Os passos a que ando, um atrás do outro, como as letras em carreirinha, do fim para o princípio.
sexta-feira, março 09, 2012
130 ainda ardem na nossa memória
"No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade estadunidense de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, como redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. A manifestação foi reprimida com muita violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas.
Em 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem às mulheres que se manifestaram por condições melhores em 1857. Somente em 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU."
quinta-feira, março 08, 2012
"ler faz muito bem à cabeça"
![]() |
| Matias Batista Correia, AE Pedro Jacques de Magalhães, Alverca do Ribatejo (V. F. Xira), 2012 |
Rede Bibliotecas Escolares: Semana da Leitura: "ler faz muito bem à cabeça"
quarta-feira, março 07, 2012
terça-feira, março 06, 2012
Museu da nossa paixão: a língua portuguesa
Nesta Semana da Leitura de 2012, um brinde e uma recordação deste maravilhoso Museu, São Paulo, Brasil
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Como se desenha uma casa
"A amizade e os amigos também é uma forma de domicílio."
Livro de poemas de Manuel António Pina, apresentado pelo próprio autor, no canal Youtube do Plano Nacional de Leitura (Portugal), a seguir...
domingo, fevereiro 19, 2012
sábado, fevereiro 18, 2012
quinta-feira, fevereiro 09, 2012
Canção da mais alta torre
Chanson de la plus haute tour
Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent.
Je me suis dit : laisse,
Et qu'on ne te voie :
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t'arrête,
Auguste retraite.
J'ai tant fait patience
Qu'à jamais j'oublie ;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.
Ainsi la prairie
A l'oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D'encens et d'ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.
Ah ! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n'a que l'image
De la Notre-Dame !
Est-ce que l'on prie
La Vierge Marie ?
Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent !
Inclui o poema dito por Jean Marais:
http://wheatoncollege.edu/academic/academicdept/French/ViveVoix/Resources/chansondelaplushaute.html
Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent.
Je me suis dit : laisse,
Et qu'on ne te voie :
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t'arrête,
Auguste retraite.
J'ai tant fait patience
Qu'à jamais j'oublie ;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.
Ainsi la prairie
A l'oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D'encens et d'ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.
Ah ! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n'a que l'image
De la Notre-Dame !
Est-ce que l'on prie
La Vierge Marie ?
Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent !
Arthur RIMBAUD, Derniers vers (composé en 1872)
Inclui o poema dito por Jean Marais:
http://wheatoncollege.edu/academic/academicdept/French/ViveVoix/Resources/chansondelaplushaute.html
Cavaleiro Coragem
Descobri agora este livro com o Samuel (quase 3 anos), que não deixa ninguém sem o ler, com ele!
O Cavaleiro Coragem, de Delphine Chedru, trad. port. Manuela Gomes, ed. Orfeu Mini, 2011
A tradução talvez pudesse ser mais feliz, mas a obra é imbatível, tal como o Cavaleiro que perde e reencontra a coragem de página em página, lidas e jogadas, a pedir cumplicidade entre mais e menos crescidos. A autora, ilustradora também, tem mais obras fascinantes, que depois encontrei, mas este é O Livro para o Samuel e a sua fantasia enérgica, colorida, risonha. Se as páginas se desintegrassem pelas vezes que são olhadas, estas duas já estariam ilegíveis...:
Críticas/recomendações sobre esta maravilha
Criacria (Portugal)
Letra Pequena (Portugal)
Les lectures de Marie (França)
Smallable (site comercial de produtos para crianças)
Alorscabulle (França)
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
terça-feira, fevereiro 07, 2012
Charles Dickens, almost 60 years of life in less than 5 minutes of video
Acedido via Facebook, pela mão do Paulo Capelo
Quem não gosta de samba / bom sujeito não é
| Revista do Centro Cultural Cartola |
Escola de samba deve ser uma das poucas instituições no Brasil que vieram de baixo para cima. E o Centro Cultural Cartola é uma coisa de baixo para cima. A Casa do Samba é uma coisa muito de cima para baixo. O importante é essa acessibilidade, é saber que você trabalha com uma cultura popular e que popular tem que ser, não pode ficar tentando colocar em amarras. Você tem que entender o seu espaço para poder perpetuar e crescer.
ÂMBITO CULTURAL NO EL CORTE INGLÉS DE LISBOA
Uma vénia à equipa do Corte Inglês que em Lisboa como noutras cidades promove a cultura sem alarde mas com (bom) critério. Por mim falo, grata por já ter sido simples assistente a boas palestras que me fizeram pensar e imaginar, embora confesse que usei mais em Espanha que em Portugal.
