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sexta-feira, outubro 30, 2020

Pepe Mujica, Grandeza

 


Fazer política é procurar construir felicidade para todos.

Triunfar na vida não é ganhar, é recomeçar.

Pepe Mujica, 28.10.2020

domingo, agosto 30, 2020

Octavia Butler on How (Not) to Choose Our Leaders

Octavia Butler on How (Not) to Choose Our Leaders

"Choose your leaders with wisdom and forethought.To be led by a coward is to be controlled by all that the coward fears.To be led by a fool is to be led by the opportunists who control the fool.To be led by a thief is to offer up your most precious treasures to be stolen.To be led by a liar is to ask to be told lies.To be led by a tyrant is to sell yourself and those you love into slavery."
Octavia Butler (June 22, 1947–February 24, 2006)

Octavia Butler on How (Not) to Choose Our Leaders – Brain Pickings

quarta-feira, junho 24, 2020

Capitalism Rethinking?

2 economistas de renome convergem na sinalização da crise e em propostas para o capitalismo.

Nobel Prize - Winning Economist And Columbia University Professor Of Economics Joseph Stiglitz Interview


Joseph Stiglitz

Photographer: Simon Dawson/Bloomberg
"Speaking at the Bloomberg Invest Global virtual conference, Nouriel Roubini predicted the recovery from the pandemic crisis will soon fizzle out and be more anemic than the one that followed the global financial meltdown more than a decade ago. Joseph Stiglitz said politicians must fight that by assuring citizens that public support programs will continue as long as needed.
The pandemic has spurred fears globally that social inequalities will deepen, dampening overall consumption as people put more money aside as they face uncertain future. U.S. savings rates have already soared to an unprecedented one-third of disposable income. 
It has also sparked renewed debate over whether this is a moment to fix some of the pre-existing weaknesses of the modern political economy.
Stiglitz said countries where there’s bigger trust in government have done better getting out of the pandemic. The U.S. should focus on a green transition, fix its infrastructure, health-care and school systems, and make sure and making sure everyone who “wants a job, has a job.”
Still, he said he’s “hopeful” that this crisis will provoke a changed attitude toward running the economy. "
Stiglitz Urges Capitalism Rethink as Roubini Invokes Stagflation - Bloomberg

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Faltam perguntas

Eat time | 2017 | Cristiano Mangovo (cortesia do artista e da galeria MOVART)Eat time | 2017 | Cristiano Mangovo (cortesia do artista e da galeria MOVART)
















"não podemos dizer que em Itália não se produza cultura, antes pelo contrário existe um número significativo de pessoas que se ocupam de cultura a vários níveis. Publicam-se muitíssimos livros, há uma oferta cultural variada, o problema é que ela se dilui cada vez mais num sistema de eventos, festivais, lançamentos e recensões mútuas e de cortesia,  elementos que acabaram por criar um sistema fechado, solipsista e interdito à maioria das pessoas que o rotula como prerrogativa da “esquerda”, que representa para muita gente a velha ordem e que falhou infelizmente o seu objetivo de criar uma sociedade mais justa. 
O problema é que dentro de um sistema desse tipo, poucos e quase nada exercem um verdadeiro ofício crítico útil para a sociedade, vindo-se assim a esgotar qualquer função civil da cultura. 
Acaba assim por se construir na cena cultural uma contra-narrativa apenas superficial do populismo e do racismo reinante, que exerce uma função auto-reconfortante  alimentada pela constante autopromoção do que se escreve, se filma, se pinta, se encena etc.

São práticas que se tornam produtos de um mercado cultural profundamente narcisista incapaz de se abrir para um “nós sincero” como escreve ainda Fofi e que cria um sistema de hábitos sociais vistos pela maioria dos italianos, que hoje vivem descomplexadamente a sua ignorância, como manifestações sem sentido que promovem, muitas vezes contraditoriamente, valores vistos como inúteis quando não nocivos para a sociedade porque não respeitam o lema “prima gli italiani” e porque se inspiram em princípios solidários. 

Falta militância, pressuposto do verdadeiro exercício intelectual, no sentido de promover a capacidade de repensar o país partindo da educação."

https://www.buala.org/pt/a-ler/la-grande-bellezza-breve-apontamento-sobre-a-cultura-hoje?fbclid=IwAR2MJe_mNWTRcLdjtPKhRQU0w7Y-LpCFERrhVZWG8yMHyp9mftG2O12518I

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Guifões - reabre a oficina. Vivam os comboios!


