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quarta-feira, janeiro 01, 2014

Sorria, está a ser estimulado a pensar

Com vénia ao autor


Imagem daqui



Remorsos de um encenador de teatro

por FILIPE LA FÉRIA*29 dezembro 2013

Muita gente me acusa de ser o culpado do estado de desgraça do nosso país por ter reprovado Pedro Passos Coelho numa audição em que eu procurava um cantor para fazer parte do elenco de My Fair Lady. Até o espertíssimo gato fedorento Ricardo Araújo Pereira já afirmou que eu devia ser chicoteado em público todos os dias até Passos Coelho desistir de ser primeiro-ministro, como insistentemente o aconselha o Dr. Soares.
Na verdade, confesso que em 2002, quando preparava os ensaios para levar à cena My Fair Lady fiz uma série de audições a cantores para procurar o intérprete do galã apaixonado por Elisa Doolittle, a pobre vendedora de flores do Covent Garden, personagem saída da cabeça brincalhona e maniqueísta de Bernard Shaw, genial dramaturgo que no seu tempo se fartou de gozar com políticos. Entre muitos concorrentes à audição, apareceu Pedro Passos Coelho de jeans, voz colocada, educadíssimo e bem-falante. Era aluno de Cristina de Castro, uma excelente cantora dos tempos de glória do São Carlos que tinha sido escolhida por Maria Callas para contracenar com a diva naTraviata quando da sua passagem histórica por Lisboa. As recomendações portanto não podiam ser melhores e a prova foi convincente. Porém, Passos Coelho era barítono e a partitura exigia um tenor. Foi por essa pequena idiossincrasia vocal que Passos Coelho não foi aceite, o que veio a ditar o futuro do jovem aspirante a cantor que, em breve, ascenderia a actor protagonista do perverso musical da política. Se não fosse a sua tessitura de voz de barítono, hoje estaria no palco do Politeama na Grande Revista à Portuguesa a dar à perna com o João Baião, a Marina Mota, a Maria Vieira, e talvez fosse muitíssimo mais feliz. Diria mal da forma como o Estado trata a cultura em Portugal, revoltar-se-ia com os impostos que o teatro é obrigado a pagar, saberia que um bilhete que é vendido ao público a dez euros, sete vão para o Estado, teria um ataque de nervos contra os lobbies da Secretaria de Estado da Cultura, há quarenta anos sempre os mesmos... não saberia sequer o nome do obscuro e discretíssimo secretário da Cultura oficial, não perceberia porque em Portugal não há uma Lei do Mecenato que permita aos produtores de espectáculos cativar os mecenas, tal é a volúpia cega dos impostos, saberia que cada vez mais há artistas no desemprego em condições miserabilistas e degradantes, que fazer teatro, cinema ou arte em Portugal se tornou um acto de loucura e de militância esquizofrénica. Mas a cantar no palco do Politeama estaria bem longe da bomba-relógio do Dr. Paulo Portas, cada vez mais fulgurante como pop-star, da troika, agora terrível e pós-seguramente medonha, das reuniões de quinta-feira com o Senhor Professor, do Gaspar que se pisgou para o Banco de Portugal, dos enredos do partido bem mais enfadonhas do que as animadas tricas dos bastidores do teatro, das reuniões intermináveis com os alucinados ministros, das manifestações dos professores, dos polícias, dos funcionários públicos, dos pescadores, dos estivadores, dos reformados, dos trabalhadores de tudo o que mexe e não mexe em cima deste desgraçado país, ah!, e das sentenças do Palácio Ratton (1) que agora são chamadas para tudo, só para tramarem a cabeça intervencionada do pobre Pedrinho... não bastava já as constantes birrinhas do Tó Zé Seguro, as conversas da tanga do Dr. Durão Barroso, o charme cínico e discreto de Madame Christine Lagarde, as leoninas exigências da mandona da Europa para Bruxelas assinar a porcaria do cheque. Valha-me o Papa Francisco que tudo isto é de mais para um barítono!
Assumo o meu mais profundo remorso. Devia ter proporcionado ao rapaz um futuro mais insignificante mas mais feliz. Mas, tal como Elisa Doolittle, que depois de ser uma grande dama prefere voltar a vender flores no mercado de Covent Garden, talvez o nosso herói renegue todas as vaidades e vicissitudes da política e suba ao palco do Politeama para interpretar a versão pobrezinha mas bem portuguesa de Os Miseráveis!

