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terça-feira, junho 20, 2017

O que nos arde em Portugal

 Foto de Catarina Martins.
Portugal, 2017
Foto de Pedro Brás, bombeiro, mostrando bombeiros de Tondela, Santa Comba Dão, Nelas, entre outros, a descansar, ontem, junto a uma praia fluvial. Grande Fogo de Julho de 2017

A INCENDIÁRIA 
 
Rolamos lentamente pela paisagem devastada. Sob o disco sangrento do sol pendurado no fumo, as pessoas passam, encostadas de olhos mortos às suas casas, tractores e carros. O ar arde. De repente, um carro da Brigada de Trânsito aparece parado de porta aberta no meio da estrada com todas as luzes a piscar como uma árvore de Natal. O condutor, sozinho, combate com o extintor do carro as labaredas que mordem o alcatrão. São 4 horas da tarde do dia 3 de Agosto de 2003. Nunca mais esquecerei que, evitando o fumo branco que sai da base das chamas sufocadas pela espuma, o militar da GNR olha para o céu à procura de azul. 
Como a dele, a raiva que sentimos não tem objecto. Não é certamente dirigida à natureza que estava cá antes de nós, cá ficará depois, e não gosta da morte. Nem é aos homens que temos raiva: quais deveríamos odiar? Nós próprios? Os outros? Proponho que odiemos antes a história. Isso: a história, o comboio da história, essa metáfora que avança largando fagulhas e provocando incêndios, o comboio que uma poderosa locomotiva puxa. Marx disse-nos o nome da locomotiva: capitalismo. É a locomotiva do progresso capitalista que incendeia a floresta portuguesa. 
Das pessoas que li e ouvi sobre esta catástrofe até ao dia em que escrevo, 5 de Agosto de 2003, só Vital Moreira no “Público” de hoje se aproximou do coração das trevas. Recorreu à história para explicar a ruína dos camponeses e o seu envelhecimento, o progressivo desinvestimento do Estado na agricultura, no interior, na floresta. Tudo isto dura desde o século XIX e agravou-se muito com os governos posteriores à contra-revolução de 1976, esses funcionários de Clio, a incendiária. 
A partir do século XVIII, os camponeses foram desaparecendo dos campos europeus e norte-americanos pela violência bruta e directa das milícias dos ricos, ou expulsos pela fome, pelas dívidas, pela mecanização, pelo fim da propriedade privada dos pequenos em favor da propriedade privada dos grandes. 
O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande e pousa docemente sobre o meu teclado, os meus livros, a minha roupa, é a via portuguesa para o capitalismo nos campos. Sim, falo de um destino histórico, tanto mais português, mais cruel e inumano, quanto menos se confessa e se entende, quanto mais neutro e sereno parece. O “reordenamento do território”, essa miraculosa panaceia de que tantos falam e tão poucos percebem, está a decorrer rapidamente perante os nossos olhos: corre à velocidade das chamas e do vento. Depois do desastre, muitas dezenas de milhar dos 500.000 pequenos e pequeníssimos proprietários de florestas terão perdido tudo e perderão, por fim, a terra.

O que arde em Portugal é o campesinato português, expulso do Alentejo pelo PS, varrido do centro e do norte pelas PACs do PS e do PSD, despojado de tudo pelo fogo. Ardem os velhos de olhos rasos de lágrimas que só a conversa mole de enfermeiros brancos consegue arrastar, sobre um fundo de céu em cinza, para longe da meia dúzia de oliveiras a que dedicaram a vida. Ardem os bens dos descendentes de velhos já mortos que deixaram morrer os velhos e os sobreiros de que cuidavam para plantarem no seu lugar mato, casas vazias e eucaliptos.