Põe amor em tudo o que fazes e as coisas terão sentido. Retira delas o amor, e elas tornar-se-ão vazias.
Santo Agostinho, Sermão 138,2

CP, Caminhos de Ferro, Portugal, 2020

Decisão boa (2019): reabertura da oficina, recuperação de material ferroviário circulante. Voltar a produzir, recuperar, aumentar a capacidade do País. 140 novos postos de trabalho até finais de 2021 (90 dos quais especializados).
Reabertura do complexo industrial ferroviário. 
A destruição não é inevitável.
Há futuro.

sábado, outubro 19, 2019

Espanha aqui tão perto - mais tolerância, menos sangue


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Quijote pelo Ballet de Catalunha

























• Público • Sábado, 19 de Outubro de 2019

O país que “deu” o Quixote merece tudo, menos muita da sua política. É também por admiração e estima por Espanha que escrevo isto

José Pacheco Pereira

A Espanha nem una nem grande nem livre
“La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros
que encierran la tierra y el mar: por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida.”
(Cervantes, Don Quijote)

Este é um artigo indignado e como eu sou de raras indignações podem parar de o ler aqui. Nestas alturas estou-me positivamente “marimbando” — sem desculpa pelo plebeísmo porque preciso da sua força — para as nossas tricas nacionais, e para o gigantesco espectáculo de hipocrisia que é a União Europeia, capaz de se mobilizar pelas mais minoritárias causas da moda, mas indiferente ao que se passa na Catalunha.
Como cá. São todos muito liberais, todos muito preocupados pelas liberdades (económicas), todos muito tradicionais, alguns muito revoltados com a repressão (na Venezuela ou em Cuba), e chega-se à Catalunha e ficam todos muito indignados com a “violência” na rua, todos muito legalistas, todos indiferentes a um processo político persecutório, todos olhando para o lado para não verem as multidões na rua, e acima de tudo para não verem as faces dessa multidão. Para não verem que eles são iguais a nós, velhos, mulheres, donas de casa, trabalhadores, jovens casais, moradores, professores, funcionários, gente LGBT, gente conservadora, gente cujos pais e avós conheceram a guerra civil e guardam a memória dos fuzilamentos de dirigentes catalães ou dos movimentos estudantis e operários que confrontaram o franquismo numa Catalunha mais irridente do que muitas partes de Espanha. Eles olham para a rua e vêem os capuzes, e como o El País e a imprensa portuguesa que o segue estão muito preocupados com a Constituição e com a lei, com revoltas, golpes de Estado, revoluções, sedições, separatismo, independentismo. O que não vêem ou admitem é que possa haver uma vontade, uma determinação, uma razão pela independência da maioria dos catalães.
O problema é que na rua catalã não estão fascistas de pata ao alto, nem gente a marchar detrás de variantes da suástica, ou de runas nórdicas, nem a gritar contra os refugiados, nem a atacar mesquitas e sinagogas — está gente como nós. Mas o mesmo não se pode dizer das setas da Falange, nem da bandeira espanhola transformada no estandarte da “España, una, grande y libre” do franquismo, que recrudesceram nos dias de hoje em resposta ao independentismo catalão, numa causa que já mereceu em Espanha muitos milhares de mortos.
Na verdade, os nossos anticatalães, parte do PS e quase toda a direita acabam por ser muito amigos de uma das mais sinistras tradições do país ao nosso lado, o espanholismo de Castela, historicamente muito agressivo, tradicional inimigo de Portugal, a pátria que supostamente lhes enche o peito antes de chegarem a Bruxelas, onde desincha. O espanholismo que encontrou os seus melhores porta-vozes em partidos de extrema-direita como o Vox, que Nuno Melo branqueou, ou num PP minado pela corrupção, ou na sua versão modernizada, o Ciudadanos, o partido que o CDS gostaria de ser quando for grande. E em Espanha nesse partido que nem é socialista, nem operário, mas que agora é muito espanhol e que aceitou ser chantageado pelos herdeiros de Francisco Franco e que não teve a coragem de evitar o julgamento político dos independentistas.
Podem não ser favoráveis à independência catalã, não podem ser indiferentes aos presos políticos e às suas sentenças punitivas. E só por ironia é que se vê ficarem muito ofendidos com a comparação entre Hong Kong e Barcelona, eles que não mexeram uma palha sobre Hong Kong porque o seu anticomunismo pára na EDP e na REN, e não têm muita autoridade para fazer essa distinção. O mesmo com a “progressiva” e de “referência” comunicação social espanhola cuja agressividade anticatalã é repulsiva. E o mesmo para a portuguesa.
E repetem-se argumentos absurdos. O argumento contra o referendo então é o de máxima hipocrisia. O referendo não valeu porque correu sem qualquer controlo. Não é inteiramente verdade, mas é natural que não tenha ocorrido em condições ideais com a polícia a roubar as urnas, a ocupar lugares de votação e a bater nos que queriam votar. Mas, se o problema foram as condições do referendo, então que se faça outro em condições de liberdade e paz civil. Resposta: não, não, nunca, jamais em tempo algum.
Eu sou um grande admirador de Espanha, da sua cultura, das suas gentes. Li o Quixote mais de que uma vez e não é por falta de vontade que não o leio outra vez. Tudo o que de grande existe na história da literatura e da arte está nesse livro, de Ulisses a Leopold Bloom. O país que “deu” este livro merece tudo, menos muita da sua política. Não é um país de história fácil, como se viu na matança da guerra civil, de que o actual conflito é demasiado herdeiro. Em política sempre foi dado a pouca tolerância e a muito sangue, mas os seus grandes homens e mulheres nos últimos 200 anos foram-no exactamente por contrariarem isso. Unamuno é um exemplo. É também por admiração e estima por Espanha que escrevo isto.

