sábado, julho 24, 2010

Um dia...



Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito
de sempre chegar
olhou-a de um jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar
e não mal disse a vida tanto quanto era seu
jeito de sempre falar
e nem deixou-a só num canto
pra seu grande espanto,convidou-a pra rodar
então ela se fez bonita como há muito tempo
não queria ousar
com seu vestido decotado cheirando a
guardado de tanto esperar
depois os dois deram-se os braços como
há muito tempo não se usava dar
e cheios de ternura e graça
foram para a praça e começaram a se abraçar
e ali dançaram tanta dança que a vizinhança
toda despertou
e foi tanta felicidade que toda cidade enfim
se iluminou
e foram tantos beijos loucos, tantos gritos
roucos
como não se ouvia mais
que o mundo compreendeu
e o dia amanheceu
em paz
Vinicius de Moares / Chico Buarque

quinta-feira, julho 22, 2010

1 ano, 1 semana e 1 dia


O anel que tu me deste
era de vidro e quebrou-se
O amor que tu me tinhas
era pouco e acabou-se

Cancioneiro popular português


Faz agora um ano, uma semana e um dia, saudei aqui a criação de lugares de professores bibliotecários nas escolas portuguesas, integradas na RBE. Designação por 4 anos, para garantir estabilidade, empenhamento, qualificação e... responsabilização!

O pessoal (1600!) correspondeu, trabalhou denodamente, criou e criticou, discutiu, inventou, adaptou, fez mais formação, aguentou a carência de funcionários e de mais docentes para as equipas, floriu a web de presenças de bibliotecas escolares portuguesas, apoiou iniciativas do PNL, lidou com PTE e a Parque Escolar e as obras feitas por autarquias e DREs, e a Rede... cresceu, ganhou vigor! Entraram novas bibliotecas, há mais livros e serviços para todos os meninos e ameninas, jovens e adultos que pelas escolas passam. As próprias críticas revelam maior exigência, as expectativas mais credibilidade.

Hoje, 22 de Julho, quebrou-se o anel que nos deram. Afinal, era de vidro. O amor seria pouco...
Sem aviso nem porquê, quase em férias de Verão, depois de todas as escolas terem confirmado os seus professores bibliotecários, e algumas mesmo terem aberto concursos para novos lugares, tudo legal... Eis que salta uma nova portaria (558/2010) a alterar a anterior (de 2009), reduzindo o número de lugares a que cada escola/agrupamento tem direito!
Pasmamos não com a economia, nem mesmo com o economicismo da medida, mas com o momento escolhido, revelador de desprezo por quem trabalha nas bibliotecas escolares ou com elas - os tais parceiros RBE, como as autarquias e as bibliotecas municipais, que para isto não foram certamente ouvidos nem achados; os directores das escolas/agrupamentos, que asseguram condições diariamente... tampouco foram consultados! E muitos professores perderam entretanto a possibilidade de ser opositores a concursos, por confiarem que estariam a trabalhar nestas funções mais um ano, mais 3 anos...

Não desisto, não desistiremos certamente de lutar pela Liberdade, a qualidade da Educação e o direito à Cultura e ao Conhecimento consagrados na nossa Constituição e inscritos em muitos anos de vida e de trabalho. Passados e por vir. Não será uma portaria, a revogar outra portaria, que chegará para tanto. Nem mesmo um Ministério inteiro. Aqui como noutras paragens, há valores mais altos.
Mas lá que doi, doi.

Vão-se os anéis (sobretudo destes), fiquem os dedos.
Especialmente os dez dedos de cada par de mãos dos professores bibliotecários portugueses, habituados à escrita e ao afago, que não regateiam merecidos aplausos, mas que desta vez, farão, irão fazendo, certamente, outros gestos.