Este ano de 2012, em Lisboa, depois de um curso sobre História da Música por Teresa Castanheira (cara colega da Escola Secundária Conservatório Nacional de Música), e antes de um outro sobre Ideias Religiosas por José Manuel Anes, decorre em Fevereiro um sobre Poesia com José Fanha, que assim se manifesta sobre a experiência no seu blogue:
sábado, fevereiro 04, 2012
Antonio Negri. “Não há saída para a crise. A guerra tornou-se uma possibilidade” | iOnline
Honestamente, hoje chegámos a um ponto em que, como dizia o velho Karl Marx, as forças produtivas e as relações de produção estão numa contradição profunda.
Mas essa contradição não tem aparentemente um sujeito histórico que a cavalgue.
Estou convencido que essa força é o trabalho cognitivo. As forças que trabalham na informação e na comunicação, não falo obviamente dos jornalistas [risos]. É, por exemplo, a luta nas universidades e a criação de uma nova subjectivação. Hoje os instrumentos não são os partidos. De direita ou de esquerda, os partidos estão completamente afectados pela crise da representação.
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
Se o Mundo justo fosse / e valesse a Poesia
O Assis Pacheco faria hoje 75 anos e um dia...
Um homem tem que viver.E tu vê lá não te fiques– um homem tem que vivercom um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz.
Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio dos mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que serprodigioso.Porque é arriscado ser-se um homem.É tão difícil, é(com a precariedade de todos os nomes)o começo apenas.
Brincadora do nosso coração
Quase meia hora de Cristina Taquelim no Brasil.
Ai, saudades andarilhas...
domingo, janeiro 29, 2012
sábado, janeiro 28, 2012
a sul de nenhum norte
Agora, vai ter de usar a outra mão para contar :)
quinta-feira, janeiro 26, 2012
Ao tempo novo e melhor que há-de vir
Um tempo que passou
(...)
Sim
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão
São
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há
ou dançam numa torre
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras
Enquanto o vinho corre, corre, corre
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou.
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou.
Sérgio Godinho
quarta-feira, janeiro 25, 2012
Régio sempre atual
![]() |
| José Régio por Hermínio Felizardo |
Soneto quase inédito
Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.
Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.
E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.
JOSÉ RÉGIO Soneto escrito em 1969.
segunda-feira, janeiro 23, 2012
domingo, janeiro 22, 2012
Bookshelf Porn
Bookshelf Porn
Porn for book lovers. A photo blog collection of all the best bookshelf photos from around the world for people who *heart* bookshelves.
sábado, janeiro 21, 2012
Bartolomeu de Campos Queirós
Bartolomeu da voz macia e das certeiras palavras, justas na medida do essencial. Há falas que nos encantam, fadados assim para todo o sempre.
A minha manhã hoje começou triste de saudade mas luminosa por esta voz que me lembrou esta feliz condenação de ler que diariamente nos salva de nos perdemos de nós e do que somos. E a alegria de (ainda) poder ajudar outros a saber usar o portal da leitura literária e dar a sua chave a todas as crianças, pelo puro prazer, no movimento que é a vida, sempre tão curta, sempre tão ancha, repetidamente grávida pela palavra do Anjo. Beleza é mesmo fundamental :).
Boa partilha. Obrigada, Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Beja e rasto das Andarilhas. Que assim seja.
CÂMERA DE VIGILÂNCIA: DOIS MICROCONTOS
Abrindo caminhos
Um dia, o prefeito cismou que o arco-íris cabia na categoria de ponte e mandou botar pedágio. Preso na realidade, o povo logo organizou um impeachment.
(este é o primeiro)
quinta-feira, janeiro 19, 2012
De uma dor física para um amor perdido
TERRENO
Muitas vezes o pintor fica sozinho,
com o terreno à sua frente, acentuado,
e os demónios às bicadas na sua cabeça.
É a altura de arriscar, de subir
os degraus da escada óptica, de forçar
a realidade a caber nos seus desenhos.
É também, senhores, a parte mais perigosa
da escalada – seria mau momento
para a corda se partir. Como quem salta
de uma dor física para um amor perdido,
ter as mãos e os braços em farrapos
e poder subir ainda um pouco mais.