Historiador


segunda-feira, abril 08, 2019

Mark Lilla e a esquerda - local, global. Agir, pensar, melhor.


Para vencer eleições, temos de conseguir falar com pessoas diferentes de nós.
Desafio à esquerda : menos narcisismo, mais inteligência na luta.


Wook.pt - De Esquerda, Agora e Sempre

Publicação em Portugal de 2018, pela Tinta-da-China

A entrevista, no Brasil, é do mês passado. A tradução do livro de 2018, por João Brandão. Livro originalmente publicado nos EUA, 2017: The Once and Future Liberal: After Identity Politics.

terça-feira, setembro 04, 2018

Direito à Vida Por Inteiro - Artes, Cultura

Texto alt automático indisponível.

“A gente não quer só comida”: o direito à arte e a uma vida por inteiro*

PEDRO RODRIGUES·TERÇA-FEIRA, 4 DE SETEMBRO DE 2018
O primeiro semestre de 2018 foi relativamente agitado no que diz respeito ao financiamento público da criação e da programação artísticas em Portugal. Quase tudo foi dito e escrito sobre o que se passou e eu arrisco apenas fazer aqui um brevíssimo resumo:
- manteve-se o sub-financiamento da actividade artística por parte do Estado;
- houve um ligeiro alargamento da consciência dessa realidade por parte da população;
- houve mobilização entre os profissionais do sector e houve mobilização popular;
- houve um inaceitável comportamento por parte do Governo (Primeiro-Ministro incluído) na gestão de todo o processo de revisão do Modelo de Apoio Público às Artes;
- houve posições claras e fortes por parte do Bloco e do PCP;
- houve ligeiríssimas conquistas, que não resolveram nenhum dos problemas que subsistem nesta matéria nem permitem satisfazer as necessidades do país.
- em suma, repetindo o grito a que milhares de pessoas quiseram dar voz em várias cidades do país a 6 de Abril, “isto não acaba aqui”. Isto não pode acabar aqui, nem assim.

Creio que importa, à entrada de um novo ano político e quando se prepara o último Orçamento do Estado feito por um Governo que temos ajudado a viabilizar, reflectir sobre o que continua a estar em causa em matéria de política pública para as artes, parte importante do universo mais vasto a que se convencionou chamar “Cultura”.
Entendo que, para além da escassez das condições materiais para o exercício da actividade cultural de serviço público que subsistem em Portugal – consequência directa do investimento público que sucessivos governos têm decidido não fazer – o problema mais sério (porque estrutural, duradouro e a agravar-se) é o facto de continuar a ser ambíguo o lugar que a Cultura (e em particular a Arte) deve ocupar na vida da comunidade e, em consequência, no conjunto das políticas públicas. É na prática ambíguo (ou irregular, se preferirem) o lugar em que colocamos a Cultura entre os direitos sociais pelos quais lutamos diariamente – mesmo à Esquerda, mesmo, às vezes, no Bloco de Esquerda.
Por trás de um aparente (mas cínico e muitíssimo frágil) consenso sobre a importância da Cultura, subsiste no debate político, partidário e mediático uma confrangedora falta de discussão sobre as bases em que se funda este direito. Reflectir sobre elas, discutindo e divergindo onde tivermos de divergir (em particular com quem está à nossa Direita), parece-me essencial para que possamos finalmente construir algo de verdadeiramente transformador.