Maria José Vitorino

Professora desde 1976
Bibliotecária desde 1990

Vila Franca de Xira, 22.07.2010

quarta-feira, julho 21, 2010

sábado, julho 17, 2010

Assim se fazem as cousas


Faço parte do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas Dr. Vasco Moniz em Vila Franca de Xira, por eleição livre, directa e secreta. E legal. Cumpre-me, solidária com os meus pares, por obrigação para com quem elegeu, e por dever de consciência e respeito por quem nestas escolas trabalha, estuda, e com elas conta para os seus filhos e netos, divulgar a posição assumida por maioria (uma única abstenção) sobre a fusão deste Agrupamento com a Escola Secundária. Tomámo-la na 10ª reunião deste ano lectivo (mais de uma por mês, trabalho sempre voluntário e gratuito de todos), e depois de uma carta sem resposta ao Ministério da Educação, que nunca contactou este Conselho, a quem legalmente cumpriria a obrigação de escolher e demitir directores da escola/agrupamento.
A fusão foi decidida, calculamos pelos testemunhos que nos transmitiram, em menos de 15 dias, a pouco mais de 30 dias do início de mais um ano escolar. Tal como em mais 99 casos no país.
Esta posição não tem esperança de alterar nenhuma decisão. Mas há momentos em que temos de mostrar a diferença não por uma questão de utilidade mas pelo valor da dignidade.


ASSIM, NÃO!
Deu-se início à reunião com a análise do desenvolvimento da situação relativa à fusão do Agrupamento de Escolas Dr. Vasco Moniz com a Escola Secundária Alves Redol. A presidente do Conselho Geral informou que até ao momento não recebeu qualquer resposta à carta que este órgão enviou ao Sr Director Regional, no dia sete de Julho do corrente ano. Acrescentou que a indigitada Comissão Administrativa Provisória reuniu com a Direcção do Agrupamento de Escolas Dr. Vasco Moniz, no dia doze de Julho.

O Conselho Geral considera que este processo de fusão desrespeita o ponto 8 da
Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2010, de 14 de Junho, que prevê que qualquer fusão de escolas /agrupamentos "seja feita de forma gradual e em função da especificidade de cada escola". Acrescente-se que a Comissão Administrativa Provisória composta por três elementos, integra dois elementos da Escola Secundária Alves Redol e nenhum do Agrupamento de Escolas Dr. Vasco Moniz. Facto que compromete as condições de boa gestão do Agrupamento, por um órgão que não contempla a representação de uma das entidades em fusão.

O que será decidido em relação aos documentos internos, como por exemplo, Projecto
Educativo do Agrupamento, Regulamento Interno do Agrupamento, Orçamento, Plano da Matemática, Plano de Implementação do Novo Programa de Matemática do Ensino Básico, Planos de Recuperação, Planos de Acompanhamento, Programas Educativos Individuais, Avaliação do pessoal docente e tantos outros documentos relacionados com a dinâmica diferenciada entre o que é a Escola Alves Redol e o que é o Agrupamento de Escolas Dr. Vasco
Moniz no dia de hoje (treze de Julho de dois mil e dez)? Com que orientações começará o ano lectivo daqui a menos de dois meses? Quem e como vai responder a estas e outras questões das 2009/2010 famílias, dos professores e dos funcionários da Escola Secundária Alves Redol e do Agrupamento de Escolas Dr. Vasco Moniz?

O Conselho Geral considera que tem a obrigação de alertar a comunidade escolar para as consequências deste processo de fusão na sua dinâmica, pelo que manifesta o seu desagrado por não ter sido consultado, nem pelo Sr Director Regional, nem pela Autarquia, relativamente a esta decisão tão importante para a vida da comunidade educativa que legitimamente representa.

O Conselho Geral decidiu divulgar esta acta na Plataforma Moodle deste Agrupamento, e ainda, ao pessoal docente e não docente, aos encarregados de educação, aos representantes das diferentes entidades que compõem este órgão e ao Presidente do Conselho Geral da Escola Secundária Alves Redol.
A única representante da Autarquia presente, declarou que o Município se abstém em relação à tomada de posição deste Conselho Geral.
Ler texto inteiro aqui
Uso este blog a título pessoal.

slow down you move too fast / you've got to make the morning last

Vénia à Natureza do Mal e a Simon & Garfunkel ... Feeling Groovy!

Teatro de Língua Comprida e Portuguesa



Já é o terceiro FESTLIP, no Rio de Janeiro. Viva!
Também tem Blog, e lugar no Facebook...
Em 2010, a homenageada é a Maria do Céu Guerra, actriz/atriz ;)
A Barraca também lá está, como não podia deixar de ser - e a imagem acima é da peça que levam à cena em Agosto, Contos da Imigração. Beijo terá sotaque?