Vítor Nogueira
[in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, & Etc, 2011]
A Aventura dos Descobrimentos
Conhecem a coleção do Expresso sobre os reis de Portugal e os descobrimentos, disponível online no Instituto de Camões, com histórias com canções pelo meio, narradas pela Bárbara Guimarães? Fica aqui a morada.
http://cvc.instituto-camoes.pt/aprender-portugues/ouvir/a-aventura-dos-descobrimentos.html
A Aventura dos Descobrimentos
http://cvc.instituto-camoes.pt/aprender-portugues/ouvir/a-aventura-dos-descobrimentos.html
A Aventura dos Descobrimentos
Urgentemente
É urgente o Amor,
é urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Eugénio de Andrade
(19.01.1923-16.06.2005)
é urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Eugénio de Andrade
(19.01.1923-16.06.2005)
quarta-feira, janeiro 18, 2012
O Deus do Lar
Fang Tcheng Ta
Poeta chinês (1128 – 1191)
No último dia da duodécima lua
o deus do Lar volta para o Céu
para contar o que viu cá na Terra.
o deus do Lar volta para o Céu
para contar o que viu cá na Terra.
Antes de o queimarem e em fumo o tornarem
toda a família lhe dá de comer
para que fique com o ventre farto.
toda a família lhe dá de comer
para que fique com o ventre farto.
Leitão bem assado, peixe mui gostoso,
bolos aloirados, frutos bem maduros,
o vinho um regalo, não se olha a despesas.
bolos aloirados, frutos bem maduros,
o vinho um regalo, não se olha a despesas.
O deus do Lar esquece as querelas,
as palavras insolentes, as faltas de todos.
Sobe ao Céu bêbado e satisfeito.
as palavras insolentes, as faltas de todos.
Sobe ao Céu bêbado e satisfeito.
O que é preciso depois é arranjar outro deus.
(tradução de António Ramos Rosa)
Leitura aqui, pelo Estúdio Raposa
BITITES: Parasitagem (Proj. Lei 118 do P.S.)
BITITES: Parasitagem (Proj. Lei 118 do P.S.): Segundo a Bíblia, Jesus Cristo fez o milagre da multiplicação dos pães, alimentando, com apenas cinco pães e dois peixes, uma multidão d...
BIBLIOTECAR: ROGER CHARTIER: "A HUMANIDADE NUNCA LEU TANTO QUAN...
"A forma de dar aula vai mudar por conta das mudanças às quais os livros foram submetidos com o advento da plataforma eletrônica?"
Não sei. O que eu sei é que as escolas devem ensinar todas as formas da cultura escrita (manuscrita, impressa, eletrônica), conscientizar os alunos de suas diferenças, e os acostumar a usar uma ou outra forma de escrever, para navegar no mundo dos textos como se faz em uma floresta. Sei também que os objetos eletrônicos inventados todos os dias representam um avanço técnico, mas também são mercadorias, que têm um custo abusivo para muitos e que geram lucros (nem sempre justificáveis por sua utilidade). É também uma lição que as escolas devem ensinar em uma crítica sobre a sociedade de consumo. Mas, é claro, um dos deveres das políticas públicas é tornar essas novas oportunidades acessíveis e familiares. Uma última coisa: nas palavras de Emilia Ferreiro, a presença de computadores ou de tablets em sala de aula não resolve por si só os problemas de aprendizagem e transmissão de conhecimentos - e, ao mesmo tempo, pode trazer a "tentação" de reduzir ou excluir o papel essencial dos professores.
BIBLIOTECAR: ROGER CHARTIER: "A HUMANIDADE NUNCA LEU TANTO QUAN...: A human idade nunca leu tanto quanto hoje. Por um lado, a era digital faz com que os textos estejam mais disseminados. De outro, a pop...
sexta-feira, janeiro 13, 2012
Bread and Roses 2012-1912 Pão e Rosas 2012-1912
Todos os dias de 2012 celebrarei este centenário.
De vez em quando escreverei aqui e noutros lugares, em nome do pão, em nome das rosas, e das que fizeram o que foi preciso para que tudo mudasse para toda a gente. Para podermos ser mais e melhor gente.
Faz APENAS 100 anos a greve das operárias têxteis em Lawrence, Massachussets, EUA, pela jornada de 8 horas diárias de trabalho e pelo princípio de que as pessoas não são bestas de carga e que quem trabalha também tem de poder viver fora do local e das ocupações laborais. Elas fizeram greve, mas também amaram um poema, e assim o elevaram no tempo. "We want bread, but we want roses, too!"
