quinta-feira, junho 11, 2020

Ou o vedes ou não o vedes


Eugène Grasset, 1845-1917, Three Women and Three Wolves, 1900


A Cegueira da Governação

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. 
Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? 
Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 
Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? 
Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.”

Padre António Vieira, "Sermões", séc. XVII
in


Retrato do Padre António Vieira, de autor desconhecido
 do início do século XVIII


Portugal - Jorge de Sousa Braga, dito por Mário Viegas





PORTUGAL
(de Jorge Sousa Braga, 1981)


Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos

Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse

combater os infiéis ao norte de África

só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais

e nunca mais voltasse

Quase chego a pensar que é tudo uma mentira

que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney

e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal

Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo

Anda na consulta externa do Júlio de Matos

Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar

àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império

mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado

Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse

das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal

Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes

Estou loucamente apaixonado por ti

Pergunto a mim mesmo
Como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu

mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal

e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos

O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos

Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos

Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga

ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional

Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?

São castanhos como os da minha mãe
Portugal

gostava de te beijar muito apaixonadamente

na boca

Em De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, Fenda, 1981

quarta-feira, junho 10, 2020

José Mário Branco - "Camões e a tença" do disco "A Noite" (LP 1985)

Descalça vai para a fonte de Luís Vaz de Camões





Os jovens não leem?

Hom'essa!

Leitura destacada no site do PNL2027 no dia 10 de Junho. Diogo, 10º ano, séc. XXI, mediando Luís, séc. XVI

Projeto Ler+14/20 Forte da Casa, 2019-2021

Parceiros:
Agrupamento de Escolas do Forte da Casa, Laredo Associação Cultural, Biblioteca Municipal da Quinta da Piedade, Casa da Juventude do Forte da Casa, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira


sexta-feira, junho 05, 2020

Soneto da viagem a Marte



O tempo não tem sul e não tem norte
seja qual fôr a hora de quem parte,
não tem fronteiras, não possui estandarte,
quem fôr a Marte irá sem passaporte.

Nós teremos partido para a morte
quando os homens partirem para Marte
e embora Marte já não nos importe,
importante, ó futuro, é importar-te.

Importante, ó futuro, é quando a terra
falar da fome e descrever a guerra
como histórias lendárias de gnomos.

Os dias forem lúcidos, translúcidos,
e a vida, ao sabor dos dias lúcidos,
se esqueça dos selvagens que nós fomos.

Sidónio Muralha, "O Pássaro Ferido", 1972

Grande Entrevista

Grande Entrevista: Filipe Froes - Todas as perguntas e todas as respostas. O que é preciso saber sobre o coronavírus na nova fase da pandemia. O médico Filipe Froes regr

segunda-feira, junho 01, 2020

sábado, maio 30, 2020

Leonor Nazaré, 2020

"Nos últimos meses as salas das escolas e liceus ficaram vazias pelas razões que todos conhecemos e foi favorecida, também no ensino, a tele-realidade. Como recurso continuado e de forma prolongada, ela terá efeitos devastadores na formação psico-social, humana, afectiva e até cognitiva de crianças e adolescentes, pelo que o meu voto mais sincero é de que passemos agora a preferir a imunidade de contacto à debilidade que advém da hiper-protecção. Nas escolas, como nos outros espaços, é preciso invadir os lugares com a alegria que a vida plena e a força interior trazem sempre. Não há vírus que os vença nem que sequer deles se aproxime. Obrigada”.  Transcrito daqui
Num minuto nos tornamos mais vivos - talvez seja esse o verdadeiro sentido de curar. Neste minuto e meio, a propósito da exposição de Paulo Cutrica, Leonor Nazaré, curadora e mestre, abala-nos docemente, atentamente. Acompanho-a no voto que faz, e quisera poder mover outros ao mesmo, pela força que o desejo e a alegria têm.
Tudo isto vindo das redes sociais - onde a Fundação Calouste Gulbenkian publica regularmente imagens destacadas da sua imensa coleção de exposições, que são votadas, e posteriormente comentários de curadores. Na semana anterior, a obra mais votada fora «Neg. 904 Sala 2-06, Liceu Sá de Miranda, Braga, 13.05.99» de Paulo Catrica, que Leonor Nazaré comenta neste  breve video, assim cuidando de abrir as portas de melhor futuro.