PS. O artigo foi escrito em português antigo. No Teatro Politeama nem as bailarinas russas aderiram ao Acordo Ortográfico.
* Encenador e dramaturgo. Diplomou-se em Londres com uma bolsa da Fundação Gulbenkian, foi diretor da Casa da Comédia. Com "What happened to Madalena Iglésias" iniciou e revitalizou o teatro ligeiro
(1) Sede do Tribunal Constitucional

segunda-feira, setembro 16, 2013

A ler


Os clássicos nascen todos os dias :)
Extrato do conto "O Programador e o Bruxo", incluído no livro "O Inferno de Outro Mundo", que será lançado no Rio de Janeiro esta quarta, dia 18, na Livraria Antonio Gramsci

Já não havia cadeiras vazias quando a palestra começou. Deixei que o Sabatelli iniciasse o filme que trouxera, projetado numa tela nas costas dele – uma compilação de cenas de pseudoavistamentos de OVNIs, na maioria claramente falsos, alguns, os melhores, duvidosos. Mas nada que apontasse para um real contato de terceiro grau. Deixei a palestra ganhar ritmo, só para verificar que o sujeito sabia falar com segurança. Quem não conhecesse bem o tema podia deixar-se levar pela tese de que os ETs já estão na Terra há muito tempo, mas existe uma grande conspiração montada para ocultar as evidências. 
Quando achei que o sujeito estava ultrapassando os limites, disparei o primeiro míssil: intercalei na projeção cenas do filme “Ed Wood”, do Tim Burton. O público viu, de surpresa, imagens de uns pratos presos por cordéis sendo filmados como se fossem discos voadores, e o realizador, que ficou conhecido como “o pior cineasta do mundo”, interpretado pelo ator Johnny Depp, dizendo que não havia problema que os fios aparecessem. As pessoas começaram a rir, e o Sabatelli, que estava de costas, não entendeu nada. Quando se virou, cortei o filme que trouxera e voltei a exibir o dele. 
O homem não deu pela troca e achou que riam do filme dos OVNIs. Engasgou-se, vacilou, ensaiou um improviso dizendo que as imagens eram sérias, “avistamentos confirmados”, e eu disparei o segundo míssil – a cena do mesmo filme que mostrava o Ed Wood vestido de mulher e dançando. O público já ria às gargalhadas, o Sabatelli se virou de repente e a cena desapareceu. Fiquei brincando de gato e rato com ele. Mal se virava para o público, regressava o Ed Wood; logo que dava as costas ao público e encarava a tela regressavam os pseudoavistamentos de OVNIs. As pessoas já quase rebolavam de tanto rir. Aquilo parecia um filme dos irmãos Marx. Finalmente, desisti da brincadeira e deixei em looping a sequência dos pratos fingindo que eram discos voadores, presos a cordeizinhos, e o Ed Wood dizendo: “No problem!”
O Sabatelli espumou de raiva quando viu a projeção, saltou sobre o notebook e desligou-o da corrente, esquecendo que a bateria o manteria funcionando. Olhou perplexo o ecrã, sem saber o que fazer. O público não parava de rir. Até que finalmente lembrou o óbvio: desligou o cabo do projetor, agarrou o notebook e a mala e saiu porta afora. 
Quando achei que o sujeito estava ultrapassando os limites, disparei o primeiro míssil: intercalei na projeção cenas do filme “Ed Wood”, do Tim Burton. O público viu, de surpresa, imagens de uns pratos presos por cordéis sendo filmados como se fossem discos voadores, e o realizador, que ficou conhecido como “o pior cineasta do mundo”, interpretado pelo ator Johnny Depp, dizendo que não havia problema que os fios aparecessem. As pessoas começaram a rir, e o Sabatelli, que estava de costas, não entendeu nada. Quando se virou, cortei o filme que trouxera e voltei a exibir o dele. 
O homem não deu pela troca e achou que riam do filme dos OVNIs. Engasgou-se, vacilou, ensaiou um improviso dizendo que as imagens eram sérias, “avistamentos confirmados”, e eu disparei o segundo míssil – a cena do mesmo filme que mostrava o Ed Wood vestido de mulher e dançando. O público já ria às gargalhadas, o Sabatelli se virou de repente e a cena desapareceu. Fiquei brincando de gato e rato com ele. Mal se virava para o público, regressava o Ed Wood; logo que dava as costas ao público e encarava a tela regressavam os pseudoavistamentos de OVNIs. As pessoas já quase rebolavam de tanto rir. Aquilo parecia um filme dos irmãos Marx. Finalmente, desisti da brincadeira e deixei em looping a sequência dos pratos fingindo que eram discos voadores, presos a cordeizinhos, e o Ed Wood dizendo: “No problem!”
O Sabatelli espumou de raiva quando viu a projeção, saltou sobre o notebook e desligou-o da corrente, esquecendo que a bateria o manteria funcionando. Olhou perplexo o ecrã, sem saber o que fazer. O público não parava de rir. Até que finalmente lembrou o óbvio: desligou o cabo do projetor, agarrou o notebook e a mala e saiu porta afora.  
Luis Leiria


Quem for ao lançamento, adira ao evento aqui:
https://www.facebook.com/events/579074355486833/?fref=ts

quinta-feira, junho 03, 2010

João Aguiar, até sempre

Morreu o escritor João Aguiar - Cultura - PUBLICO.PT

Perdemos novos sinais do seu humor, fino como a lucidez. Felizmente, há os livros :), para sempre. Até sempre.