Num tempo em que há quem ache inevitável e até desejável voltar atrás, e mesmo sendo cem anos uma gota, é mais que um gesto leitor puxar o assunto - é um mínimo obrigatório, sem horário nem calendário, parte do gesto persistente que nos cumpre.
Assim seja.
| Fonte: Blog Bread and Roses |
quinta-feira, janeiro 12, 2012
quarta-feira, janeiro 11, 2012
Ladrões de Bicicletas: Portugal não é a Grécia, o Haiti não é aqui
| A reportagem da jornalista Chloe Hadjimatheou arranca com o episódio da funcionária de um jardim infantil que encontrou um bilhete com uma das suas alunas de quatro anos: “Não virei buscar a Anna (nome fictício) hoje porque não tenho possibilidades de cuidar dela. Por favor tomem bem conta dela. Desculpem. A sua mãe” Ler mais aqui |
Ladrões de Bicicletas: Portugal não é a Grécia, o Haiti não é aqui: Começa a ler-se a notícia e a primeira reacção, instintiva, é a de querer acreditar que se trata apenas de uma peça jornalística pouco ver...
Why Now? What's Next?
"(...) the greatest possibility lies in bringing together the ecological crisis and the economic crisis. I see climate change as the ultimate expression of the violence of capitalism: this economic model that fetishizes greed above all else is not just making lives miserable in the short term, it is on the road to making the planet uninhabitable in the medium term. And we know, scientifically, that if we continue with business as usual, that is the future we are heading towards. I think climate change is the strongest argument we’ve ever had against corporate capitalism, as well as the strongest argument we’ve ever had for the need for alternatives to it. And the science puts us on a deadline: we need to have begun to radically reduce our emissions by the end of the decade, and that means starting now. "
Why Now? What's Next? Naomi Klein and Yotam Marom in Conversation About Occupy Wall Street | The Nation (09.01.2012)
domingo, janeiro 08, 2012
Inteligência - remédio infalível
Eis o diálogo...
Riley: Não é justo todas as meninas comprarem princesas.
E todos os meninos comprarem super heróis!
Adulto: Por quê?
Riley: Porque meninas querem super-heróis e os meninos querem super-heróis!
E as meninas querem coisas rosa e os meninos não querem coisas rosa.
Adulto: Os meninos não...
Por que acha que isso acontece?
Fariam isso?
Riley: Porque as companhias que fazem esses (brinquedos) tentam enganar as meninas para que elas comprem as coisas rosa ao invés das coisas que os meninos querem comprar, certo?
Adulto: Sim... mas você pode comprar qualquer um, né? E os meninos também, se eles quiserem, eles podem comprar coisas cor de rosa, certo?
Riley: Sim!!! E porque então todas as meninas só tem que comprar princesas ???
Algumas meninas gostam de super-heróis, outras meninas gostam de princesas. Alguns meninos gostam de super-heróis, outros meninos gostam de princesas.
Então porque todas as meninas tem que comprar coisas cor de rosa e todos os meninos devem comprar coisas de cores diferentes?
Adulto: É uma boa pergunta, Riley
Vencer a iniquidade, 50 anos e 7 dias depois. Sem bravata
Na manhã do dia 1 de Janeiro de 1962, e, o meu irmão e as minhas duas irmãs formos cordados, não pelo meu pai ou a minha mãe, como era costume, mas por um tio ou uma tia. Mandaram-nos vestir um roupão sobre os pijamas e acompanhá-los. Atravessámos a curta distância que separava a casa do meu avô materno da casa onde vivíamos, e à qual nunca mais voltei. Durante semanas só nos disseram coisas vagas. As empregadas do meu calavam-se de repente quando passávamos. Soubemos depois que a família não yinha a certeza que o meu paí sobrevivesse aos ferimentos de bala que sofrera no ataque ao quartel de Beja na madrugada daquele dia 1. A minha mãe estava presa. Voltou para casa um ano e meio depois. Ele, ao fim de seis anos. Lembro-me: a minha mãe, a quem não deixaram abraçar os filhos pequenos, encharcando com lágrimas os punhos cerrados de fúria com que agarrava as grades do parlatório de Caxias. O nosso terror. O meu