quinta-feira, maio 28, 2020

Interactive Map: Gender-Diverse Cultures

Interactive Map: Gender-Diverse Cultures: On nearly every continent, and for all of recorded history, thriving cultures have recognized, revered, and integrated more than two genders.



muito bom

quarta-feira, maio 06, 2020

O principal

"O que é o principal?"
Aqui, ao minuto 22:27, Filipa Leal, a propósito de um livro de Mónica Baldaque, "Mulheres com máscaras de ferro", conta uma pequena história.
Agustina responde à pergunta da filha, "O que é o principal?", com uma lição do Livro do Bambi, a sabedoria da velha perdiz: "o principal é resistir a levantar vôo quando se ouvem os tiros".
Mesmo Agustina Bessa Luís, que dizia que nascera adulta, tinha lido este livro para crianças, ou visto o filme...
Ler em família é fundamental.

Vejam aqui, serviço público de cultura e cidadania, RTP. Episódio 32, 2020.05.05
NADA SERÁ COMO DANTE, RTP2
Play - Nada Será Como Dante
ep. 32 27m
Artes e Cultura
12AP
Inspirados pelo universo dantesco d´A Divina Comédia, Filipa Leal e Pedro Lamares apresentam-nos, todas as semanas, um programa com Inferno, Paraíso e um Purgatório a meio com perguntas, dúvidas e confronto de argumentos para reflexão. Em cada uma das partes, nem sempre opostas, há segmentos de leitura, reportagens e rubricas voltadas para a importância da palavra escrita. Os livros que nos mudam, as histórias que nos levam em viagem e as palavras que viajam e mudam o (nosso) mundo. É um programa de Literatura feito com a certeza de que, por melhor que seja, nada será como Dante

terça-feira, maio 05, 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa - Padre António Vieira



Floresça, fale, cante, oiça-se e viva a portuguesa língua Comemorando-se a cinco de maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a Biblioteca Municipal António Botto entendeu ser de especial importância, numa altura em que, por força da pandemia em curso, estamos também condicionados em termos comunicacionais, comemorar a nossa língua como principal instrumento de união de todos os seus falantes. Queremos revelar o prazer da língua, emocionarmo-nos com as palavras, partilhar a mestria dos grandes escritores para com eles aprender e crescer. Para isso escolhemos um dos maiores oradores de todos os tempos, padre António Vieira, o imperador da língua portuguesa, como lhe chamou Fernando Pessoa. Lançámos esse desafio à Andante, Associação Artística, através da sensibilidade e competência inigualáveis da Cristina Paiva e do Fernando Ladeira, e produzimos um vídeo de 13 minutos que atravessará parte da sua extensa obra. Este vídeo (13 minutos) contém excertos das seguintes obras do Padre António Vieira: Sermão de Santo António aos Peixes Sermão da sexagésima Carta ao Padre provincial do Brasil Carta à Câmara do Pará Carta a D. João IV Sermão do Espírito Santo Sermões e ainda excertos das obras: Curso de Literatura Portuguesa de Camilo Castelo Branco Livro do Desassossego de Bernardo Soares Mensagem de Fernando Pessoa Carta a Pêro Andrade Caminha de António Ferreira Criação: Cristina Paiva e Fernando Ladeira Interpretação: Cristina Paiva Música: Hovatoff Vídeo e som: Fernando Ladeira Produção: Andante Associação Artística Patrocínio: Município de Abrantes

sábado, maio 02, 2020

Paulo Varela Gomes - Última Aula: Do Sublime em Arquitectura





ai

saudades

Três Tristes Tigres - Língua franca


com Regina Guimarães
Depois da terra arrefecer
Sem o tempo a correr
Sem escola e sem esmola

Em vez dos ais e dos eus
Eram mil formas de Deus
E a nossa fala era dele
Língua anterior a papel

No agora de outrora
Depois do caldo esfriar
Sem o tempo nos faltar
Sem espécie, sem espera

Eram mil formas de Deus
Que nos caíam dos céus
Que nos caíam dos céus
Só uma fala existia
Língua da feitiçaria

No agora de outrora
Depois do sopro animar
Cada nova criatura
Sem mal e sem cura

Eram mil formas de Deus
E não cordeiros e réus
E não diabos e virgens
A interrogar as origens
Cada folha sol dizia
E cada pedra cantava
Cada folha sol dizia
E cada pedra cantava

