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terça-feira, março 16, 2021

Pequenos deuses caseiros - Sidónio Muralha, Manuel Freire



Pequenos deuses caseiros
Que brincais aos temporais,
Passam-se os dias, semanas,
Os meses e os anos
E vós jogais, jogais
O jogo dos tiranos.
O jogo dos tiranos.
O jogo dos tiranos.
Pequenos deuses caseiros
Cantai cantigas macias
Tomai vossa morfina,
Perdulai vossos dinheiros
Derramai a vossa raiva
Gozai vossas tiranias,
Pequenos deuses caseiros.
Pequenos deuses caseiros.
Erguei vossos castelos
Elegei vossos senhores
Espancai vossos criados,
Violai vossas criadas,
E bebei,
O vinho dos traidores
Servido em taças roubadas
Servido em taças roubadas
Dormi em colchões de pena,
Dançai dias inteiros,
Comprai os que se vendem,
Alteai vossas janelas,
E trancai as vossas portas,
Pequenos deuses caseiros,
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
E reforçai, reforçai as sentinelas.
Fonte: Musixmatch
Compositores: Sidonio Muralha / Manuel Freire

domingo, julho 26, 2020

Marte, aqui


SONETO DA VIAGEM A MARTE

O tempo não tem sul e não tem norte
seja qual fôr a hora de quem parte,
não tem fronteiras, não possui estandarte,
quem fôr a Marte irá sem passaporte.
Nós teremos partido para a morte
quando os homens partirem para Marte
e embora Marte já não nos importe,
importante, ó futuro, é importar-te.
Importante, ó futuro, é quando a terra
falar da fome e descrever a guerra
como histórias lendárias de gnomos.
Os dias forem lúcidos, translúcidos,
e a vida, ao sabor dos dias lúcidos,
se esqueça dos selvagens que nós fomos.

Sidónio Muralha, "O Pássaro Ferido", 1972
Cantado por A. P. Braga
Estimado no blog A Viagem Dos Argonautas

sexta-feira, janeiro 03, 2020

Sidónio Muralha, 1920-1982



História sem fim

Do ovo da rola
saiu uma rola
que botou de novo
um ovo de rola
que tinha uma rola 
que botou um ovo.

Escreve com graça e leveza:
Pedi uma pluma
ao colibri
e escrevi
escrevi
escrevi...
...e o bico-de-lacre veio
e lacrou todo o meu correio.

E com uma mágoa triste e bonita:
Nos jardins abandonados
por culpa de certos senhores
ficaram desempregados
os beija-flores.

Sidónio Muralha, 1920-1982


quinta-feira, agosto 15, 2013

Um rio, só se for claro

ROTEIRO

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

SIDONIO MURALHA

sábado, abril 07, 2012

Pequenos deuses caseiros


Poema de Sidónio Muralha
Cantado por Manuel Freire

Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.

Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
pequenos deuses caseiros.

Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas
servido em taças roubadas

Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas  

segunda-feira, julho 04, 2011

Gritar silêncio


Largos versos irrompem do teu silêncio de granito 
E tu vives inteiro em cada grito 
Tu que foste maior que todas as poesias.

Sidónio Muralha
 no epitáfio na campa de Carlos Pato (1920-1950), 
que morreu na prisão de Caxias
um ano após ter sido preso pela PIDE
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