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segunda-feira, dezembro 02, 2019

Não mates a tua diversidade interior

mia couto solidão distância telecomunicação tecnologia

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.
Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.
A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.
No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.
A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.rio
Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.
É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.
Mia Couto, séc. XXI
*Mia Couto é um biólogo e escritor moçambicano – Trecho extraído do seu livro “E se Obama fosse africano

quinta-feira, julho 27, 2017

Aprender a ser alegre

Duble herma of Socrates and Seneca Antikensammlung Berlin 07.jpg
Dupla representação - Séneca e Sócrates. Imagem daqui

"Não penses que te escrevo para dizer como o inverno que, aliás, foi curto e pouco rigoroso, se portou bem conosco, ou como a primavera está desagradável, ou, como o frio chegou fora de tempo! 
Isso são frioleiras próprias de quem fala por falar. Eu só escrevo aquilo que sinto ter utilidade, que para ti quer para mim. Que outra coisa posso, portanto, fazer além de incitar-te à conquista de sabedoria?

Queres saber qual o fundamento de sabedoria? Não tirar satisfação de coisas vãs. Falei em fundamento: na realidade é o ponto culminante. Só atinge o ponto supremo quem sabe em que consiste a verdadeira satisfação, quem não deixa a sua felicidade ao arbítrio dos outros. Fica sempre angustiado e inseguro de si o homem que se deixa solicitar por toda e qualquer esperança, ainda que ao seu alcance, ainda que fácil de realizar, ainda que nunca esse homem tenha sido iludido nas suas expectativas. 
O que tens a fazer antes de mais, caro Lucílio, é aprender a ser alegre. Estás a pensar que eu te quero privar de muitos prazeres ao afastar de ti os bens fortuitos, ao entender que devemos subtrair-nos ao doce canto das sereias que é a esperança? Pelo contrário, o meu desejo é que nunca te falte a alegria. O meu desejo é que a alegria habite sempre em tua casa; e fá-lo-á, se começar a habitar dentro de ti. Os outros tipos de alegria não satisfazem a alma; desanuviam o rosto, mas são superficiais. A menos que entendas que estar alegre é estar a rir! Não, a alma deve estar desperta, confiante, acima das contingências. Acredita-me, a verdadeira alegria é uma coisa muito séria. 

Julgas tu que se pode pensar em desprezar a morte, em abrir as portas à pobreza, em refrear os prazeres, em exercitar a capacidade de suportar a dor – e tudo isto sem franzir a testa, sempre o com o rosto, como diriam os nossos jovens pretensiosos, descontraído? Quem interioriza estes pensamentos alcança uma grande alegria, mas de ar pouco sorridente! O meu desejo é que tu possuas uma alegria deste tipo. Quando algum dia souberes de que fonte emana essa alegria, nunca mais ela deixará de te acompanhar. 
Os filões dos metais ligeiros encontram-se à superfície, mas os metais mais preciosos são aqueles cujos veios se encontram mais fundo e que, por isso mesmo, compensam muito mais quem os explora. Os prazeres com que o vulgo se deleita são ligeiros e superficiais, toda a alegria de importação carece de fundamento. A alegria de que estou falando e à qual me esforço por fazer-te aceder, essa é de natureza constante, e tanto mais dilatada, quanto mais íntima. Peço-te, Lucílio amigo, age da única maneira possível para obteres a felicidade, repele e despreza aqueles bens que só brilham por fora, que dependem das promessas de fulano ou das benesses de cicrano. Faz do verdadeiro bem o teu alvo, busca a alegria dentro de ti. (...)"

(c. 4 AC – 65 DC)
Cartas a Lucílio.

sexta-feira, maio 20, 2011

Caber




Essa é a última oração 
Para salvar seu coração 

Coração não é tão simples quanto pensa 
Nele cabe o que não cabe na despensa 
Cabe

o meu amor

Beirut (edição Youtube)

2011

domingo, junho 14, 2009

Sinais dos tempos Alegria geracional


Optimista inveterada, a alegria sempre me encheu os dias. Este video faz-me sentir sinais de bom astral. A publicidade é um texto fundamental para entender o futuro próximo.
Haja sinais, e gente para os ler.
Com um obrigado à equipa da LPM e a esse desconhecido detergente que suscitou a coisa

domingo, abril 19, 2009

Samuel, 3º dia



Chegou. 
Tomou o lugar de si mesmo
Inteiro, suave, definitivo

Sonhos perfeitos, olhos tamanhos