Poema em Linha Reta - Fernando Pessoa - 2 versões



Concursos para professor bibliotecário 2010

Escola a escola, vão sendo divulgados na página do DGRHE os concursos para lugares de professor bibliotecário abertos em 2010, de acordo com a Portaria 756/2009 de 14 de Julho.
Cada concurso tem de ser obrigatoriamente publicado no sítio electrónico da Escola/Agrupamento, além de outros meios de divulgação que a respectiva Direcção accione.
Muitos terminam antes de 30 de Julho.
Hoje de manhã (17.07.2010, 07.00) eram 96!


quinta-feira, julho 08, 2010

Let's fight the main fight

U.S. public libraries: We lose them at our peril - latimes.com

The school libraries and public libraries in which we've invested decades and even centuries of resources will disappear unless we fight for them. The communities that treasure and support their libraries will have an undeniable competitive advantage. Those that don't will watch in envy as the Darien Library in Connecticut hosts networking breakfasts for its out-of-work patrons, and the tiny Gilpin County Public Library in Colorado beckons patrons with a sign that promises "Free coffee, Internet, notary, phone, smiles, restrooms and ideas."

Those lucky enough to live in those towns, or those who own computers, or have high-speed Internet service and on-call technical assistance, will not notice the effects of a diminished public library system — not at first. Whizzes who can whittle down 15 million hits on a Google search to find the useful and accurate bits of info, and those able to buy any book or article or film they want, will escape the immediate consequences of these cuts.

Those in cities that haven't preserved their libraries,
those less fortunate and baffled by technology, and our children will be the first to suffer. But sooner or later, we'll all feel the loss as one of the most effective levelers of privilege and avenues of reinvention — one of the great engines of democracy — begins to disappear.

terça-feira, julho 06, 2010

Matilde Rosa Araújo



Vou usar uma fita vermelha e um sorriso o mais parecido que puder com o seu, tão doce.

Ela merece.

Por causa dela, também por causa dela, descobri que ser professor(a) não é (apenas) ter um Estatuto.

É ser doutra estatura.


Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.

A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.

O Quê? Português, francês. Hoje sei, acima de Tudo, o amor da vida. Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.

Viva o pensamento! Viva a espécie humana!

As crianças adoram palavras complicadas, 
termos difíceis, histórias onde não se percebe tudo. 
Mas a indústria não quer isso, quer tornar as coisas mais simples - e então fazem resumos, simplificam, publicam coisas idiotas para crianças e acabam por não publicar nada. Apenas jogos de vídeo.
A nova geração continua a ter gosto pela leitura. Para o ser humano, o instinto de sobrevivência não se resume à necessidade de comer e beber; também inclui a necessidade de pensar. 
E isso é verdade seja onde for - aconteceu nos campos de concentração, acontece nas favelas mais pobres, acontece nas situações mais extremas. 
 
Continuamos a pensar, a criar, a interrogarmo-nos. E temos de lutar por isso. Não somos cegos; podemos dizer que não.
Alberto Manguel, 02.97.2010
Mais aqui

sexta-feira, junho 25, 2010

Miguel Portas - Uma história côr de rosa (Programa "Conselho Superior" )

História! História!


A fonte dos pardais

Era uma vez uma fonte à beira da estrada. Os pardais das árvores vizinhas tinham ali o seu ponto de encontro.

Matavam a sede, tomavam banho, chilreavam uns com os outros.

De semana a semana, vinha um homem, sempre de automóvel, buscar água à fonte. Enchia uma quantidade de garrafões de plástico e, depois, abalava.

Nessas alturas, a pardalada fugia para o poiso das árvores e ficava a observar.

— O que é que ele vai fazer com tanta água? — intrigava-se um pardalito novo.

— Deve ir regar as couves — sugeria um pardal.

— Para regar as couves é pouca — replicava uma velha pardoca, muito conhecedora da vida.

— Então é para ele beber — propunha outro pardal.

— Para ele beber é muita — replicava a velha pardoca.

— Para o que será? — perguntava o pardalito, sem que ninguém soubesse responder-

-lhe.