pai, numa cela da Penitenciária de Lisboa, entubado, magríssimo, a voz quase apagada, um fantasma desvanecido contra a luz da janela, aquele homem que eu recordava grande, alegre, garboso na sua farda. Desapareceu de vez a infatigável alegria do meu irmão, um miúdo palrador e de olhos cheios de luz. Ganhou dificuldades de fala e endureceu. Nunca mais encontrou a paz. Por mim, fui adolescente a querer ser homem sem ter para isso pai. Não foi fácil e não se tornou menos difícil depois. As minhas irmãs, eu sei lá, nunca falamos disso. A família juntou-se para nos acolher e ajudar, houve amigos que estiveram à altura da ocasião, mas vivíamos com alguma dificuldade. Quando a minha mãe foi libertada, tinha perdido a profissão que a PIDE a impediu de retomar. Arranjou os empregos possíveis. Dormia pouquíssimo, trabalhava loucamente e aguentou tudo. Só perdeu a juventude e a saúde.Quando visitávamaos os meus pais em Caxias, em Peniche, encontrámos pessoas que sofreram muito mais que nós e estavam muito mais desamparados. Especialmente os familiares de militantes do PCP, gente heróica sem bravata. Aprendemos que, para aém dos nossos pais e dos que, com eles, foram a Beja (alguns, com menos sorte e resistência física que o meu pai, para lá morrerem), havia em Portugal muitas pessoas rectas que, ao fazerem o que era necessário fazer, causaram danos colaterais como aqueles que a minha família sofreu. Aprendemos que é mesmo assim, que nada e consegue sem danos colaterais. Aprendemos também, todavia, que a maioria da pessoas não suporta esta ideia e só quer paz e sossego. É a vida, mas felizmente haverá sempre aqueles que são maiores que a vida. Se os não houvera, a iniquidade venceria necessariamente.Coincide com os 50 anos da Revolta de Beja a perseguição movida pelo regime que hoje vigora em Portugal contra Otelo Saraiva de Carvalho, o operacional responsável pela revolta seguinte, o 25 de Abril de 1974. Que isso não nos impeça de dizer e fazer o que é necessário. A iniquidade não pode vencer.Paulo Varela Gomes, in P2, p.3, suplemento do jormal Público, 07.01.2012
segunda-feira, janeiro 02, 2012
Pelo método de Dulce
Quando desaparecemos (Para o João Paulo Conceição.)
Publicado no jornal i de 24 de novembro de 2011.
Retirado do Blog A Natureza do Mal
![]() |
| Fotografia de uma criança em Chicago |
Retirado do Blog A Natureza do Mal
Por vezes algumas pessoas simpáticas aproximam-se revelando a sua condição de leitores. Quase sempre me dizem, de várias formas delicadas, que não gostam do que escrevo. A mais comum é insinuarem que ficam afogadas em citações e que gostariam de me ouvir sobre algo que fosse verdadeiramente meu. Ora aquilo a que chamam citações são referências. As minhas são literárias. Mesmo as que não são literárias, só são susceptíveis de ser transmitidas através da escrita. Eu não falo com eles, não componho música, não pinto nem faço fotografias que possam transmitir o terreno comum que tento criar nos textos que escrevo.O que durante anos me levou a escrever foi desencadeado por livros. Não há, para mim, uma vida decente separada da literatura. A semana passada ouvi uma escritora chamada Dulce Maria Cardoso. Cresceu em África, de onde foi expulsa aos 11 anos, tendo-se exilado em Portugal. Apesar de ter passado por grandes provações é hoje uma mulher serena e obviamente muito interessante. Na entrevista, sempre que lhe era permitido, dizia coisas importantes, sobretudo pela forma bem estruturada como o fazia. Viveu numa capital colonial, numa época em que os brancos começaram a desaparecer sem que ninguém parecesse dar conta. Depois numa aldeia miserável da metrópole, finalmente em Cascais, onde, durante um ano, uma professora a tratou sempre como a retornada. O que lhe permitiu sobreviver sem sequelas foi a construção de uma personagem literária, ela própria, a quem iam acontecendo aquelas coisas desagradáveis. A pior existência torna-se tolerável se nos virmos como uma persona, que um dia será tão estimada como David Copperfield ou