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terça-feira, março 16, 2021

Pequenos deuses caseiros - Sidónio Muralha, Manuel Freire



Pequenos deuses caseiros
Que brincais aos temporais,
Passam-se os dias, semanas,
Os meses e os anos
E vós jogais, jogais
O jogo dos tiranos.
O jogo dos tiranos.
O jogo dos tiranos.
Pequenos deuses caseiros
Cantai cantigas macias
Tomai vossa morfina,
Perdulai vossos dinheiros
Derramai a vossa raiva
Gozai vossas tiranias,
Pequenos deuses caseiros.
Pequenos deuses caseiros.
Erguei vossos castelos
Elegei vossos senhores
Espancai vossos criados,
Violai vossas criadas,
E bebei,
O vinho dos traidores
Servido em taças roubadas
Servido em taças roubadas
Dormi em colchões de pena,
Dançai dias inteiros,
Comprai os que se vendem,
Alteai vossas janelas,
E trancai as vossas portas,
Pequenos deuses caseiros,
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
Fonte: Musixmatch
Compositores: Sidonio Muralha / Manuel Freire

quinta-feira, junho 11, 2020

Ou o vedes ou não o vedes


Eugène Grasset, 1845-1917, Three Women and Three Wolves, 1900


A Cegueira da Governação

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. 
Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? 
Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 
Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? 
Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.”

Padre António Vieira, "Sermões", séc. XVII
in


Retrato do Padre António Vieira, de autor desconhecido
 do início do século XVIII


segunda-feira, outubro 31, 2011

Zona de conforto??


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia 
Até a voz do mar se torna exílio 

E a luz que nos rodeia é como grades

 
Sophia de Mello Breyner, Exílio




Por causa disto



Governo aconselha jovens a emigrarem | agência financeira

«Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras»

segunda-feira, junho 13, 2011

Futurar



Poema do alegre desespero


Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?




António Gedeão

terça-feira, novembro 18, 2008

Legibilidade vs transparência


Teremos de rever e ampliar uma das grandes exigências políticas da sociedade civil nos últimos anos. Temos de concluir que a transparência não basta.

É transparência, mas não só: é legibilidade. Uma das primeiras coisas que F.D. Roosevelt fez, durante a grande depressão, foi usar um dos seus discursos na rádio para explicar como funcionava um banco. Depois desse discurso fechou os bancos durante uma semana para se percorrer os livros e entender qual era a situação real das suas contas. Isto é um exemplo de como é essencial em democracia ter acesso a informação que seja verídica, mas também: que faça sentido, que seja legível e sobre a qual se possa agir em conjunto.

Temos de exigir que o desenho de informação esteja incluído em cada "objecto" disponível ao público.
Um dia haverá cursos sobre as melhores maneiras de o fazer (no plural: nunca será apenas uma) e isto dirá respeito a muitas profissões, de jornalistas a académicos e políticos.
Mas notem que quando digo "objecto" não estou a falar apenas de produtos, financeiros ou outros. Isto é um problema maior do que o mercado. As próprias leis não têm em conta a impossibilidade de a maioria dos cidadãos as compreenderem (mesmo quando são feitas de boa-fé). Isso é um problema de democracia. Nos EUA, uma organização não-governamental chamada OpenCongress.org dedica-se a "traduzir" as leis para linguagem quotidiana, com grande sucesso. Precisamos do mesmo aqui, e também de obrigar a Assembleia da República, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia a fazê-lo no seu processo legislativo.

Os políticos não podem ser apenas legisladores; têm de ser intérpretes. No futuro, isso significará não apenas intérpretes da vontade popular, mas bons tradutores da realidade à sua volta para que uma vontade popular possa sequer começar a emergir.
Rui Tavares, Público, 7.11.2008, Desenho de Informação
Ler é mais, muito mais que soletrar, de facto.

sábado, junho 09, 2007

Ao alcance da mão ou dessacralizar a escrita

Escribir –esa tarea que parece un difícil arte pero que es más fácil de lo que creen si hay práctica y ganas- permite tener voz y ser visible es un mundo en el que unos pocos infelices se disputan la visibilidad para sentirse superiores. Y permite ser visibles y tener voz precisamente para decir las propias palabras, para gritar las propias opiniones, para proclamar que existimos a pesar de todo y de todos. Investigar y contar los resultados permite crear una nueva profesión, remodelarla de acuerdo a nuestras necesidades cotidianas.
Y construir teoría no es tan difícil. Ocurre que con la teoría podemos cambiar la práctica. Y hay muchos –muchísimos, como mi buen amigo el “gran editor”- que están muy contentos con el palacio de cristal del que son cortesanos, y no quieren que nada cambie
Civallero, 2007
e tem mais