Haveria – haverá ainda? – outra história possível? Vejo na televisão a falsa tristeza de quem, lá no fundo, pensa que Clio só saúda os vencedores. Vejo nos telejornais os olhos serenos de quem atribui subsídios como quem deita pazadas de terra sobre um caixão. E penso num camponês vizinho meu, do outro lado do Zêzere. Tem 17 anos. Dezassete. O pai, falecido, deixou-lhe o que tinha, terra, gado, máquinas. Perdeu tudo. Vai certamente partir para o litoral onde não há agricultura nem incêndios. Talvez não tivesse que ir se, em vez de menos Estado, em vez de mais liberalismo, o interior de Portugal tivesse tido a sorte de ter sido governado nestes últimos 30 anos, já nem digo por socialistas, bastavam social-democratas, agentes de uma história mais generosa.

Os Canadair continuam a voar sobre Pedrogão. Já não sinto raiva nenhuma.

Paulo Varela Gomes
escrito e lido em 2003, 
relembrado em 2017 via Rui Bebiano e Natércia Coimbra
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domingo, abril 30, 2017

In memoriam Paulo Varela Gomes 1952-2016

Foto de Vitor Serrão.

Quando morre um homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?

Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade? 

Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações? 

Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina ?


Ruy Belo, 'Aquele Grande Rio Eufrates' (1961)

terça-feira, maio 26, 2015

Quem sabe, diz, e toca




«A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida.» 

Paulo Varela Gomes na Granta 5. Aqui: http://goo.gl/wE4Sx9

domingo, janeiro 08, 2012

Vencer a iniquidade, 50 anos e 7 dias depois. Sem bravata


Na manhã do dia 1 de Janeiro de 1962, e, o meu irmão e as minhas duas irmãs formos cordados, não pelo meu pai ou a minha mãe, como era costume, mas por um tio ou uma tia. Mandaram-nos vestir um roupão sobre os pijamas e acompanhá-los. Atravessámos a curta distância que separava a casa do meu avô materno da casa onde vivíamos, e à qual nunca mais voltei. Durante semanas só nos disseram coisas vagas. As empregadas do meu calavam-se de repente quando passávamos. Soubemos depois que a família não yinha a certeza que o meu paí sobrevivesse aos ferimentos de bala que sofrera no ataque ao quartel de Beja na madrugada daquele dia 1. A minha mãe estava presa. Voltou para casa um ano e meio depois. Ele, ao fim de seis anos. Lembro-me: a minha mãe, a quem não deixaram abraçar os filhos pequenos, encharcando com lágrimas os punhos cerrados de fúria com que agarrava as grades do parlatório de Caxias. O nosso terror. O meu pai, numa cela da Penitenciária de Lisboa, entubado, magríssimo, a voz quase apagada, um fantasma desvanecido contra a luz da janela, aquele homem que eu recordava grande, alegre, garboso na sua farda. Desapareceu de vez a infatigável alegria do meu irmão, um miúdo palrador e de olhos cheios de luz. Ganhou dificuldades de fala e endureceu. Nunca mais encontrou a paz. Por mim, fui adolescente a querer ser homem sem ter para isso pai. Não foi fácil e não se tornou menos difícil depois. As minhas irmãs, eu sei lá, nunca falamos disso. A família juntou-se para nos acolher e ajudar, houve amigos que estiveram à altura da ocasião, mas vivíamos com alguma dificuldade. Quando a minha mãe foi libertada, tinha perdido a profissão que a PIDE a impediu de retomar. Arranjou os empregos possíveis. Dormia pouquíssimo, trabalhava loucamente e aguentou tudo. Só perdeu a juventude e a saúde.
Quando visitávamaos os meus pais em Caxias, em Peniche, encontrámos pessoas que sofreram muito mais que nós e estavam muito mais desamparados. Especialmente os familiares de militantes do PCP, gente heróica sem bravata. Aprendemos que, para aém dos nossos pais e dos que, com eles, foram a Beja (alguns, com menos sorte e resistência física que o meu pai, para lá morrerem), havia em Portugal muitas pessoas rectas que, ao fazerem o que era necessário fazer, causaram danos colaterais como aqueles que a minha família sofreu. Aprendemos que é mesmo assim, que nada e consegue sem danos colaterais. Aprendemos também, todavia, que a maioria da pessoas não suporta esta ideia e só quer paz e sossego. É a vida, mas felizmente haverá sempre aqueles que são maiores que a vida. Se os não houvera, a iniquidade venceria necessariamente.
Coincide com os 50 anos da Revolta de Beja a perseguição movida pelo regime que hoje vigora em Portugal contra Otelo Saraiva de Carvalho, o operacional responsável pela revolta seguinte, o 25 de Abril de 1974. Que isso não nos impeça de dizer e fazer o que é necessário. A iniquidade não pode vencer.
Paulo Varela Gomes, in P2, p.3, suplemento do jormal Público, 07.01.2012

