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segunda-feira, abril 29, 2019

Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro


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As aventuras maravilhosas de João Sem Medo. Ed. Portugália, 1963.
Design João da Cãmara Leme

















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Adaptação e desenhos de José Paulo, Ed. Moraes, 1981
Ed. D. Quixote, 1989

As Aventuras de João Sem Medo ilustrações para o livro de José Gomes Ferreira | 2004The Adventures of Fearless John ilustrations for the book by José Gomes Ferreira | 2004

Apesar de ficar a pouca distância da povoação, ninguém se atrevia a devassar a floresta. Não só por se encontrar protegida pela altura descomunal do Muro, mas principalmente porque os choraquelogobebenses – infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite – mal tinham força para arrastar o bolor negro das sombras, quanto mais para se aventurarem a combater bichos de sete bocas, gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas. Preferiam choramingar, os maricas! (...)
O único que, talvez por capricho de contradizer o ambiente e instinto de refilar, resistia a esta choradeira pegada, era o nosso João que, em virtude duma contínua ostentação de bravata alegre e teimosa na luta, todos conheciam por João Sem Medo.
Ora um dia, farto de tanta choraminguice e de tanta miséria que gelava as casas e cobria os homens de verdete, disse à mãe que, conforme a tradição local, lacrimejava no seu canto de viúva:
- Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro.

Even though it wasn't very far from the village, no-one would venture into the forest. Not just because it was protected by the overwhelming height of The Wall, but mostly because the cryandyouwillbefeed'ers - sad whiners who would do nothing but pity themselves from sunrise till sunset - hardly had the strength to drag the dark mold of the shadows, let alone to fight seven-mouthed beasts, five-armed giants or dragons with two throats.
They prefer to whimper, those sissies! (...)
The only one who, maybe for a whim of contradicting the surrounding environment and a natural instinct for grumping, resisted this sticky whimper, was our dear John who, for a continuous ostentation of a happy and stubborn swagger in fighting, was known to all as Fearless John. 
One day, tired of all the crying and misery that chilled houses and covered men with verdigris, Fearless John told his mother, who, according to the local tradition, was weeping in her widow corner:
- Mother, I can't stand this anymore. I'm going to go over The Wall.

in: Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira, 1963 (translation - Nuno Lacerda, 2004, com adapt.)

domingo, abril 07, 2019

Medo & Poesia - I



O Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis  

Vai ter olhos onde ninguém os veja mãozinhas cautelosas enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no tecto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!) ouvidos nos teus ouvidos  

O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos óptimos empregos poemas originais e poemas como este projectos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários        (assim assim) escriturários        (muitos) intelectuais        (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com certeza a deles  

Vai ter capitais países suspeitas como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados 
Ah o medo vai ter tudo tudo 
(Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) 

O medo vai ter tudo quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos 
Sim a ratos 


Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'  (1960)

sexta-feira, julho 13, 2012

Manifeste-se

 Burro de madeira é levado para a frente do Parlamento Português, durante um protesto de professores em Lisboa contra cortes na verba nacional para a educação. Imagem daqui


No caminho com Maiakóvski


Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

 Eduardo Alves da Costa (Brasil, 1936) Retirado daqui

terça-feira, julho 26, 2011

Nas raízes da coragem


Revista Fórum - Manuel Castells (2011) propõe outra democracia:
"De repente, as pessoas percebem que não estão sozinhas. O que sentem, o que pensam, outros também sentem e pensam. E quando não estão sozinhas, as pessoas são mais fortes. Porque todo o conjunto do sistema passivo de comunicação e de democracia consiste em isolar essas pessoas e agregá-las em função dos que controlam os sistemas de poder nas instituições. A separação e agregação segundo o que já está estabelecido fazem com que só se possa pensar através dos sistemas predeterminados pelos interesses que dominam as instituições. A partir do momento em que surge uma dinâmica espontânea de organização em rede, na internet, nas ruas e nas relações interpessoais – a partir daí, a dinâmica muda. Quando as pessoas já não estão sozinhas, quando sabem que estão juntas, produz-se a mudança mais importante nas mentes. Perde-se o medo de dizer e de fazer. Porque o medo é a emoção primordial do ser humano, porque todos somos descendentes de covardes, pois se os valentes não corressem o suficiente, eram pegos pelas feras." 
(...)"Minha grande experiência com movimentos sociais – começando com maio de 68, do qual participei ativamente – me diz que aqui, e que em todos os acampamentos ao redor do mundo, existem raízes. Porque quaisquer que sejam as formas, elas se expandirão. Impulsionarão mudanças profundas, precisamente por ser este um movimento de pessoas, não de organizações. E as pessoas não são criadas ou destruídas, mas as pessoas se transformam.Mas não será fácil. E quando os poderes se derem conta de que as praças falam sério – pois ainda não se dão conta disso – reagirão, provavelmente de forma violenta. Existem muitos interesses em jogo. 
Por isso é essencial que esse processo lento e profundo de reconstrução da democracia viva com um princípio fundamental. Um imperativo categórico, que na minha opinião, já se expressa aqui, que é a não violência. Depois de 11 dias de acampamentos por toda a Espanha, não houve nenhum incidente violento. Por isso, a violência provável do poder deve ter como resposta a não-violência das pessoas. E para isso é preciso muita coragem, porque responder a violência com violência é uma reação de medo. 
Será preciso trabalhar muito com as pessoas que têm tanto medo, que não o superam, e que se tornam violentas. É preciso ir a um nível superior, o da superação do medo a partir da aceitação medo. A única forma de superar o medo é sair da solidão, juntar-se com os demais, e se superarem o medo sem violência, tudo é possível. 
Se precisasse criar um slogan, ele seria: medrosos do mundo inteiro, uni-vos pela rede, pois só podem perder seu medo."

terça-feira, janeiro 06, 2009

Magos em Dia de Reis, mais 500 menos 500 anos...


imagem Leonardo Da Vinci (séc. XV)


Qual seria sua mensagem para os jovens de hoje?



Gostaria que tentassem, apesar de tudo (e talvez esteja aí o elemento de nostalgia que você notou), apesar de todas as tendências em contrário e de todas as pressões de fora, reter na consciência e na memória o valor da durabilidade, da constância, do compromisso.


Eles não podem mais contar, como a antiga geração, com a natureza permanente do mundo lá fora, com a durabilidade das instituições que tinham antes toda a probabilidade de sobreviver aos indivíduos. Isso não é mais possível e, na verdade, a vida humana individual, apesar de ser muito curta, abominavelmente curta, é a única entidade da sociedade de agora que tem sua longevidade aumentada. Sim, somente a vida humana individual vê crescer sua durabilidade, enquanto a vida de todas as outras entidades sociais que a rodeiam — instituições, idéias, movimentos políticos — é cada vez mais curta.


Assim, o único sentido duradouro, o único significado que tem chance de deixar traços, rastos no mundo, de acrescentar algo ao mundo exterior, deve ser fruto de seu próprio esforço e trabalho. Os jovens podem contar unicamente com eles próprios e só haverá em suas vidas o sentido e a relevância que forem capazes de lhes dar. Sei que essa é uma tarefa muito difícil... mas é a única coisa que posso lhes dizer