos criados,
Violai vossas criadas,
E bebei,
O vinho dos traidores
Servido em taças roubadas
Servido em taças roubadas
Dormi em colchões de pena,
Dançai dias inteiros,
Comprai os que se vendem,
Alteai vossas janelas,
E trancai as vossas portas,
Pequenos deuses caseiros,
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
Fonte: Musixmatch
Compositores: Sidonio Muralha / Manuel Freire

domingo, março 14, 2021

segunda-feira, março 08, 2021

PAS ESSENTIEL - Grand Corps Malade (Clip officiel)


Não é essencial
Não é essencial
Não é essencial
Abrace alguém, não essencial.
Abrir um livro, não essencial.
Sorriso sincero, não essencial.
Ir aos concertos, não essencial.
Passear na floresta, não essencial
Dançando à noite, não é essencial.
Encontrar as pessoas, não essencial.
Espetáculo vivo


ÀS MULHERES

sábado, fevereiro 20, 2021

Adult Literacy | Europeana


The rise of literacy in early modern Europe was a result of both the formal education of children and the changing reading habits of adults.


Adult Literacy | Europeana

sábado, fevereiro 13, 2021

Bob Marley - Everything's Gonna Be Alright

BANIR

 


BANIR OU NÃO BANIR O CHEGA


A minha ex-colega na embaixada de Portugal, em Londres, Ana Gomes, pessoa cuja inteligência, energia e coragem muito admiro – tendo um invejável percurso em defesa de grandes causas – fez recentemente uma participação à PGR no sentido de se ilegalizar o CHEGA. O assunto é complexo e o paradoxo democrático que
implica não é de hoje. António Barreto, no Diário de Notícias, classifica expeditamente o acto da diplomata portuguesa, sem a ela explicitamente se referir, como estúpido e irracional. Acho curioso e um bocadinho
bizarro um juízo tão expedito e sumário sobre uma perplexidade que tem preocupado os filósofos desde Platão para cá: a de saber-se se os tolerantes devem ou não tolerar os intolerantes. 

Há quem pense que sim, seja qual for o grau de intolerância, a bem da pureza da democracia. O notável filósofo Karl Popper chamou a isto o “paradoxo da democracia” porque, se por um lado, não aceitar tolerantemente a intolerância dos outros pode ferir a imagem da democracia, por outro, aceitá-la pode levar à morte dela. O problema não é de fácil solução, pelo que não deve ser despachado à pressa, com dois qualificativos injuriosos. No seu notabilíssimo livro – The Open Society and its Ennemies – Popper pronunciou-se, não só do alto da sua imensa cultura filosófica e científica, mas também ao sabor da sua experiência de cidadão germânico que assistiu ao assalto ao poder congeminado pelas hostes de Hitler, que a República de Weimar não quis ilegalizar (mesmo depois de Hitler ter deixado bem claro ao que vinha). A democracia alemã jogou o jogo da democracia impoluta e os nazis aproveitaram-se dessa fraqueza para se alcandorarem ao poder, alterando então as regras para se perpetuarem nele. Ficou-se à espera do “crime cometido” para só então se poder “democraticamente” agir.
Simplesmente, uma vez cometido o crime, já era tarde para o punir e corrigir.

Quando se diz que, só quando o CHEGA cometer um claro atentado violento (“tiros e pistolas”) contra a democracia, se poderá ilegalizá-lo, está-se a escancarar a porta a uma tirania. A verdade, repito, é que o
partido nazi já tinha deixado bem claro ao que vinha, e não me parece particularmente sensato que se tenha
ficado à espera de ele destruir toda a Europa, para, finalmente, se intervir. O CHEGA já deu claramente indícios de que não quer jogar o jogo da democracia e quem não quer jogar segundo as regras do jogo não deve sentar-se à mesa de quem joga. Pode ser que assim, como se diz, a democracia fique ligeiramente imperfeita, mas é preferível ficar com ela imperfeita a assistir ao seu suicídio, a bem da pureza. A perfeição não é deste mundo e eu prefiro
viver com uma democracia um bocadinho imperfeita a cair de novo na ignomínia de um regime regido por um tiranete. Os demagogos intolerantes e famintos de poder fazem-me e sempre me fizeram mau sangue. Como dizia o meu admirado Jean Rostand, grande biólogo, excepcional escritor e admirável pensador aforístico, “há, na intolerância, um grau que confina com a injúria”.

