sábado, março 02, 2019

Lourense H. Das


Not "for" us, never against us, always with us.
If I had a flag for Lourense, I'll paint hese words on it.
In every language, even those that are now lost, specially those who are being invented.

Sometimes we feel closed doors all around. And there is a special kind of human beings that are precious: those who helped us to open windows, start a new path, find a solution, a better way.
Lourense H. Das knew how to do it, and really did it.

All over the world, and also with so many Portuguese, walking with us for education, reading, democracy, fraternity. Long before 2015, and also after, always with kindness, bravery and sharp ideas.
Two years ago, she came once again to Portugal and remind us what networking is really about - open windows, not shutting doors. Wisdom and human connections, communication, love, and not technologicaç devices. Critical thinking, humanity and freedom, not darkness and selfishness.
It is hard to me to write about Lourense, and I wish I could be with her family today. She would way to me there is many ways to be with those we love.
As usual, she would be wright. As usual, she would be part of this new, shining day.
Oh, how we do miss her!


The celebration of Lourense’s life will be held on Saturday, March 2nd between 1.30 PM and 4.30 PM at Crematorium Weerterland, Ringselvenweg 2, Weert. [the Netherlands]Please share your memories of Lourense and messages to her family on the funeral home webpage here: https://www.uitvaart-vangansewinkel.nl/site/aggeloo_condoleance.html On Lourense's condolences page, you will see the space for "Uw naam" = "Your Name"You can "Add a photo or image to this memory" in the space "Uw herinnering verrijken met een foto of afbeelding" (the grey button "selecteer afbeelding" means "select file to upload")"Uw bericht" = "your message" - please remember to add your country so Lourense's family knows how far her influence has spread!When you are finished, click "Uw bericht plaatsen" to "post your message"

terça-feira, fevereiro 12, 2019

ROSA



AS IDADES DE ROSA MARIA
«Quando tinha seis anos, em 1725, um navio negreiro trouxe-a de África e ela acabou vendida no Rio de Janeiro.
Quando tinha catorze, o dono abriu-lhe as pernas e ensinou-lhe um oficio.
Quando tinha quinze, foi comprada por uma fábrica de Ouro Preto, que passou a alugar o seu corpo aos garimpeiros.
Quando tinha trinta, essa família vendeu-a a um sacerdote, que praticava nela os seus métodos de exorcismo e outros exercícios nocturnos.
Quando tinha trinta e dois, um dos demónios que habitavam o seu corpo fumou pelo seu cachimbo, uivou pela sua boca e fê-lo contorcer-se no chão. E por isso foi condenada a cem chicotadas na praça da cidade de Mariana, e o castigo deixou-lhe um braço paralisado para sempre.
Quando tinha trinta e cinco, jejuou e rezou e mortificou a sua carne com um cilício, e a mãe da Virgem Maria ensinou-a a ler. Segundo dizem, Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi a primeira negra alfabetizada no Brasil.
Quando tinha trinta e sete, fundou um asilo para escravas abandonadas e putas fora de prazo, que financiava vendendo biscoitos amassados com a sua saliva, remédio infalível contra qualquer doença.
Quando tinha quarenta, inúmeros fiéis assistiam os seus transes, onde ela dançava ao ritmo de um coro de anjos, envolta em fumo de tabaco, e onde o Menino Jesus mamava do seu peito.
Quando tinha quarenta e dois, foi acusada de feitiçaria e presa na cadeia do Rio de Janeiro.
Quando tinha quarenta e três, os teólogos confirmaram que era feiticeira porque conseguiu suportar sem uma queixa, durante muito tempo, uma vela acesa sob a língua.
Quando tinha quarenta e quatro, foi enviada para Lisboa e presa na cadeia da Santa Inquisição. Entrou nas câmaras de tortura para ser interrogada e nunca mais se soube dela.»
Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal

domingo, fevereiro 10, 2019

Netos de Aristides de Sousa Mendes acusam em tribunal defensores de Salazar. Justiça e memória!



Grata à Família que assim se continua a ilustrar, para bem de todos nós. Recorde-se que Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no ano de 1940, pela sua fraternidade, bravura e compaixão, salvou milhares de pessoas, e pagou o preço da ruína por isso.

Aristides e Salazar voltam a encontrar-se em tribunal: O rol das acusações não é curto (ofensa à memória de pessoa falecida e difamação, por exemplo). Mas inclui também um crime de que não há memória de ter sido alguma vez julgado em Portugal: negacionismo do Holocausto. Este está previsto no artigo 240.º do Código Penal e prevê uma pena de prisão de seis meses a cinco anos para quem, publicamente, proceder à "apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade".

Essa acusação - que agora o tribunal terá de dirimir, julgando-a ou não - surge porque os réus terão desvalorizado a ação de Sousa Mendes em junho de 1940 em Bordéus com o argumento de que, nessa altura, os judeus não estavam verdadeiramente em perigo.

"Aristides não salva ninguém da morte"


Os autores da queixa são quatro netos do cônsul: António Pedro, Guy Gerald, Sheila Pierce e Aristides. E os réus da Texto Principal (editora proprietária do semanário O Diabo), Duarte Branquinho e Miguel Mattos Chaves (ambos ex-diretores daquele jornal), Carlos Fernandes (um embaixador reformado) e João Brandão Ferreira (coronel reformado). A estes os queixosos pedem, ao todo, 150 mil euros de indemnização cível.

sábado, fevereiro 09, 2019

2019, e ainda nisto...


