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quinta-feira, abril 23, 2020

Louvor do aprender (Dia Mundial do Livro)

Louvor do Aprender, um poema de Bertold Brecht

Fonte aqui

Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o!   E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c'os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela

domingo, fevereiro 21, 2016

Roma Rosae

Iagem da capa da 1ª edição de Uthopia, de T. More, 1516

Das grandes cidades, restarão os nomes, e nada mais. Tudo o que temos são os nomes, e nada mais. E nada menos.

Isso mesmo cantou um poeta do século XII, Bernardo Morliacense, que bem poderia ter sido personagem do romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Eco leu Bernardo, no século XX, e, subtilmente, citou-o... no final do romance. Porém, como lhe pertencia por estilo e arte, com truque.
Eco: "Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemos" (a rosa antiga permanece no nome, nada temos além dos nomes)
Bernardo: Roma em vez de rosa (a Roma antiga permanece no nome, nada temos além dos nomes).

Morreu ontem Eco, aos 84 anos, vida cheia e biblioteca amada. Dei por mim a pensar reler O Nome da Rosa como se de um livro sobre Roma se tratasse. Claro que é um livro sobre os nomes, Eco era um grande filósofo, cuidava da permanência. Só escrevia romances, bem avisou, ao fim de semana. Provavelmente, distante das cidades, entendidas como construção urbana. E da Cidade, o que significa Sistema, se entendermos Roma como sinal de poder. Roma ou Rosa?

Como é fim de semana, brinquei também e imaginei Brecht escrevendo o poema abaixo transcrito, com a cor do sangue e dos gritos dos homens e das mulheres sem nome, depois de ler Eco. E More escolhendo a imagem da sua Utopia, na mesma situação - afinal o sonho permanece, as cidades utópicas são nomes, e, por isso, indestrutíveis a não ser que ninguém as leia. 
Declaração de interesses: sou historiadora de formação, e de há muito sei que um anacronismo por dia, muito bem nos faria, nestes tempos carentes de imaginação... sobretudo ao fim de semana!

Um bom tema para um romance, ou uma conversa de brincadeira na biblioteca de Umberto Eco: quem e o quê leu Bernardo?


Quem construiu Tebas de sete portas?



Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 


(Tradução de Paulo Quintela)


quinta-feira, janeiro 01, 2015

Pensamentos da época



De que Serve a Bondade

1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

De que serve a liberdade
De que serve a razão

2
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos

Bertold Brecht
em 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas', com tradução de Paulo Quintela

sexta-feira, julho 22, 2011

De que Serve a Bondade



De que serve a bondade 
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos 
Aqueles para quem foram bondosos? 

De que serve a liberdade 
Quando os livres têm que viver entre os não-livres? 

De que serve a razão 
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa? 



Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos 
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua! 

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos 
Por criar uma situação que a todos liberte 
E também o amor da liberdade 
Faça supérfluo! 

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos 
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos 
Um mau negócio! 

Bertold Brecht, in
'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 
Tradução de Paulo Quintela