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sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Não tem futuro sem partilha


Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do buraco quente
Meu nome é Jesus da gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E num domingo verde e rosa
Ressurgi pro cordão da liberdade
Mangueira
Samba que o samba é uma reza
Se alguém por acaso despreza
Teme a força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba també

terça-feira, fevereiro 12, 2019

ROSA



AS IDADES DE ROSA MARIA
«Quando tinha seis anos, em 1725, um navio negreiro trouxe-a de África e ela acabou vendida no Rio de Janeiro.
Quando tinha catorze, o dono abriu-lhe as pernas e ensinou-lhe um oficio.
Quando tinha quinze, foi comprada por uma fábrica de Ouro Preto, que passou a alugar o seu corpo aos garimpeiros.
Quando tinha trinta, essa família vendeu-a a um sacerdote, que praticava nela os seus métodos de exorcismo e outros exercícios nocturnos.
Quando tinha trinta e dois, um dos demónios que habitavam o seu corpo fumou pelo seu cachimbo, uivou pela sua boca e fê-lo contorcer-se no chão. E por isso foi condenada a cem chicotadas na praça da cidade de Mariana, e o castigo deixou-lhe um braço paralisado para sempre.
Quando tinha trinta e cinco, jejuou e rezou e mortificou a sua carne com um cilício, e a mãe da Virgem Maria ensinou-a a ler. Segundo dizem, Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi a primeira negra alfabetizada no Brasil.
Quando tinha trinta e sete, fundou um asilo para escravas abandonadas e putas fora de prazo, que financiava vendendo biscoitos amassados com a sua saliva, remédio infalível contra qualquer doença.
Quando tinha quarenta, inúmeros fiéis assistiam os seus transes, onde ela dançava ao ritmo de um coro de anjos, envolta em fumo de tabaco, e onde o Menino Jesus mamava do seu peito.
Quando tinha quarenta e dois, foi acusada de feitiçaria e presa na cadeia do Rio de Janeiro.
Quando tinha quarenta e três, os teólogos confirmaram que era feiticeira porque conseguiu suportar sem uma queixa, durante muito tempo, uma vela acesa sob a língua.
Quando tinha quarenta e quatro, foi enviada para Lisboa e presa na cadeia da Santa Inquisição. Entrou nas câmaras de tortura para ser interrogada e nunca mais se soube dela.»
Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal

terça-feira, fevereiro 13, 2018

Viva a Arte Viva e as Sentinelas da Libertação

Samba enredo da Escola Paraíso do Tuiuti, Brasil 2018





Samba Enredo 2018 - Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?

G.R.E.S Paraíso do Tuiuti



Irmão de olho claro ou da Guiné

Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado

Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor

Tenho sangue avermelhado

O mesmo que escorre da ferida

Mostra que a vida se lamenta por nós dois

Mas falta em seu peito um coração

Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz



Eu fui mandiga, cambinda, haussá

Fui um Rei Egbá preso na corrente

Sofri nos braços de um capataz

Morri nos canaviais onde se plantava gente



Ê Calunga, ê! Ê Calunga!

Preto velho me contou, preto velho me contou

Onde mora a senhora liberdade

Não tem ferro nem feitor



Amparo do Rosário ao negro benedito

Um grito feito pele do tambor

Deu no noticiário, com lágrimas escrito

Um rito, uma luta, um homem de cor



E assim quando a lei foi assinada

Uma lua atordoada assistiu fogos no céu

Áurea feito o ouro da bandeira

Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel



Meu Deus! Meu Deus!

Seu eu chorar não leve a mal

Pela luz do candeeiro

Liberte o cativeiro social



Não sou escravo de nenhum senhor

Meu Paraíso é meu bastião

Meu Tuiuti o quilombo da favela

É sentinela da libertação

quarta-feira, novembro 08, 2017

Democracia, luta diária

 É estranho que desejos democráticos sejam considerados perigosos, diz Judith Butler em SP
Judtih Butler organizou um seminário internacional em São Paulo, Brasil, 6 a 9.11.2017, na Sesc  Pompeia - 'Os fins da democracia' (Foto Erika Mayumi/Divulgação).  A sua presença foi alvo de manifestações de rua - 70 pessoas contra ("não à ideologia de gênero”, “meu filho, minhas regras”, "Fora Butler"), muitas outras a favor (coletivos Além Das Sombras, Pompeia Sem Medo, Democracia Corintiana e Ocupe a Democracia, "Fora Temer")

“Talvez a democracia seja uma aspiração, talvez seja uma forma de governo, além de servir a ideais como igualdade, liberdade e justiça. A democracia é uma luta diária que requer um agrupamento do pensamento crítico dedicado a responder às forças que censuram as palavras, restringem a nossa liberdade, condenam nossos amores e reproduzem legados de violência e dominação.”


Judith Butler, 2017




É estranho que desejos democráticos sejam considerados perigosos, diz Judith Butler em SP

quarta-feira, setembro 06, 2017

Livro do dia. III - Para gostar de ler /Itaú


Era uma vez um filme que falava sobre a importância da leitura infantil na primeira infância. Um filme sobre ler histórias. E mudar histórias. O Itaú apresenta o documentário "Para Gostar de Ler”. Assista. Entenda. Leia para uma criança.
2017
Uma delícia!
Cosias que nos animam

quarta-feira, março 16, 2016

Lilia Schwarcz e Heloisa Starling (sobre Brasil) - Anabela Mota Ribeiro


BRASIL - UMA BIOGRAFIA

A entrevista (2015) faz pensar e abre o apetite para o livro (2015).
"Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling quiseram, não “contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história”. Traçar uma biografia, destacar personagens que habitam uma casa grande (e não apenas os senhores), apontar datas fracturantes, movimentos subterrâneos, convulsões que mudam o mundo de lugar. Violência, mestiçagem, desigualdade, liberdade são alguns dos vocábulos centrais. “Brasil: uma Biografia” é um livro que nos permite olhar para o Brasil actual e perceber heranças, continuidades e rupturas."


Lilia Schwarcz e Heloisa Starling (sobre Brasil) - Anabela Mota Ribeiro

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Deslimites




A menina apareceu grávida de um gavião.

Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.


A mãe disse: Você vai parir uma árvore para



a gente comer goiaba nela.



E comeram goiaba.



Naquele tempo de dantes não havia limites



para ser.



Se a gente encostava em ser ave ganhava o



poder de alçar.



Se a gente falasse a partir de um córrego



a gente pegava murmúrios.



Não havia comportamento de estar.



Urubus conversavam auroras.



Pessoas viravam árvore.



Pedras viravam rouxinóis.



Depois veio a ordem das coisas e as pedras



têm que rolar seu destino de pedra para o resto



dos tempos.



Só as palavras não foram castigadas com



a ordem natural das coisas.



As palavras continuam com seus deslimites.







Manoel de Barros - Matéria de Poesia (1974)

sexta-feira, agosto 05, 2011

Erro





Erro de Português

Quando o português
chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio.
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha
Despido o português.



Oswaldo de Andrade

domingo, dezembro 28, 2008

Fazer balanço, tomar balanço - 3

50 anos em 2009


A busca não é de dar rumo ao povo, mas de estarmos juntos com o povo e sermos menores e servidores entre eles. 

Frei Evaristo Pascoal Spengler, n. 1959 

in Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, 28.12.2008