Correndo a água narrava
O fumo exprimia o lume
O vapor pavor contava
A neve chamava o cume

O fogo ardia a brincar
As terras secas boiavam
O céu tinha um ar de mar
Os anjos proliferavam

Cobra entendia rochedo
Rochedo entendia musgo
Musgo entendia arvoredo
Todos entendiam tudo
https://genius.com/Tres-tristes-tigres-lingua-franca-lyrics

quinta-feira, abril 23, 2020

Louvor do aprender (Dia Mundial do Livro)

Louvor do Aprender, um poema de Bertold Brecht

Fonte aqui

Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o!   E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c'os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela

sábado, abril 18, 2020

De muitos lados erguem-se barreiras ao incerto que virá


A imagem pode conter: céu, árvore, planta, nuvem, oceano, ar livre, natureza e água

Por ora

Testemunho de Cristina Taquelim, mediadora de leitura. 
“O silêncio tomou conta dos largos e da vida de novos e velhos. Só os pássaros resistem no canto e no voo. Por ora, as crianças não correm pelas ruas.” 
In Público, Diário da Quarentena,18 de Abril de 2020, 7:54 "A aldeia está mais deserta do que nunca. Tirando o ladrar dos cães, nada mais se escuta.
Sem dar ouvidos ao povo, mas pressentindo qualquer coisa no ar, os cães vadios correm como se fossem os donos das ruas. No largo alguns imigrantes eslavos, agora sem trabalho, ocupam os bancos do jardim e as portadas das casas, procurando resistir ao confinamento forçado em casas com três quartos que acolhem mais de 15 almas.
O silêncio tomou conta dos largos e da vida de novos e velhos. Só os pássaros resistem no canto e no voo. 
Por ora, as crianças não correm pelas ruas. Por ora, estão suspensas as histórias que habitam a minha mala de mediadora de leitura. Por ora, adormecem na minha boca, saudosas de ser contadas de olhos nos olhos. Imagino os livros a pedirem-me que os conte, o cheiro dos moços suando correrias, as risadas, a luz dos teatros e bibliotecas, o quente dos abraços, as tardes de orelhas emprestadas às memórias da D. Raimunda, o rirmos juntas, o chorarmos juntas. Por ora, só consigo imaginá-los. Até a morte estranha não ser chorada em companhia. 
Resistindo ao inominável, os anjos de batas brancas, incansáveis, dão o corpo às balas, contam as baixas e arregaçam as mangas para novos embates. De muitos lados erguem-se barreiras ao incerto que virá. O Estado tenta desesperadamente dar alma a um Serviço Nacional de Saúde profundamente fragilizado pelo capitalismo selvagem. O Papa ajoelha-se como um menino perdido, na gigantesca praça e suplica a Deus pelo milagre. 
Apesar de tudo, sei que poderia ser pior. Não estamos todos no mesmo barco. Se esta minha quarentena acontecesse em solidão, no Equador ou no Sudão, num qualquer campo de refugiados do mundo, num bairro de lata perto da minha cidade do coração. Se esta minha quarentena acontecesse na rua, sem casa, numa tenda na fronteira entre a Grécia e a Turquia, em Gaza onde Israel continua a bombardear escolas e praças, ou num Brasil governado por um tonto irresponsável, poderia ser pior.
A única certeza que tenho, para além do amor incondicional daqueles que nunca me abandonam, é que o meu coração tem de se preparar para o que quer que aí venha. 
Hoje mais do que nunca é preciso cuidar da minha casa interior. Hoje mais do que nunca é preciso acordar com as andorinhas e esticar o corpo como os gatos para receber o dia. Caminhar pela casa e abrir as janelas. Lavar as mãos, o rosto e cantar mentalmente duas vezes os parabéns. Ligar o rádio para ouvir as notícias da manhã. Abrir a porta do quintal para deixar entrar o cheiro do jasmim. Fazer o café, partir o pão e celebrar cada refeição do dia. Dar graças. Fazer as compras para quem precisa e caminhar pelos matos, na barragem. Hoje mais do que nunca é preciso encher os olhos de água e escutar os pardais, os cachapins e o seu agitar das asas por entre os juncos. Hoje mais do que nunca é preciso apanhar funcho, acelgas, mantrasto e no regresso a casa, limpar, arrumar, lavar, deitar fora, organizar. Enfrentar o desorganizado escritório e arrumar os livros. Limpar o pó. Dividir autores, alfabetar, escrever, ler... reler. Descobrir o que nunca se leu. Esvaziar caixas. Rasgar papéis. Arrumar estantes. Conseguir enganar o caos interior. Ser verbo e gerir no silêncio esta inquietação surda, pois no silêncio moram todas as histórias que temos dentro.
Só o silêncio, o tempo e o trabalho para ensinar a gerir os inomináveis. Só o tempo para nos ajudar a pensar neste confinamento imposto, nesta incerteza certa e nos mistérios da vida e da morte. O tempo talvez nos ajude a reaprender a humanidade. Talvez nos dê a verdadeira dimensão da urgência de cuidar. 
A Terra dá sinais, regenera-se, recupera da usura humana, do consumo. Talvez seja possível, muito em breve, voltarmos a sentir-nos plenos e como ela, a nos reinventarmos. Por ora, respiramos."