Decidiu investigar. Voou atrás do automóvel, mas como ainda tinha as asas com pouca força e a estrada era às curvas e contra-curvas, perdeu-lhe o rasto. E perdeu-se.

Esvoaçou ao calhas, até descer sobre um telheiro, junto à estrada. No telheiro havia melões à venda e cebolas e batatas e garrafões de vinho. Alto lá! E também havia garrafões de água, tal e qual os que o homem do automóvel enchia, na fonte dos pardais.

Se o pardal soubesse ler, leria no rótulo dos garrafões:

“ÁGUA DA FONTE DA SAÚDE – Graças a ela, os novos crescem e os velhos não encolhem”.

Aos saltinhos, diante dos garrafões, o pardalito admirava a fotografia do rótulo. Lá estava a fonte, centro da sua vida, e uns passarinhos a beber água no rebordo do tanque. Vendo bem, aquele mais pequeno, à direita, podia ser ele, o pardalito aventureiro.

Muito orgulhoso da sua descoberta, o pardal voou muito alto, tão alto que, lá de cima, viu o telheiro dos garrafões, a estrada às curvas e a fonte da Saúde ou dos pardais, donde ele viera.

Disparou em direcção ao ponto de partida e muito excitado piou para os companheiros:

— Já sei o segredo dos garrafões. O homem anda a vender o nosso retrato mais o retrato da nossa fonte.

— E a água para que serve? — perguntou um companheiro.

— Para segurar o nosso retrato — respondeu, prontamente, o pardalito.

António Torrado

il. Cristina Malaquias

http://www.historiadodia.pt/pt/historias/11/26/historia.aspx

quinta-feira, junho 24, 2010

Burmese football



Em tempo de futeboladas várias, esta fotografia de antologia está bem ao pé do nosso interesse. Graças à tecnologia e ao maravilhoso mundo das bibliotecas digitais, neste caso a Europeana.
O original está guardado na British Library, UK. Assim, num clic, além da fotografia, alcançamos a sabedoria da história, do como foi, do para que era...
Ler sentidos e pôr em sentido a memória e o coração.

segunda-feira, junho 21, 2010

vidasimples pensamentoselevados: MARTA 3

vidasimples pensamentoselevados: MARTA 3

Ler por fora da profissão. Ler porque apetece, sem obrigação.
Pensar no que nos rodeia, sem a utilidade à vista. Deixar entrar o sol da inquietação.
Para coisas dessas se criaram os autores

sábado, junho 19, 2010

Quase 100 anos depois de chegarmos à República



Exposição em Lisboa
O Jogo da Política Moderna - Desenho humorístico e cartoon na I República Portuguesa
(até 26 de Setembro)


Comentário incitador no Bibliotecário Iberista

terça-feira, junho 08, 2010

Biblioteca Escolar, Enxara do Bispo, Mafra, Portugal, 2010

Jl enxara[1]A Professora Bibliotecária Ana Filipa Julião está de parabéns, mai-los membros da Comunidade Escolar de Enxara do Bispo. O JL contou a notícia, mas o brilho já lá estava todo...
View more documents from Filipa Julião.

quinta-feira, junho 03, 2010

João Aguiar, até sempre

Morreu o escritor João Aguiar - Cultura - PUBLICO.PT

Perdemos novos sinais do seu humor, fino como a lucidez. Felizmente, há os livros :), para sempre. Até sempre.

A NATIVIDADE RELUTANTE

Ilustração de Joaquim de Sousa

À porta da Sala fui encontrar o Supervisor, rodeado pelos seus Técnicos. Aqueles rostos tensos, angustiados, confirmaram o meu pressentimento: havia crise.

Mal me viu, o Supervisor correu ao meu encontro.

– Ainda bem que veio, é a nossa última esperança!

– O que se passa? Algum contratempo?

Ele dominava-se, mas era evidente que estava à beira do pânico.

– Contratempo? Se fosse só um contratempo... mas é bem pior. Pode muito bem ser uma catástrofe!

Indicou a porta da Sala, que se mantinha fechada, e acrescentou:

– O Processo foi interrompido.

Como assim, perguntei. Isso nunca tinha acontecido, era uma coisa inconcebível. O Supervisor encolheu os ombros e explicou:

– Ele abandonou a Câmara de Transformação e recusa-se a voltar para lá.