Concentremo-nos nas artes, campo da Cultura a vários níveis exemplar do que se passa com outras áreas relativas à produção e partilha de conhecimentos. Porque é tão importante para a democracia a disseminação do acesso às artes, quer ao nível da criação quer da fruição? Porque é tão importante que esta fruição da cultura, estabelecida como direito universal na Constituição que ainda nos rege, implique uma atitude activa, crítica, reflexiva por parte das cidadãs e dos cidadãos, contra o rolo compressor e homogeneizador que nos procura transformar em meros consumidores de formas, modelos e conteúdos impostos pelo mercado e pelos seus poderes?
A dificuldade em respondermos de forma simples, clara, directa e facilmente compreensível pela generalidade da população inibe-nos com frequência de respondermos aos ataques do liberalismo com a mesma firmeza com que respondemos noutras áreas, igualmente sob ataque cerrado e contínuo, como bem sabemos. Pior, tem-nos inibido, à esquerda, de aprofundarmos a reflexão e a construção da proposta transformadora, em consonância com a sociedade que queremos, com o país queremos. Demasiadas vezes também nós nos ficamos – nos discursos e na prática política – pela mera superfície da questão, sem que nos consigamos libertar das regras do jogo que nos são impostas, contrárias ao interesse público.

É realmente uma luta difícil. Sob um certo ponto de vista, mais difícil do que na Saúde, na Protecção Social, na Educação. Num país como Portugal, em que apesar de tudo subsistem traços de social-democracia:
- é consensual que quem está doente deve ter acesso a cuidados médicos;
- é consensual que devem ser garantidos tecto e comida a quem não tem meios de subsistência;
- é consensual que toda a gente tem o direito (e a obrigação) de aprender a ler e a fazer contas (até o mercado precisa disso).
Apesar dos ataques que afectam estas áreas essenciais da nossa vida colectiva e das limitações com que nos confrontamos a toda a hora e que a toda a hora denunciamos e combatemos, nestes campos ainda fazemos a luta, por paradoxal que possa parecer, numa situação de vantagem. A vantagem de que toda a gente sabe que temos razão, contra a qual se opõem apenas o estafado argumento da falta de meios ou a vontade de dar dinheiro a ganhar a privados na prestação destes serviços públicos. A vantagem de estarmos a falar de direitos sociais que felizmente conseguimos (também é mérito nosso, da esquerda que por eles lutou) que a generalidade da população sentisse como seus, depois do 25 de Abril. 
Na Cultura não é assim. Será por isso – adianto como primeira hipótese – que tem sido tão fácil cortar no financiamento público às artes aos primeiros sinais de austeridade e manter a parcela do Orçamento do Estado dedicada à cultura em níveis tão baixos, tanto em termos absolutos como relativos; será por isso que é tão difícil aprofundar a discussão – do outro lado temos quem precisamente não quer que as pessoas sintam que têm este direito e esta necessidade, que não lutem por ele; será por isso que os poderes (políticos e mediáticos) tantas vezes tratam os profissionais das artes ora como figuras decorativas, ora como pedintes, ora como crianças que não entendem as dificuldades de quem governa; será por isso que mesmo os nossos programas (apesar de se diferenciarem de forma muito significativa dos que são feitos à nossa direita) não têm sido capazes de assumir em pleno o potencial transformador e emancipatório de uma sociedade em que o direito à arte está realmente a par dos restantes direitos sociais.
É por isto que nesta área a luta é tão exigente e os trabalhos redobrados. Ao mesmo tempo que lutamos pela prestação de níveis mínimos de serviço público, estamos ainda – 44 anos depois de Abril – a lutar pelo reconhecimento de um direito.
O contacto regular com diferentes formas de expressão artística – literatura, cinema, música, dança, teatro, artes visuais, entre outras – enriquece a nossa capacidade de ler o mundo e de imaginar e construir alternativas; reforça os instrumentos de que dispomos para atribuir valor e sentido aos espaços e aos contextos sociais em que vivemos; estimula o pensamento crítico e a curiosidade; aumenta a capacidade (e a vontade) de comunicarmos com o outro e com a diferença; assume-se como campo propício à realização dos indivíduos, desafiados a identificarem, exercitarem, desenvolverem e partilharem as suas capacidades intelectuais; é fonte e veículo de conhecimentos plurais; auto-reproduz-se, propaga-se com facilidade em terrenos férteis ou minimamente preparados e raramente seca depois de enraizado; é, frequentemente, causa de felicidade para quem cria e para quem acede ao resultado.

