sábado, abril 13, 2019

Aspirar ao coração, exorcizarmo-nos pelo sonho, ser grato à Terra, seguir ao lado do nosso irmão




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«The action is complex, agitated, there isn’t a true focus for the narration and the whole scene is defined by a strong chiaroscuro (…) It’s noteworthy that all the characters are portrayed as common people. That’s because Caravaggio didn’t believe in the formal charity of upper classes, but only in the spontaneous generosity of people towards other people. (Here we can see) the visual and emotional intensity, the strong naturalism and the extreme expressiveness.»

Uma atitude plástica indomável
e arrebatamento rítmico nas figuras,
eis o que me interessa transmitir:
sou panteísta,
e sei como nas cores há um luxo físico
que torna o que é palpável
imaterial
– de modo que o que faço
é da rua que vem,
para que se transfigure em dom de imanência
e a alma e o espírito se cumpram nos pigmentos
para que tudo seja obra compassiva,
como um enigma de arrebatamento.

A minha vida é a cor
– e o recorte que o relevo da luz
lhe introduz
serve para que o universo vibre
e uma tensão grandíloqua se estabeleça,
entre a detonação da tela
e o espectador,
num repto total,
esmagador.
Ouso o fascínio,
mas, mais do que o fascínio,
aspiro ao coração
dos que vêem a tela interiormente,
sendo que os olhos
acumulam sortilégio
para que o entendimento desmorone
a falsidade que nos cerca e mata.

Eis a encomenda:
um quadro de grandes dimensões
que patenteie
as sete obras de misericórdia corporais,
dando relevo aos justos, obviamente,
mas também aos pecadores,
já que cada um deles é cada um de nós,
se a nossa prudência souber dizê-lo
de modo a não ardermos na fogueira.
Deu-me trabalho, o esboço:
a caridade existe,
mas é tão raro vê-la
que um pintor não sabe onde encontrar
modelo adequado,
mesmo que vá de igreja em igreja
a cuidar que, de repente,
encontra exemplo para a missão.

Tentei de tudo. Tentei, até, de mais.
Mas os dias passavam, e as noites,
e não me satisfazia com o que via,
os palácios a abarrotar de nobres
sem magnanimidade, e os pobres
sempre mais pobres, a morrer à míngua.
O mundo, agora, é só hipocrisia.
E, por isso mesmo, a minha regra
é não ter regra nenhuma
– em busca da brandura
vou de sítio em sítio,
a procurar um sentido nos sentidos,
ou alguém que não difame,
ou que não roube.
Só posso pelo sonho exorcizar-me;
mas o facto é que na rua é que anda tudo
– abrindo bem os olhos, em lida
extenuante, mas de grande prazer,
basta só olhar em volta e ver:
e ver é uma arte que faz toda a diferença.
E assim foi que vi os anjos nesta esquina,
e uma profusão de personagens
a perfazer o périplo das obras
misericordiosas:
a visitar os presos,
a dar de comer a quem tem fome,
a enterrar os mortos,
a cuidar dos enfermos,
a vestir os nus,
a dar de beber a quem tem sede,
a dar pousada aos peregrinos.

Olhando o quadro, agora pronto,
exposto na igreja do Pio Monte della Misericordia,
em Nápoles,
entendo que é pelo arrojo
que vou bem
– e fico impressionado
pelo que faço dos temas,
e como os meus impulsos artísticos resultam
em explosões categóricas de beatitude
de que até eu me assombro.

Toda a beleza é transcendência,
afirmo, de mim para comigo.
No meu tempo poucos haverá
que isto entendam, embotados
que estão de dogmas e preceitos
em que se relega o mundo
e nada vive como a vida é.
Martinho tira a capa e dá-a a um pobre.
Uma jovem mulher oferece o seio
a um velho preso da sua miserável condição
matando-lhe a fome e aliviando-o
do desgaste do castigo.
Um diácono clemente
manda que os coveiros
abram a terra e sepultem os cadáveres.
Um jovem, em tronco nu, ampara os doentes.
Um Sansão, sequioso, dessedenta-se com água
que alguém pôs no maxilar de um asno.
E Santiago aloja os peregrinos
com a ajuda de um almocreve adolescente.