Não percebi logo o significado da frase.

– Não quer voltar? Quer dizer que...

Gravemente, o Supervisor fez um aceno afirmativo: – Recusa-se a nascer.

Como?

Ao longo dos corredores silenciosos, a minha voz vibrou como uma explosão, a ponto de me assustar e de fazer estremecer os Técnicos.

– Mas isso não é possível. A Hora está a chegar.

O Supervisor fez outro aceno de cabeça. – Por isso o chamei com tanta urgência. Talvez Ele lhe dê ouvidos.

Sentia-me atordoado. A ideia de tal recusa era inimaginável.

– Quando entrou – prosseguiu o Supervisor – ia mais sombrio do que é habitual. Mas iniciou o Processo normalmente. De súbito, ao atingir os sete anos, parou, saiu da Câmara e disse: «Nada feito!»

– Está, então, nos sete anos?

– Sim, parou aí. – Num fio de voz, o Supervisor suplicou: – Fale-Lhe. Tente convencê-Lo. Pense no que está em jogo.

Eu pensava, sim, e a ideia dava-me tonturas. Fiz um gesto com a mão; ele abriu a porta e entrei.

Quando O vi, tive outra surpresa: estava, de facto, com sete anos – um Menino negro de sete anos, magrinho e mirrado, acocorado a um canto da sala. Olhou-me com ar de irritação.

– Ah. Pedro. Contaram-te.

– Sim, contaram. Estão todos muito preocupados.

Com cautela, para não parecer que recorria à lisonja, acrescentei:

– Era uma boa ideia, essa. A cor da pele, quero dizer.

Esboçou um sorriso. – Sim, pensei que era tempo. A África está a sofrer demasiado.

– Exactamente.

O sorriso apagou-se. – Mas pensei melhor e... não, decidi que não. Estou farto de esforços inúteis, sem sentido. Não haverá Nascimento.

Engoli em seco.

– Senhor, isso significa que na Terra não haverá Natal.

Ele, que baixara os olhos para o chão, endireitou-se. Era, agora, um pequeno Semita, um Árabe ou um judeu.

– Não haverá? Mas tem havido Natal, Pedro? Natal digno desse nome? Nunca dei por isso. Terei Eu andado distraído durante todos estes séculos?

Abri os braços. – Compreendo o que quereis dizer. A Humanidade da Terra não parece observar o verdadeiro espírito...

– Observar? Fizeram dele uma farsa! Festas, banquetes, presentes... aqueles que podem, porque os outros morrem de fome ou de guerra. E tem piorado, se é que ainda é possível. Natal, Pedro, só nos romances e nas peças de teatro e naqueles filmes que fazem nesse lugar infernal chamado... han...

– Hollywood.

– Isso. E mesmo aí, passou de moda. Não, não Me convences a submeter-Me a mais uma Natividade. Aliás, deixou de fazer sentido.

Esta última frase desorientou-me: – Como? Deixou de...

E Ele, numa ironia cortante:

– O Nascimento milagroso através de uma Virgem. Eles já não gostam, já não lhes diz nada. As virgens perderam a cotação nos seus malditos mercados. Aliás, não acreditam. Quando muito, hão-de produzir as crianças em laboratório. Eles acreditam nos laboratórios, mas não nas virgens.

Neste momento, Quem estava diante de mim era uma Criança loura, resplandecente, de olhos azuis brilhantes e zangados. Estremeci sem querer e Ele perguntou-me se tinha frio.

– Não. Perdoai-me, são essas mudanças tão rápidas. Perturbam-me...

Fez uma careta infantil. A Transformação costuma produzir efeitos desses.

– Nem reparei, foi involuntário.

Retomou o curso das recriminações: – Tantas mais coisas que poderia dizer! Houve algum dia de Natal, um só, em que não houvesse mortes, e doenças, e crimes? Algum dia...! Eles nem sabem ao certo em que dia nasci. E a hora: uma convenção. Decidiram festejar-Me à meia-noite, mas quantas meias-noites há na Terra? Numa só noite, nasço tantas vezes quantos os fusos horários!