"A primeira coisa que é preciso perceber: não são as mulheres burras que caem nas mãos dos homens maus. Não é o capuchinho vermelho que cai na mão do lobo mau. É qualquer pessoa.O pior é pensar que quem cai e quem não consegue sair desta situação fá-lo por falta de inteligência. Acredito que em parte seja por vergonha. Por muita vergonha.Uma das coisas com que o agressor conta é com a vergonha da vítima. Com o seu silêncio. Também com a desatenção dos amigos e da família.O agressor conta com o isolamento da vítima; e até, tendo em conta o elevado número de penas suspensas, com a complacência das autoridades."

https://vidaextra.expresso.pt/cronicas/2019-02-08-Porque-e-que-alguem-fica-com-um-homem-que-lhe-bate---Eu-sei-o-que-e-violencia-domestica-e-tu--

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Lisboa, não sejas racista


Lisboa, não sejas racista
Não é só pra turista
Vir e ocupar
Lisboa, não sejas racista
Velha cavaquista
Não queiras voltar
Lisboa, não sejas racista
E crê que esta lista
Não vai amansar
Lisboa, não vives não falas
Tira-me essas palas
E aprende a escutar

sábado, fevereiro 02, 2019

Vitórias. Behrouz Bouchani

Manus Island refugee Behrouz Boochani.
Finte: BBC News

Victorian Premier's Literary Awards - Behrouz Boochani, No Friend But the Mountains: Writing from Manus Prison 

O jornalista curdo escreveu um livro sobretudo com mensagens WhatsApp enviadas da prisão. Foi um dos 6 nomeados para o Prémio Literário, na secção  de não-ficção.
Ganhou o primeiro prémio.
"É uma vitória não apenas para nós, mas também para a Literatura e a Arte, e é, sobretudo, uma vitória para a Humanidade - uma vitória para os seres humanos e a dignidade humana. Uma vitória contra um sistema que nos reduziu a números. Este é um belo momento.", afirma.
O Prémio é o mais importante prémio literário australiano. 


Ler mais aqui

quarta-feira, janeiro 30, 2019

Música para ousar transformar a vida



Ana Moura, 2012
Letra e música de Caetano Veloso ------------------------------------------------- Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro Percorrer correndo, corredores em silêncio Perder as paredes aparentes do edifício Penetrar no labirinto Um labirinto de labirintos dentro do apartamento Sim, eu poderia procurar por dentro a casa Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas Na sala receber o beijo frio em minha boca Beijo de uma deusa morta Deus morto, fêmea língua gelada, língua gelada como nada Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília Em cada um matar um membro da família Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia O que aconteceria de qualquer jeito Mas eu prefiro abrir as janelas Pra que entrem todos os insetos


Versão original, inesquecível, de Caetano Veloso (1972) aqui https://youtu.be/Y4NWN2qMo4g



Leitura matinal, dedicada a quem vejo ficar fechado em círculos estreitos, e precisa de banhos de realidade urgentemente. Sem me excluir desse risco, que nos pode acontecer a todos. Sobretudo a quem ocupa, ou pensa ocupar, posições de Poder.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Bibliotecas em transformação

MODERN LIBRARIES Moving From A Transactional To A Relational Library Interview With Mogens Vesrgaard


Os espaços das bibliotecas são espaços públicos, e as suas colecções e serviços cada vez mais fazem a diferença na qualidade de vida das pessoas, e na qualidade e quantidade do acesso a informação. 
Mais que postos de transacções - empréstimo de livros, o que continua a ser útil e importante - as bibliotecas oferecem condições para reunião, estudo, pequenos cursos sobre os mais variados temas, meios e tecnologias actualizados para as mais diversas actividades, apoio e credibilidade no acesso a fontes de informação.  Serão as bibliotecas um Quinto Poder?
Entrevista com um bibliotecário de referência da Dinamarca, divulgada pela Associação de Bibliotecas Escolares da Austrália e publicada e difundida pela Princh.
Inclui destaques com exemplos da vida real de bibliotecas em 2018 - públicas e escolares.


Modern libraries: Moving from a transactional to a relational library: Whilst the library of the past was defined by transactional services – lending and returning of books - nowadays the dynamics of the library has changed by adding a relational side to all its processes. This way, modern libraries are shifting from focusing on transactional services, and have become relational which creates more value for

sexta-feira, janeiro 04, 2019

A paz, o pão, a habitação


Demorei uns meses, mas ainda bem que consegui ler o livro. Interessante, actual, desafiador, sobretudo se quisermos cidades em que podemos morar.
O Estado tem de intervir, com ponderação e firmeza.
"Se se quer garantir o acesso à habitação aos cidadãos que trabalham em Lisboa é necessário actuar, mas não mediante a construção de habitação nova. Uma política de esquerdas deve alterar a lei do arrendamento para proteger o inquilino (mais tempo e mais segurança), mas sobretudo deve regular o preço do arrendamento de acordo com os salários da procura local. Esta medida é urgente e necessária. O actual governo tem possibilidade de intervir nesse sentido, mas não parece ter a mínima intenção de o fazer. O governo também deveria eliminar os "Vistos Gold" e os "Residentes habituais" para limitar a atracção de capitais especulativos. Ao mesmo tempo a Câmara Municipal de Lisboa possui um grande património imobiliário que deveria colocar ao serviço dos cidadãos em vez de promover programas como "Reabilita primeiro e paga depois". Existem programas de concessão de uso que estão a ser implementados noutros sítios e que deveriam ser explorados neste contexto. As possibilidades de regulação e intervenção são múltiplas (...). O importante é ter em conta que o caminho adoptado, tanto pela Câmara Municipal de Lisboa como pelo Governo, só agudiza o problema. Para o capitalismo imobiliário, Lisboa continuará a ser uma oportunidade de extracção de lucro e para nós a batalha diária é para não sermos expulsos da casa que se habita ou para procurar uma casa digna."
Agustin Cocola Gantt
p. 247-248

