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quarta-feira, junho 17, 2020

Não há pachorra para o faz de conta: pobreza e desemprego a subir e anda tudo entretido a falar de estátuas

Os números do Emprego - Notícias & Actualidade - Geral - Guia de ...

A autora não tem olhado muito para os debates em meios sindicais e de movimentos de trabalhadores e trabalhadoras, mas não deixa de ter razão na denúncia do que mais interessa e tantas vezes se apaga dos temas visíveis - nas discussões, e o que é pior, nas decisões políticas que afectam o futuro próximo.
"A recuperação no próximo ano espera-se que apareça robusta, mas para já há aumento da pobreza, desemprego e perspetivas mais escuras. Leio que em Portugal 90% dos empregos destruídos pela resposta à covid foram empregos de mulheres. Das cerca de 50 mil pessoas que perderam o emprego entre fevereiro e abril, 44 mil foram mulheres. Em dois meses, o desemprego feminino aumentou 1,9%, face ao masculino, que aumentou 0,2%. Algo para que a OIT já havia alertado.

Esta catástrofe que cai em cima das mulheres junta-se às desigualdades já pré-existentes. É porque as mulheres geralmente têm vínculos laborais mais precários, ocupam posição mais baixa na hierarquia das empresas, ganham menos (logo as indemnizações são mais baratas) que são agora mais despedidas. A isto junta-se os empregos concentrarem-se nos serviços, no comércio e no turismo, setores mais afetados pelo confinamento. Este período de desemprego não é um mero capítulo na vida das mulheres. Tempos de paragem diminuem ordenados futuros e significam, décadas mais tarde, pensões mais baixas.

Com o emprego dos jovens, o mesmo: 38% dos empregos que desapareceram eram ocupados por jovens. Sendo que a geração dos adultos mais novos vai já na segunda crise económica em poucos anos.

Parecem-me factos mais graves e urgentes que uns gatafunhos desenhados em estátuas.
Se as mulheres e os mais novos são desproporcionalmente afetados pela presente crise, é de elementar justiça que as políticas públicas se concentrem em compensar estes efeitos junto destes grupos. Mas já viu em algum lado esta discussão? Eu não vi."
Maria João Marques, 2020

terça-feira, fevereiro 12, 2019

ROSA



AS IDADES DE ROSA MARIA
«Quando tinha seis anos, em 1725, um navio negreiro trouxe-a de África e ela acabou vendida no Rio de Janeiro.
Quando tinha catorze, o dono abriu-lhe as pernas e ensinou-lhe um oficio.
Quando tinha quinze, foi comprada por uma fábrica de Ouro Preto, que passou a alugar o seu corpo aos garimpeiros.
Quando tinha trinta, essa família vendeu-a a um sacerdote, que praticava nela os seus métodos de exorcismo e outros exercícios nocturnos.
Quando tinha trinta e dois, um dos demónios que habitavam o seu corpo fumou pelo seu cachimbo, uivou pela sua boca e fê-lo contorcer-se no chão. E por isso foi condenada a cem chicotadas na praça da cidade de Mariana, e o castigo deixou-lhe um braço paralisado para sempre.
Quando tinha trinta e cinco, jejuou e rezou e mortificou a sua carne com um cilício, e a mãe da Virgem Maria ensinou-a a ler. Segundo dizem, Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi a primeira negra alfabetizada no Brasil.
Quando tinha trinta e sete, fundou um asilo para escravas abandonadas e putas fora de prazo, que financiava vendendo biscoitos amassados com a sua saliva, remédio infalível contra qualquer doença.
Quando tinha quarenta, inúmeros fiéis assistiam os seus transes, onde ela dançava ao ritmo de um coro de anjos, envolta em fumo de tabaco, e onde o Menino Jesus mamava do seu peito.
Quando tinha quarenta e dois, foi acusada de feitiçaria e presa na cadeia do Rio de Janeiro.
Quando tinha quarenta e três, os teólogos confirmaram que era feiticeira porque conseguiu suportar sem uma queixa, durante muito tempo, uma vela acesa sob a língua.
Quando tinha quarenta e quatro, foi enviada para Lisboa e presa na cadeia da Santa Inquisição. Entrou nas câmaras de tortura para ser interrogada e nunca mais se soube dela.»
Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal

sábado, fevereiro 09, 2019

2019, e ainda nisto...