Jane Eyre. Mas esta operação, o método de Dulce, envolve uma dificuldade. É preciso ter lido algum autor, como Dickens ou as irmãs Brontë. É preciso ter lido. Na biblioteca itinerante da Gulbenkian ou na biblioteca municipal de uma aldeia obscura de Trás- -os-Montes. Livros grandes, como preferia a Dulce, que durassem uma semana ou toda a quinzena da requisição, até ao regresso da esplendorosa viatura com portas de estribos, faróis como olhos perscrutantes, abrindo-se pela retaguarda como uma baleia invertida e revelando estantes laterais por dentro da chapa ondulada.Hoje convoco três referências para uma crónica que é como um quarto de cuidados paliativos. Tony Judt, que no “Chalet da Memória” escreveu: “Passei muito tempo sentado na margem do rio de Putney, a pensar, embora não me lembre em quê”; os Radiohead de How to disappear completely: “That there, that’s not me /I go where I please/ I walk through walls/ I float down the Liffey”; e um dos últimos livros do Planeta Tangerina, que pergunta Para onde vamos quando desaparecemos, uma história de Isabel Minhós Martins ilustrada pela Madalena Matoso.Deixo os rios. Mais depressa me via no rio que William Blake, em “Dead Man”, desceu com Ninguém. Começo e acabo neste livro. As cores fundamentais da capa são duas: uma é ciano escuro, da faixa verde – azul do espectro, e a outra é sua complementar, quase o vermelho puro de Rodchenko. Nas mãos de Madalena Matoso podem ser o oceano, um rio, um campo cultivado, as camisolas dos pescadores, o tronco de uma árvore ou o perfil aguçado das cumeadas. Há depois uma linha preta, que no início parece uma estrada a atravessar as páginas, depois os cascos de barcos num mar revolto, a seguir os ramos das árvores no Inverno, uma rede viária e finalmente ambas as coisas e todas as coisas. As perguntas são as mais difíceis, mas feitas sem ênfase dramática nem a enjoativa infantilidade dos psicólogos dos afectos, frisando que há sempre mais possibilidades. Aí adensa-se o novelo das linhas, confundem-se os percursos e as copas das árvores e um rio-estrada mergulha num lago – bosque, enquanto uma casa se levanta como uma torre frestada.Quase no centro do livro, um casal que não saiu para dançar dorme, mas no sono compõe um pezinho de dança. É então que o texto ironiza: “ Melhor que nada.”O que faremos quando desaparecemos é igualmente a indagação central da obra de Vila-Matas, ela também construída pela sobreposição de referências, numa rede tão cerrada que, se as anotarmos, contaremos centenas, de Montaigne a Joseph Roth. Eu sou como a Dulce, embora a minha vida não tenha sido tão atribulada nem tão marcada a minha exclusão. Nos momentos mais graves – duas prisões, o incêndio na casa de Azeitão, a perseguição do paranóico que namorara com a rapariga dos fanzines – era sempre a outro que as coisas sucediam. E esse outro era uma personagem, quase sempre literária. No início um poema épico, depois um roman fleuve, em seguida uma novela picaresca e mais tarde contos curtos, de um grande apaziguamento, com momentos détode diversão.Em “Youth: Scenes of Provincial Life II”, Coetzee, ou o juvenil narrador coetzeeano, escreveu que gostaria de ter ido para a cama com Emma Bovary e de ter ouvido o famoso cinto a assobiar, como uma cobra, quando ela o despia.Queria, quando tiver alta desta enfermaria, ouvir o silvo do cinto de Emma Bovary, dançar enquanto durmo, de preferência com uma senhora de cabeleira de fogo, ou, vogando na canoa arranjada por Ninguém, ver o Tony Judt sentado na margem do rio a pensar em nada.
Luís Januário
quinta-feira, dezembro 29, 2011
terça-feira, dezembro 27, 2011
quarta-feira, dezembro 21, 2011
A cabana de Thoreau | iOnline
A cabana de Thoreau | iOnline
Arrebatador o texto de Luís Januário, inquirindo por firmeza, serenidade, solidariedade. Armas no combate necessário de hoje e em diante, neste tardocapitalismo a que, seguramente, sobreviveremos com a nossa música, gestos e palavras de que sempre se fizeram os sonhos, os desassombros e os futuros.