Abri a boca, porém Ele disparou:

– Dois mil anos, Pedro. Dois mil Natais traídos. Não haverá mais nenhum. já decidi.

Ficou calado enquanto ganhava os traços fisionómicos de um pequeno Chinês. Decidi-me a falar:

– Senhor: não foram eles concebidos com sexos, desejos, paixões e instintos? Não estão sujeitos à morte e à doença e à luxúria e à miséria e a uma muito breve e insatisfatória felicidade?

Baixei a voz para rematar: – E não estão eles à espera... há muito mais que dois mil anos... de um Sinal inegável e irrecusável?

Ele fixou-me com intensidade: – Queres dizer que a culpa... que foi tudo mal planeado e mal executado?

Curvei humildemente a cabeça.

– Não. Não me atrevo a dizer seja o que for, não quero renegar-Vos outra vez. Mas considerai, suplico-Vos: pode bem ser que ainda haja neste momento, lá em baixo, um deles que esteja à Vossa espera, sinceramente e verdadeiramente. Um só, perdido entre biliões.

Não sei quanto tempo ali ficámos a olhar-nos. De repente, Ele encaminhou-se para a Câmara de Transformação, abriu a escotilha e virou-se de novo para mim.

– Está bem, Pedro. Com esse argumento...

Sorri-Lhe, aliviado. Devolveu-me o sorriso e entrou na Câmara.

Mas por um instante, um milésimo de segundo, quando voltava a ser um Menino negro, vi que os Seus olhos eram agora os de um velho. Cansados, mortalmente cansados e tristes.

Quando saí da Sala, o Arcanjo Supervisor e os seus Anjos, que ainda estavam junto da porta, felicitaram-me com entusiasmo. Não lhes respondi.

Avancei pelo corredor deserto, levando comigo a memória daqueles olhos em que cabia toda a mágoa do Universo.


© João Aguiar, O Canto dos Fantasmas, 2ª ed. revista, Porto, Edições Asa, 1999, pp. 90-94 (reprodução autorizada pelo autor) Inhttp://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/aguiar3.htm

sábado, maio 29, 2010

Moçambique

Biblioteca de Capulanas

pela mão da Margarida Botelho
a lembrar que os tecidos contam histórias

Deixem as ideias crescer

Quem nasce primeiro,a ideia ou a acção, o ovo ou a galinha?
Hoje dediquei a manhã a pensar sobre educação, no Forum da Educação do BE, em Lisboa. Bem empregado tempo.
A falta que nos faz parar de vez em quando para pensar! Bem hajam os oradores e os debatentes, mesmo escassos numericamente.

Conselhos Locais de Educação ou Conselhos Municipais de Educação?
Gestão de edifícios e outras sendas de restrição da autonomia na prática.
Como combater o Medo? Não há democracia nem autonomia com medo.

E assim, como na canção, dei bem por necessárias estas horas extraordinárias :)


quinta-feira, maio 06, 2010

MInha alma tem pressa

O Valioso Tempo dos Maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade
(1893-1945)
Selecção emprestada do blogue Lume e AR - escolha bem curiosa numa Escola Secundária em Portugal (2010), uma dessas onde dizem uns sábios que ninguém lê, ninguém pensa, ninguém cria... e esta hem?

Volver a los diecisiete-Mercedes Sosa-Veloso-Gal-Buarque-Nascimento-Viol...




Como o musgo na pedra / amor e seus esmeros / decifra novos caminhos
Extrardinário grupo iberocantante

domingo, abril 18, 2010

Conjuras

Nunca agradecerei o suficiente o olho certeiro do blogue A Natureza do Mal para imagens como esta. O texto também vale a a pena. Ide até lá ler.

quinta-feira, abril 15, 2010

Babel - muitas línguas para re-acordar a curiosidade


Dedicado a quem é francófilo

“...Les hommes parlaient tous la même langue.
En ce temps-là, comme aujourd’hui, ils ne faisaient que se plaindre du temps;
les femmes de leur mari, les époux de leur femme, gémir sur leur santé et l’approche de la mort.
Cette litanie était devenue si monotone que personne n’écoutait plus personne.
Sachant d’avance, à quelque mots près ce que l’autre allait dire, on ne lui prêtait plus la moindre attention.
C’est donc pour échapper à l’indifférence et à l’ennui que nous nous serions lancés dans cette construction inepte. (...) la tour se serait édifiée dans un silence de mort. Dieu qui contemplait ce gâchis avec un sourire navré aurait alors, dans son infinie miséricorde, créé toutes ces langues, dialectes ou patois différents pour réveiller une curiosité qui s’était éteinte.”