É aqui – e não em eventuais retornos financeiros, contributos para o PIB, promoções dos territórios ou sequer na integração social de minorias mais ou menos desfavorecidas – que reside o papel essencial da Arte (e da cultura, em geral). É aqui que reside o potencial transformador e emancipatório das artes e o contributo imprescindível para o aprofundamento da democracia e da participação das cidadãs e dos cidadãos na vida colectiva.
É aqui, portanto, que reside o interesse público da Arte e a necessidade de o Estado assegurar a prestação de um serviço público nesta área, seja directamente através das suas instituições (bibliotecas, museus, monumentos, teatros nacionais, estruturas públicas de criação artística, equipamentos culturais nacionais e municipais, entre outros), seja através da contratualização com estruturas e indivíduos da sociedade civil (que faz particular sentido no caso das artes, dada a heterogeneidade e a pluralidade de vozes e expressões que é necessário assegurar).
É por isto (e não porque os artistas precisam de viver ou porque supostamente têm capacidade de fazer muito barulho) que um Orçamento do Estado em que a cultura representa pouco mais de 0,1% é uma vergonha e nos afasta da sociedade que desejamos, pela qual temos lutado e pela qual nos propomos continuar a lutar.
Ter, como eu tenho e vós certamente também, a consciência de que nada disto é novo é muito frustrante. Mas acredito que reavivar esta consciência, desde logo entre nós, é um pressuposto indispensável para que nos mantenhamos mobilizados e combativos.
Até porque a ofensiva liberal sobre um direito cujo reconhecimento universal nunca atingimos produziu riscos novos, a que é preciso estar atento.

Gostaria de chamar a atenção para três desses riscos, que proponho que debatamos já de seguida:
1. a retórica vazia
António Costa prometeu para 2019 o “maior orçamento da cultura de sempre”. Conhecemos a contradição entre o que prometia o programa do actual Governo e o que foi feito nestes três anos, sem nenhuma mudança significativa na forma de enquadrar e articular a cultura no conjunto das políticas públicas. Lembramo-nos dos títulos de jornais e da forma paternalista e ofensiva como o Primeiro-Ministro se dirigiu ao país, numa triste “carta aberta”, tentando esvaziar a contestação popular. Percebemos que os mecanismos de mercado (incluindo a sua tendência para a massificação e a homogeneização de conteúdos) funcionam em força nos meios de comunicação e que na esmagadora maioria das vezes isso não só não é coincidente com o interesse público como se opõe a ele, em nome de interesses e lucros particulares.
Não se trata já apenas de desconfiar das palavras bonitas que em momentos de crise responsáveis institucionais vêm publicamente dizer para acalmar os ânimos. Trata-se de assumir que quem governou o país nos últimos quarenta anos não quis colocar a cultura no centro do desenvolvimento do país e que continua a caber à esquerda lutar por isso.
2. o nevoeiro orçamental
Faço parte do Manifesto em Defesa da Cultura e defendo que o mínimo aceitável para o orçamento da cultura é 1% do Orçamento Geral do Estado. Trata-se de uma marca simbólica, que trabalha em duas frentes: ajuda a evidenciar que a realidade que temos tido se mantém muito abaixo deste mínimo; lembra que qualquer política pública digna desse nome implica, para ser levada a sério, uma dotação orçamental que não nos envergonhe e nos tome por estúpidos.
Nenhuma das pessoas que defende este mínimo orçamental ignora, contudo, que a radical alteração de que o país precisa na forma de encarar a cultura está longe de se esgotar na questão orçamental. O aumento do orçamento é essencial para essa transformação mas há muito mais a fazer na construção de uma política cultural que vise realmente a democratização do acesso à arte. Entre vários outros aspectos, destaco a necessidade de articulação com a Educação e com outras formas de produção e transmissão de conhecimentos; a atenção à descentralização e à correcção de assimetrias; a coerência e a sustentabilidade das medidas adoptadas (com repercussões directas, por exemplo, nos mecanismos de financiamento público criados pelo Estado); a valorização e a divulgação das actividades artísticas, entendidas em sentido lato (que vai desde os meios de divulgação propriamente ditos até à forma como responsáveis políticos publicamente se referem aos agentes culturais e ao trabalho que realizam).
Tenho as maiores dúvidas de que seja verdade que o orçamento do Estado para a cultura em 2019 venha a ser o maior de sempre. Se não for verdade, é mentira o que António Costa anda a dizer há dois meses e que ainda agora reafirmou, na rentrée do PS. Mas já nem é isso o mais importante. O importante é sabermos que, mesmo que em ano de eleições e no fim do mandato venha a haver algum aumento visível, ele não só vem tarde como vale de pouco se não for acompanhado de outras políticas.
3. a instrumentalização e o condicionamento
Da “cultura-flor-na-lapela” aos “artistas do regime”, a cultura é há muito alvo de diferentes tentativas de instrumentalização e a todas tem, apesar de tudo, resistido.
Nos últimos anos, contudo, duas ameaças sérias têm vindo a esconder ou a subverter ainda mais os fundamentos do interesse público das actividades artísticas. A primeira é a do turismo ou – na novilíngua dos financiamentos comunitários – a da “promoção do território”. Com a escassez de fundos específicos para a actividade cultural e atendendo ao que parece ser o novo-velho desígnio salvífico do país, cada vez mais artistas e projectos artísticos são atirados para as oportunidades de financiamento que vão abrindo para servir o turismo. Teoriza-se, até, sobre o papel importante que a cultura pode ter na promoção dos territórios, das cidades, do interior, do país. Tem-no, de facto, mas apenas enquanto não for especificamente criada para isso. A partir do momento em que o é, particularmente quando falamos de expressões artísticas, perde a sua marca de originalidade, a sua capacidade diferenciadora, desafiante e geradora de perplexidades, para se transformar num instrumento de propaganda ou num produto de entretenimento. Mais ou menos criativo, com maior ou menor qualidade, mas afastado do contributo essencial que é suposto oferecer-nos.
A segunda ameaça é construída a partir de uma ideia cuja validade me parece inquestionável: a de que a cultura e o contacto regular com as diferentes expressões artísticas contribuem para promover a inclusão social. O problema é que na maior parte das medidas que têm sido postas em prática (materializadas em concursos e programas de financiamento europeus, nacionais ou municipais) se entende essa qualidade como um fim em si mesmo das actividades artísticas. Chega-se ao ponto de, em concursos públicos de apoio à criação artística, promovidos pelo Ministério da Cultura, privilegiar os que abordem determinados temas ou se dirijam a determinados segmentos da população, condicionando à partida a liberdade de criação dos artistas nacionais. Talvez estejamos a conseguir ajudar a resolver alguns problemas sociais através de práticas artísticas, mas enquanto isto for feito à custa do que devia ser o eixo central de uma política pública para a cultura e para as artes, estamos sobretudo a empobrecer a oferta à disposição da população e a limitar ainda mais a efectiva democratização do direito à arte.
O painel em que estamos cita no título um verso de Arnaldo Antunes, ainda do tempo dos Titãs: “a gente não quer só comida / a gente quer comida, diversão e arte”.
Continua a ser preciso reivindicar o direito a uma vida por inteiro, recusando as metades (cada vez mais pequenas) que nos querem conceder.
Creio que é essa a luta que é preciso continuar a fazer.
* Comunicação apresentada no painel “A gente não quer só comida: Porque incomoda tanto o direito à arte?”, no âmbito do Forum Socialismo 2018, org. Bloco de Esquerda, Leiria, 31 de Agosto a 2 de Setembro de 2018.

