Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Galeano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Galeano. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, fevereiro 12, 2019

ROSA



AS IDADES DE ROSA MARIA
«Quando tinha seis anos, em 1725, um navio negreiro trouxe-a de África e ela acabou vendida no Rio de Janeiro.
Quando tinha catorze, o dono abriu-lhe as pernas e ensinou-lhe um oficio.
Quando tinha quinze, foi comprada por uma fábrica de Ouro Preto, que passou a alugar o seu corpo aos garimpeiros.
Quando tinha trinta, essa família vendeu-a a um sacerdote, que praticava nela os seus métodos de exorcismo e outros exercícios nocturnos.
Quando tinha trinta e dois, um dos demónios que habitavam o seu corpo fumou pelo seu cachimbo, uivou pela sua boca e fê-lo contorcer-se no chão. E por isso foi condenada a cem chicotadas na praça da cidade de Mariana, e o castigo deixou-lhe um braço paralisado para sempre.
Quando tinha trinta e cinco, jejuou e rezou e mortificou a sua carne com um cilício, e a mãe da Virgem Maria ensinou-a a ler. Segundo dizem, Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi a primeira negra alfabetizada no Brasil.
Quando tinha trinta e sete, fundou um asilo para escravas abandonadas e putas fora de prazo, que financiava vendendo biscoitos amassados com a sua saliva, remédio infalível contra qualquer doença.
Quando tinha quarenta, inúmeros fiéis assistiam os seus transes, onde ela dançava ao ritmo de um coro de anjos, envolta em fumo de tabaco, e onde o Menino Jesus mamava do seu peito.
Quando tinha quarenta e dois, foi acusada de feitiçaria e presa na cadeia do Rio de Janeiro.
Quando tinha quarenta e três, os teólogos confirmaram que era feiticeira porque conseguiu suportar sem uma queixa, durante muito tempo, uma vela acesa sob a língua.
Quando tinha quarenta e quatro, foi enviada para Lisboa e presa na cadeia da Santa Inquisição. Entrou nas câmaras de tortura para ser interrogada e nunca mais se soube dela.»
Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal

quarta-feira, novembro 20, 2013

Liberdade


Pájaros prohibidos1976Libertad 

Los presos políticos uruguayos no pueden hablar sin permiso, silbar, sonreír, cantar, caminar rápido ni saludar a otro preso. Tampoco pueden dibujar ni recibir dibujos de mujeres embarazadas, parejas, mariposas, estrellas ni pájaros.
Didaskó Pérez, maestro de escuela, torturado y preso por tener ideas ideológicas, recibe un domingo la visita de su hija Milay, de cinco años. La hija le trae un dibujo de pájaros. Los censores se lo rompen a la entrada de la cárcel.
Al domingo siguiente, Milay le trae un dibujo de árboles. Los árboles no están prohibidos, y el dibujo pasa. Didaskó le elogia la obra y le pregunta por los circulitos de colores que aparecen en las copas de los árboles, muchos pequeños círculos entre las ramas:
- ¿Son naranjas? ¿Qué frutas son?
La niña lo hace callar:
- Ssshhhh.
Y en secreto le explica:
- Bobo. ¿No ves que son ojos? Los ojos de los pájaros que te traje a escondidas.


Pássaros proibidos
1976
Liberdade

O presos políticos urugaios não podem falar sem autorização, nem assobiar, sorrir, cantar caminhar depressa nem saudar outro preso. Tampouco podem desenhar nem receber desenhos de mulheres grávidas, casais, borboletas, estrelas ou pássaros.
Didaskó Perez, professor da escola primária, torturado e preso por ter ideias ideológicas, recebe num domingo a visita da sua filha Milay, de cinco anos. A filha traz-lhe um desenho de pássaros. Os censores rasgam-no à entrada da prisão.
No domingo seguinte, Milay traz-lhe um desenho de árvores. As árvores não estão proibidas, e o desenho passa. Didaskó elogia-lhe a obra e pergunta-lhe pelos circulozinhos de cores que aparecem entre as copas das árvores, muitos pequenos círculos entre os ramos:
- São laranjas? Que frutas são?
A menina fá-lo calar-se:
- Ssshhhh.
E em segredo explica-lhe:
- Tonto. Não vês que são olhos? Os olhos dos pássaros que te trouxe às escondidas.
Trad. livre para português (PT) 
Maria José Vitorino (2013)

Obra traduzida em português (BR)
Notícia/compra também aquiaqui e também aqui

quarta-feira, julho 13, 2011