sexta-feira, dezembro 07, 2018

12 gráficos para tomar as medidas às desigualdades - França, 2018



Por detrás das desigualdades de rendimentos estão outras desigualdades igualmente decisivas para o sentimento de não se terem as mesmas oportunidades, e nomeadamente a capacidade de mobilizar um capital escolar, cultural, ou social para sair dessa situação. " A cólera dos coletes amarelos (...) inscreve-se numa evolução ao mesmo tempo económica (a perda ou a estagnação do poder de compra), social (o cruzamento das desigualdades, as dificuldades de habitação, do acesso à universidade, o desaparecimento dos serviços públicos de proximidade...), territorial (a desvalorização real ou como tal sentida pelos habitantes das periferias, dos peri-urbanos e dos rurais) e política." resume Laurent Mucchielli, sociólogo e investigador do CNRS, 
12 extraordinários gráficos, interativos, enriquecem esta publicação (em francês)

12 graphiques pour prendre la mesure des inégalités

sábado, dezembro 01, 2018

“Todos nós seremos obsoletos”

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Temos de estimular compromissos pessoais com a aprendizagem, com o conhecimento e com a abertura à inovação e à diversidade. Temos de compreender que se insistirmos em modelos educativos avessos ao erro e estritamente expositivos, com pouco feedback, onde se espera que o aluno acumule e reproduza informação, sentado e calado, estaremos a educar para a dependência, a passividade e a conformidade – características que limitarão muito a realização do seu potencial.

Que competências identifica como críticas neste novo paradigma?
Existem diferentes modelos teóricos que organizam as competências sociais e emocionais em taxonomias. O mais consensual, “The Big Five”, organiza-as em cinco domínios: 1) A abertura à experiência; 2) Consciência; 3) Amabilidade; 4) Extroversão e 5) Estabilidade Emocional. Todas são muito importantes. Nas Academias Gulbenkian Conhecimento selecionámos três grandes áreas de resultado – Agência, Compromisso e Colaboração – que se desdobram em sete competências: Adaptabilidade, Autorregulação; Comunicação; Pensamento Criativo; Pensamento Crítico, Resiliência e Resolução de Problemas.




“Todos nós seremos obsoletos”

sexta-feira, novembro 30, 2018

ANTES ISSO

Livro Poemas


COMPLICAÇÃO


As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento. 
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras. 
E ter de subir a encosta para a poder descer. 
E ter de vencer o vento. 
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo. 
As complicações, os atritos para as coisas mais simples. 
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente. 
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil. 
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência 
e o fim é infinito.
Ainda bem. 
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.





Mário Dionísio


[Livro Poemas - Mário Dionísio] Centro Mário Dionísio

Libros en la bolsa: el último tipo de clubes de lectura

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Clubes de lectura en una bolsa es un nuevo tipo de club de lectura entre personas que pueden ser un grupo de amigos o una asociación, la biblioteca proporciona un kits de libros en una bolsa con suficientes copias del título seleccionado para cada uno de los miembros y una guía para el grupo de lectura con preguntas para iniciar la sesión de lectura en grupo. El periodo de préstamo suele ser de unas 6 u 8 semanas, y cada bolsa contiene una media de entre 6 y 12 libros. La mayoría de las bibliotecas ofrecen más de 100 títulos para elegir, incluyendo ficción, no ficción, clásicos y best sellers.
Esta nueva forma de clubes de lectura es ideal para grupos de amigos. La biblioteca ofrece diferentes bolsas con distintos títulos que se pueden reservar con antelación, lo ideal es planificar las lectura que el grupo va a hacer a lo largo del año y que el miembro encargado de coordinarlo planifique y reserve las lectura  que va a hacer con tiempo suficiente para que cuando vaya a devolver una de las bolsas, pueda tener a disposición la siguiente.
Libros en la bolsa: el último tipo de clubes de lectura

domingo, novembro 18, 2018

Paulo Nozolino - lutar contra a desmemória

 Paulo Nozolino durante a inauguração de uma das suas últimas exposições em Lisboa, em 2011

ANA BAIÃO
A fotografia é agora um lugar comum, uma prática chinesamente democrática graças ao telemóvel. A voracidade de fazer imagens e de as disseminar criou um novo problema. A mediocridade e a banalização de tudo o que nos rodeia. Niepce ficaria estupefacto, se fosse vivo. O que demorou quase dois séculos a ser consolidado, foi destruído em apenas dez anos", disse referindo-se ao Instagram e às redes sociais sem nunca as citar.
Das suas palavras ficam ainda dois sinais de esperança: no livro ("o único meio de preservar a memória") e na promessa de continuar a trabalhar ("a fotografia é a minha maneira de lutar contra a desmemória, a minha maneira de estar vivo e a única coisa que tenho para dar"). O livro em causa é também isso mesmo: um repositório das viagens e das memórias de um fotógrafo. 