Eis o meu quadro, a que juntei,
sobre a multidão,
uns anjos
para que se saiba
que não são dos anjos as tarefas dos homens,
e que o que é possível pode até tocar-se
se estendermos a mão ao nosso semelhante
– mesmo que ninguém veja,
mesmo que fique no segredo dos anjos a nossa acção,
mesmo que a partilha seja, apenas, nossa
e que nada, nem ninguém, nos agradeça
o gesto,
o acto.


Chamo-me Michelangelo Merisi Caravaggio
e ignoro
se sou cristão, ou não.
No caso, interessa pouco quem eu sou.
Sei é que deixo nesta terra
uma pequena herança
de luz
e movimento
e cor
que me fará feliz
se os homens se lembrarem
que pior que o esquecimento é a ingratidão,
e que ser ingrato nesta terra é não estar ao lado
de quem na vida vai ao nosso lado
e é nosso irmão.

Amadeu Baptista
Sobre um dos quadros de Michelangelo Caravaggio, componente de “Os Sete Trabalhos de Misericórdia”


Grata à Isabel Duarte que mo deu a descobrir,  a Caravaggio e à Mae West que nos inspiram.

quinta-feira, abril 11, 2019

Peniche, Museu da Resistência de da Liberdade

Domingos Abrantes walks to the former political prison in Peniche which has become a museum.


Celebremos os 45 anos do 25 de Abril, cuidando da Memória, e do Futuro.

No próximo dia 27 de Abril, pelas 16h, abre ao público o Museu da Resistência e da Liberdade, na antiga Prisão política de Peniche, com a inauguração da exposição "Por teu livre pensamento", título inspirado na letra do Fado do Abandono, de Amália Rodrigues, editado em 1962, poema de David Mourão-Ferreira e música de Alain Oulman.

É o resultado do trabalho do comité presidido pela diretora-geral do Património Cultural, Paula Silva, composto pelos ex-presos políticos Domingos Abrantes e Fernando Rosas, pelo historiador José Pacheco Pereira, pelos investigadores e museólogos Fernando Batista Pereira e Teresa Albino, pelo diretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Silvestre Lacerda, e pelo arquitecto do projeto de memorial João Barros Matos. A solução arquitectónica para a Fortaleza, edifício de longas história, foi a vencedora de um concurso em que participaram 20 propostas.

Domingos Abrantes, Fernando Rosas e José Pacheco Pereira transitam da Comissão de Instalação dos Conteúdos e da Apresentação Museológica (CICAM) para o futuro Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, que integrou ainda Diretora Geral do Património Cultural, Paula Silva, o Presidente da Câmara Municipal de Peniche, Henrique Bertino, o Chefe de Gabinete do Ministro da Cultura, Jorge Leonardo, Adelaide Pereira Alves, José Pedro Soares, Manuela Bernardino, Raimundo Narciso e João Bonifácio Serra. Participaram nos trabalhos da CICAM, sem direito de voto, os membros do Gabinete do Ministro da Cultura, Hernâni Loureiro e Fernando A. Batista Pereira; Teresa Albino da DGPC; Rui Venâncio da CM Peniche; Luis Farinha, do I.H.C da Universidade Nova de Lisboa; João Nunes do C.E.I, da Universidade de Coimbra; Amélia Polónia e Marzia Bruno do CITCEM da Universidade do Porto. 

A CICAM produziu um Guião para os conteúdos, publicado em Abril de 2018, e que está acessível em http://www.museunacionalresistencialiberdade-peniche.gov.pt/wp-content/uploads/2018/05/CICAM_Guiao_MNRL_Final_Abril_2018.pdf

Fontes
Site do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade 

Novo comité executivo vai acompanhar obras do Museu da Resistência em Peniche / DN-LUSA 2018.04.21


Notorious Portuguese political prison becomes museum of resistance / The Guardian 2019.03.31 https://www.theguardian.com/world/2019/mar/31/notorious-portuguese-political-prison-becomes-museum-of-freedom (acedido 20190411)







terça-feira, abril 09, 2019

Onde está o Wally? Por inde anda o Leitor? Semana da Leitura



ONDE ESTÁ O WALLY? POR ONDE ANDA O LEITOR?
Semana da Leitura, desde 2006 a marcar calendário nas escolas portuguesas
Texto enviado para publicação na Blimunda, Março de 2019 - desafio de Andreia Brites