Nicolas Bouvier, L’échappée belle, Eloge de quelques pérégrins@ Edition Metropolis, 1996
via

domingo, abril 11, 2010

Reading & School = Leitura & Escola

Reading is taught as if it’s a transferable skill. It’s assumed that once children learn how to convert printed symbols into sounds and words, or “decode,” they can be taught to read anything by practicing strategies such as “find the main idea” and “question the author.”

But cognitive science has shown that comprehension is “domain specific.” If you can comprehend this op-ed, it doesn’t mean you can also comprehend Kant’s Critique of Pure Reason. Several studies show that “poor” readers suddenly look quite strong when reading on subjects they know a lot about, and “strong” readers who have weak subject knowledge, suddenly look quite weak. Despite this finding, students are boringly and time-wastingly taught to practice formal strategies on trivial fictions as though these strategies will somehow replace the subject-matter knowledge needed to become broadly literate.

Transforming the elementary school “literacy block” into a rich, meaningful and sustained engagement with subject matter would be the single greatest transformation of instructional time in decades. If there is one Big Idea that can help arrest the decline of reading achievement in American schools, this is the one.


Ler mais aqui - More here

sábado, abril 10, 2010

Conclusões do 10º Congresso BAD

Conclusões do 10º Congresso BAD
Pessoal BAD congressante, mesmo aqueles que não puderam estar na emocionante sessão de encerramento. Temos até segunda-feira (12/04) - comentem e sugiram alterações ao texto das conclusões do 10º Congresso. Democracia, sempre!
Vivam as bibliotecas vivas.

segunda-feira, março 29, 2010

Pela biblioteca em cada escola, e logo desde pequeninos...

Uma brochura janotíssima para melhor argumentar com directores e outros decisores que tanta diferença fazem no caminho das bibliotecas nas escolas dos primeiros anos.
Viva a SLA!

domingo, março 21, 2010

Cuscos de Vinhais = Portuguese Couscous

Andava eu a pensar na criação e na poesia, saltou-me um blog ao caminho
e um fabuloso documentário sobre os cuscos, ou carola, ou couscous de... Vinhais, em Trás os Montes (Portugal)



A gentileza veio pela Ervilha Cor de Rosa, blog de Rosa Pomar, famosa retroseira 2.0

Lemo-nos nos sabores e nos gestos, e neles se entendem irmandades e saberes de longo alcance, aqui com cheiro a Magreb nas Terras Altas da Ibéria, madres do trigo Barbela.


Bom apetite, e bom proveito.

Sábado leitor

Entrevista de quase 18 minutos a Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura. RTP e Antena 1 (Portugal), na véspera do Dia Mundial da Poesia 21 de Março de 2010. Conduzida por Rosário Lira

http://ww1.rtp.pt/blogs/programas/estesabado/?k=Entrevista-a-Fernando-Pinto-do-Amaral.rtp&post=7178

quarta-feira, março 17, 2010

Toy Maker, me and you Fazedor de brinquedos, eu e tu





Brinquedos de papel

Desenhar, vincar, dobrar e construir brinquedos de papel
Brincar
Sonhar
Antecipar

Ler

Um belo site, aqui
(agradeço a dica à Beatriz)

quarta-feira, março 10, 2010

Ler, Ler, Ler - A Casa do Folhas: Bibliocatalog na Casa do Folhas

Ler, Ler, Ler - A Casa do Folhas: Bibliocatalog na Casa do Folhas

Quem disse que o catálogo online e no computador
não adianta para alimentar em cada menino um leitor?

Quem pensa que bibliotecário e professor
não podem ambos ajudar a crescer esse leitor?

Quem teme experimentar usar sem dor
a palavra amiga a palavra amigo o dia com cor?