sexta-feira, abril 17, 2020

Pestes & Portugal Pobre

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Nos últimos cento e cinquenta anos, os portugueses conviveram com várias epidemias, cólera, peste bubónica, tifo, gripe pneumónica, varíola. 
O Porto foi uma cidade especialmente martirizada, porque, mais do que Lisboa, era um cidade industrial e tinha atraído milhares de pessoas vindas da província para as novas fábricas. As condições de vida deste operariado eram miseráveis. As "ilhas", que forneciam habitação barata aos operários, eram particularmente insalubres, e isso pagava-se em vidas. Poucas epidemias como o tifo eram tão declaradamente uma doença das "classes baixas", dos que viviam nas alfurjas das cidades. 
O tifo era transmitido pelo piolho e o mundo da pobreza era também o mundo do piolho. Este cartaz não datado, mas provavelmente dos anos 20-30, mostra o inimigo, o piolho, em todo o seu esplendor maligno.  

Fonte: Ephemera Diário, 2020

quinta-feira, abril 16, 2020

Rubem Fonseca - Correntes d"Escritas 2012 Póvoa de Varzim - Portugal. "...



Assista a "Rubem Fonseca - Correntes d"Escritas 2012 Póvoa de Varzim - Portugal. " Todo autor é louco"" no YouTube https://youtu.be/QqjLOOs8h5k  @williamRatts




Obituários



Luís Sepúlveda, Rubem Fonseca, Lee Konitz. Dia tramado!


Lee Konitz's solo on "All The Things You Are" by Hammerstein/Kern
album: Lennie Tristano, Atlantic Records, 1956

quarta-feira, abril 15, 2020

Luiz Goes - Cantiga para quem sonha



CANTIGA PARA QUEM SONHA

Tu que tens dez reis de esperança e de amor
grita bem alto que queres viver.
Compra pão e vinho, mas rouba uma flor.
Tudo o que é belo não é de vender
Não vendem ondas do mar
nem brisa ou estrelas, sol ou lua-cheia
Não vendem moças de amar
nem certas janelas em dunas de areia.

Canta, canta como uma ave ou um rio
Dá o teu braço aos que querem sonhar
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
nem é preciso que saiba cantar.

Tu que crês num mundo maior e melhor
grita bem alto que o céu está aqui.
Tu que vês irmãos, só irmãos em redor,
Crê que esse mundo começa por ti.
Traz uma viola, um poema,
um passo de dança, um sonho maduro.
Canta glosando este tema,
Em cada criança há um homem puro.

Canta, canta como uma ave ou um rio
Dá o teu braço aos que querem sonhar
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
nem é preciso que saiba cantar.

Letra de Leonel Neves
Música de João Gomes
Canta Luiz Goes

Luís Cilia / António Gedeão Dez Reis de Esperança

sexta-feira, abril 10, 2020

Ladrões de Bicicletas: Aplausos para a orquestra, no naufrágio do Titanic...