Paulo Nozolino: “Entre vós estão cínicos, invejosos e inimigos. Se tivessem coragem sairiam neste momento da sala”

quinta-feira, novembro 15, 2018

NeoRealismo: The New Image in Italy, 1932–1960

Piergiorgio Branzi Piazza Grande in Burano Venice, 1957 © Piergiorgio Branzi


NeoRealismo: The New Image in Italy, 1932–1960

Aprenderemos alguma coisa com os índios?

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Imagem daqui
Para mostrar que nem tudo se aplica em todo o lado, sem olhar às características particulares de cada povo ou de cada cultura, recordou uma carta antiga, enviada por chefes índios aos governantes de dois estados norte-americanos, Virgínia e Maryland, na sequência de um tratado de paz. Os índios tinham enviado alguns dos seus “bravos” para estudar com os “caras-pálidas” (para usar a linguagem do faroeste, disse Zau), estes regressaram às tribos e depois a proposta renovou-se: queriam eles enviar mais alunos? A resposta, já reproduzida muitas vezes em livros e na internet, por ter sido à data divulgada por Benjamim Franklin (1706-1790), diz o seguinte: “Estamos convencidos (...) que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa. (...) Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens.” Não interessa aqui o discurso do bom selvagem nem o da inutilidade da educação ou do progresso, ambos falsos. Interessa, sim, a noção de desajuste. Porque mesmo a mais avançada das tecnologias deve, ao ser aplicada, ter em conta a comunidade a que se destina. Porque é inegável a importância da diversidade.
Nuno Pacheco, Público, 2018 


Aprenderemos alguma coisa com os índios?

quinta-feira, novembro 08, 2018

RiseUP Portugal: O Neoliberalismo é um Fascismo

 A performer in Garth Knight’s “living sculpture” Submission.
A performer in Garth Knight’s “living sculpture” Submission. Photograph: Jodie Barker

A salvação por aliança
Este contexto ameaça, sem alguma duvida, os fundadores das nossas democracias, mas por isso mesmo condena ao desespero e desencorajamento? Certamente que não. Há 500 anos, no auge das derrotas que fizeram cair a maior parte dos estados italianos, impondo-lhes uma ocupação estrangeira de mais de três séculos, Nicolas Maquievel exortava os homens virtuosos a enfrentar o destino e, face à adversidade dos tempos, preferir a acção e a audácia do que a prudência. Por mais que a situação seja trágica, mais ela pede acção e recusa "o abandono".(O Príncepe,capitulos XXV XXVI).
 

Essa lição impõe-se de forma evidente à nossa época, na qual tudo parece comprometido. A determinação dos cidadãos profundamente ligados aos valores democráticos constitui um inestimável recurso que, pelo menos na Bélgica, ainda não revelou o seu potencial de mobilização e o poder de modificar o que é inelutável. 
Graças às redes sociais e à liberdade de expressão que estas facilitam, cada um pode agora se manifestar particularmente no seio dos serviços públicos, nas universidades, no mundo estudantil, na magistratura e nos tribunais para levar o bem comum e a  justiça ao seio do debate público e ao seio da administração do Estado e dascomunidades. 
O neoliberalismo é um fascismo. Deve ser combatido e um humanismo total deve ser restabelecido.

RiseUP Portugal: O Neoliberalismo é um Fascismo: Este é um excelente texto escrito por Manuela Cadelli, Presidente da Associação Sindical dos Magistrados Belgas, publicado no site belga ...

quarta-feira, outubro 31, 2018

Projeto educativo criado pela Universidade do Minho vence primeiro Prémio Ler+


A plataforma Ainda Estou a Aprender é um recurso didático e interativo para ajudar as crianças do 1.º ciclo a ler melhor, em desenvolvimento desde 2014, num projeto que envolve 18 investigadoras, coordenado pela Professora Doutora Iolanda Ribeiro, da Universidade do Minho.

São objectivos da Plataforma:
  • uma revisão das questões e problemáticas em torno da avaliação e da intervenção nas DAL (Dificuldades de Aprendizagem da Leitura);
  •  materiais e atividades de avaliação que permitam a caraterização do padrão de aquisições e de dificuldades dos alunos na leitura;
  • materiais e atividades de intervenção que permitam responder às dificuldades de leitura apresentados pelos alunos.
  • paralelamente, espera-se facilitar o acesso dos agentes da ação educativa aos resultados da investigação em dificuldades de aprendizagem na leitura, contribuindo para a formação e ação informadas de professores neste âmbito específico.




https://www.aindaestouaprender.com/





Fonte da informação:

Projeto educativo criado pela Universidade do Minho vence primeiro Prémio Ler+, 2018



Blogue RBE, 2016


domingo, outubro 28, 2018

Bolsonaro, anti-sistema - só contaram para você...

 
"Em 1988, Bolsonaro declarava ter bens avaliados em pouco mais de 10 mil reais em valor atual. Desde essa data até hoje, o deputado declarou apenas o salário de parlamentar e o que recebe do Exército como capitão na reserva. No entanto, nesse mesmo espaço de tempo, o seu património e o da sua família multiplicaram-se exponencialmente.Conseguiu construir essa imagem por nunca ter exercido nenhum cargo de governo e nunca se ter candidatado à Presidência. O seu discurso radical de direita fala para os que estão contra “tudo o que está aí”, frustrados com anos de governos do PT e de polarização PT-PSDB.
Mas o capitão é o mais sistémico que se possa imaginar. Está na política há 30 anos, foi deputado por diversos partidos, na maior parte do tempo filiado ao PP, um dos centros de corrupção do país.
Acumulou fortuna nesses 30 anos em que viveu do erário público. O seu atual partido, o PSL, foi o que mais votou a favor das iniciativas do governo Temer(link is external), mais ainda do que o próprio MDB. Na verdade, dizer que Bolsonaro é antissistema é a maior de todas as fakenews"