Em 2006, dois anos após a criação do Plano Nacional de Leitura por Resolução do Conselho de Ministros, formalizou-se a Semana da Leitura, a celebrar anualmente por todo o País, com iniciativas diversas, abrangendo o maior leque possível de leitores e não leitores – estes últimos encarados como potenciais leitores. Este ano, o PNL2027 promove de 11 a 15 de Março um programa [1] com o lema da Semana da Leitura 2019 - “Hoje leitor, amanhã leitor!”, e divulga atividades, envolvendo escolas, bibliotecas, universidades, livrarias, e outras entidades [2].
No entanto, e de modo fiel às orientações da Semana, não é raro encontrarmos “Semanas da Leitura” noutras datas, por conveniência dos planos de atividades das escolas e bibliotecas nelas empenhadas. O âmbito nacional da Semana da Leitura, e a sua presença em quase todas as escolas, é evidente e confirmado por estudos publicados em 2011 [3] e 2014 [4].
Os meninos e as meninas que em 2006 estavam a entrar no jardim de infância chegaram em 2019 à idade da cidadania plena: podem votar, pela primeira vez, neste ano. E podem ser eleitos, salvo para o posto de Presidente da República – esse, só depois de 2036…
Para cada um e cada uma destas pessoas, a Semana da Leitura faz parte do calendário, como uma rotina escolar. Em alguns casos, sai para fora dos muros da escola, mas sempre com uma dimensão fortemente associada aos estudantes do ensino não superior, aos livros, à literatura. Inclui atividades de formação, concursos, apresentações, tertúlias, debates.
Procura-se manter o carácter de celebração, da festa, da alegria de ler. Nem sempre se consegue que o prazer de ler seja nesses dias comum a cada sala de aula, a cada momento do programa. O envolvimento das famílias, de vizinhos e amigos, faz a diferença, tanto mais quanto ultrapassa os programas da “Semana da Leitura” e passa a ser presente no desenho de estratégias de mediação de leitura realizadas durante todo o ano
No décimo quarto ano, e nos seguintes, haverá que, sem desvalorizar o que se atingiu, ousar mais. Manter a festa, mas não esquecer o trabalho continuado que realmente consolida as competências leitoras e os hábitos de leitura, multidisciplinares do ponto de vista do curriculum, indissociáveis da escrita e da criação, em todas as crianças e jovens. Focar o olhar no leitor em crescimento, mesmo que ele não pareça visível no turbilhão de iniciativas. E manter o foco, mesmo nas idades em que se desvanece o cuidado com a aquisição de competências leitoras – não esquecer que ser leitor, saber ler, é um processo, de construção permanente.
Onde está o Wally? Que leitor é, quer ser, pode ser, em que pega para ler?  Na Semana da Leitura, certamente, mas, sobretudo, em todas as semanas e meses de cada ano de vida, dentro e fora das escolas e das bibliotecas.

Maria José Vitorino



[1] Programa disponível no sítio web do PNL2027. URL: http://pnl2027.gov.pt/np4/semanaleitura2019_apresentacao.html?subpag=semanaleitura2019_programa (acedido em 20190311)

[3] Costa, A. Firmino da, Pegado, Elsa, Ávil, Patrícia (2008). Avaliação do Plano Nacional de Leitura. Lisboa : GEPE. URL: http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/data/estudos/ficheiros/avaliacao_externa_5_anos_de_pnl_cies.pdf (acedido 20190321)

[4] Alçada, Isabel (2016) O Plano Nacional de Leitura: fundamentos e resultados. Alfragide : Caminho ISBN 978-972-21-2825-4. Texto disponível em URL https://run.unl.pt/bitstream/10362/18465/1/Tese%20M.%20Isabel%20Vilar.pdf




segunda-feira, abril 08, 2019

Mark Lilla e a esquerda - local, global. Agir, pensar, melhor.


Para vencer eleições, temos de conseguir falar com pessoas diferentes de nós.
Desafio à esquerda : menos narcisismo, mais inteligência na luta.


