sexta-feira, fevereiro 21, 2014

▶ Os Meninos De Amanhã

Os meninos de Amanhã (Elogio do Revolucionário)
Os meninos de amanhã

Vão acordar num mundo novo

Com a estrela da manhã

A iluminar o bem do povo

E nos livros da escola

Ouvirão contar

Quantas lutas se travaram

Pr’à vida mudar.



Os meninos saberão

O amor dos revolucionários

Que lutaram sem descanso

P’ra mudar este fadário

(…) E das bocas saciadas

Ouvirão contar

(…) o pão-pão e o queijo-queijo

Que te anda a faltar.



Há tanta gente virada p’ra trás

Gente que vive

Do menos-mal e do tanto-faz

Mas o amor em que estou a pensar

Anda remando

Contra a maré, a desinquietar.
Música de José Mário Branco.



▶ Os Meninos De Amanhã (Elogio Do Revolucionário) - José Mário Branco - Spotify

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Capicua - "Mão Pesada" (com M7) Videoclip

Nazaré: protesto, com todas as letras


Era uma vez uma população que desejava muito ter uma biblioteca. Demorou, demorou, mas lá conseguiram. Amaram-na desde o primeiro dia, frequentam-na intensamente. É delas e para elas, das gentes da Nazaré.
Mudou a Câmara. Despediram mais de metade do pessoal da biblioteca, de repente, sem aviso, esquecendo contratos anteriores.
Pode até ser legal (?) mas é, pelo menos, irresponsável. Que farão com aquela biblioteca? Que fará a gente da Nazaré sem ela, ou com ela transtornada?
Maus sinais de governação em terra, tempestades no mar.
A BAD protesta e pede audiência ao Presidente da Câmara

terça-feira, fevereiro 18, 2014

Pintar, pinta quem lê

Fugi, fugi


Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver nunca terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido, um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos frustados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe.


LUIZ PACHECO ( 1925 - 2008 ) em A Comunidade

terça-feira, fevereiro 11, 2014

O aprendiz de Maquiavel em dez lições


Rui Zink
11/02/2014 - 01:36 Jornal PÚBLICO
Cumpre estas leis e poderás, pela calada, desobedecer a todas as outras.

1. Inculca culpa na tua vítima. Convence-a de que é responsável pelo que lhe está a acontecer. Se o fizeres, a tua tarefa estará facilitada. Lembra-te: se aqui vítima há, és tu, cujas intenções são “incompreendidas” pelos “ingratos e invejosos”.

2. Usa palavras mágicas: pátria, empreendedorismo, sacrifício, futuro, reformas, construir, acreditar, inovação. Baralha-as numa Bimby e faz bimbices. Se conseguires dizer sem te rires algo como “Pensar e preparar o futuro do nosso país é proporcionar às gerações que nos irão suceder as ferramentas adequadas para construir um Portugal diferente, num quadro de qualidade, responsabilidade e inovação”, tens um lugar assegurado.

3. Diz que compreendes a insatisfação dos prejudicados e concordas que, sim, têm razão, mas agora não pode ser nada. Justifica-te com a burocracia, a qual és o primeiro a combater. Pede para adiarem o seu protesto, que tu próprio reconheces como justo, “houve de facto erros, a corrigir no futuro”, mas que em breve tudo se resolverá, se as pessoas tiverem “calma e paciência” e souberem “aguardar discretamente”.

4. Desvia as atenções. A forma mais prática de aliviar uma afta é martelar um dedo. Estudo de caso: há anos, um governo estava em crise com uma sucessão de demissões. Um ministro de génio (para estas coisas) marcou uma conferência de imprensa a anunciar a construção da terceira ponte lisboeta sobre o Tejo. Todos os jornalistas caíram no engodo – por malícia, naiveté ou pura cumplicidade. Aplica estes e os outros preceitos e terás a vida facilitada.