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Declaração solidária inter-cidadãos

Neste buscar de palavras e silêncios, li ou reli uma declaração que absoutamente subscrevo, com as devidas adaptações: sou professora há 36 anos, tendo ensinado em quase todos os graus de ensino, incluindo a universidade; sinto reconhecimento nacional e internacional pela minha qualidade profissional; vivo do rendimento do meu trabalho, e também eu há muito que abdiquei de luxos como comprar livros, estou velha demais para emigrar e sem condições para me aposentar. Subscrevo esta declaração integralmente, na medida das minhas possibilidades mas com a mesma desmedida indignação.

DECLARAÇÃO
As medidas que o Estado português se prepara para tomar não servem para nada. Passaremos anos a trabalhar para pagar a dívida, é só. Acresce que a dívida é o menor dos nossos problemas. Portugal, a Grécia, a Irlanda são apenas o elo mais fraco da cadeia, aquele que parte mais depressa. É a Europa inteira que vai entrar em crise.
O capitalismo global localiza parte da sua produção no antigo Terceiro Mundo e este exporta para Europa mercadorias e serviços, criados lá pelos capitalistas de lá ou pelos capitalistas de cá, que são muito mais baratos do que os europeus, porque a mão-de-obra longínqua não custa nada. À medida que países como a China refinarem os seus recursos produtivos, menos viável será este modelo e ainda menos competitiva a Europa. Os capitalistas e os seus lacaios de luxo (os governos) sabem isso muito bem. O seu objectivo principal não é salvar a Europa, mas os seus investimentos e o seu alvo principal são os trabalhadores europeus com os quais querem despender o mínimo possível para poderem ganhar mais na batalha global. É por isso que o “modelo social europeu” está ameaçado, não essencialmente por causa das pirâmides etárias e outras desculpas de mau pagador. Posto isto, tenho a seguinte declaração a fazer: 
Sou professor há mais de 30 anos, 15 dos quais na universidade.
Sou dos melhores da minha profissão e um investigador de topo na minha área. Emigraria amanhã, se não fosse velho de mais, ou reformar-me-ia imediatamente, se o Estado não me tivesse já defraudado desse direito duas vezes, rompendo contratos que tinha comigo, bem como com todos os funcionários públicos.
Não tenho muito mais rendimentos para além do meu salário. Depois de contas rigorosamente feitas, percebi que vou ficar desprovido de 25% do meu rendimento mensal e vou  provavelmente perder o único luxo que tenho, a casa que construí e onde pensei viver o resto da minha vida.
Nunca fiz férias se não na Europa próxima ou na Índia (quando trabalhava lá), e sempre por pouco tempo. Há muito que não tenho outros luxos. Por exemplo: há muito que deixei de comprar livros.
Deste modo, declaro:
1) o Estado deixou de poder contar comigo para trabalhar para além dos mínimos indispensáveis. Estou doravante em greve de zelo e em greve a todos os trabalhos extraordinários;
2) estou disponível para ajudar a construir e para integrar as redes e programas de auxílio mútuo que possam surgir no meu concelho;
3) enquanto parte de movimentos organizados colectivamente, estou pronto para deixar de pagar as dívidas à banca, fazer não um, mas vários dias de greve (desde que acompanhados pela ocupação das instalações de trabalho), ajudar a bloquear estradas, pontes, linhas de caminho-de-ferro, refinarias, cercar os edifícios representativos do Estado e as residências pessoais dos governantes, e resistir pacificamente (mas resistir) à violência do Estado.
Gostaria de ver dezenas de milhares de compatriotas meus a fazer declarações semelhantes.
Texto publicado por Paulo Varela Gomes* no Público a 23 de Outubro de 2010
 *Licenciado em história pela Universidade Clássica de Lisboa (1978), mestre em história da arte pela Universidade Nova de Lisboa (1988), doutorado em história da arquitectura pela Universidade de Coimbra (1999). Docente do DARQ desde 1991, professor convidado do Dep. Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho desde 2001, docente convidado de outras universidades portuguesas e estrangeiras. A principal área de investigação e publicação tem sido a história da arquitectura e da cultura arquitectónica portuguesa dos séculos XVII e XVIII.