Wook.pt - De Esquerda, Agora e Sempre

Publicação em Portugal de 2018, pela Tinta-da-China

A entrevista, no Brasil, é do mês passado. A tradução do livro de 2018, por João Brandão. Livro originalmente publicado nos EUA, 2017: The Once and Future Liberal: After Identity Politics.

domingo, abril 07, 2019

Medo & Poesia - I



O Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis  

Vai ter olhos onde ninguém os veja mãozinhas cautelosas enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no tecto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!) ouvidos nos teus ouvidos  

O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos óptimos empregos poemas originais e poemas como este projectos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários        (assim assim) escriturários        (muitos) intelectuais        (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com certeza a deles  

Vai ter capitais países suspeitas como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados 
Ah o medo vai ter tudo tudo 
(Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) 

O medo vai ter tudo quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos 
Sim a ratos 


Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'  (1960)

sexta-feira, abril 05, 2019

Contando histórias - só a educação nos salvará!

Ler de pequenino, mudar o nosso destino

Resultado de imagem para ler

Sondagem animadora para quem promove leitura e mais leitores.
Gente que sabe abrandar um pouco. E ler.

A diferença está na educação de base: se na atual geração dos pais portugueses 33% dos seus progenitores nunca lhes leram e apenas 7% o faziam regularmente, agora 90% têm o hábito de ler para os seus filhos. E isso pode fazer muita diferença para a formação de gerações mais enraizadas na vontade de simplesmente abrandar um pouco e ler.
São algumas das conclusões de uma sondagem da GFK feita para o Expresso e que mostra a diferenças entre hábitos de leitura de pais e filhos com menos de 15 anos: 67% destas crianças leem regularmente, com o número a descer para 49% no caso dos pais. Entre os progenitores que não leem, 61% dizem que se deve à falta de tempo).


https://leitor.expresso.pt/diario/quinta-20/html/caderno1/temas-principais/criancas-portuguesas-leem-mais-que-os-pais

sexta-feira, março 29, 2019

O Noivado do Sepulcro



Cantar poesia, tomar palavras como suas pela música do coração tremente.

Soares dos Passos, poeta ultra-romântico falecido em 1860, vive em Vimioso e para sempre pelo registo da Memoriamedia.

Hoje, as tragédias do Correio da Manhã não se decoram nem cantam. Passarão.

Ler o poema aqui

Coda

Coda

Quando o ser da luz for
o ser da palavra,
no seu centro arder
e subir com a chama
(ou baixar à água),
então estarei em casa.

Eugénio de Andrade
Contra a Obscuridade. Porto : Afrontamento, 1992 

Wook.pt - Contra a Obscuridade

quinta-feira, março 21, 2019

Dia Mundial da Poesia


Poema " A invenção do amor" (1972), de Daniel Filipe,  transcrito parcialmente aqui http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/25/danifilipe.html


2019: Fabrizio Graglia, que trabalha na Associação Esmabama, da Beira, em Moçambique, via Marta Lança (Facebook)

"Caros amigos,

Hoje (segunda-feira, 18 de Março) consegui fazer a viagem de Beira para Nampula e depois para a Maputo para poder aceder à Internet e poder actualizar-vos sobre os últimos acontecimentos que atingiram a província de Sofala. Um ciclone devastador (Idai) massacrou Sofala na noite de quinta-feira, 14 de março. Desde aquele dia ficámos sem energia elétrica, comunicações telefónicas, combustível, comida, água potável, estradas, ATM’s e os bancos mantêm-se fechados. Este ciclone deixou para trás um rasto de morte e destruição como não há memória no país. As escolas, nosso escritório, os hospitais que permaneceram em pé tornaram-se o refúgio de centenas de famílias que perderam tudo. O telhado do hospital central da Beira caiu e 5 recém-nascidos da enfermaria de neonatologia morreram, mais 160 pessoas morreram naquelas instalações devido principalmente à falta de energia que mantinha as máquinas hospitalares e à queda parcial da estrutura. Não há postes de luz em pé, as árvores tombadas bloqueiam as ruas, nenhuma loja ou mercado está operacional. Só comemos laranjas e abacates durante 3 dias e racionalizamos a água potável.