domingo, setembro 24, 2017

Elogio da edição revolucionária : Orfeu Negro, Judith Butler, 2017



Há editoras que nos cabem no coração, e, ao mesmo tempo, o ampliam. É o caso da Orfeu Negro, um caminho arrojado a produzir desde 2007,  pela audácia dos temas e o primor na linguagem e na edição de cada título. Sou fan, tanto da linha "para estudiosos" como da maravilhosa colecção Orfeu Mini, encetada em 2008, para miúdos e graúdos, e da inquietadora Casimiro.

Ontem, lançou mais um ensaio, para estudiosos, algo hermético mas nem por isso menos significativo para o homem e a mulher comuns. Trata-se do livro de Judith Butler, Problemas de género, numa bela tradução em português de Nuno Quintas, com a colaboração de João Manuel Oliveira e João Berham.

Quando não são assim tão cuidadosamente publicados, traduzidos e preparados para a leitura e a fruição de muitos mais leitores, os livros correm o risco de serem muito citados mas pouco lidos. E de citação e citação, se tornam banais e, mesmo, incompreensíveis.


Em português, e por mão da Orfeu Negro, há menos perigo de tal continuar a acontecer com esta obra, no centro do debate sobre o género e o feminismo na atualidade. Coisas que, se forem bem discutidas, podem ajudar a viver melhor muita gente, por ajudarem a compreender o que são as pessoas, e o que somos, para além das palavras que usamos, e pelo efeito que as palavras têm no modo como nos pensamos.

As ideias de Butler já tinham sido introduzidas em Portugal na tese de doutoramento da investigadora Conceição Nogueira ( 1997, Universidade do Minho). Terá sido desde 1991 na dança contemporânea – com Vera Mantero, Francisco Camacho, Carlota Lagido, Miguel Pereira, João Fiadeiro – que se “notaram os primeiros efeitos” de “Problemas de Género”.