sábado, abril 02, 2011

Nem sempre se avança... Saber História é aprender.

Público - Occitânia
Paulo Varela Gomes, 02.04.2011
Occitânia
Inquieta-me a maneira como jornalistas e outros interessados se têm alheado do futuro dos países islâmicos em revolução. Não me refiro ao futuro “geo-estratégico” como costuma dizer-se. Refiro-me ao futuro das pessoas. Das mulheres, para ser mais exacto. Na Tunísia, Egipto, Líbia, Síria, as mulheres têm ou tinham uma presença social incomparavelmente mais alargada do que noutros países muçulmanos. Convirá recordar o que sucedeu no Iraque onde o derrube da ditadura de Saddam Hussein representou o regresso à escravização de muitas, se não da maioria das mulheres .
Foi ao pensar nisto e na história das mulheres no Ocidente que me lembrei da Occitânia.
A palavra designa uma região que abrangia o sul da França actual mas que se estendia culturalmente pela Catalunha e Aragão. Surgiu aí uma das mais refinadas civilizações que a Europa conheceu. Provém da Occitânia o “Amor Cortês” e a poesia trovadoresca, ergueram-se lá lugares tão sublimes como as abadias cistercienses de Silvacane ou Le Thoronet.
A Occitânia morreu às mãos dos barões franceses do norte e de uma interpretação intolerante do cristianismo, numa cruzada que, na primeira metade do século XIII, fez desaparecer a autonomia da região e da sua cultura ao esmagar num pavoroso banho de sangue a heresia dos Cátaros, um culto cristão divergente da doutrina papal. O horror da repressão marcou o fi m da doçura de viver da civilização do sul. Um dos aspectos dessa doçura era o estatuto de que beneficiavam as mulheres. Entre outros aspectos, a filha maior podia herdar e transmitir bens em desfavor dos seus irmãos mais novos e as mulheres podiam divorciar-se pelas mesmas razões e nas mesmas condições que os maridos. A partir do século XIII, na Occitânia como em alguns outros lugares da Europa onde se verificavam condições semelhantes, as mulheres viram-se como que repentinamente remetidas à menoridade social que veio até aos nossos dias. 
Alguns historiadores sugerem que esta catástrofe resultou do facto do aristotelismo ter passado a dominar um dos mais importantes centros do pensamento filosófico e jurídico da Europa, a Universidade de Paris, fazendo do desprezo pelas mulheres doutrina oficial.Teria sido também decisiva a crescente influência do direito romano que entrega aos homens o controlo da vida e propriedade familiares. O início desta inversão civilizacional foi assinalado pelo esmagamento manu militari da civilização occitana.
A condição das mulheres passou por muitos avanços e recuos em toda a parte. Teve momentos e lugares de igualdade, outros de retrocesso. Gostaríamos de acreditar que é irreversível aquilo que os movimentos de mulheres conseguiram no Ocidente durante o século XX. Gostaríamos também de pensar que todas as mulheres beneficiarão destas conquistas e dos efeitos das revoluções que ocorrem nos seus próprios países. Mas é bem possível que tudo tenha ficado muito pior para as mulheres do Egipto e da Líbia, como ficou para as do Iraque. As malhas que a liberdade tece podem ser também as grilhetas da tirania.