terça-feira, março 31, 2015

"Notícia BAD" associa-se às comemorações do Dia Internacional do Livro Infantil

Autor: António Jorge Gonçalves
"Notícia BAD" associa-se às comemorações do Dia Internacional do Livro Infantil

Melodia proibida

Wolinski

Uma emoção pequenina
me vem do lado de lá.
Rompe através da cortina
que envolve o mundo de cá.
Chega ofegante e risonha
a escorrer gotas de orvalho.
Nuns farrapos de vergonha
tem todo o seu agasalho.
Dá-lhe o sol num de repente.
Fulge rápida, num grito.
Flor de silêncio estridente,
continente de infinito.
Gota de som, dedilhada
em fios de Sol, chispando
espirros de luz irisada
como guizos tilintando.
Chama do espírito vivo
a velar corpo de luto.
Essa é a onda que escuto
quando sorrio sem motivo.
António Gedeão
Belamente lido aqui

A Escola não serve para fechar crianças - serve para que no fim gostem daquilo que no princípio eventualmente não gostavam nada

Igualdade, Tempo, Autonomia, Cultura

sábado, março 28, 2015

A tribo de contadores de histórias



Brasileiros: O senhor também mencionou o perigo de entregar a máquinas, como televisão, computadores e tablets, a tarefa de contar histórias às crianças. Por que isso é perigoso e como reencontrar o tempo para contar histórias? 
Mia Couto: Acho que é perigoso porque esse contar de histórias não é simplesmente uma transmissão de alguma coisa que já está feita. No momento em que se conta a história a alguém, não há ali uma escuta mecânica, mas sim qualquer coisa que cria, sobretudo, a construção de uma relação entre pessoas e, obviamente, a máquina não pode fazer isso. A construção dessa relação interpessoal e do apetite por ela marca: é como se a história existisse só para criar essa rede, essa capacidade de estarmos juntos, de escutarmos, de sermos outros. Claro, há um momento em que a máquina pode estar ligada e cumpre a função de “anestesiar" a criança, mas falo é da ausência do resto. A máquina passa a ser a exclusiva ligação com a fantasia, e a criança é colocada desde o princípio só como consumidora de uma imagem que já está feita em definitivo e ela pode voltar e ver da mesma maneira mil vezes. Mas quando ela pede ao pai, à mãe ou a alguém que lhe conte a história, ela nunca é repetida completamente. Há ali uma recriação, e a criança percebe que esse momento a torna também criadora.
(...)
Brasileiros: Por que a escolha por esse caminho chamado literatura?
Mia Couto: Não escolhi a literatura, escolhi a escrita, que é provavelmente outra coisa. A construção que fizeram da escrita me parece que a complicou muito, a intelectualizou e construiu um edifício com vários andares e hierarquias. Quando começamos a escrever e a querer usar a escrita do ponto de vista criativo, estamos muito longe da escolha dessa grande construção e dessa grande estrutura que é a literatura. Eu sou salvo por ser várias coisas, e sempre que tenho de enfrentar “a" literatura, que depois se manifesta nessas coisas muito solenes dos congressos e das conferências, puxo logo o chapéu de biólogo… Esse universo me apraz, mas na maior parte das vezes é uma grande chatice. Estão ali os grandes estudiosos, os filósofos, os próprios escritores que, algumas vezes, dão demasiada importância a si mesmos e àquilo que fazem, e estou sempre a pensar qual o momento que tenho para escapar (risos). Esse discurso parece uma arrogância disfarçada de humildade, mas na verdade não sinto que pertenço a essa construção. Sou mais de uma pequena tribo que é a dos contadores de histórias, e podem fazer isso mesmo sem usarem da escrita.

Mia Couto - Mia Couto: A tribo de contadores de histórias | Fronteiras do Pensamento