Arrebatador o texto de Luís Januário, inquirindo por firmeza, serenidade, solidariedade. Armas no combate necessário de hoje e em diante, neste tardocapitalismo a que, seguramente, sobreviveremos com a nossa música, gestos e palavras de que sempre se fizeram os sonhos, os desassombros e os futuros.
segunda-feira, dezembro 19, 2011
A quem é macio
Hoje topei com alguns conhecidos meus
Me dão bom-dia, cheios de carinho
Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho
Me dão bom-dia, cheios de carinho
Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho
Hoje a cidade acordou toda em contramão
Homens com raiva, buzinas, sirenes, estardalhaço
De volta a casa, na rua recolhi um cão
Que de hora em hora me arranca um pedaço
Homens com raiva, buzinas, sirenes, estardalhaço
De volta a casa, na rua recolhi um cão
Que de hora em hora me arranca um pedaço
Hoje pensei em ter religião
De alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício
Por uma estátua ter adoração
Amar uma mulher sem orifício
De alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício
Por uma estátua ter adoração
Amar uma mulher sem orifício
Hoje afinal conheci o amor
E era o amor uma obscura trama
Não bato nela nem com uma flor
Mas se ela chora, desejo me inflama
E era o amor uma obscura trama
Não bato nela nem com uma flor
Mas se ela chora, desejo me inflama
Hoje o inimigo veio me espreitar
Armou tocaia lá na curva do rio
Trouxe um porrete a mó de me quebrar
Mas eu não quebro porque sou macio, viu
Armou tocaia lá na curva do rio
Trouxe um porrete a mó de me quebrar
Mas eu não quebro porque sou macio, viu
Declaração solidária inter-cidadãos
Neste buscar de palavras e silêncios, li ou reli uma declaração que absoutamente subscrevo, com as devidas adaptações: sou professora há 36 anos, tendo ensinado em quase todos os graus de ensino, incluindo a universidade; sinto reconhecimento nacional e internacional pela minha qualidade profissional; vivo do rendimento do meu trabalho, e também eu há muito que abdiquei de luxos como comprar livros, estou velha demais para emigrar e sem condições para me aposentar. Subscrevo esta declaração integralmente, na medida das minhas possibilidades mas com a mesma desmedida indignação.
DECLARAÇÃO
As medidas que o Estado português se prepara para tomar não servem para nada. Passaremos anos a trabalhar para pagar a dívida, é só. Acresce que a dívida é o menor dos nossos problemas. Portugal, a Grécia, a Irlanda são apenas o elo mais fraco da cadeia, aquele que parte mais depressa. É a Europa inteira que vai entrar em crise.O capitalismo global localiza parte da sua produção no antigo Terceiro Mundo e este exporta para Europa mercadorias e serviços, criados lá pelos capitalistas de lá ou pelos capitalistas de cá, que são muito mais baratos do que os europeus, porque a mão-de-obra longínqua não custa nada. À medida que países como a China refinarem os seus recursos produtivos, menos viável será este modelo e ainda menos competitiva a Europa. Os capitalistas e os seus lacaios de luxo (os governos) sabem isso muito bem. O seu objectivo principal não é salvar a Europa, mas os seus investimentos e o seu alvo principal são os trabalhadores europeus com os quais querem despender o mínimo possível para poderem ganhar mais na batalha global. É por isso que o “modelo social europeu” está ameaçado, não essencialmente por causa das pirâmides etárias e outras desculpas de mau pagador. Posto isto, tenho a seguinte declaração a fazer:
Sou professor há mais de 30 anos, 15 dos quais na universidade.Sou dos melhores da minha profissão e um investigador de topo na minha área. Emigraria amanhã, se não fosse velho de mais, ou reformar-me-ia imediatamente, se o Estado não me tivesse já defraudado desse direito duas vezes, rompendo contratos que tinha comigo, bem como com todos os funcionários públicos.Não tenho muito mais rendimentos para além do meu salário. Depois de contas rigorosamente feitas, percebi que vou ficar desprovido de 25% do meu rendimento mensal e vou provavelmente perder o único luxo que tenho, a casa que construí e onde pensei viver o resto da minha vida.Nunca fiz férias se não na Europa próxima ou na Índia (quando trabalhava lá), e sempre por pouco tempo. Há muito que não tenho outros luxos. Por exemplo: há muito que deixei de comprar livros.Deste modo, declaro:1) o Estado deixou de poder contar comigo para trabalhar para além dos mínimos indispensáveis. Estou doravante em greve de zelo e em greve a todos os trabalhos extraordinários;2) estou disponível para ajudar a construir e para integrar as redes e programas de auxílio mútuo que possam surgir no meu concelho;3) enquanto parte de movimentos organizados colectivamente, estou pronto para deixar de pagar as dívidas à banca, fazer não um, mas vários dias de greve (desde que acompanhados pela ocupação das instalações de trabalho), ajudar a bloquear estradas, pontes, linhas de caminho-de-ferro, refinarias, cercar os edifícios representativos do Estado e as residências pessoais dos governantes, e resistir pacificamente (mas resistir) à violência do Estado.Gostaria de ver dezenas de milhares de compatriotas meus a fazer declarações semelhantes.