Perguntas e respostas sobre Jair Bolsonaro

Os livros na corda bamba da democracia brasileira | PublishNews



 
"O grande editor Jason Epstein, no seu O negócio do livro, nos recorda que “publicar livros não é um negócio convencional”. E certamente cabe a esse negócio, como já demonstraram os grandes autores, editores e livreiros do Brasil e de muitos países do mundo, que resistir ao pensamento único e à restrição das liberdades democráticas é uma das nossas tarefas mais sublimes e impositivas."
J. Castilho, 2018 


Os livros na corda bamba da democracia brasileira | PublishNews

segunda-feira, outubro 22, 2018

REDES DE CONHECIMENTO - Olhares - Ana Luisa Amaral

Um privilégio, e uma descoberta ainda maior. Obrigada, Ana Luísa Amaral, Cristina Taquelim, Luís Carmelo, Mafalda Milhões, Miguel Horta, São Correia, Luis Barbieri e Memoriamedia. Obrigada Andarilhas 2018.

REDES DE CONHECIMENTO - Maria José Barriga e Alexis Pimienta


Destaco aqui o video da conversa na Mouraria "Redes de Conhecimento", com Alexis Pimienta, repentista, Maria José Barriga, investigadora, que desmontam o conceito do "inatismo", de que não se pode aprender a improvisar... A começar pelo que se aprende por imitação.


Mas as Palavras Andarilhas 2018 já conta em emória 11 videos Youtube.
Ora espreitem lá, escutem, aproveitem. Vencemos a barreira do calendário, e de repente estamos em Beja, e em Agosto, andarilhos e andarilhas
A aprender, uns com os outros.

A vida é tão rara!


Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...


terça-feira, outubro 16, 2018

Paulo Freixinho, leitor





Partilhar o que se leu, e contar a história de como nos fazemos leitores, em voz calma e pausada, usando o meio Youtube para sugerir leituras... porque gostamos.

Paulo Freixinho, cruciverbalista, escreve palavras cruzadas que trazem prazer e sorrisos a muita gente, que gosta de magicar nestas coisas da fala e da escrita. Desta vez, saltou do jornal para o écran, e generosamente nos alerta para vários autores, dezenas de livros, sempre com aquele jeito simpático de quem gosta de viver e conviver.

Os livros?

Vejam o video (16 minutos), que até tem uma bibliografia (capas) nos últimos minutos, 150 títulos bem escolhidos e lidos.


quarta-feira, setembro 26, 2018

Mundo Cão - As mulheres que muito amamos sem regresso nem lamento



Dia 6, pelas 22h00, no FOLIO  http://obidosvilaliteraria.com/folio-festival-literario-internacional-de-obidos/

Ele não, ele nunca,ele jamais



 
Marcia Tiburi, 2018
"O fascista apresenta compulsão à submissão e, ao mesmo tempo, à dominação. É um submisso, que demonstra dependência com poderes ou instituições externas, mas que, ao mesmo tempo, quer dominar terceiros e eliminar os diferentes. É, portanto, um masoquista e um sádico, que não hesita em transformar o outro em mero objeto e goza ao vê-lo sofrer."

segunda-feira, setembro 17, 2018

Dedo na Ferida - Documentário de Silvio Tendler (Parte 5/5)

″Impor o celibato a um monge ou sacerdote é absurdo″





A sexualidade imposta aos clérigos é artificial, porque é imposta pura e simplesmente como um dever. Se formos ver bem, o próprio clero já nem considera o celibato como um ato de purificação. Portanto, a sexualidade faz parte do ser humano, se é reprimida pelo celibato, proibida, sublimada, irá ressaltar por qualquer outro lado
(...)

Enquanto no passado as igrejas poderiam ser as únicas instituições de solidariedade, de defesa dos pobres e de bem-estar dos indivíduos, etc., agora a própria sociedade desempenha esse papel e reclama-se detentora desses valores. A sociedade já não precisa de uma instituição universal para impor valores de segurança, de solidariedade e de amor, ela própria tem esses valores devido à evolução da mentalidade social e universal. Se as igrejas não percebem isto, se não se adaptarem aos novos valores da sociedade, valores de solidariedade social, em que há os pobres, o amor, o bem-estar dos indivíduos, correm o risco de ficar para trás. Se elas se fixarem nestes valores poderão conseguir mais adeptos, se se fixarem na moral antiga e nos dogmatismos antigos irão perder as suas audiências.


Isso significa que a sociedade de hoje construiu seres que não necessitam tanto de espiritualidade?

Construiu seres que já não precisam que alguém lhes imponha uma espiritualidade

″Impor o celibato a um monge ou sacerdote é absurdo″

sexta-feira, setembro 14, 2018

E por vezes

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E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão- Ferreira

segunda-feira, setembro 10, 2018

Bibliotecas, porquê? Porque o mundo não tem de ser sempre assim...

Page six of Neil Gaiman and Chris Riddell’s book Art Matters. ART MATTERS by Neil Gaiman, illustrated by Chris Riddell is published by Headline on 6th September



E muitas outras imagens inspiradoras
Neil Gaiman and Chris Riddell on why we need libraries – an essay in pictures

David Bowie - Starman







There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie

sexta-feira, setembro 07, 2018

Imaginar para enxergar melhor

Em seus ensaios o senhor adiantou muitos dos problemas da sociedade atual: a fragmentação das experiências, os perigos da flexibilidade que iria melhorar nossa vida e acabou levando o trabalho a cada minuto e local de nossa vida privada... Simplesmente vejo o que acontece. Muitas vezes as pessoas enxergam mais com a imaginação do que com os olhos.