terça-feira, março 24, 2015

Breve nota sobre ler Herberto Helder | milplanaltos

 Julião Sarmento
"(...) eu lia, leio estes ou outros versos de A Faca Não Corta o Fogo, ou de qualquer outro livro de Herberto Helder, – e também o meu corpo, o corpo do leitor, da leitora, se abre pela boca, e se lhe raia a cara, perde o fôlego e respira de sôfrego, perde a fala quotidiana, dói todo, fica cego, desfaz os nós, alcançado pelo ar, abraçado, sob a música inquieta, inconjunta, pura. Ao corpo do leitor, da leitora, acontece o mesmo que aos corpos no poema – na mais profunda e inesperada mimesis do poema pelo corpo.
O cravista holandês Bob van Asperen disse um dia, numa entrevista concedida à revista Goldberg:
Uma execução musical experimenta-se. Nas boas interpretações, o ouvinte tem tendência para participar, e esta tendência ganha uma realidade física. Constatou-se cientificamente que, quando se ouve um canto, acontece algo na garganta, a garganta quase quer imitar o canto, e efectivamente tenta fazê-lo. É uma reacção física. (…) O ouvinte sente que algo dança dentro de si.
Cito inúmeras vezes estas frases de Bob van Asperen. Elas dizem que não há o sujeito ouvinte e o objecto musical ouvido – mas que o sujeito é imediatamente acontecimento da música, possessão. Quem ouve o canto sofre metamorfoses nos seus órgãos. Quem ouve transfigura-se, o ouvinte é possuído.
E se for também assim com a poesia? Se os poemas de Herberto Helder transfigurarem a carne de quem os lê? Se os versos insinuarem metamorfoses, e os órgãos – não só a garganta, mas também a boca, a cara, os dedos, o corpo todo – imitarem, automáticos, as formas ditas pelos versos? Se, em suma, cada poema der ao corpo do leitor a forma de um corpo novo, se o poema inventar no leitor lágrimas, silêncios, asfixias?
Então talvez o nosso corpo não nos pertença, mas ao poema."
Pedro Eiras


Breve nota sobre ler Herberto Helder | milplanaltos

Herberto, o



Amo devagar os amigos que são tristes com cinco 
dedos de cada lado. 
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, 
fechando os olhos, 
com os livros atrás a arder para toda a eternidade. 
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo. 
- Temos um talento doloroso e obscuro. 
Construímos um lugar de silêncio. 
De paixão. 

Herberto Helder, 1930-2015 

sábado, março 21, 2015

You are welcome to Elsinore



You are welcome to Elsinore

entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida     há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

© 1957, Mário Cesariny (1923-2006)
From: Pena Capital
Publisher: Assírio & Alvim, Lisbon, 2004
ISBN: 972-37-0512-5

domingo, março 15, 2015

Um blogue novo a estrear


Nasce aqui um projeto novo na blogosfera portuguesa. Um projeto principalmente político mas que não se limitará, necessariamente, ao que costuma entender-se como tal, uma vez que tudo o que é humano acaba também por ser político. É como um dia, há muitos séculos, alguém disse: nada do que é humano nos é estranho.
O nome que escolhemos denuncia-nos à partida, e ainda bem. Somos gente de esquerda e, das janelas sempre abertas do nosso rés-do-chão, olhamos em plano de igualdade o que se vai passando na rua, pois os pés que a percorrem são também os nossos, e os cansaços que ela causa sentimo-los também nós nos nossos ossos.
Une-nos isso, e une-nos também a ideia de que a esquerda só perde quando se perde em sectarismos, rivalidades e protagonismos, que a discussão das ideias (não só necessária mas fundamental) é com demasiada frequência feita de forma mais destrutiva que construtiva. Queremos contribuir para que assim seja um pouco menos.
E agora, vamos a isso. Sintam-se à vontade para tocar à campainha; alguém abrirá a porta.
Comecemos - R/C ESQUERDO

Paulo Pacheco, o filho do escritor, o filho leitor - PÚBLICO

Preciosa entrevista. Um caso de amor e resiliência. Grandes Âncorazinhas, Paulo!



Paulo Pacheco, o filho do escritor, o filho leitor - PÚBLICO

Joan Baez - Diamonds and Rust (With Lyrics)

“Acho os professores muito estranhos!”



Não sendo autor de minha particular simpatia, Eduardo Sá fala nesta peça com grande clareza e verdade sobre os nossos professores incríveis (no bom sentido).

sábado, março 07, 2015

Cansada


Vozes: Aldina Duarte, Ana Bacalhau, Cuca Roseta, Gisela João, Manuela Azevedo, Marta Hugon, Rita Redshoes e Selma Uamusse.
Letra e música Rodrigo Guedes de Carvalho.