Póvoa da Galega, Portugal, 2010

sexta-feira, março 05, 2010

Saudades de Mestre Rogério Fernandes


A educação é fundamentalmente ética. Assenta sempre num dever-ser. Por isso, julgo que essa interacção entre as equipas mais velhas e as mais novas pode ser mutuamente frutuosa e contribuir para a escola plural.
Rogério Fernandes (200-?) Entrevista em A Página, Nº 8
Ao contrário do angustiado professor que se perguntava qual era o cacique a quem mais lhe convinha servir, o estatuto que a nova equipa da Direcção Geral do Ensino Básico atribuía ao docente era o de cidadão pleno, o que lhe criava o dever de intervenção cívica consciente. Não se tratava de fazer do professor (…) um propagandista de qualquer regime, de qualquer partido ou de qualquer seita. O professor deveria ser além de docente, na acepção verdadeira da palavra, um dinamizador cultural do seu meio em ordem à reconstrução da nação que o fascismo deixara devastada (…). Reconstruir a nação (…) seria sim libertar as energias criadoras do povo, promovendo a sua emancipação concreta no plano material e espiritual, de acordo com uma larga perspectiva racionalista e científica, de tal sorte que a opressão e a exploração do homem pelo homem desaparecessem para sempre da nossa terra.
Rogério Fernandes (1977), Discurso enquanto Director Geral da Educação, citado aqui

O primeiro livro que li sobre bibliotecas escolares, dos Livros Horizonte, foi-me sugerido pelo Rogério Fernandes. A Biblioteca do Educador Profissional ensinou-me a respeitar o seu nome, e n'O Professor e na Vértice aprendi o valor das suas palavras, postura e ideias, como as desse outro Mestre, o extraordinário Rui Grácio. Com eles aprendi a chave dos círculos de estudo, da partilha no coração do fôlego, que vive do ar que não se respira sozinho, do sopro comum que alimenta o canto diferente de cada voz. O bom sabor da generosidade, sem idade nem cálculo, pois não há tempo a perder nesta vida tão curta. O laço forte da liberdade.

Ao longo da vida nos encontrámos e reencontrámos, mais ou menos por acaso, em combates nem sempre ganhos, nem sempre totalmente perdidos, sempre do mesmo lado. E também em conversas saborosas e estimulantes.
Um homem livre, um homem bom, um Sábio que nos ajudou a descobrir o que queríamos compreender, a ganhar consciência do mundo e dos viventes, a confirmar o amor à Educação e ao ensino como amor à Humanidade, e o valor do tempo na criação, na acção e no pensamento.

Uma honra tê-lo conhecido. Um privilégio não o esquecer.
A falta que nos vai fazer... A falta que me faz!

Notícias aqui e aqui

segunda-feira, março 01, 2010

Histórias & Poder


Combater a única história sobre povos e lugares, contra o estereótipo que nos rouba a dignidade e nos afasta do Paraíso. Palavras claras da nigeriana Adichie.
Legendado em português, tradução com falhas mas que mesmo assim ajuda.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Prioridade CI Cultura da Infância


As creches e os jardins-de-infância deveriam constituir prioridade no sistema de ensino, privilegiando um ambiente familiar e não tendo a preocupação de criar uma escola em ponto pequeno, porque antes da aprendizagem das letras convém garantir um mínimo de bem-estar emocional que as permita compreender.

A cultura da infância é a única forma de fazer o país progredir.

Daniel Sampaio, Pública, 2010.02.21

domingo, fevereiro 21, 2010

Paixão


Fabulosa história de uma grande contadora, Isabel Allende, cortesia TED, alimento de imaginar. Legendas em língua portuguesa (BR). Som em língua inglesa (EUA). Olhar, silêncios e sorrisos não precisam tradução.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Estamos a tempo de derrotar o medo

O que fizeram?
Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela.
Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.
Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produção e não apenas por razões monetárias, mas por questões de bem-estar e convivialidade do consumidor fi nal. O resultado é que pensar em termos de convivialidade faz melhorar a qualidade da produção e fará com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo.
Para o conseguir, foi preciso que existisse cooperação dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contraditórios pudessem ser discutidos. E isso só é possível num ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de arriscar falar alto.
Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organização do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente.

Entrevista a Christophe Dejours, Público, 30.01.2010

domingo, janeiro 24, 2010