No mesmo dia em que ficámos a saber que o Banco de Inglaterra vai financiar directamente o Estado britânico durante o tempo que o governo considerar necessário para combater as consequências económicas do covid-19, o Eurogrupo anunciou um acordo "histórico" que produz efeitos irrisórios face às actuais condições de financiamento dos Estados membros e que não preenche nem um quinto das necessidades de Portugal até ao fim do ano. Isto pedindo "apenas" em troca que os países cumpram as regras orçamentais europeias. As mesmas que, nas condições actuais, nos conduzirão a mais uma década de austeridade.
Parece que no final da reunião do Eurogrupo os ministros das finanças da zona euro bateram palmas. Faz lembrar os passageiros da 1ª classe do Titanic a aplaudir a valsa acabada de tocar pela orquestra, enquanto o navio se afundava.
Ricardo Paes Mamede, 10.04.2020

Ladrões de Bicicletas: Aplausos para a orquestra, no naufrágio do Titanic...: No mesmo dia em que ficámos a saber que o Banco de Inglaterra vai financiar directamente o Estado britânico durante o tempo que o governo ...

quarta-feira, abril 01, 2020

Águas de Abril


in Observadores de Nuvens, JF - Facebook. Imagem de José Manuel Costa


"Na nuvem havia gotinhas de água. Algumas dormiam, outras contavam aventuras e outras sonhavam com rios e mares. De repente, surgiu lá ao fundo o pico de uma grande montanha."  

in O sonho de Mariana, texto de António Mota, il. D. Wojciechowska, Gailivro, 2003 (10ªed. 2010)
Biblioactiva.ler: "O sonho de Mariana", um livro de António Mota 

LER, UMA MANEIRA DE REDUZIR DISTÂNCIAS ENTRE NÓS, E ATRAVESSAR FRONTEIRAS

Author-illustrator Baek Heena

Korean picture book. JangSutang (Bathhouse) Fairy Godmother by ...
Fairy Godmother, by Baek Heena
Cloud Bread" and "Pom Pom & Friends" Licensed by Frederator ...
Cloud Bread, by Baek Heena

During the prize presentation, Swedish minister for culture and democracy Amanda Lind spoke of the award’s special importance at this moment in history, when children and families across the world are staying at home. “Reading is a way of reducing distances and crossing borders,” she said. Lind also explained that the idea for Lindgren’s most famous book, Pippi Longstocking, was sparked when her daughter was sick with pneumonia and asked to hear a story about a girl of that name.

Reading the award citation, jury member Elina Druker said, “With exquisite feeling for materials, looks and gestures, Baek Heena’s filmic picture books stage stories about solitude and solidarity. In her evocative miniature worlds, cloud bread and sorbet moons, animals, bath fairies and people converge. Her work is a doorway to the marvelous: sensuous, dizzying, and 
sharp.” 
#ALMA2020

sexta-feira, março 20, 2020

quinta-feira, março 19, 2020

josé mário branco - perfilados de medo





Perfilados de Medo - Poema de Alexandre O'Neil

Perfilados de medo agradecemos
o medo que nos salva da loucura
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura

Aventureiros já sem aventura
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos

Perfilados de medo, sem mais voz
o coração nos dentes oprimido
os loucos, os fantasmas somos nós

Rebanho pelo medo perseguido
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido

Alexandre O'Neil

Evocação da Democracia

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Razão e coração. 2020, Portugal.
Desafios a Abril - o poder local, frente de defesa da democracia e do bem comum.
Por tele-ocupação profissional coincidente com o horário da sessão de Câmara do meu concelho ontem, só depois pude ouvir o que aí se tratou, graças à tecnologia e à decisão que em bom tempo se tomou de transmitir pela internet e manter arquivo acessível universalmente. O momento é muito difícil, todos o sabemos. Trataram-se coisas importantes, mas o que mais me impressionou foi o tom empenhado, mais sereno ou mais apaixonado, mas claramente empenhado de todos os intervenientes, genuinamente preocupados com a população, procurando encontrar soluções para situações novas. Não sei se esta comunicação resultaria tão sensível em video-reunião.
Agradeço a todos - o Presidente, os vereadores e as vereadoras, os técnicos e outros presentes terem arriscado, pessoalmente, a presença, numa sala confinada, e compreendo que repetir o carácter público desta sessão será perigoso nos próximos tempos, fisicamente. Podem sempre ser transmitidas online, mas não é a mesma coisa. Mesmo acautelando, como estou certa que o será, a possibilidade de participação do público, remotamente.
Democracia vive do cara-a-cara, a sério, não aqui no facebook. Assunto de gente com gente, iguais.
Se por um lado a tecnologia nos permite maravilhas, por outro inquieta-nos. Fiquei a pensar que ainda bem que não somos governados por robots. Nem por vedetas da ribalta mediática. Com todos os defeitos e imperfeições de cada um e cada uma, ainda me sinto mais segura com humanos, com razão e coração. Erramos? Pois erramos, mas também somos capazes de corrigir e imaginar novos caminhos.
Por acasos da História, cabe-me partilhar a responsabilidade das autarquias em Portugal, como eleita na assembleia municipal (BE), com largas dezenas de cidadãos no concelho, e milhares no país. Espero, e sinto que todos e todas esperamos o mesmo, conseguir cumprir com a responsabilidade que o povo nos confiou, da forma mais positiva que for capaz, em colaboração.
Tempos extraordinários pedem-nos que sejamos extraordinários?
Não, apenas que sejamos gente como a outra gente, homens e mulheres comuns numa situação incomum, humildemente buscando assegurar o Bem Comum, defender a população e a Constituição.
Com razão e coração.
A sessão que me inspirou estas linhas pode ser vista aqui https://www.youtube.com/watch?v=5Sq6I1syZ6I&feature=youtu.be

domingo, março 15, 2020

A dor de todas as ruas vazias

Al Berto
Nasceu a 11 Janeiro 1948 (Coimbra, Portugal). Morreu em 13 Junho 1997 (Lisboa).  Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, foi um poeta, pintor, editor e animador cultural português

Notas para o diário

deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa 
na fragata do alfeite. 
basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o 
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al-Berto

ALFINete: E-Learning - Apoio a professores

ALFINete: E-Learning - Apoio a professores:   Grupo de apoio a professores que necessitam, neste momento, de apoio ao e-Learning. Aqui pretende-se partilhar informação sobre várias ...

Vírus & democracia


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Charge de Laerte Coutinho in Forum, 25.02.2020

Na China, a capacidade de controlo de Xi Jinping vai ao ponto de conseguir medir a temperatura dos distribuidores de comida a cada duas horas e, na embalagem, é obrigatório que constem os valores da temperatura de quem confeccionou a refeição. Os passos das pessoas são controlados por uma aplicação no telemóvel. Em contrapartida, cada cidadão tem, por exemplo, garantidas cinco máscaras 