Entrevista | Richard Sennett: “O gratuito significa sempre uma forma de dominação”

Imaginar para enxergar melhor

Em seus ensaios o senhor adiantou muitos dos problemas da sociedade atual: a fragmentação das experiências, os perigos da flexibilidade que iria melhorar nossa vida e acabou levando o trabalho a cada minuto e local de nossa vida privada... Simplesmente vejo o que acontece. Muitas vezes as pessoas enxergam mais com a imaginação do que com os olhos.



Entrevista | Richard Sennett: “O gratuito significa sempre uma forma de dominação”

terça-feira, setembro 04, 2018

Direito à Vida Por Inteiro - Artes, Cultura

Texto alt automático indisponível.

“A gente não quer só comida”: o direito à arte e a uma vida por inteiro*

PEDRO RODRIGUES·TERÇA-FEIRA, 4 DE SETEMBRO DE 2018
O primeiro semestre de 2018 foi relativamente agitado no que diz respeito ao financiamento público da criação e da programação artísticas em Portugal. Quase tudo foi dito e escrito sobre o que se passou e eu arrisco apenas fazer aqui um brevíssimo resumo:
- manteve-se o sub-financiamento da actividade artística por parte do Estado;
- houve um ligeiro alargamento da consciência dessa realidade por parte da população;
- houve mobilização entre os profissionais do sector e houve mobilização popular;
- houve um inaceitável comportamento por parte do Governo (Primeiro-Ministro incluído) na gestão de todo o processo de revisão do Modelo de Apoio Público às Artes;
- houve posições claras e fortes por parte do Bloco e do PCP;
- houve ligeiríssimas conquistas, que não resolveram nenhum dos problemas que subsistem nesta matéria nem permitem satisfazer as necessidades do país.
- em suma, repetindo o grito a que milhares de pessoas quiseram dar voz em várias cidades do país a 6 de Abril, “isto não acaba aqui”. Isto não pode acabar aqui, nem assim.

Creio que importa, à entrada de um novo ano político e quando se prepara o último Orçamento do Estado feito por um Governo que temos ajudado a viabilizar, reflectir sobre o que continua a estar em causa em matéria de política pública para as artes, parte importante do universo mais vasto a que se convencionou chamar “Cultura”.
Entendo que, para além da escassez das condições materiais para o exercício da actividade cultural de serviço público que subsistem em Portugal – consequência directa do investimento público que sucessivos governos têm decidido não fazer – o problema mais sério (porque estrutural, duradouro e a agravar-se) é o facto de continuar a ser ambíguo o lugar que a Cultura (e em particular a Arte) deve ocupar na vida da comunidade e, em consequência, no conjunto das políticas públicas. É na prática ambíguo (ou irregular, se preferirem) o lugar em que colocamos a Cultura entre os direitos sociais pelos quais lutamos diariamente – mesmo à Esquerda, mesmo, às vezes, no Bloco de Esquerda.
Por trás de um aparente (mas cínico e muitíssimo frágil) consenso sobre a importância da Cultura, subsiste no debate político, partidário e mediático uma confrangedora falta de discussão sobre as bases em que se funda este direito. Reflectir sobre elas, discutindo e divergindo onde tivermos de divergir (em particular com quem está à nossa Direita), parece-me essencial para que possamos finalmente construir algo de verdadeiramente transformador.

Concentremo-nos nas artes, campo da Cultura a vários níveis exemplar do que se passa com outras áreas relativas à produção e partilha de conhecimentos. Porque é tão importante para a democracia a disseminação do acesso às artes, quer ao nível da criação quer da fruição? Porque é tão importante que esta fruição da cultura, estabelecida como direito universal na Constituição que ainda nos rege, implique uma atitude activa, crítica, reflexiva por parte das cidadãs e dos cidadãos, contra o rolo compressor e homogeneizador que nos procura transformar em meros consumidores de formas, modelos e conteúdos impostos pelo mercado e pelos seus poderes?
A dificuldade em respondermos de forma simples, clara, directa e facilmente compreensível pela generalidade da população inibe-nos com frequência de respondermos aos ataques do liberalismo com a mesma firmeza com que respondemos noutras áreas, igualmente sob ataque cerrado e contínuo, como bem sabemos. Pior, tem-nos inibido, à esquerda, de aprofundarmos a reflexão e a construção da proposta transformadora, em consonância com a sociedade que queremos, com o país queremos. Demasiadas vezes também nós nos ficamos – nos discursos e na prática política – pela mera superfície da questão, sem que nos consigamos libertar das regras do jogo que nos são impostas, contrárias ao interesse público.

