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sexta-feira, maio 18, 2012

Fruto


foto Jose Sousa Dias, 2011


Por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo.






Carlos de Oliveira, in "Sobre o Lado Esquerdo", 1968

sábado, agosto 07, 2010

Fatias


Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, agosto 06, 2010

Tempo fluvial


Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.

Nuno Júdice
15 Agosto 2008

quinta-feira, maio 06, 2010

MInha alma tem pressa

O Valioso Tempo dos Maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade
(1893-1945)
Selecção emprestada do blogue Lume e AR - escolha bem curiosa numa Escola Secundária em Portugal (2010), uma dessas onde dizem uns sábios que ninguém lê, ninguém pensa, ninguém cria... e esta hem?

quarta-feira, junho 27, 2007

Pobreza, riqueza e o que mais adiante se verá

A nossa riqueza provém da nossa disponibilidade em efectuarmos trocas culturais com os outros. (...)

Eu venho falar aqui de um diálogo muito particular de que poucas vezes se faz alusão. Refiro-me à nossa conversa com os nossos próprios fantasmas. O tempo trabalhou a nossa alma colectiva por via de três materiais: o passado, o presente e o futuro. Nenhum desses materiais parece estar feito para uso imediato. O passado foi mal embalado e chega-nos deformado, carregado de mitos e preconceitos. O presente vem vestido de roupa emprestada. E o futuro foi encomendado por interesses que nos são alheios.

Não digo nada de novo: o nosso país não é pobre mas foi empobrecido. A minha tese é que o empobrecimento de Moçambique não começa nas razões económicas. O maior empobrecimento provém da falta de ideias, da erosão da criatividade e da ausente interna de debate. Mais do que pobres tornamo-nos inférteis.

Mia Couto
in Economia- a fronteira da cultura (2003)

sábado, junho 23, 2007

Contas às contas


Essa vida é uma estranha hospedaria
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia.

Mário Quintana

Tênis x Frescobol


de Rubem Alves



Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\’ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo…’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\’ não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\’. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\’. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…(O retorno e terno, p. 51.)

terça-feira, maio 15, 2007

Tempo e Formação E-learning



(Entrada para um portfolio construído numa Formação e-learning, usando a Plataforma CRIE)

A dimensão essencial, e um dos reais problemas de gestão desta formação e-learning.


Tempo exterior, cronometrável, calendarizável.
  • horários - verifico que a mancha horária mais utilizada por mim foi entre as 23 h e as 3 h
  • calendários - o fim de semana foi mais utilizado, com custos pessoais no lazer



Tempo interior, mensurável apenas na fluência do produto ou do processo (leitura rende ou não rende..), nascido da gestão do cansaço e da atitude, mas também elástico quando interesse das propostas aumenta. Ilusão, no sentido castelhano (ilusión), alarga o tempo.
  • menos lazer, mais stress, menos tempo "útil"
  • neste caso, aumenta o valor desse tempo quando NÃO afectamos o fim de semana a estas tarefas - um minuto depois de descansar vale mais que 30 em stress.. do ponto de vista do produto-aprendizagem e do ponto de vista do produto-partilha (textos, comentários, etc)




Tempo digital, dependendo dos recursos electrónicos, computador+ligação à web+custos efectivos para o utilizador.
  • o mais cómodo para mim tem sido o computador fixo em casa, netcabo ou sapoadsl; estou estudando os custos dos vários serviços de banda larga
  • imagino que estes processos de formação elearning excluem à partida, para além do óbvio requisito de alguma destreza na utilização do computador e dos acessos à web
    • quem não tenha computador em casa (no seu suposto espaço/tempo de lazer)
    • (em alternativa) quem, tendo embora acesso a meios informáticos no local de trabalho (o que lhe libertaria o espaço/tempo de lazer, conquistado a duras penas desde o séc. XIX por lutas sociais), tenha efectivamente que cumprir actividades no horário total de trabalho, dedicadas à produção e não à sua produção
    • quem viva/trabalhe em áreas geográficas com acesso instável ou caro - para quando a banda larga gratuita e veloz em todo o País?
  • o mais caro, para mim, aconteceu a 26 de Abril - por desconhecimento das regras do contrato TMN, dispendi 40 minutos a trabalhar, depois das 23 h (a Happy hour Não funciona em Roaming!) e a descarregar ficheiros - o que elevou o custo das comunicações via Banda TMN (placa no computador portátil) de uns regulares 15 € para cerca de 500 € (regras de roaming - estava na Áustria - o que vale é a dimensão dos ficheiros descarregados); aprendi:
  • a não descarregar ficheiros quando estou fora, usando a placa do computador portátil - vou a um cibercafé e levo uma pen, por exemplo,ou escolho um hotel com internet gratuita (há muitos);
  • a colocar sempre a informação também em ficheiros zip, ou rar - para ajudar os outros...
  • que a placa funciona lindamente, nem senti o tempo (do relógio) passar
  • a concluir que se a educação é cara, muito mais cara é a ignorância... cool


Quanto maior foi a coincidência destes 3 tempos, maior o rendimento em termos de participação e de aprendizagem.

Viver não custa?
Ai, saibamos viver.
MJV