gratuitas por semana. Por oposição ao exemplo italiano e ao dos Estados Unidos, com Donald Trump a recusar responsabilizar-se pelo que quer que esteja relacionado com “o vírus estrangeiro” e incapaz de tornar acessíveis os cuidados de saúde de que os norte-americanos precisam, não falta já quem questione se uma ditadura não estará mais bem preparada para conter o vírus. “Se se confirmar o aparente sucesso que a China está a ter a controlar isto, por contraste com países democráticos, mais gente pode começar a concluir que, afinal, o autoritarismo pode dar jeito, mesmo que em sacrifício de alguns direitos”, preocupa-se Aguiar-Conraria. O facto de a China ter, por via do seu desempenho económico, “deitado por terra aquela ideia dos anos 1980 e 90 de que eram os países com democracias mais sólidas que tinham melhores performances económicas”, não ajuda a pôr travão a tais ameaças aos regimes democráticos. 
“O perigo de as democracias saírem fragilizadas desta pandemia é enorme”, vaticina também Manuel Loff.“O que é que disse [o deputado do CDS] Telmo Correia? Que é preciso uma ‘voz de comando’! E de onde é que isto está a sair? Está a sair de onde sempre esteve: durante a II Guerra Mundial, a questão, mesmo nas democracias opositoras do nazismo, era se uma ditadura não seria mais eficaz a mobilizar os seus soldados, a dar-lhes moral para enfrentar os inimigos. Em pleno século XXI, está a voltar à superfície este elogio permanente do autoritarismo”, compara.O que mais preocupa o historiador é perceber que, à boleia da covid-19 tal como à boleia da crise dos refugiados, grassa a ideia de que a complexificação das relações e dos problemas sociais e políticos requer um “comando forte”. “Essa crítica nacional-populista ao funcionamento da democracia, que não dispensa uma retórica oportunista de mais democracia, foi o que levou Bolsonaro ao poder e o que deu força o Orbàn na Hungria e a Putin na Rússia”, insiste para sustentar que, ao reavivar medos ancestrais, a covid-19 “reforça discursos de natureza messiânica ou autárcica, que, perante um vírus que vem de fora, defendem que o país tem de se fechar sobre si próprio”. E, submergidas pelo pânico social, as pessoas tornam-se permeáveis à erosão dos seus direitos. 
“A lógica de que os países têm de fechar o contacto com os outros começou em 2017, a seguir à tomada de posse de Trump, e, do dia para a noite, o passo foi dado”, situa Loff, referindo-se à decisão do Presidente norte-americano de “fechar” os voos provenientes da Europa. A Itália, por seu turno, “isolou-se a si própria, num estado de emergência com efeitos de natureza policial”, diz ainda, convencido de que, “criados os mecanismos legais, estas medidas terão impactos duradouros”.“Se incorporarmos este estado de emergência dentro das nossas cabeças, ninguém se lembrará de ir perguntar ao Estado quando é que isto acaba. E efectivamente os processos de securitização de áreas da nossa vida colectiva e individual só têm sucesso quando a sociedade os entende como naturais”, prossegue o investigador, subscrevendo as teorias do filósofo italiano Giorgio Agamben, que no livro Estado de Excepção (Edições Setenta, 2018) conclui que o mundo vive em permanente estado de excepção desde os ataques terroristas de 11 de Setembro. “A ideia que perdura desde então”, conclui Loff, “é que sempre que há um ataque temos de suspender a Declaração Universal dos Direitos Humanos, detendo e vigiando pessoas sem necessidade de qualquer autorização judicial”. No caso português, “é sintomático que uma das primeiras discussões suscitadas pela covid-19 visava perceber se, à luz da Constituição, o Estado pode ou não impor determinadas práticas de reclusão domiciliária”, recorda Aguiar-Conraria, para acrescentar que, se se concluir que não tem, “de certeza absoluta que, bem ou mal, na próxima revisão constitucional isso é alterado”.E assim "ficaremos com mais um exemplo de como as crises são aproveitadas para erodir direitos e tornar as sociedades menos liberais”.
in O vírus do medo já contagiou as democracias, Público, 15.03.2020