É realmente uma luta difícil. Sob um certo ponto de vista, mais difícil do que na Saúde, na Protecção Social, na Educação. Num país como Portugal, em que apesar de tudo subsistem traços de social-democracia:
- é consensual que quem está doente deve ter acesso a cuidados médicos;
- é consensual que devem ser garantidos tecto e comida a quem não tem meios de subsistência;
- é consensual que toda a gente tem o direito (e a obrigação) de aprender a ler e a fazer contas (até o mercado precisa disso).
Apesar dos ataques que afectam estas áreas essenciais da nossa vida colectiva e das limitações com que nos confrontamos a toda a hora e que a toda a hora denunciamos e combatemos, nestes campos ainda fazemos a luta, por paradoxal que possa parecer, numa situação de vantagem. A vantagem de que toda a gente sabe que temos razão, contra a qual se opõem apenas o estafado argumento da falta de meios ou a vontade de dar dinheiro a ganhar a privados na prestação destes serviços públicos. A vantagem de estarmos a falar de direitos sociais que felizmente conseguimos (também é mérito nosso, da esquerda que por eles lutou) que a generalidade da população sentisse como seus, depois do 25 de Abril. 
Na Cultura não é assim. Será por isso – adianto como primeira hipótese – que tem sido tão fácil cortar no financiamento público às artes aos primeiros sinais de austeridade e manter a parcela do Orçamento do Estado dedicada à cultura em níveis tão baixos, tanto em termos absolutos como relativos; será por isso que é tão difícil aprofundar a discussão – do outro lado temos quem precisamente não quer que as pessoas sintam que têm este direito e esta necessidade, que não lutem por ele; será por isso que os poderes (políticos e mediáticos) tantas vezes tratam os profissionais das artes ora como figuras decorativas, ora como pedintes, ora como crianças que não entendem as dificuldades de quem governa; será por isso que mesmo os nossos programas (apesar de se diferenciarem de forma muito significativa dos que são feitos à nossa direita) não têm sido capazes de assumir em pleno o potencial transformador e emancipatório de uma sociedade em que o direito à arte está realmente a par dos restantes direitos sociais.
É por isto que nesta área a luta é tão exigente e os trabalhos redobrados. Ao mesmo tempo que lutamos pela prestação de níveis mínimos de serviço público, estamos ainda – 44 anos depois de Abril – a lutar pelo reconhecimento de um direito.
O contacto regular com diferentes formas de expressão artística – literatura, cinema, música, dança, teatro, artes visuais, entre outras – enriquece a nossa capacidade de ler o mundo e de imaginar e construir alternativas; reforça os instrumentos de que dispomos para atribuir valor e sentido aos espaços e aos contextos sociais em que vivemos; estimula o pensamento crítico e a curiosidade; aumenta a capacidade (e a vontade) de comunicarmos com o outro e com a diferença; assume-se como campo propício à realização dos indivíduos, desafiados a identificarem, exercitarem, desenvolverem e partilharem as suas capacidades intelectuais; é fonte e veículo de conhecimentos plurais; auto-reproduz-se, propaga-se com facilidade em terrenos férteis ou minimamente preparados e raramente seca depois de enraizado; é, frequentemente, causa de felicidade para quem cria e para quem acede ao resultado.

É aqui – e não em eventuais retornos financeiros, contributos para o PIB, promoções dos territórios ou sequer na integração social de minorias mais ou menos desfavorecidas – que reside o papel essencial da Arte (e da cultura, em geral). É aqui que reside o potencial transformador e emancipatório das artes e o contributo imprescindível para o aprofundamento da democracia e da participação das cidadãs e dos cidadãos na vida colectiva.
É aqui, portanto, que reside o interesse público da Arte e a necessidade de o Estado assegurar a prestação de um serviço público nesta área, seja directamente através das suas instituições (bibliotecas, museus, monumentos, teatros nacionais, estruturas públicas de criação artística, equipamentos culturais nacionais e municipais, entre outros), seja através da contratualização com estruturas e indivíduos da sociedade civil (que faz particular sentido no caso das artes, dada a heterogeneidade e a pluralidade de vozes e expressões que é necessário assegurar).
É por isto (e não porque os artistas precisam de viver ou porque supostamente têm capacidade de fazer muito barulho) que um Orçamento do Estado em que a cultura representa pouco mais de 0,1% é uma vergonha e nos afasta da sociedade que desejamos, pela qual temos lutado e pela qual nos propomos continuar a lutar.
Ter, como eu tenho e vós certamente também, a consciência de que nada disto é novo é muito frustrante. Mas acredito que reavivar esta consciência, desde logo entre nós, é um pressuposto indispensável para que nos mantenhamos mobilizados e combativos.
Até porque a ofensiva liberal sobre um direito cujo reconhecimento universal nunca atingimos produziu riscos novos, a que é preciso estar atento.