O vento era tão forte que arrancou os motores de ares condicionados atirando-os para os telhados circunvizinhos. Lendo as ultimas notícias online, verifico agora que o vento chegou a 230km / h naquela noite. Nenhuma janela ou porta resistiu à fúria da água do mar, areia, pedras e tudo o que encontrou no caminho. As chapas arrancadas aos telhados eram como punhais que entravam dentro das casas. Nossas casas tornaram-se piscinas e protegemo-nos com colchões para não sermos atingidos por objetos e vidros estilhaçados das janelas. A casa que arrendei nos últimos 5 anos localizada em frente à praia na Ponta Gea caiu por terra como um baralho de cartas restando apenas a parte traseira da mesma. Vários animais de pequeno porte literalmente voaram ficando pendurados em árvores ou a apodrecer nos telhados e escombros. Tudo isso durou das 20horas até às 4h da manhã. A última hora foi a mais perigosa, o vento diminuiu por alguns minutos e depois atacou com mais força, destruindo as últimas casas que sobreviveram às horas anteriores.
No dia seguinte, pedi a dois de nossos marinheiros que fossem à missão de Barada para obter algumas informações, mas o mar e o vento não permitiram a navegação. Então eu pedi a um de nossos motoristas para tomar a rota terrestre, mas depois de 40 km ele teve que voltar para a cidade porque a estrada tinha sido engolida e em seu lugar havia um lago com crocodilos e pessoas presas nas árvores.
Pessoas que caminharam durante dois dias até à Beira disseram-me que aldeias inteiras com casas e pessoas desapareceram. O Presidente da República de Moçambique anunciou que neste momento os distritos de: Buzi (Barada e Estaquinha), Chibabava (Mangunde) e Marromeu estão completamente isolados. E segundo ele expressou com preocupação esperam-se centenas de mortes e doenças subsequentes, dado que também pelo que é observável pelas fotografias aéreas que começam a circular, dezenas de corpos flutuam nos rios Buzi e Pungue.
Na cidade à noite, grupos de pessoas andam a vaguear, ninguém sabe se cortam árvores ou cortam pessoas, pois os números de criminalidade violenta aumentaram consideravelmente, tendo-se registado vários ataques a pessoas e assaltos às casas danificadas e abertas.
Enquanto isso, após 4 dias, tenho informações apenas parciais acerca das missões.
Machanga: a missão não tem mais telhados e os nossos alunos internos dormem sob as árvores e perdemos completamente a criação de porcos.
Estaquinha: Eu só tenho informações sobre o campo agrícola. Perdemos mais de 100 toneladas de milho (alimento por 4 meses em nossos internatos), todas as máquinas agrícolas estão submersas. Um investimento de 200.000 euros engolidos pela água. Não tenho informações sobre a missão.
Mangunde: Parte da escola, internato e centro de saúde estão sem teto. As comunidades circunvizinhas estão completamente inundadas.
Nossa missão na praia- Barada: Ainda não tenho novidades e infelizmente temo o pior.
Nosso novo escritório da Beira está quase destruído e policiais armados, guardas e os nossos três cães ficam de guarda dia e noite.
Alguns dos nossos funcionários e estudantes foram feridos, mas até agora ainda não tivemos notícias de mortes entre os nossos.
Continua a chover torrencialmente e prevê-se que se mantenha assim nos próximos dias e os rios continuam a aumentar seu nível de alerta. Os países vizinhos que estão também a ser afetados por chuvas torrenciais irão seguramente abrir as comportas das suas barragens para evitar a sua danificação, pelo que se espera ainda mais cheias na região de Sofala.
Estou consternado e destroçado com este cenário dantesco e com o pânico nos rostos de quem agora teme pela vida e dos seus. Precisamos de ajuda urgente."
Fabrizio Graglia
Associação Moçambicana Esmabama - Sofala

