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domingo, abril 07, 2019

Medo & Poesia - I



O Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis  

Vai ter olhos onde ninguém os veja mãozinhas cautelosas enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no tecto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!) ouvidos nos teus ouvidos  

O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos óptimos empregos poemas originais e poemas como este projectos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários        (assim assim) escriturários        (muitos) intelectuais        (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com certeza a deles  

Vai ter capitais países suspeitas como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados 
Ah o medo vai ter tudo tudo 
(Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) 

O medo vai ter tudo quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos 
Sim a ratos 


Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'  (1960)

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Absurdo quotidiano



smile emoticon


Desconheço o autor da imagem. Encontrei aqui

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!

Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão figuradamente
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.

Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia a dia.

Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!

Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou
nenhuma. Nós queremos ser o aleijado nas ruas, a pedir esmola, a
abardalhar-se frente aos nossos olhos. Queremos ser o pai
desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.

Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia.
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.


Alexandre O'Neill

segunda-feira, novembro 18, 2013

Regresso



Regresso devagar 


ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 

não é nada comigo. Distraído percorro 

o caminho familiar da saudade, 

pequeninas coisas me prendem, 

uma tarde num café, um livro.  Devagar 

te amo e às vezes depressa, 

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa, 

compro um livro, entro 

no amor como em casa. 




in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco 

Tarde", Manuel António Pina.

quarta-feira, agosto 21, 2013


A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

A meu favor tenho uma rua em transe
Um alto incêndio em nome de nós todos

Alexandre O'Neill
(19 de Dezembro de 1924 -21 de Agosto de 1986)

domingo, junho 19, 2011

Fala!

Fala!

Fala a sério e fala no gozo
fa-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão
Fala a miúda mas fala bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala franciú fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

Alexandre O'Neill

quinta-feira, junho 16, 2011

Teimar

Foto Ilha Terceira. Valter Vinagre 2010


A meu favor 
Tenho o verde secreto dos teus olhos 
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor 
O tapete que vai partir para o infinito 
Esta noite ou uma noite qualquer 

A meu favor 
As paredes que insultam devagar 
Certo refúgio acima do murmúrio 
Que da vida corrente teime em vir 
O barco escondido pela folhagem 
O jardim onde a aventura recomeça.  
Alexandre O'Neil

sábado, outubro 23, 2010

Estão a encher-vos de medo / que a vida pim sem eles era impossível

Estão a encher-vos de medo.
Que a vida pim sem eles era impossível
Que o mundo pum não ia perdoar
Que o embaixador da França zaz lhe puxou pela manga
E sussurrou parbleu o orçamento
Qual orçamento
Tem de passar claro absolument.

Estão a paralisar-vos com o medo
Que os comentadores chutt a toda a hora
Em doses letais pof vos injectam
Estais quase mortos plim mas a seguir
É que vos vai faltar calor e agasalho
E o pão balalão vai minguar

Encharcados de medo
Paralisados flop pela aranha de turno
Tudo esperais traz e mudos aceitais
A miséria catrapaz e a estúpida vida
Que é a sorte que essa gente
Vos destina

E é então pum quando tudo parece
Para mais mil vrrum anos resolvido
Que o Rui chegou e sabia ainda a fórmula
Que assustava os ratos na esplanada
E dos carros topo de gama encurralados
A gasolina ou o mijo já escorria
Alexandre O´Neill

pela Natureza do Mal, 18.10.2010

com lerda vénia pum em rouge-qui-ruge vivo