Gostaria de chamar a atenção para três desses riscos, que proponho que debatamos já de seguida:
1. a retórica vazia
António Costa prometeu para 2019 o “maior orçamento da cultura de sempre”. Conhecemos a contradição entre o que prometia o programa do actual Governo e o que foi feito nestes três anos, sem nenhuma mudança significativa na forma de enquadrar e articular a cultura no conjunto das políticas públicas. Lembramo-nos dos títulos de jornais e da forma paternalista e ofensiva como o Primeiro-Ministro se dirigiu ao país, numa triste “carta aberta”, tentando esvaziar a contestação popular. Percebemos que os mecanismos de mercado (incluindo a sua tendência para a massificação e a homogeneização de conteúdos) funcionam em força nos meios de comunicação e que na esmagadora maioria das vezes isso não só não é coincidente com o interesse público como se opõe a ele, em nome de interesses e lucros particulares.
Não se trata já apenas de desconfiar das palavras bonitas que em momentos de crise responsáveis institucionais vêm publicamente dizer para acalmar os ânimos. Trata-se de assumir que quem governou o país nos últimos quarenta anos não quis colocar a cultura no centro do desenvolvimento do país e que continua a caber à esquerda lutar por isso.
2. o nevoeiro orçamental
Faço parte do Manifesto em Defesa da Cultura e defendo que o mínimo aceitável para o orçamento da cultura é 1% do Orçamento Geral do Estado. Trata-se de uma marca simbólica, que trabalha em duas frentes: ajuda a evidenciar que a realidade que temos tido se mantém muito abaixo deste mínimo; lembra que qualquer política pública digna desse nome implica, para ser levada a sério, uma dotação orçamental que não nos envergonhe e nos tome por estúpidos.
Nenhuma das pessoas que defende este mínimo orçamental ignora, contudo, que a radical alteração de que o país precisa na forma de encarar a cultura está longe de se esgotar na questão orçamental. O aumento do orçamento é essencial para essa transformação mas há muito mais a fazer na construção de uma política cultural que vise realmente a democratização do acesso à arte. Entre vários outros aspectos, destaco a necessidade de articulação com a Educação e com outras formas de produção e transmissão de conhecimentos; a atenção à descentralização e à correcção de assimetrias; a coerência e a sustentabilidade das medidas adoptadas (com repercussões directas, por exemplo, nos mecanismos de financiamento público criados pelo Estado); a valorização e a divulgação das actividades artísticas, entendidas em sentido lato (que vai desde os meios de divulgação propriamente ditos até à forma como responsáveis políticos publicamente se referem aos agentes culturais e ao trabalho que realizam).
Tenho as maiores dúvidas de que seja verdade que o orçamento do Estado para a cultura em 2019 venha a ser o maior de sempre. Se não for verdade, é mentira o que António Costa anda a dizer há dois meses e que ainda agora reafirmou, na rentrée do PS. Mas já nem é isso o mais importante. O importante é sabermos que, mesmo que em ano de eleições e no fim do mandato venha a haver algum aumento visível, ele não só vem tarde como vale de pouco se não for acompanhado de outras políticas.
3. a instrumentalização e o condicionamento
Da “cultura-flor-na-lapela” aos “artistas do regime”, a cultura é há muito alvo de diferentes tentativas de instrumentalização e a todas tem, apesar de tudo, resistido.
Nos últimos anos, contudo, duas ameaças sérias têm vindo a esconder ou a subverter ainda mais os fundamentos do interesse público das actividades artísticas. A primeira é a do turismo ou – na novilíngua dos financiamentos comunitários – a da “promoção do território”. Com a escassez de fundos específicos para a actividade cultural e atendendo ao que parece ser o novo-velho desígnio salvífico do país, cada vez mais artistas e projectos artísticos são atirados para as oportunidades de financiamento que vão abrindo para servir o turismo. Teoriza-se, até, sobre o papel importante que a cultura pode ter na promoção dos territórios, das cidades, do interior, do país. Tem-no, de facto, mas apenas enquanto não for especificamente criada para isso. A partir do momento em que o é, particularmente quando falamos de expressões artísticas, perde a sua marca de originalidade, a sua capacidade diferenciadora, desafiante e geradora de perplexidades, para se transformar num instrumento de propaganda ou num produto de entretenimento. Mais ou menos criativo, com maior ou menor qualidade, mas afastado do contributo essencial que é suposto oferecer-nos.
A segunda ameaça é construída a partir de uma ideia cuja validade me parece inquestionável: a de que a cultura e o contacto regular com as diferentes expressões artísticas contribuem para promover a inclusão social. O problema é que na maior parte das medidas que têm sido postas em prática (materializadas em concursos e programas de financiamento europeus, nacionais ou municipais) se entende essa qualidade como um fim em si mesmo das actividades artísticas. Chega-se ao ponto de, em concursos públicos de apoio à criação artística, promovidos pelo Ministério da Cultura, privilegiar os que abordem determinados temas ou se dirijam a determinados segmentos da população, condicionando à partida a liberdade de criação dos artistas nacionais. Talvez estejamos a conseguir ajudar a resolver alguns problemas sociais através de práticas artísticas, mas enquanto isto for feito à custa do que devia ser o eixo central de uma política pública para a cultura e para as artes, estamos sobretudo a empobrecer a oferta à disposição da população e a limitar ainda mais a efectiva democratização do direito à arte.
O painel em que estamos cita no título um verso de Arnaldo Antunes, ainda do tempo dos Titãs: “a gente não quer só comida / a gente quer comida, diversão e arte”.
Continua a ser preciso reivindicar o direito a uma vida por inteiro, recusando as metades (cada vez mais pequenas) que nos querem conceder.
Creio que é essa a luta que é preciso continuar a fazer.
* Comunicação apresentada no painel “A gente não quer só comida: Porque incomoda tanto o direito à arte?”, no âmbito do Forum Socialismo 2018, org. Bloco de Esquerda, Leiria, 31 de Agosto a 2 de Setembro de 2018.

sábado, setembro 01, 2018

Ofélia Paiva Monteiro — «A Literatura é um elemento perturbador»

 
"Os alunos não estão habituados à expressão explícita por escrito. Os meus colegas queixam-se muito da falta de domínio dos alunos das estruturas escritas mas das orais também. Não sabem compor um texto com coerência, já não ponderando a questão ortográfica. Os alunos estão habituados à fragmentação da comunicação ultra-rápida e a precisarem daquele contacto constante que, afinal de contas, não conduz a uma troca de conteúdos. Parecem satisfazer-se com contactos muito lineares e superficiais. É um tempo esquisito, o nosso! "
Ofélia Paiva Monteiro em entrevista — «A Literatura é um elemento perturbador»