A NATIVIDADE RELUTANTE

Ilustração de Joaquim de Sousa

À porta da Sala fui encontrar o Supervisor, rodeado pelos seus Técnicos. Aqueles rostos tensos, angustiados, confirmaram o meu pressentimento: havia crise.

Mal me viu, o Supervisor correu ao meu encontro.

– Ainda bem que veio, é a nossa última esperança!

– O que se passa? Algum contratempo?

Ele dominava-se, mas era evidente que estava à beira do pânico.

– Contratempo? Se fosse só um contratempo... mas é bem pior. Pode muito bem ser uma catástrofe!

Indicou a porta da Sala, que se mantinha fechada, e acrescentou:

– O Processo foi interrompido.

Como assim, perguntei. Isso nunca tinha acontecido, era uma coisa inconcebível. O Supervisor encolheu os ombros e explicou:

– Ele abandonou a Câmara de Transformação e recusa-se a voltar para lá.

Não percebi logo o significado da frase.

– Não quer voltar? Quer dizer que...

Gravemente, o Supervisor fez um aceno afirmativo: – Recusa-se a nascer.

Como?

Ao longo dos corredores silenciosos, a minha voz vibrou como uma explosão, a ponto de me assustar e de fazer estremecer os Técnicos.

– Mas isso não é possível. A Hora está a chegar.

O Supervisor fez outro aceno de cabeça. – Por isso o chamei com tanta urgência. Talvez Ele lhe dê ouvidos.

Sentia-me atordoado. A ideia de tal recusa era inimaginável.

– Quando entrou – prosseguiu o Supervisor – ia mais sombrio do que é habitual. Mas iniciou o Processo normalmente. De súbito, ao atingir os sete anos, parou, saiu da Câmara e disse: «Nada feito!»

– Está, então, nos sete anos?

– Sim, parou aí. – Num fio de voz, o Supervisor suplicou: – Fale-Lhe. Tente convencê-Lo. Pense no que está em jogo.

Eu pensava, sim, e a ideia dava-me tonturas. Fiz um gesto com a mão; ele abriu a porta e entrei.

Quando O vi, tive outra surpresa: estava, de facto, com sete anos – um Menino negro de sete anos, magrinho e mirrado, acocorado a um canto da sala. Olhou-me com ar de irritação.

– Ah. Pedro. Contaram-te.

– Sim, contaram. Estão todos muito preocupados.

Com cautela, para não parecer que recorria à lisonja, acrescentei:

– Era uma boa ideia, essa. A cor da pele, quero dizer.

Esboçou um sorriso. – Sim, pensei que era tempo. A África está a sofrer demasiado.

– Exactamente.

O sorriso apagou-se. – Mas pensei melhor e... não, decidi que não. Estou farto de esforços inúteis, sem sentido. Não haverá Nascimento.

Engoli em seco.

– Senhor, isso significa que na Terra não haverá Natal.

Ele, que baixara os olhos para o chão, endireitou-se. Era, agora, um pequeno Semita, um Árabe ou um judeu.

– Não haverá? Mas tem havido Natal, Pedro? Natal digno desse nome? Nunca dei por isso. Terei Eu andado distraído durante todos estes séculos?

Abri os braços. – Compreendo o que quereis dizer. A Humanidade da Terra não parece observar o verdadeiro espírito...

– Observar? Fizeram dele uma farsa! Festas, banquetes, presentes... aqueles que podem, porque os outros morrem de fome ou de guerra. E tem piorado, se é que ainda é possível. Natal, Pedro, só nos romances e nas peças de teatro e naqueles filmes que fazem nesse lugar infernal chamado... han...

– Hollywood.

– Isso. E mesmo aí, passou de moda. Não, não Me convences a submeter-Me a mais uma Natividade. Aliás, deixou de fazer sentido.

Esta última frase desorientou-me: – Como? Deixou de...

E Ele, numa ironia cortante:

– O Nascimento milagroso através de uma Virgem. Eles já não gostam, já não lhes diz nada. As virgens perderam a cotação nos seus malditos mercados. Aliás, não acreditam. Quando muito, hão-de produzir as crianças em laboratório. Eles acreditam nos laboratórios, mas não nas virgens.