domingo, março 10, 2019

...não me custa ter amores deixá-los é que me mata

Por decreto? Não, por gente mesmo

 Resultado de imagem para por decreto
"Hoje, somos informados que Jesus também foi fazer retiro, um longo retiro, conduzido pelo Espírito de Deus. Estava perante a concretização do seu projecto de vida. Que fazer? Como fazer? Um dia publicará o manifesto das suas opções radicais em favor dos atirados para a margem da história [5].
O Diabo, a figura de tudo e todos os que se opunham a este projecto libertador, propõe-lhe uma alternativa exaltante: usa os teus recursos divinos para resolver, por decreto, os problemas da fome, da dependência política, exibindo um miraculoso espectáculo religioso. Deixa-te de lirismo e convence-te que o caminho é o do poder de dominação económica, política e religiosa.
Jesus, a todas essas propostas, disse um não absoluto, definitivo.
Sabemos demasiado as consequências das vezes que, na Igreja, se esqueceram as opções do Mestre.
Agora, parece-me ridículo, quando o Papa Francisco insiste, contra tempos e marés, na renovação da Igreja ao serviço da transformação do mundo na pátria da alegria, se exija que ele faça um milagre de transformar a Igreja e a sociedade, por decreto, dispensando o empenhamento de todas as pessoas de boa vontade."
Frei Bento Domingues, Público, 2019.03.10 

 [5] Lc 4, 16-30

sábado, março 02, 2019

Lourense H. Das


Not "for" us, never against us, always with us.
If I had a flag for Lourense, I'll paint hese words on it.
In every language, even those that are now lost, specially those who are being invented.

Sometimes we feel closed doors all around. And there is a special kind of human beings that are precious: those who helped us to open windows, start a new path, find a solution, a better way.
Lourense H. Das knew how to do it, and really did it.

All over the world, and also with so many Portuguese, walking with us for education, reading, democracy, fraternity. Long before 2015, and also after, always with kindness, bravery and sharp ideas.
Two years ago, she came once again to Portugal and remind us what networking is really about - open windows, not shutting doors. Wisdom and human connections, communication, love, and not technologicaç devices. Critical thinking, humanity and freedom, not darkness and selfishness.
It is hard to me to write about Lourense, and I wish I could be with her family today. She would way to me there is many ways to be with those we love.
As usual, she would be wright. As usual, she would be part of this new, shining day.
Oh, how we do miss her!


The celebration of Lourense’s life will be held on Saturday, March 2nd between 1.30 PM and 4.30 PM at Crematorium Weerterland, Ringselvenweg 2, Weert. [the Netherlands]Please share your memories of Lourense and messages to her family on the funeral home webpage here: https://www.uitvaart-vangansewinkel.nl/site/aggeloo_condoleance.html On Lourense's condolences page, you will see the space for "Uw naam" = "Your Name"You can "Add a photo or image to this memory" in the space "Uw herinnering verrijken met een foto of afbeelding" (the grey button "selecteer afbeelding" means "select file to upload")"Uw bericht" = "your message" - please remember to add your country so Lourense's family knows how far her influence has spread!When you are finished, click "Uw bericht plaatsen" to "post your message"

terça-feira, fevereiro 12, 2019

ROSA



AS IDADES DE ROSA MARIA
«Quando tinha seis anos, em 1725, um navio negreiro trouxe-a de África e ela acabou vendida no Rio de Janeiro.
Quando tinha catorze, o dono abriu-lhe as pernas e ensinou-lhe um oficio.
Quando tinha quinze, foi comprada por uma fábrica de Ouro Preto, que passou a alugar o seu corpo aos garimpeiros.
Quando tinha trinta, essa família vendeu-a a um sacerdote, que praticava nela os seus métodos de exorcismo e outros exercícios nocturnos.
Quando tinha trinta e dois, um dos demónios que habitavam o seu corpo fumou pelo seu cachimbo, uivou pela sua boca e fê-lo contorcer-se no chão. E por isso foi condenada a cem chicotadas na praça da cidade de Mariana, e o castigo deixou-lhe um braço paralisado para sempre.
Quando tinha trinta e cinco, jejuou e rezou e mortificou a sua carne com um cilício, e a mãe da Virgem Maria ensinou-a a ler. Segundo dizem, Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi a primeira negra alfabetizada no Brasil.
Quando tinha trinta e sete, fundou um asilo para escravas abandonadas e putas fora de prazo, que financiava vendendo biscoitos amassados com a sua saliva, remédio infalível contra qualquer doença.
Quando tinha quarenta, inúmeros fiéis assistiam os seus transes, onde ela dançava ao ritmo de um coro de anjos, envolta em fumo de tabaco, e onde o Menino Jesus mamava do seu peito.
Quando tinha quarenta e dois, foi acusada de feitiçaria e presa na cadeia do Rio de Janeiro.
Quando tinha quarenta e três, os teólogos confirmaram que era feiticeira porque conseguiu suportar sem uma queixa, durante muito tempo, uma vela acesa sob a língua.
Quando tinha quarenta e quatro, foi enviada para Lisboa e presa na cadeia da Santa Inquisição. Entrou nas câmaras de tortura para ser interrogada e nunca mais se soube dela.»
Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal

