Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos de OLiveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos de OLiveira. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, abril 14, 2021

carlos de oliveira / descida aos infernos




carlos de oliveira / descida aos infernos

 
 
10
Lá em cima, terra,
parecias em torpor
adormecida
no sonho espesso do teu sono.
 
E quantas noites
com luar a murmurar à nossa porta
pensámos nós que te fingias morta
só para não acordares com a tua vida
os filhos que criaste
e de novo chamaste
ao teu silêncio.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001


fonte:
poesia: carlos de oliveira / descida aos infernos:     10 «Lá em cima, terra, parecias em torpor adormecida no sonho espesso do teu sono.   E quantas noites com luar a murmurar à nossa porta ...

sábado, julho 14, 2012

Sobrevoemos a aridez



Carlos de Oliveira, pintura a óleo, por Mário Dionísio




MAPA

I

O poeta 
[o cartógrafo?]
observa
as suas
ilhas caligráficas
cercadas
por um mar
sem marés,
arquipélago
a que falta
vento,
fauna, flora,
e o hálito húmido
da espuma,

II

pensando
que
talvez alguma
ave errante
traga
à solidão
do mapa,
aos recifes desertos,
um frémito,
um voo,
se for possível
voar
sobre tanta
aridez.

Carlos de Oliveira

sexta-feira, maio 18, 2012

Fotograma de Uma abelha na chuva, filme de Fernando Lopes a partir do romance de Carlos de Oliveira

Fruto


foto Jose Sousa Dias, 2011


Por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo.






Carlos de Oliveira, in "Sobre o Lado Esquerdo", 1968

quarta-feira, abril 11, 2012

Voz da luta



Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança

Carlos de Oliveira

sexta-feira, julho 01, 2011

Esperança não é privatizável


«Acusam-me de mágoa e desalento, como se toda a pena dos meus versos não fosse carne vossa, homens dispersos, e a minha dor a tua, pensamento. Hei-de cantar-vos a beleza um dia, quando a luz que não nego abrir o escuro da noite que nos cerca como um muro, e chegares a teus reinos, alegria. Entretanto, deixai que me não cale: até que o muro fenda, a treva estale, seja a tristeza o vinho da vingança. A minha voz de morte é a voz da luta: se quem confia a própria dor perscruta, maior glória tem em ter esperança.»

Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'
(no 30º aniversário da sua morte física) 

terça-feira, maio 17, 2011

Alteremos o ângulo de visão


ESTRELAS
O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.

Chamo um astrólogo amigo:
«Então?»
«O céu parou. É o fim do mundo».
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
«Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão».
Sigo o conselho: e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.
[Carlos de Oliveira, "Sobre o Lado Esquerdo"]