5. Usa factos. Não importa quais. E números. Muitos números. Mostra gráficos. Sê firme, mesmo que não saibas o que estás a dizer. Não te preocupes, com sorte o teu interlocutor não terá informação ou coragem para te confrontar, e o risco de seres apanhado é inferior a 1,6% (número que acabo de inventar, aliás). Quando te apresentarem factos contrários, responde que “são casos isolados”. Simplifica ao absurdo mas, se necessário, foge na direcção contrária, e diz que “a questão é demasiado complexa” para ser tratada “daquela maneira” na praça pública.

6. Chora lágrimas de crocodilo. Se não tiveres de crocodilo, chora lágrimas de raposa, de hiena, de lobo com pele de cordeiro, de rato de sacristia, de coelho à caçadora, de abutre, ou, na pior das hipóteses, de “intensa e enorme emoção”, porque tu, “pessoa razoável e pragmática”, raramente “cedes à emoção”, mas quando cedes ela é sempre intensa e enorme, porque tu és assim e “assumes” com plenitude a plenitude da plenitude.

7. Sabes que a crise tem unicamente por função baixar “o custo do trabalho”. Corrijo: também servirá para vender alguns anéis públicos, e os dedos que a eles vierem colados. Só que baixar o custo do trabalho é a prioridade. Infelizmente, não o podemos dizer desta maneira. Então mostra compaixão, geme, condói-te, solidariza-te, “compreende”. Etc. Faz como te digo e vais ver que tudo corre bem.

8. Defende e respeita a tradição. Porque a tradição é “a alma dum povo”. Lembra que, em contrapartida, para progredir é preciso “proceder a reformas necessárias”. E são sempre necessárias, essas reformas, ainda que “dolorosas”. Tu compreendes que são dolorosas, só que necessárias. Em simultâneo, tenta respeitar “as bonitas tradições do nosso povo e de nossos pais”. E nenhuma é tão bonita como o futebol.

9. Escolhe bem os funerais a que vais. Lembra-te: o morto é o menos importante, a pedra na sopa da pedra. Se te candidatas a herdeiro do trono, sê “discreto e humilde”, mas vai para a frente na fotografia. Lembra-te: quando foi confrontativo, Ronaldo perdeu; quando foi humilde, Cristiano ganhou.

10. Ignora aqueles que dizem: não mates o mensageiro. Matar a quem, senão ao mensageiro? Ignora aqueles que dizem que não se bate nos mais fracos: bater em quem, senão nos mais fracos? Nos mais fortes? Só os idiotas batem nos mais fortes. Não te armes em corajoso. Se quiseres mostrar coragem (até para desviar as atenções), empurra um bêbado ou humilha um criado.

Cumpre estas leis e poderás, pela calada, desobedecer a todas as outras. Ámen.

Rui Zink
Docente universitário FCSH-UNL

http://www.publico.pt/portugal/noticia/o-aprendiz-de-maquiavel-em-dez-licoes-1623111 

Em 2011, tentando travar a barbárie

Infelizmente, sem sucesso...

Hoje:

Syria peace talks not making much progress (...)

Em 2011, tentando travar a barbárie

Infelizmente, sem sucesso...

Hoje:

Syria peace talks not making much progress (...)

domingo, fevereiro 09, 2014

Ai Lurdes


Poema aos homens constipados

"Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses, como me sinto
Já vejo a morte, nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo os demónios, nas suas danças
Tigres sem listras, bodes de tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!
Não é a chuva, no meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo
Não é o vento, a cirandar
Nem são as vozes, que vêm do mar
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a santinha, à cabeceira
Compõe-me a colcha, fala ao prior
Pousa o Jesus, no cobertor
Chama o doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada
Faz-me tisanas, e pão-de-ló
Não te levantes, que fico só
Aqui sozinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer."

António Lobo Antunes

in Letrinhas de Cantigas (canções) 2002

No meio do caminho tinha uma pedra



Caminhemos :) em todas as línguas.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Os livros


Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós.