domingo, fevereiro 10, 2019

Netos de Aristides de Sousa Mendes acusam em tribunal defensores de Salazar. Justiça e memória!



Grata à Família que assim se continua a ilustrar, para bem de todos nós. Recorde-se que Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no ano de 1940, pela sua fraternidade, bravura e compaixão, salvou milhares de pessoas, e pagou o preço da ruína por isso.

Aristides e Salazar voltam a encontrar-se em tribunal: O rol das acusações não é curto (ofensa à memória de pessoa falecida e difamação, por exemplo). Mas inclui também um crime de que não há memória de ter sido alguma vez julgado em Portugal: negacionismo do Holocausto. Este está previsto no artigo 240.º do Código Penal e prevê uma pena de prisão de seis meses a cinco anos para quem, publicamente, proceder à "apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade".

Essa acusação - que agora o tribunal terá de dirimir, julgando-a ou não - surge porque os réus terão desvalorizado a ação de Sousa Mendes em junho de 1940 em Bordéus com o argumento de que, nessa altura, os judeus não estavam verdadeiramente em perigo.

"Aristides não salva ninguém da morte"


Os autores da queixa são quatro netos do cônsul: António Pedro, Guy Gerald, Sheila Pierce e Aristides. E os réus da Texto Principal (editora proprietária do semanário O Diabo), Duarte Branquinho e Miguel Mattos Chaves (ambos ex-diretores daquele jornal), Carlos Fernandes (um embaixador reformado) e João Brandão Ferreira (coronel reformado). A estes os queixosos pedem, ao todo, 150 mil euros de indemnização cível.

sábado, fevereiro 09, 2019

2019, e ainda nisto...


"A primeira coisa que é preciso perceber: não são as mulheres burras que caem nas mãos dos homens maus. Não é o capuchinho vermelho que cai na mão do lobo mau. É qualquer pessoa.O pior é pensar que quem cai e quem não consegue sair desta situação fá-lo por falta de inteligência. Acredito que em parte seja por vergonha. Por muita vergonha.Uma das coisas com que o agressor conta é com a vergonha da vítima. Com o seu silêncio. Também com a desatenção dos amigos e da família.O agressor conta com o isolamento da vítima; e até, tendo em conta o elevado número de penas suspensas, com a complacência das autoridades."

https://vidaextra.expresso.pt/cronicas/2019-02-08-Porque-e-que-alguem-fica-com-um-homem-que-lhe-bate---Eu-sei-o-que-e-violencia-domestica-e-tu--

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Lisboa, não sejas racista


Lisboa, não sejas racista
Não é só pra turista
Vir e ocupar
Lisboa, não sejas racista
Velha cavaquista
Não queiras voltar
Lisboa, não sejas racista
E crê que esta lista
Não vai amansar
Lisboa, não vives não falas
Tira-me essas palas
E aprende a escutar

sábado, fevereiro 02, 2019

Vitórias. Behrouz Bouchani

Manus Island refugee Behrouz Boochani.
Finte: BBC News

Victorian Premier's Literary Awards - Behrouz Boochani, No Friend But the Mountains: Writing from Manus Prison 

O jornalista curdo escreveu um livro sobretudo com mensagens WhatsApp enviadas da prisão. Foi um dos 6 nomeados para o Prémio Literário, na secção  de não-ficção.
Ganhou o primeiro prémio.
"É uma vitória não apenas para nós, mas também para a Literatura e a Arte, e é, sobretudo, uma vitória para a Humanidade - uma vitória para os seres humanos e a dignidade humana. Uma vitória contra um sistema que nos reduziu a números. Este é um belo momento.", afirma.
O Prémio é o mais importante prémio literário australiano. 