sábado, março 14, 2020

Gente Humilde



MULHERES DO SUL de Adriana Queiroz

Gente Humilde de Vinicius de Moraes

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece
De repente
Como um desejo de eu viver sem me notar
Igual a tudo, quando eu passo
Num subúrbio
Eu muito bem, vindo de trem
De algum lugar
Aí me dá uma inveja
Dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada, escrito em cima
Que é um lar
Pela varanda, flores tristes
E baldias
Como a alegria que não tem
Onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito de eu não ter
Como lutar
E eu não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

quinta-feira, março 12, 2020

Filipe Froes - falar claro sobre a pandemia

Grande Entrevista: Filipe Froes - O novo coronavírus chegou a Portugal. O que é que a ciência sabe da doença? O especialista em doenças respiratórias, Filipe Froes, na G

sexta-feira, março 06, 2020

Bullying & linchamento - semear ódio, efeito da competição

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"O linchamento moral é algo que se assemelha ao linchamento físico. Deseja-se a morte de seu objeto. Se ela não é possível de fato, quer-se alcançar a destruição e/ou o afastamento/expulsão de seus alvos.
O bullying infanto-juvenil escolar é um tipo de assédio moral absurdamente irracional que rompe com as velhas regras de coleguismo e de espírito de grupo. É muito diferente das antigas brigas de turma de colégio, isto é, confrontos entre grupos de origens diversas. Ele ocorre no seio da mesma instituição, entre alunos que se conhecem e muitas vezes são vizinhos. São comuns entre adolescentes de várias faixas etárias. Alguém é escolhido para ‘pato’. Nesta pessoa, o ódio do grupo é depositado com vigor, incluindo-se xingamentos e episódios lamentáveis de violência física. Com as facilidades de gravação e difusão disponíveis, estas barbaridades chegam algumas vezes à Internet e até a TV.
O assédio moral no ambiente adulto assume inúmeras variações, que respeitam o contexto específico onde ele ocorre. Trata-se de uma forma de abuso, que usa de subterfúgios para tentar destruir o objeto escolhido. A ‘fofoca’ transforma-se na intriga, na invencionice e na maledicência. Os limites entre o público e o privado são abandonados e desconsiderados. As pessoas são atacadas de acordo com os preconceitos acreditados. São pressionadas, admoestadas e maltratadas, sem que isto se relacione de modo direto com as atividades que desenvolvem.
Há sempre objetivos não revelados nestes ataques. A variação é muito grande. Há quem tenha prazer pessoal sádico enlouquecido de agir assim, destruindo pessoas. O ódio pode ser alimentado por ciúmes, invejas e demais sentimentos dos baixos instintos. É comum que estas manifestações também escondam outros motivos de ordem política, ideológica e moral. Os que praticam o assédio raramente revelam os seus verdadeiros motivos para tentar destruir alguém que está tão próximo. Normalmente, eles projetam em seus alvos suas frustrações e incapacidades profissionais e pessoais.
Estes fatos ocorrem nas áreas públicas e privadas, sendo comum em sociedades com a vivência histórica e social de alto grau de violência real e simbólica. A existência de mídias centradas na exibição acrítica da violência explica parcialmente o problema. A fragilidade da capacidade de mobilização macropolítica atual tem outro quinhão. Há registros da ocorrência de casos em escolas de qualquer nível. Tais práticas refletem a dificuldade de integração dos grupos, porque não existe o entendimento mútuo, ou porque ele não é desejado por quem detêm o poder micropolítico em cada organização. Isto leva a algumas pistas para compreender o que vem acontecendo.
Com o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, o individualismo e a competição interpessoal cresceram muito. Quanto mais alienado e convencido pelas prédicas do sistema, as pessoas mais se imaginam como indivíduos isolados que deveriam disputar todo o dia uma espécie de corrida pela taça de ouro, pisando em quem estiver por perto ou possa atrapalhar. Junto a isto, o velho carreirismo transformou-se em algo natural. Quem não o adota é visto como uma avis rara, que precisa ser eliminada. (...)
A violência do bullying escolar transforma-se facilmente em vias de fato. O assédio moral, entre adultos, raramente, gera episódios físicos de contato direto. Todavia, são conhecidos inúmeros casos de violência verbal, de isolamento de pessoas e outros atos de hostilidade direta ou disfarçada. Os mestres do assédio são hábeis manipuladores, capazes de arregimentar a outros, com suas mentiras e intrigas. Procuram, como na inquisição medieval, ‘queimar’ suas vítimas, buscando um consenso de grupo sobre os alvos escolhidos. Os danos provocados são evidentes. Perde o grupo por produzir sua própria autofagia. Perde a vítima que nem sempre consegue suportar e resistir, desestruturando-se.
No assédio moral, há elementos do fascismo líquido já comentado em outras oportunidades. Não é necessário que os executores do assédio saibam sua coloração política ou compreendam a que deuses servem. Estando envolvidos no processo, eles simplesmente repetem o que apreenderam com outros manipuladores. Manipulam e acabam sendo presos da mesma teia que ajudam a tecer. Os verdadeiros donos da teia, por vezes, estão longe e são invisíveis para os algozes e suas vítimas. Urge rasgar a cortina e revelá-los.
Em todas sociedades humanas sempre existiram fortes e fracos. As crianças, principalmente as mais pobres, são os mais fracos de nosso tempo. Mas, há outros e outros grupos que precisam de proteção. Diz-se que há civilização, direitos humanos etc, se os fracos são protegidos dos que tem mais poder. Se isto não existe, vive-se em plena barbárie."

Fonte: http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=263&tit=a-hrefhttpwww.sociologia.seed.pr.gov.brmodulesnoticiasarticle.phpstoryid263Bullying-e-assedio-moral-outros-ovos-da-serpentea

domingo, março 01, 2020

Ser diferente

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“A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; 
tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; 
não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; 
ser ele; 
não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; 
no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.”

AGOSTINHO DA SILVA (Porto, 13 de Fevereiro de 1906 — Lisboa, 3 de Abril de 1994), filósofo, poeta e ensaísta, in “Diário de Alcestes
SILVA (Agostinho da).— DIÁRIO DE ALCESTES. (Gráficas Minerva.Vila Nova de Famalicão. 1945). 12x17,5 cm.  69-IV págs. B. - Reedição pela Ulmeiro, Lisboa, 1990