Neste momento, Quem estava diante de mim era uma Criança loura, resplandecente, de olhos azuis brilhantes e zangados. Estremeci sem querer e Ele perguntou-me se tinha frio.

– Não. Perdoai-me, são essas mudanças tão rápidas. Perturbam-me...

Fez uma careta infantil. A Transformação costuma produzir efeitos desses.

– Nem reparei, foi involuntário.

Retomou o curso das recriminações: – Tantas mais coisas que poderia dizer! Houve algum dia de Natal, um só, em que não houvesse mortes, e doenças, e crimes? Algum dia...! Eles nem sabem ao certo em que dia nasci. E a hora: uma convenção. Decidiram festejar-Me à meia-noite, mas quantas meias-noites há na Terra? Numa só noite, nasço tantas vezes quantos os fusos horários!

Abri a boca, porém Ele disparou:

– Dois mil anos, Pedro. Dois mil Natais traídos. Não haverá mais nenhum. já decidi.

Ficou calado enquanto ganhava os traços fisionómicos de um pequeno Chinês. Decidi-me a falar:

– Senhor: não foram eles concebidos com sexos, desejos, paixões e instintos? Não estão sujeitos à morte e à doença e à luxúria e à miséria e a uma muito breve e insatisfatória felicidade?

Baixei a voz para rematar: – E não estão eles à espera... há muito mais que dois mil anos... de um Sinal inegável e irrecusável?

Ele fixou-me com intensidade: – Queres dizer que a culpa... que foi tudo mal planeado e mal executado?

Curvei humildemente a cabeça.

– Não. Não me atrevo a dizer seja o que for, não quero renegar-Vos outra vez. Mas considerai, suplico-Vos: pode bem ser que ainda haja neste momento, lá em baixo, um deles que esteja à Vossa espera, sinceramente e verdadeiramente. Um só, perdido entre biliões.

Não sei quanto tempo ali ficámos a olhar-nos. De repente, Ele encaminhou-se para a Câmara de Transformação, abriu a escotilha e virou-se de novo para mim.

– Está bem, Pedro. Com esse argumento...

Sorri-Lhe, aliviado. Devolveu-me o sorriso e entrou na Câmara.

Mas por um instante, um milésimo de segundo, quando voltava a ser um Menino negro, vi que os Seus olhos eram agora os de um velho. Cansados, mortalmente cansados e tristes.

Quando saí da Sala, o Arcanjo Supervisor e os seus Anjos, que ainda estavam junto da porta, felicitaram-me com entusiasmo. Não lhes respondi.

Avancei pelo corredor deserto, levando comigo a memória daqueles olhos em que cabia toda a mágoa do Universo.


© João Aguiar, O Canto dos Fantasmas, 2ª ed. revista, Porto, Edições Asa, 1999, pp. 90-94 (reprodução autorizada pelo autor) Inhttp://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/aguiar3.htm

domingo, dezembro 20, 2009

E-Book RBE, criação espontânea, edição Issuu



Sílvio Maltez, Professor Bibliotecário em Mem Martins (Sintra). Humor RBE neste Natal.
Como diria a Luísa Alvim, Vival as Bibliotecas Vivas!

sexta-feira, junho 29, 2007

Isto é dois mil e sete? Really?

AVISO

NESTE BLOG NÃO
SE FAZ CROCHET
SE ESTUDA EM CIMA DAS MESAS
SE CRITICA MONSIEUR LE PRÉSIDENT, MR. PRESIDENT, SEÑOR PRESIDENTE, AMO

por supuesto presupuesto...



Humor (sentido de )
Ainda havemos de o ver à venda nas farmácias em unidoses com a recomendação
SE NÃO USAR TODAS ESTAS DOSES - DÊ AOS POBRES, QUE EMPRESTA AO ESPÍRITO SANTO!

Isto é um caso muito sério. Aliás, vários casos. E o tempo que nos faz perder em melindres de donzela, gasta-o este Governo à socapa em delitos de (isso mesmo que estais a pensar). Eficaz? E revelador.
Como se aplica o conceito de desobediência civil à gargalhada por ver um "superior hierárquico" perder completamente a compostura, ou seja, a noção do ridículo? Quem não consegue ver que a melhor maneira de aumentar as anedotas é proibir uma anedota?
Ora aí está: o que se pretende é aumentar desesperadamente a jocosidade nacional, em privado já se vê. À vista, tudo cinzentinho e conformado.
Depois contamina e há falta de inovação, criatividade, competitividade? Pois há, lá isso... riscos de privatizar exercícios de inteligência. Paciência! Não se pode ter tudo: para obediência, mesmo na inutilidade, sobretudo na inutilidade, a inteligência só atrapalha.
(agradecendo provocação ao Daniel)