"A primeira coisa que é preciso perceber: não são as mulheres burras que caem nas mãos dos homens maus. Não é o capuchinho vermelho que cai na mão do lobo mau. É qualquer pessoa.O pior é pensar que quem cai e quem não consegue sair desta situação fá-lo por falta de inteligência. Acredito que em parte seja por vergonha. Por muita vergonha.Uma das coisas com que o agressor conta é com a vergonha da vítima. Com o seu silêncio. Também com a desatenção dos amigos e da família.O agressor conta com o isolamento da vítima; e até, tendo em conta o elevado número de penas suspensas, com a complacência das autoridades."

https://vidaextra.expresso.pt/cronicas/2019-02-08-Porque-e-que-alguem-fica-com-um-homem-que-lhe-bate---Eu-sei-o-que-e-violencia-domestica-e-tu--

domingo, setembro 24, 2017

Elogio da edição revolucionária : Orfeu Negro, Judith Butler, 2017



Há editoras que nos cabem no coração, e, ao mesmo tempo, o ampliam. É o caso da Orfeu Negro, um caminho arrojado a produzir desde 2007,  pela audácia dos temas e o primor na linguagem e na edição de cada título. Sou fan, tanto da linha "para estudiosos" como da maravilhosa colecção Orfeu Mini, encetada em 2008, para miúdos e graúdos, e da inquietadora Casimiro.

Ontem, lançou mais um ensaio, para estudiosos, algo hermético mas nem por isso menos significativo para o homem e a mulher comuns. Trata-se do livro de Judith Butler, Problemas de género, numa bela tradução em português de Nuno Quintas, com a colaboração de João Manuel Oliveira e João Berham.

Quando não são assim tão cuidadosamente publicados, traduzidos e preparados para a leitura e a fruição de muitos mais leitores, os livros correm o risco de serem muito citados mas pouco lidos. E de citação e citação, se tornam banais e, mesmo, incompreensíveis.


Em português, e por mão da Orfeu Negro, há menos perigo de tal continuar a acontecer com esta obra, no centro do debate sobre o género e o feminismo na atualidade. Coisas que, se forem bem discutidas, podem ajudar a viver melhor muita gente, por ajudarem a compreender o que são as pessoas, e o que somos, para além das palavras que usamos, e pelo efeito que as palavras têm no modo como nos pensamos.

As ideias de Butler já tinham sido introduzidas em Portugal na tese de doutoramento da investigadora Conceição Nogueira ( 1997, Universidade do Minho). Terá sido desde 1991 na dança contemporânea – com Vera Mantero, Francisco Camacho, Carlota Lagido, Miguel Pereira, João Fiadeiro – que se “notaram os primeiros efeitos” de “Problemas de Género”.


"Definir identidades tem um problema: as identidades são pequenas demais para nos descreverem e ao descreverem-nos estão a produzir o sujeito que querem descrever”, entende João Manuel de Oliveira. “Descrever é já produzir um determinado sujeito. Quando se diz a uma menina que ela é muito feminina, está-se a construir, e a constranger, o que a menina vai ser. Não é apenas este discurso que contribui para isso, há outras estruturas sociais que o fazem. A ideia de ‘gay’, para a maioria das pessoas, incluindo muitos homossexuais, aponta para uma certa pertença a uma classe social, uma certa inserção racial, um certo capital económico. Mas há muitos gays que não são isso e, eventualmente, a palavra não esgota a possibilidade de serem outras coisas ao mesmo tempo. A Butler demonstra isso a partir da categoria ‘mulher’. Ele desconstrói a ideia de mulher, vem dizer que se trata de uma construção do discurso. Discurso não são apenas as palavras, são as instituições, desde logo o Estado, que geram representações.”
Notícia sobre o lançamento, 23.09.2017, Lisboa, aqui
Catálogo da Orfeu Negro:


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domingo, abril 20, 2014

"Entrei no projeto pelos meus 33 netos"

Black humor and plum jam

They cried, they laughed, they forgave. Bereaved Israeli and Palestinian women created a unique cookbook.


"Tell the truth, Umm Ahmed – weren’t you trying to kill the Jewish women with your pickles?” A translator renders Damelin’s comments into Arabic, and Umm Ahmed laughs heartily. “Not all the Jewish women, Robi. Just you.”
Black humor is an integral part of the group dynamic. The common denominator for all these women, Israeli and Palestinian, is bereavement. All have lost close family members to the Israeli-Palestinian conflict, all are members of the Parents Circle – Family Forum, an organization that seeks to foster dialogue between the opposing sides based on a common sense of pain. “The understanding that the pain of loss is the same pain is always the starting point,” says Damelin, who became very active in the forum after her son David was killed in 2002.

Black humor and plum jam - Features Israel News | Haaretz

quinta-feira, agosto 01, 2013

Calendário EIG _ Agosto 2013 tem rostos de Portugal


Discrimination is everywhere –  hidden and usually within us, both women and men. We accept things as natural’, but they are not natural. They are cultural norms that determine the ways things are.
A discriminação está em toda a parte - oculta e geralmente entre nós, tanto mulheres como homens. Aceitamos as coisas como "naturais", mas não são naturais. São normas culturais que determinam o modo como as coisas são. 
Isabel Barreno 

What I tell young women is not to give up on their dreams. The struggle is not for social liberties, since these have already been established; the struggle is rather to change the mentality.
O que eu digo às mulheres jovens é para não desistirem dos sues sonhos. A luta não é por liberdades sociais, uma vez que essas já foram estabelecidas; a luta é sobretudo por mudar a mentalidade. 
Maria Teresa Horta

Calendário (pdf)
Notícia aqui http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/01/calendario-com-rosto-de-maria-isabel-barreno-e-maria-teresa-horta-por-clara-castilho/#comments

sexta-feira, março 09, 2012

130 ainda ardem na nossa memória



"No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade estadunidense de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, como redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. A manifestação foi reprimida com muita violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas.

Em 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem às mulheres que se manifestaram por condições melhores em 1857. Somente em 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU."

sábado, abril 02, 2011

Nem sempre se avança... Saber História é aprender.

Público - Occitânia
Paulo Varela Gomes, 02.04.2011
Occitânia
Inquieta-me a maneira como jornalistas e outros interessados se têm alheado do futuro dos países islâmicos em revolução. Não me refiro ao futuro “geo-estratégico” como costuma dizer-se. Refiro-me ao futuro das pessoas. Das mulheres, para ser mais exacto. Na Tunísia, Egipto, Líbia, Síria, as mulheres têm ou tinham uma presença social incomparavelmente mais alargada do que noutros países muçulmanos. Convirá recordar o que sucedeu no Iraque onde o derrube da ditadura de Saddam Hussein representou o regresso à escravização de muitas, se não da maioria das mulheres .
Foi ao pensar nisto e na história das mulheres no Ocidente que me lembrei da Occitânia.
A palavra designa uma região que abrangia o sul da França actual mas que se estendia culturalmente pela Catalunha e Aragão. Surgiu aí uma das mais refinadas civilizações que a Europa conheceu. Provém da Occitânia o “Amor Cortês” e a poesia trovadoresca, ergueram-se lá lugares tão sublimes como as abadias cistercienses de Silvacane ou Le Thoronet.
A Occitânia morreu às mãos dos barões franceses do norte e de uma interpretação intolerante do cristianismo, numa cruzada que, na primeira metade do século XIII, fez desaparecer a autonomia da região e da sua cultura ao esmagar num pavoroso banho de sangue a heresia dos Cátaros, um culto cristão divergente da doutrina papal. O horror da repressão marcou o fi m da doçura de viver da civilização do sul. Um dos aspectos dessa doçura era o estatuto de que beneficiavam as mulheres. Entre outros aspectos, a filha maior podia herdar e transmitir bens em desfavor dos seus irmãos mais novos e as mulheres podiam divorciar-se pelas mesmas razões e nas mesmas condições que os maridos. A partir do século XIII, na Occitânia como em alguns outros lugares da Europa onde se verificavam condições semelhantes, as mulheres viram-se como que repentinamente remetidas à menoridade social que veio até aos nossos dias. 
Alguns historiadores sugerem que esta catástrofe resultou do facto do aristotelismo ter passado a dominar um dos mais importantes centros do pensamento filosófico e jurídico da Europa, a Universidade de Paris, fazendo do desprezo pelas mulheres doutrina oficial.Teria sido também decisiva a crescente influência do direito romano que entrega aos homens o controlo da vida e propriedade familiares. O início desta inversão civilizacional foi assinalado pelo esmagamento manu militari da civilização occitana.
A condição das mulheres passou por muitos avanços e recuos em toda a parte. Teve momentos e lugares de igualdade, outros de retrocesso. Gostaríamos de acreditar que é irreversível aquilo que os movimentos de mulheres conseguiram no Ocidente durante o século XX. Gostaríamos também de pensar que todas as mulheres beneficiarão destas conquistas e dos efeitos das revoluções que ocorrem nos seus próprios países. Mas é bem possível que tudo tenha ficado muito pior para as mulheres do Egipto e da Líbia, como ficou para as do Iraque. As malhas que a liberdade tece podem ser também as grilhetas da tirania.