"Definir identidades tem um problema: as identidades são pequenas demais para nos descreverem e ao descreverem-nos estão a produzir o sujeito que querem descrever”, entende João Manuel de Oliveira. “Descrever é já produzir um determinado sujeito. Quando se diz a uma menina que ela é muito feminina, está-se a construir, e a constranger, o que a menina vai ser. Não é apenas este discurso que contribui para isso, há outras estruturas sociais que o fazem. A ideia de ‘gay’, para a maioria das pessoas, incluindo muitos homossexuais, aponta para uma certa pertença a uma classe social, uma certa inserção racial, um certo capital económico. Mas há muitos gays que não são isso e, eventualmente, a palavra não esgota a possibilidade de serem outras coisas ao mesmo tempo. A Butler demonstra isso a partir da categoria ‘mulher’. Ele desconstrói a ideia de mulher, vem dizer que se trata de uma construção do discurso. Discurso não são apenas as palavras, são as instituições, desde logo o Estado, que geram representações.”
Notícia sobre o lançamento, 23.09.2017, Lisboa, aqui
Catálogo da Orfeu Negro:


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domingo, junho 18, 2017

Lichtman: Trump poderá demitir-se, como fez Nixon



Allan Lichtman previu a eleição, e agora antecipa o impeachment de Trump.

"O impeachmente exige tempo, não é veloz, mas é um processo político que escapará ao controle de Trump: o procurador especial podes ser autorizado pelo Presidente, enquanto a comissão de Justiça do Senado não sofre a sua influência. Para remover um presidente é necessário que dois terços dos senadores votem as acusações de impeachment apresentadas ao senado por recomendações da Comissão de Justiça. Sendo o senado de maioria republicana é improvável que tal suceda. Todavia, a cronometragem depende dos inquéritos em curso sobre as suas relações com a Rússia."
Acha que Trump chegará ao fim do mandato?

"É impossível afirmá-lo com segurança. Se um destes inquéritos pudesse concluir que Trump ou os membros do seu staff conspiraram com Moscovo, seria o primeiro caso de uma traição de um funcionário em cargo na história dos Estados Unidos. Por certo, mesmo que não seja formulada como acusação, poderia ser ele a demitor-se: como ele próprio admitiu, não tinha tido a noção de coo seria difícil ser presidente."
Lichtman: «Trump potrebbe dimettersi, come fece Nixon» - Corriere.it

quarta-feira, outubro 14, 2015

Neg Ócios

By Luís Vargas, via Miguel Vale de almeida (Facebook, hoje)
Não resisti! Viva a ironia...

Como ensinou o poeta.
Eles passarão
Eu, passarinho
(Mário Quintana)

quinta-feira, janeiro 02, 2014

We Must Out-Educate and Out-Innovate Other Nations


First, we must end the pressure on teachers to teach to the test. I have said it before and I will say it again: We want teachers to teach with creativity and passion. I call on states not to pay bonuses to teachers to produce higher test scores and to stop evaluating teachers based on the test scores of their students. We now realize that this causes teaching to the test. That must stop now. Of course, teachers should be evaluated, but they should be evaluated by other professionals, not by their students’ test scores.
Too much testing crushes creativity and innovation, and that’s why we must stop it — now.
Second, we must strengthen and improve our public schools. We must end all efforts to privatize them. I am firmly opposed to vouchers. I will cancel federal subsidies to any charter school that does not seek out and enroll students with disabilities and students who have dropped out. I call on the states to prohibit for-profit schools and for-profit management of schools. Every dollar taken from taxpayers must go to classrooms, not to investors.
Let us recognize here and now that public education is an essential institution of our democratic society. We must make it better, not privatize it.
We will improve education by improving the lives of children. The United States leads the advanced nations of the world in child poverty. This is a scandal, and we must dedicate ourselves to reducing it.
We Must Out-Educate and Out-Innovate Other Nations | Group Think | BillMoyers.com

