sexta-feira, fevereiro 18, 2005


Ulisses, o Príncipe Valente, o tempo Posted by Hello

Passar das horas, segredo de ler

A INFÂNCIA

Era uma nebulosa
com seus silêncios
percorrendo todos os espaços
da memória

Ou talvez uma anémona
ainda brilhando devagar
num manto de cor
no fundo do mar

No céu cantavam milhafres
entre a alegria e o medo
vasculhando a noite com o poder
das suas asas
em busca de alimento

Mas eram sobretudo o vento
as papoilas vermelhas no monte
e os vinhedos do vale
o gosto da cana-de-açucar
mastigada às escondidas
e os livros de aventuras
os mistérios que o tempo nos trazia

Havia quem dissesse
como era boa esta infância

Nós só procurávamos a sombra
debaixo das latadas
para acompanharmos as viagens
de Ulisses ou do Príncipe Valente
e deixar passar as horas
até chegar outro dia

José António Gonçalves
(inédito.17.02.05)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005


Entre ler e fazer, ouvir e não entender (ai a campanha para Regedor da Pátria que nos cerca!), revisitei um amor antigo, a publicidade e os seus ardis subliminares. Bela imagem, não acham? Posted by Hello

sábado, fevereiro 12, 2005

Ver desafios onde outros veem destinos

O escritor uruguaio Eduardo Galeano, numa entrevista a Flávio Aguiar, da Agência Carta Maior, apropósito dos Foruns Mundiais:

"Existe uma identidade indissolúvel entre o fim e os meios. Os meios têm que ter uma identidade inconfundível com os objetivos que a gente se propõe conquistar. A maneira de chegar até esses objetivos, passo a passo, consciência a consciência, casa a casa, precisa manter a identidade daquilo que você faz com aquilo que você quer fazer. Porque às vezes, em nome do realismo, o cinismo vira uma sorte de destino inaceitável.
Eu sou condenado a aceitar a realidade porque não posso mudá-la. Não é assim.
Não vemos a realidade como um destino, mas sim como um desafio. Ela está nos desafiando. A definição de quais são os meios para enfrentá-la é um ponto mais complicado. Você pode cair na tentação de começar a trair demais os seus objetivos em nome de seus objetivos imediatos, perdendo de vista a sua própria imagem. Você procura você no espelho e não percebe que não está lá”.

Dá que pensar, não é?

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Dispender com a leitura como o fazem com outras "recreações"?


Newspapers will presumably continue until television technique reaches a higher level, but apart from newspapers it is doubtful even now whether the great mass of people in the industrialized countries feel the need for any kind of literature. They are unwilling, at any rate, to spend anywhere near as much on reading matter as they spend on several other recreations. Probably novels and stories will be completely superseded by film and radio productions. Or perhaps some kind of low grade sensational fiction will survive, produced by a sort of conveyor-belt process that reduces human initiative to the minimum.

(in "The Prevention of Literature", George Orwell)

posted by Draw at 3:31 PM no blog O Esquema

Imelda, a fabulosa actriz de Vera Drake Posted by Hello

Vera Drake

http://jornal.publico.pt/publico/2005/02/04/Y/TADES01CX01.html

Artigo notável de Maria José Oliveira, sobre o filme Vera Drake.
Se os homens engravidassem, o aborto seria um sacramento, diz ela, e mais coisas.
O filme vale a pena e dá vontade de escrever e falar e contar desta terra onde o que em Inglaterra há 50 anos ainda havia, aqui, e hoje, em modo pior mesmo que na Irlanda e na Polónia, ainda (!) há.
Como em qualquer leitura, ouvir contar pode entusiasmar, mas não substitui o individual olhar e entender. Isto vale para o artigo e para o filme, claro.

Também eu!

Como gostaria de ser recordado?

Que me recordem como alguém que foi feliz na sua profissão - fiz o melhor que soube sempre com imensa alegria.
(memória de Canto e Castro, actor recentemente partido daqui, em entrevista à Pública)