Eugénio Lisboa
Fevereiro 2021

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Um ensaio sobre a imbecilidade: o Brasil atual e a leitura de Ortega y Gasset | Revista Bula




"O conhecimento científico é diariamente desprezado. O homem massa passa a defender que a terra não é redonda; passa a recomendar que não é preciso vacinar crianças e idosos; afirma que o isolamento social em época de Pandemia não tem efeitos no controle de contágio; passa a recomendar, genericamente, tratamentos e medicações ainda não reconhecidos pela sociedade científica, ou seja; resume o conhecimento e evolução científica da humanidade a nada. Cientistas sérios devem estar refletindo de que valeram centenas de anos de estudo, descobrimento, experimento, testes, sucesso e fracasso que levaram à evolução científica?

No campo das relações sociais e da convivência, o homem massa não mais esconde seu preconceito com as diferenças de identidade sexual, raça ou de cor da pele; faz piada com o tamanho de órgãos genitais dos asiáticos; faz piada com a forma de falar português dos chineses e com o tamanho das cabeças dos nordestinos; trata quem pensa diferente como inimigo; exalta a violência; despreza o sofrimento. Celebra-se o confronto, a morte e a desunião.

O modelo de sociedade do homem massa só pode triunfar na violência, na ignorância e na desinformação.

O saber histórico também passa a ser desprezado: para os imbecis não houve holocausto; não houve ditadura; nazismo foi de esquerda e o comunismo está implantado no país.

E a empatia? Aquela capacidade de se identificar com o sofrimento do outro? O imbecil é impermeável à empatia!

O filósofo Emmanuel Levinas prescreveu que, se o homem não caminhasse para uma emergência ética em relação ao outro, estaríamos destinados a viver novamente “tempos bárbaros”, denominados pelo sofrimento e pelo mal impostos de maneira deliberada… parece que não aprendemos nada.

O interessante é que a leitura de Hanna Arendt indica que, de fato, o homem é um ser político e viver em sociedade significaria que tudo deveria ser decidido “mediante palavras e persuasão, e não por força e violência”. O que diria sobre os tempos de hoje?

Na verdade, ela antecipou esse momento lamentável, ao afirmar que “a ausência de pensamento — despreocupação negligente, a confusão desesperada ou a repetição complacente de verdades que se tornaram triviais e vazias” — é uma das“características do nosso tempo”. A filósofa propõe uma solução: “o que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas de pensar o que estamos fazendo…”

Pensar, portanto, é uma forma de combater o imbecil. O imbecil, já disse Ortega y Gasset, não pensa, não avalia o mundo, suas transformações e os aspectos imanentes dos avanços artísticos, intelectuais e científicos.

O imbecil, assim, está fadado à infantilidade: não consegue evoluir.

A violência cansa; a ciência sempre comprova sua importância; as instituições democráticas — muitas vezes criticáveis — retomam as rédeas de seu destino; o conhecimento avança; as lições do passado sempre serão relembradas.

Nesse momento, quando a centelha da lucidez impactar sobre a sociedade, o imbecil perderá sua força, mostrar-se-á como verdadeiramente é. Será desprezado e será ele mesmo, para seu desespero, exemplo para as gerações futuras, que deverão valorizar o reconhecimento histórico: um exemplo a não ser seguido.

Não há dúvidas, portanto, que se Ortega y Gasset presenciasse a realidade brasileira hoje, seria enfático: vocês estão sendo governados por imbecis!"


Um ensaio sobre a imbecilidade: o Brasil atual e a leitura de Ortega y Gasset | Revista Bula

sábado, janeiro 30, 2021

Una Mujer Inteligente (Gabriel Garcia Márquez)

"Las mujeres inteligentes cuestionan, analizan, discuten,no se conforman, avanzan. Esas mujeres tuvieron vida antes de ti y saben que la seguirán teniendo una vez que tu te hayas ido. Ella está para avisar, no para pedir permiso"
—Gabriel García Márquez–