Ana Hatherly
in
463 tisanas, ed. Quimera, 2006

South Africa TV Ad -- The Reader

domingo, fevereiro 02, 2014

Obrigatório: imaginar

'We have an obligation to imagine' … Neil Gaiman gives The Reading Agency annual lecture on the future of reading and libraries. Photograph: Robin Mayes

Um dia estava eu em Nova Iorque e assisti a uma palestra sobre a construção de prisões privadas - uma enorme indústria em crescimento na América. A indústria das prisões precisa de planificar o seu crescimento futuro - de quantas celas irão precisar? Quantos prisioneiros existirão, daqui a 15 anos? E descobriram que podiam prevê-lo com muita facilidade, através de um algoritmo simples, com base no cálculo da percentagem de crianças de 10 e 11 anos que não conseguem ler. E qie certamente não consegeum ler por prazer.
Não se trata de um para um: não se pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tem criminalidade. Mas há correlações muito reais.
E penso que uma dessas colrrelações, a mais simples de todas, resulta de uma coisa muito simples. Gente com literacia lê ficção.
A ficção tem duas utilidades. Primeiro, é uma porta viciante para a leitura. O desafio de saber o que vai acontecer a seguir, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo se é difícil, porque alguém está em apuros e temos de saber como é que vai tudo acabar... é um desafio muito real. E força-nos a aprender palavras novas, a pensar novas ideias, a continuar. A descobrir que ler, por si só, é uma fonte de prazer. Uma vez que se tenha aprendido isto, está-se no caminho para se ler tudo. E a leitura é a chave. Há alguns anos, houve uns breves rumores sobre a ideia de que estávamos a viver num mundo pós-letrado, em que a capacidade de fazer sentido a partir de palavras escritas era de alguma forma redundante, mas esses dias passaram: as palavras são mais importantes que nunca: navegamos pelo mundo com palavras, e como o mundo desliza parra a web, precisamos de acompanhar, comunicar e compreender o que estamos a ler. As pessoas que não se conseguem entender entre si não conseguem trocar ideias, não conseguem comunicar, e os programas de tradução ainda não chegam tão longe.
A maneira mais simples que assegurar que criamos crianças letradas é ensiná-las a ler, e mostrar-lhes que a leitura é um prazer.  E isto significa, no essencial, encontrar livros de que elas gostem, dar-lhes acesso a esses livros, e deixá-los lê-los.

Texto original (inglês), parte de um depoimento a ler, por prazer e vantagem...

Neil Gaiman: Why our future depends on libraries, reading and daydreaming. A lecture explaining why using our imaginations, and providing for others to use theirs, is an obligation for all citizens (15.03.2013)

No Ocidente, "podemos aprender muito com os pobres"


"A lição fundamental que aprendemos com os países pobres é que pessoas criativas que não têm meios usam as comunidades para dar resposta aos problemas da saúde. Em particular, fazem um uso muito maior das famílias e dos leigos, não separam a saúde das outras questões (como a educação) e põem em prática sistemas informais de prestação de cuidados. Uma coisa que nós, no Ocidente, vamos ter de aprender ou reaprender. Os sistemas e os profissionais de saúde não vão poder fazer tudo por nós. Temos de fazer mais por nós próprios.
 
Isto é particularmente importante porque as nossas necessidades de saúde mudaram nos últimos 30 anos."


No Ocidente, "podemos aprender muito com os pobres" na área da saúde - PÚBLICO



Exercício salutar: a mesma afirmação substituindo "saúde" por "cultura". Por exemplo, pensando em bibliotecas, museus, etc:

"A lição fundamental que aprendemos com os países pobres é que pessoas criativas que não têm meios usam as comunidades para dar resposta aos problemas da cultura. Em particular, fazem um uso muito maior das famílias e dos leigos, não separam a culturadas outras questões (como a educação e a saúde) e põem em prática sistemas informais de prestação de serviços. Uma coisa que nós, no Ocidente, vamos ter de aprender ou reaprender. Os sistemas e os profissionais de cultura não vão poder fazer tudo por nós. Temos de fazer mais por nós próprios. 
Isto é particularmente importante porque as nossas necessidades de cultura mudaram nos últimos 30 anos."

sábado, fevereiro 01, 2014

Crowdfunding


Exorcismos - 1





AVISO DE PORTA DE LIVRARIA

Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prémio vil, mas alto e quase eterno.

De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.


25/1/1972
Jorge de Sena "Exorcismos"

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