Ler mais aqui

quarta-feira, janeiro 30, 2019

Música para ousar transformar a vida



Ana Moura, 2012
Letra e música de Caetano Veloso ------------------------------------------------- Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro Percorrer correndo, corredores em silêncio Perder as paredes aparentes do edifício Penetrar no labirinto Um labirinto de labirintos dentro do apartamento Sim, eu poderia procurar por dentro a casa Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas Na sala receber o beijo frio em minha boca Beijo de uma deusa morta Deus morto, fêmea língua gelada, língua gelada como nada Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília Em cada um matar um membro da família Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia O que aconteceria de qualquer jeito Mas eu prefiro abrir as janelas Pra que entrem todos os insetos


Versão original, inesquecível, de Caetano Veloso (1972) aqui https://youtu.be/Y4NWN2qMo4g



Leitura matinal, dedicada a quem vejo ficar fechado em círculos estreitos, e precisa de banhos de realidade urgentemente. Sem me excluir desse risco, que nos pode acontecer a todos. Sobretudo a quem ocupa, ou pensa ocupar, posições de Poder.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Bibliotecas em transformação

MODERN LIBRARIES Moving From A Transactional To A Relational Library Interview With Mogens Vesrgaard


Os espaços das bibliotecas são espaços públicos, e as suas colecções e serviços cada vez mais fazem a diferença na qualidade de vida das pessoas, e na qualidade e quantidade do acesso a informação. 
Mais que postos de transacções - empréstimo de livros, o que continua a ser útil e importante - as bibliotecas oferecem condições para reunião, estudo, pequenos cursos sobre os mais variados temas, meios e tecnologias actualizados para as mais diversas actividades, apoio e credibilidade no acesso a fontes de informação.  Serão as bibliotecas um Quinto Poder?
Entrevista com um bibliotecário de referência da Dinamarca, divulgada pela Associação de Bibliotecas Escolares da Austrália e publicada e difundida pela Princh.
Inclui destaques com exemplos da vida real de bibliotecas em 2018 - públicas e escolares.


Modern libraries: Moving from a transactional to a relational library: Whilst the library of the past was defined by transactional services – lending and returning of books - nowadays the dynamics of the library has changed by adding a relational side to all its processes. This way, modern libraries are shifting from focusing on transactional services, and have become relational which creates more value for

sexta-feira, janeiro 04, 2019

A paz, o pão, a habitação


Demorei uns meses, mas ainda bem que consegui ler o livro. Interessante, actual, desafiador, sobretudo se quisermos cidades em que podemos morar.
O Estado tem de intervir, com ponderação e firmeza.
"Se se quer garantir o acesso à habitação aos cidadãos que trabalham em Lisboa é necessário actuar, mas não mediante a construção de habitação nova. Uma política de esquerdas deve alterar a lei do arrendamento para proteger o inquilino (mais tempo e mais segurança), mas sobretudo deve regular o preço do arrendamento de acordo com os salários da procura local. Esta medida é urgente e necessária. O actual governo tem possibilidade de intervir nesse sentido, mas não parece ter a mínima intenção de o fazer. O governo também deveria eliminar os "Vistos Gold" e os "Residentes habituais" para limitar a atracção de capitais especulativos. Ao mesmo tempo a Câmara Municipal de Lisboa possui um grande património imobiliário que deveria colocar ao serviço dos cidadãos em vez de promover programas como "Reabilita primeiro e paga depois". Existem programas de concessão de uso que estão a ser implementados noutros sítios e que deveriam ser explorados neste contexto. As possibilidades de regulação e intervenção são múltiplas (...). O importante é ter em conta que o caminho adoptado, tanto pela Câmara Municipal de Lisboa como pelo Governo, só agudiza o problema. Para o capitalismo imobiliário, Lisboa continuará a ser uma oportunidade de extracção de lucro e para nós a batalha diária é para não sermos expulsos da casa que se habita ou para procurar uma casa digna."
Agustin Cocola Gantt
p. 247-248