quarta-feira, janeiro 01, 2014

Sorria, está a ser estimulado a pensar

Com vénia ao autor


Imagem daqui



Remorsos de um encenador de teatro

por FILIPE LA FÉRIA*29 dezembro 2013

Muita gente me acusa de ser o culpado do estado de desgraça do nosso país por ter reprovado Pedro Passos Coelho numa audição em que eu procurava um cantor para fazer parte do elenco de My Fair Lady. Até o espertíssimo gato fedorento Ricardo Araújo Pereira já afirmou que eu devia ser chicoteado em público todos os dias até Passos Coelho desistir de ser primeiro-ministro, como insistentemente o aconselha o Dr. Soares.
Na verdade, confesso que em 2002, quando preparava os ensaios para levar à cena My Fair Lady fiz uma série de audições a cantores para procurar o intérprete do galã apaixonado por Elisa Doolittle, a pobre vendedora de flores do Covent Garden, personagem saída da cabeça brincalhona e maniqueísta de Bernard Shaw, genial dramaturgo que no seu tempo se fartou de gozar com políticos. Entre muitos concorrentes à audição, apareceu Pedro Passos Coelho de jeans, voz colocada, educadíssimo e bem-falante. Era aluno de Cristina de Castro, uma excelente cantora dos tempos de glória do São Carlos que tinha sido escolhida por Maria Callas para contracenar com a diva naTraviata quando da sua passagem histórica por Lisboa. As recomendações portanto não podiam ser melhores e a prova foi convincente. Porém, Passos Coelho era barítono e a partitura exigia um tenor. Foi por essa pequena idiossincrasia vocal que Passos Coelho não foi aceite, o que veio a ditar o futuro do jovem aspirante a cantor que, em breve, ascenderia a actor protagonista do perverso musical da política. Se não fosse a sua tessitura de voz de barítono, hoje estaria no palco do Politeama na Grande Revista à Portuguesa a dar à perna com o João Baião, a Marina Mota, a Maria Vieira, e talvez fosse muitíssimo mais feliz. Diria mal da forma como o Estado trata a cultura em Portugal, revoltar-se-ia com os impostos que o teatro é obrigado a pagar, saberia que um bilhete que é vendido ao público a dez euros, sete vão para o Estado, teria um ataque de nervos contra os lobbies da Secretaria de Estado da Cultura, há quarenta anos sempre os mesmos... não saberia sequer o nome do obscuro e discretíssimo secretário da Cultura oficial, não perceberia porque em Portugal não há uma Lei do Mecenato que permita aos produtores de espectáculos cativar os mecenas, tal é a volúpia cega dos impostos, saberia que cada vez mais há artistas no desemprego em condições miserabilistas e degradantes, que fazer teatro, cinema ou arte em Portugal se tornou um acto de loucura e de militância esquizofrénica. Mas a cantar no palco do Politeama estaria bem longe da bomba-relógio do Dr. Paulo Portas, cada vez mais fulgurante como pop-star, da troika, agora terrível e pós-seguramente medonha, das reuniões de quinta-feira com o Senhor Professor, do Gaspar que se pisgou para o Banco de Portugal, dos enredos do partido bem mais enfadonhas do que as animadas tricas dos bastidores do teatro, das reuniões intermináveis com os alucinados ministros, das manifestações dos professores, dos polícias, dos funcionários públicos, dos pescadores, dos estivadores, dos reformados, dos trabalhadores de tudo o que mexe e não mexe em cima deste desgraçado país, ah!, e das sentenças do Palácio Ratton (1) que agora são chamadas para tudo, só para tramarem a cabeça intervencionada do pobre Pedrinho... não bastava já as constantes birrinhas do Tó Zé Seguro, as conversas da tanga do Dr. Durão Barroso, o charme cínico e discreto de Madame Christine Lagarde, as leoninas exigências da mandona da Europa para Bruxelas assinar a porcaria do cheque. Valha-me o Papa Francisco que tudo isto é de mais para um barítono!
Assumo o meu mais profundo remorso. Devia ter proporcionado ao rapaz um futuro mais insignificante mas mais feliz. Mas, tal como Elisa Doolittle, que depois de ser uma grande dama prefere voltar a vender flores no mercado de Covent Garden, talvez o nosso herói renegue todas as vaidades e vicissitudes da política e suba ao palco do Politeama para interpretar a versão pobrezinha mas bem portuguesa de Os Miseráveis!

PS. O artigo foi escrito em português antigo. No Teatro Politeama nem as bailarinas russas aderiram ao Acordo Ortográfico.
* Encenador e dramaturgo. Diplomou-se em Londres com uma bolsa da Fundação Gulbenkian, foi diretor da Casa da Comédia. Com "What happened to Madalena Iglésias" iniciou e revitalizou o teatro ligeiro
(1) Sede do Tribunal Constitucional

quinta-feira, novembro 28, 2013

Primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco

Texto absolutamente notável, para crentes e não crentes, católicos e não católicos do século XXI.

Não a uma economia da exclusão 

53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras».
54. Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma.

do site da Rádio Vaticano 
Ler o texto integral aqui:
Primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco