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quinta-feira, janeiro 25, 2018

Criar o mundo

Foto de Maria Jose Vitorino.

Em 2018, as trabalhadoras da Fábrica Triumph em Sacavém, Portugal, lutam ocupando as instalações por trabalho e direitos. A insolvência da Triumph, depois de anos de apoios públicos, nacionais e comunitários, é uma fraude. 
A luta destas mulheres, valentes, a dar gesto ao sonho de um mundo de dignidade e justiça, mostra caminho, precisa de todos nós, e ensina-nos mais que muitos discursos. 
Os economistas, em Janeiro de 2017, descansavam toda a gente: era um sucesso. A verdade é que fora vendida a uma empresa de fachada (TGI-Gramax) que a comprou há um ano para abrir falência logo a seguir. O  ministro da Economia foi na conversa dos grandes investimentos. Quem lá trabalha não se deixou enganar, tem outra cultura mais lúcida que o ministro e os economistas de serviço: a Triumph deslocalizou a produção para um lugar de mão de obra mais barata e encontrou um cangalheiro para se desfazer do que deixou para trás. Dezenas de mulheres, as suas famílias, anos e anos de trabalho a fazer o melhor possível da unidade portuguesa de fabrico da multinacional do têxtil.

Hoje, solidária com corajosas trabalhadoras da Triumph, que estão a criar o mundo, releio o Pina, em 2005


Onde se fala de gatos e de homens

Os meus gatos dormem durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas.

Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida colectiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido.

E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens, precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a sua ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo.

Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo «não sabia nada de finanças, / nem consta que tivesse biblioteca», e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo.

Manuel Antóno Pina. JN, 09/11/2005


terça-feira, outubro 17, 2017

Neste tempo de casas ardidas

Foto de Ana Margarida De Carvalho.Foto de Ana Margarida De Carvalho.

Imagens de Ana Margarida de Carvalho, outubro 2017, Portugal

COMO SE DESENHA UMA CASA

Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.
Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.
Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

Manuel António Pina

segunda-feira, novembro 18, 2013

Regresso



Regresso devagar 


ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 

não é nada comigo. Distraído percorro 

o caminho familiar da saudade, 

pequeninas coisas me prendem, 

uma tarde num café, um livro.  Devagar 

te amo e às vezes depressa, 

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa, 

compro um livro, entro 

no amor como em casa. 




in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco 

Tarde", Manuel António Pina.

quarta-feira, setembro 05, 2012

O livro



O livro


E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.
 
Manuel António Pina
Os Livros
, Assírio & Alvim, 200
3

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Como se desenha uma casa



"A amizade e os amigos também é uma forma de domicílio."

Livro de poemas de Manuel António Pina, apresentado pelo próprio autor, no canal Youtube do Plano Nacional de Leitura (Portugal), a seguir...

quarta-feira, novembro 30, 2011

Antes que feches a luz



Senhor, permite que adormeçamos 

antes que feches a luz,

que os rebanhos estejam recolhidos

e os credores se tenham afastado da nossa porta,

... mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram

e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;


as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes


e moerão o grão e fermentarão o trigo,


apaga com as tuas mãos o nosso rasto


e que repousemos


sem motivo para nos culparmos


por não termos sido felizes.



Manuel António Pina


Imagem e inspiração daqui

sexta-feira, maio 13, 2011

Manuel António Pina, o Grande!

 A Floresta das Adivinhas
No Meio da Florestahavia uma adivinha.Quem a adivinhava voltava para casa, quem não a adivinhava nunca mais vinha. 

A Sara gostava muito da casamas ainda gostava mais de adivinhas. Meteu-se pela Floresta sem nenhum receio e só parou mesmo no Meio. 

Vê se és capaz de adivinhar esta- disse o Homem Mau Dono da Floresta adivinha se vais voltar para casa ou se não, se vais ficar aqui para sempre presa ao chão. 

A Sara também gostava muito das árvores mas não queria ficar ali para sempre a arborizar! Antes queria ser menina e falar e andare ter as pernas soltas para saltar. 

Se dissesse que ia voltar para casao Homem Mau dizia-lhe que não, que ia ficar ali presa na Floresta, e ela ficava mesmo, porque não tinha adivinhado a adivinha. 

Vais-me prender - disse então a Sara - E o Homem Mau ficou muito atrapalhado com a resposta. Porque, se a prendesse, ela adivinhava e tinha que ir para casa, mas, se fosse para casa, não tinha adivinhado e devia ficar presa. 

A adivinha ainda podia ter solução, mas a resposta da Sara é que não. E o Homem Mau pensava no assunto com toda a força que tinha a ver se adivinhava a solução da resposta à adivinha. 

E tantos pensamentos o Homem Mau pensou, encheu a cabeça com tantos pensamentos que chegou uma altura em que já Lá não cabia mais nenhum, e quando ele pensou em mais outro, a cabeça, pum! 

(Quem diz que se pode pensar muito e que os pensamentos não ocupam lugar de certeza que nunca pensou muito no assunto se não também acabava por rebentar...) 

A Sara libertou todas as árvores e nós ficamos a saberque uma maneira de ganhar é forçar os homens maus donos das coisas a perder. (Se calhar não é nada disto, mas também pode ser...)


Manuel António Pina (Prémio Camões 2011)
O TÊPLUQUÊ e outras histórias. Edições Afrontamento

domingo, julho 01, 2007