quarta-feira, março 04, 2015

Um blog de um leitor apaixonado: por Irene Lisboa

«Fazia sol e havia tranquilidade». E Irene Lisboa escrevia sobre o elevador do Lavra e suas gentes, gente vinda do mais recôndito como as Furnas do Monsanto, gente como a Nina, cujos requebros são convites e o Doutor Freitas, mais o guarda-freio e a varina e o ardina. E um gato «o diabo de um gato» logo «se havia de meter debaixo do enorme elevador». 
E assim começa uma história desta cidade, naquele elevador, onde «subir e descer neste veículo em cada dia do ano é cumprir uma pequena e ordinária rota, a pino, que sem exagero se pode considerar tão edificante como dar largas voltas pelo mundo». 
E são historias e histórias porque «os bairros felizmente têm um carácter mais humano que arquitectónico». 
E mora agora ali o meu Hugo e sabe e sente e pinta com tudo isso nos olhos, tal como ela os retratou em Literatura e corria o tempo da guerra, mais as árvores que se vêem ao longe, em São Pedro de Alcântara e o Torel e mais adiante a Morgue mais o Doutor Sousa Martins e a imensa capoeira à solta que dá vida ao jardim e o Instituto Alemão onde o meu Afonso, às sextas, martela declinações de uma língua que é uma forma de ter encontrado a matemática nas palavras.
Irene Lisboa escreveu isto tudo como "João Falco". Porque na altura bicho mulher não vingava nas letras.


Ler mais aqui:

Irene Lisboa

terça-feira, março 03, 2015

¿Cuántas oportunidades de futuro le quedan a las bibliotecas?

Muy difíciles las preguntas a las cuales diría que SÍ, que los agentes artificiales pueden hacer funciones de bibliotecarios. Que NO serán sustituidos los bibliotecarios por máquinas en un futuro cercano. Y que estas son las funciones que la tecnología puede hacer dentro de la biblioteca:
  • Ayudar a usuarios en el uso y manejo de la biblioteca, y a resolver sus dudas y problemas.
  • Realizar recomendaciones de servicios, productos y actividades en función del usuario.
  • Recibimiento personalizado a la biblioteca a cada usuario.
  • Recomendar lecturas en función del historial de búsquedas del usuario.
  • Realizar envíos, y recoger devoluciones, de materiales que los usuarios solicitan sin necesidad de que estos vayan a la biblioteca.
  • Acompañar a usuarios por la biblioteca para llevarlos a la localización de un libro o de un puesto libro de lectura.
  • Identificar a usuarios a través del reconocimiento facial o a través de dispositivos incrustados bajo la piel.
  • Video streaming entre usuario y bibliotecario para resolver dudas.
  • Geoposicionamiento en bibliotecas. Indicación de la situación del material que se busca y del usuario.
  • Préstamo automático al haber una combinación entre tecnología de identificación de usuario y del libro.


Cuántas oportunidades de futuro le quedan a las bibliotecas?

Never trust a corporation to do a library’s job



As Google abandons its past, Internet archivists step in to save our collective memory


Never trust a corporation to do a library’s job — The Message — Medium

domingo, março 01, 2015

Liberdade


A solidão é sempre fundamentoda liberdade. Mas também do espaçopor onde se desenvolve o alargar do tempoà volta da atenção estrita do acto.Húmus, e alma, é a solidão. E vento,quando da imóvel solenidade clamao mudo susto do grito, ainda suspensodo nome que vai ser sua prisão pensada.A menos que esse nome seja estremecimento— fruto de solidão compenetradaque, por dentro da sombra, nomeia o movimentode cada corpo entrando por sua luz sagrada..[Fernando Echevarría – In, "Sobre os Mortos", 1991]

"Prémio Literário Casino da Póvoa" 2015 pela obra “Categorias e outras paisagens” (Afrontamento, 2013), no âmbito de mais uma edição das Correntes d’Escritas.

Portugal e a sala de jantar

Um Povo Resignado e Dois Partidos sem Ideias 


Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [...] 
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. 
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar. 

Guerra Junqueiro, in Pátria (1896)

CGI 3D Animated Short HD: "Cidade Colorida" by - Nebula Studios

Uma bela animação que nos alerta sobre como as cores afetam nossas emoções, nos primneiros 5 mminutos do video (tem 7 min: o resto é publicidade a uma marca de tintas...).



Numa cidade destituída de boas vibrações, um rapaz, o único atento ao poder das cores, observa que tudo silencia no preto e no branco. Assim, ele decide dizer palavras coloridas, sabedor de que estas palavras têm o poder de emprestar cor, vida, encantamento. Mas, talvez, só as palavras não bastem…



“Cidade Colorida” por – Nebula Studios