Texto publicado por Paulo Varela Gomes* no Público a 23 de Outubro de 2010
*Licenciado em história pela Universidade Clássica de Lisboa (1978), mestre em história da arte pela Universidade Nova de Lisboa (1988), doutorado em história da arquitectura pela Universidade de Coimbra (1999). Docente do DARQ desde 1991, professor convidado do Dep. Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho desde 2001, docente convidado de outras universidades portuguesas e estrangeiras. A principal área de investigação e publicação tem sido a história da arquitectura e da cultura arquitectónica portuguesa dos séculos XVII e XVIII.
domingo, dezembro 18, 2011
Quem quer fazer fraca a forte gente?
Hoje acordei sem notícias sobre a formação da iniciativa cidadã para uma auditoria à dívida pública portuguesa - nenhuma televisão falou nisso - mas com a novidade de que no Governo do meu País há quem ache e diga que o que os portugueses devem fazer é emigrar. Há uns tempos fora um Secretário de Estado que no Brasil assim falou a gente jovem, agora é o próprio primeiro-ministro que aconselha o mesmo a professores que queiram continuar a ser professores - porque no País não irá haver lugar para tal ofício, pelos vistos. E tudo isto sem um lamento, que o mais importante não é desenvolver a sociedade, a economia, mobilizar o povo, os que têm preparação, mas recolher dinheiro venha de onde vier.
segunda-feira, dezembro 12, 2011
Pelo que muda o coração dos homens
"Mas o vale do Tua era o vale do Tua, um sítio belíssimo, onde o calor a pique do Verão, ou o despertar da Primavera ou as primeiras chuvas de Outono faziam a terra cheirar a terra, a urze, aos mil e um cheiros mediterrânicos que hoje só conhecemos dos livros, quando lemos os clássicos. (...) Estivessem vivos homens como Orlando Ribeiro, e eles dir-nos-iam os elos que estamos a quebrar, não com o passado, mas com o presente e connosco próprios.Portugal é um país que tem destruído intensamente a sua paisagem natural nos últimos anos, tem uma grande densidade de barragens a norte e cada barragem é um vale de um rio que desaparece. As cumeadas dos montes já estão cheias de eólicas, e quase que não é possível em lado nenhum olhar à volta de um ponto alto, mesmo nos parques naturais, sem ver artefactos colocados bem diante dos nossos olhos nos últimos 20 anos. Já não sabemos, por exemplo, o que é uma noite escura, e por isso o espanto homérico com o céu e as estrelas é uma experiência que já "não nos assiste", para assentar os pés na terra em que verdadeiramente vivemos, a das trivialidades boçais.
Eu sei que uma parte desta destruição era inevitável e faz parte de um difícil trade-off entre a economia, fonte de riqueza, os recursos a explorar, e o ambiente, mas, como estamos a chegar aos limites de tudo - últimos vales, últimos montes, ultimas paisagens -, esse trade-off esgotou-se nas suas virtualidades, e é hoje uma desvantagem cujos custos se pagarão num futuro próximo. As crianças que hoje nascem vão viver num mundo dominado pela poluição luminosa, de caos urbanístico, construções clandestinas mal-amanhadas e sem paisagem natural. Nunca vão ver a Via Láctea a não ser em fotografias, não sabem o que é um vale selvagem de um rio a não ser nos filmes americanos, nunca cheirarão a urze, nem saberão o que é uma giesta, não terão o vento na cara no cimo duma montanha, sem este trazer a marca conspurcada do mundo de lixo que começa logo uns metros mais abaixo, nunca verão um carvalho, nunca comerão uma truta sem ser de viveiro, não saberão o que é o silêncio "habitado" que muda o coração dos homens que o sabem ouvir."
J. Pacheco Pereira
Lido e escrito em Dezembro de 2011, perante a perspectiva de mais uma barragem que aniquilará o Vale do Tua e de caminho compromete o Douro vinhateiro, há poucos anos consagrado como Património Mundial pela Unesco.
Blogado aqui a pensar nos nossos netos e nos filhos dos nossos netos por nascer, em memória dos Mestres como Orlando Ribeiro e do aparentemente perdido Bom Senso Elementar. E, já agora, de Portugal, meu e nosso País.
Ler o resto do texto citado:
ABRUPTO
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