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sexta-feira, março 29, 2019

Coda

Coda

Quando o ser da luz for
o ser da palavra,
no seu centro arder
e subir com a chama
(ou baixar à água),
então estarei em casa.

Eugénio de Andrade
Contra a Obscuridade. Porto : Afrontamento, 1992 

Wook.pt - Contra a Obscuridade

sábado, julho 01, 2017

Que faremos nós

Amar os filhos e os demais descendentes: fazer isso é, já, tornar a vida mais que cegueira e cobardia.






Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente
Vais crescendo, meu filho, com a difícil
luz do mundo. Não foi um paraíso,
que não é medida humana, o que para ti
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo homem, todo,
tem direito a sê-lo inteiramente
até ao fim. Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez,
se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil
besta fardada é tudo o que nos resta;
abutres e chacais que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.

Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que a cegueira e cobardia?

Eugénio de Andrade
séc. XX-XXI

Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente - Eugénio de Andrade

segunda-feira, junho 02, 2014

Manifesto


Musica mirabilis 



Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo

- e desperte o lume.

Eugénio de Andrade
Portugal, séc. XX 

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Urgentemente

É urgente o Amor,
é urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade
(19.01.1923-16.06.2005)

quarta-feira, setembro 21, 2011

Passamos pelas coisas sem as ver


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade