
Os passos a que ando, um atrás do outro, como as letras em carreirinha, do fim para o princípio.
sexta-feira, outubro 02, 2020
RIO DE CONTOS 17 OUTUBRO 2020

sexta-feira, junho 07, 2019
So kind of you

Os bons museus, os bons jardins adestram-nos o olhar e o sentir.
As boas histórias, como esta, também.
Haja bondade, e partilhemos as chaves da gentileza, tão frágeis como essenciais à vida.
Na maior delicadeza nasce a força maior, que tece esperança e coragem.
NA BILHETEIRA do museu, o funcionário insiste em verificar os descontos que eu posso auferir. Falamos um pouco, quer saber de onde venho e o que vi. Conheço o país dele e gosto. A começar pelos seus habitantes. No final, até o desconto de ter viajado numa companhia aérea, um dia, na minha vida, ele me fez.Não consegui deixar de pensar na minha última tentativa de visitar o museu Gulbenkian, de que gosto, na sua dimensão modesta. Dos 14 euros que me pediram, sem querer saber se quase todos os dias ensino Arte aos meus alunos. Da desconfiança e desinteresse sempre que há a possibilidade de pagarmos um pouco menos.Visito um museu 5 vezes maior por metade do preço.“Obrigado pela sua bondade, disse ao homem jovem da bilheteira “, ele sorriu vagamente. Estava apenas a fazer aquilo que aprendeu em pequenino e que este museu incentiva.
Possidónio Cachapa, 20190606, lido no Facebook
quinta-feira, agosto 30, 2018
Contatinas

- Porque contas histórias se ninguém te está a ouvir?
- Sabes, a princípio eu contava histórias para mudar o mundo, agora, conto histórias para que o mundo não me mude a mim.
in O NarradorLuis Correia Carmelo, Contatinas.Ed. BOCA, aqui:http://www.boca.pt/contatinas.html
quarta-feira, setembro 06, 2017
Livro do dia. III - Para gostar de ler /Itaú
domingo, dezembro 16, 2012
segunda-feira, junho 13, 2011
Futurar
Poema do alegre desespero
Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,
ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.
Compreende-se.
E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.
Compreende-se.
Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.
Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.
E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
sábado, abril 02, 2011
Nem sempre se avança... Saber História é aprender.
OccitâniaInquieta-me a maneira como jornalistas e outros interessados se têm alheado do futuro dos países islâmicos em revolução. Não me refiro ao futuro “geo-estratégico” como costuma dizer-se. Refiro-me ao futuro das pessoas. Das mulheres, para ser mais exacto. Na Tunísia, Egipto, Líbia, Síria, as mulheres têm ou tinham uma presença social incomparavelmente mais alargada do que noutros países muçulmanos. Convirá recordar o que sucedeu no Iraque onde o derrube da ditadura de Saddam Hussein representou o regresso à escravização de muitas, se não da maioria das mulheres .Foi ao pensar nisto e na história das mulheres no Ocidente que me lembrei da Occitânia.A palavra designa uma região que abrangia o sul da França actual mas que se estendia culturalmente pela Catalunha e Aragão. Surgiu aí uma das mais refinadas civilizações que a Europa conheceu. Provém da Occitânia o “Amor Cortês” e a poesia trovadoresca, ergueram-se lá lugares tão sublimes como as abadias cistercienses de Silvacane ou Le Thoronet.A Occitânia morreu às mãos dos barões franceses do norte e de uma interpretação intolerante do cristianismo, numa cruzada que, na primeira metade do século XIII, fez desaparecer a autonomia da região e da sua cultura ao esmagar num pavoroso banho de sangue a heresia dos Cátaros, um culto cristão divergente da doutrina papal. O horror da repressão marcou o fi m da doçura de viver da civilização do sul. Um dos aspectos dessa doçura era o estatuto de que beneficiavam as mulheres. Entre outros aspectos, a filha maior podia herdar e transmitir bens em desfavor dos seus irmãos mais novos e as mulheres podiam divorciar-se pelas mesmas razões e nas mesmas condições que os maridos. A partir do século XIII, na Occitânia como em alguns outros lugares da Europa onde se verificavam condições semelhantes, as mulheres viram-se como que repentinamente remetidas à menoridade social que veio até aos nossos dias.
Alguns historiadores sugerem que esta catástrofe resultou do facto do aristotelismo ter passado a dominar um dos mais importantes centros do pensamento filosófico e jurídico da Europa, a Universidade de Paris, fazendo do desprezo pelas mulheres doutrina oficial.Teria sido também decisiva a crescente influência do direito romano que entrega aos homens o controlo da vida e propriedade familiares. O início desta inversão civilizacional foi assinalado pelo esmagamento manu militari da civilização occitana.A condição das mulheres passou por muitos avanços e recuos em toda a parte. Teve momentos e lugares de igualdade, outros de retrocesso. Gostaríamos de acreditar que é irreversível aquilo que os movimentos de mulheres conseguiram no Ocidente durante o século XX. Gostaríamos também de pensar que todas as mulheres beneficiarão destas conquistas e dos efeitos das revoluções que ocorrem nos seus próprios países. Mas é bem possível que tudo tenha ficado muito pior para as mulheres do Egipto e da Líbia, como ficou para as do Iraque. As malhas que a liberdade tece podem ser também as grilhetas da tirania.
sexta-feira, junho 25, 2010
História! História!

Era uma vez uma fonte à beira da estrada. Os pardais das árvores vizinhas tinham ali o seu ponto de encontro.
Matavam a sede, tomavam banho, chilreavam uns com os outros.
De semana a semana, vinha um homem, sempre de automóvel, buscar água à fonte. Enchia uma quantidade de garrafões de plástico e, depois, abalava.
Nessas alturas, a pardalada fugia para o poiso das árvores e ficava a observar.
— O que é que ele vai fazer com tanta água? — intrigava-se um pardalito novo.
— Deve ir regar as couves — sugeria um pardal.
— Para regar as couves é pouca — replicava uma velha pardoca, muito conhecedora da vida.
— Então é para ele beber — propunha outro pardal.
— Para ele beber é muita — replicava a velha pardoca.
— Para o que será? — perguntava o pardalito, sem que ninguém soubesse responder-
-lhe.
Decidiu investigar. Voou atrás do automóvel, mas como ainda tinha as asas com pouca força e a estrada era às curvas e contra-curvas, perdeu-lhe o rasto. E perdeu-se.
Esvoaçou ao calhas, até descer sobre um telheiro, junto à estrada. No telheiro havia melões à venda e cebolas e batatas e garrafões de vinho. Alto lá! E também havia garrafões de água, tal e qual os que o homem do automóvel enchia, na fonte dos pardais.
Se o pardal soubesse ler, leria no rótulo dos garrafões:
“ÁGUA DA FONTE DA SAÚDE – Graças a ela, os novos crescem e os velhos não encolhem”.
Aos saltinhos, diante dos garrafões, o pardalito admirava a fotografia do rótulo. Lá estava a fonte, centro da sua vida, e uns passarinhos a beber água no rebordo do tanque. Vendo bem, aquele mais pequeno, à direita, podia ser ele, o pardalito aventureiro.
Muito orgulhoso da sua descoberta, o pardal voou muito alto, tão alto que, lá de cima, viu o telheiro dos garrafões, a estrada às curvas e a fonte da Saúde ou dos pardais, donde ele viera.
Disparou em direcção ao ponto de partida e muito excitado piou para os companheiros:
— Já sei o segredo dos garrafões. O homem anda a vender o nosso retrato mais o retrato da nossa fonte.
— E a água para que serve? — perguntou um companheiro.
— Para segurar o nosso retrato — respondeu, prontamente, o pardalito.
António Torrado
il. Cristina Malaquias
http://www.historiadodia.pt/pt/historias/11/26/historia.aspx
segunda-feira, março 01, 2010
Histórias & Poder
Combater a única história sobre povos e lugares, contra o estereótipo que nos rouba a dignidade e nos afasta do Paraíso. Palavras claras da nigeriana Adichie.