domingo, junho 19, 2011

Maria-Lisboa



Maria-Lisboa

É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.
Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile co'o mar.
É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa.
David Mourão Ferreira

A gente não lê

O impossível riso


A carta de Saramago à sua avó

"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua"

José Saramago

Recantar


Jacinta canta poemas de Zeca Afonso
Albufeira (Portugal), 2009

Batentes


As portas que batem nas casas que esperam.


As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.

 Maria Judite de Carvalho

De rotas



Há quem julgue que nos venceu

(O Sonho é a nossa arma)

Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui, famintos e nus,
de novo sem terra nem céu.
a apanhar do chão, às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
Mas não.
Temos ainda uma arma de luz
para lutar;
SONHAMOS.
…enquanto os outros, os traidores,
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao rasto dos gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
Sim. sonhamos.
E o sonho quem o derrota?
- mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
Sim, camaradas, sonhamos.
SONHEMOS!
O Sonho é também acção.

José Gomes Ferreira

Fala!

Fala!

Fala a sério e fala no gozo
fa-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão
Fala a miúda mas fala bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala franciú fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

Alexandre O'Neill

quinta-feira, junho 16, 2011

As palavras estão gastas


Spontaneous Inventions, Bobby McFerrin, 48:21

Teimar

Foto Ilha Terceira. Valter Vinagre 2010


A meu favor 
Tenho o verde secreto dos teus olhos 
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor 
O tapete que vai partir para o infinito 
Esta noite ou uma noite qualquer 

A meu favor 
As paredes que insultam devagar 
Certo refúgio acima do murmúrio 
Que da vida corrente teime em vir 
O barco escondido pela folhagem 
O jardim onde a aventura recomeça.  
Alexandre O'Neil

quarta-feira, junho 15, 2011

Crer

Barcelona, 9 Junho 2011


Murakami recebeu o Prémio Internacional da Catalunha e discursou tocando-nos a razão e o coração, no mundo que gira entre Tóquio e Lorca.
"Não devemos ter medo de sonhar. Não podemos deixar-nos engatar pelas causas dos desastres, que se apresentam com o nome de “eficácia” e “conveniência”. Devemos ser “sonhadores pouco realistas”, avançando em passo firme. Os humanos morrem e desaparecem. Mas a humanidade perdura. É algo que se prolonga indefinidamente. Acima de tudo, temos de crer na força da humanidade."

Lembra-te

Lembra-te sempre de mim
David Mourão-Ferreira, música de José Mário Branco, voz de Camané
Se alguém pedir a teu lado.
Que na música de um fado
A noite não tenha fim
- lembra-te logo de mim!
Se o passado
De repente
Mais presente
Que o presente
Te falar também assim
- lembra-te logo de mim!
Se a chuva no teu telhado
Repetir o mesmo fado
E a noite não tiver fim
- lembra-te sempre de mim!
Lembra-te sempre de mim!
O dia não tem sentido
Quando estás longe de mim...
Se o dia não tem sentido
Que a noite não tenha fim!

segunda-feira, junho 13, 2011

Ler de novo


The Fantastic Flying Books Of Morris Lessmore iPad App Teaser from Moonbot Studios on Vimeo.


Vénia ao Bibliotecário de Babel e ao seu post ‘The Fantastic Flying Books Of Morris Lessmore’ (e-book trailer)

Futurar



Poema do alegre desespero


Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?




António Gedeão

Mudar

A REVOLTA DAS FRASES: Roubaram-lhes as consoantes mudas!:


Roubaram-lhes as consoantes mudas!

Coitados!
Estão inconsoláveis.

Já as mortes das sonoras vogais,
Que diariamente engolem,
Fora e dentro dos telejornais,
Não lhes bolem
Com os nervos nacionais!

Já a morte constante,
Gotejante,
A sangria
Fina e fria
Do vocabulário,
Necessário
Para da vida saber
E a dizer,
Não incomoda.

Está na moda
A correria.
Meia palavra aldrabada,
Mal soletrada,
Chega perfeitamente
Para entupir a mente
E desgraçar o dia.
Maria Almira Soares

Embora  goste das ditas consoantes mudas, que a mim me ajudavam a abrir as vogais vizinhas que não apresentam acento gráfico mas correspondem a sons mais claros (acção não soa como ação, no meu ouvido interior), adorei a poesia, e não posso estar mais de acordo com a mágoa do definhar do léxico corrente.
Escassez de vocabulário representa poucas tonalidades nas ideias e sentimentos que as palavras epresentam. Vidas mais pobres e descoloridas... mentes entupidas? Do mal o menos: se assim for ainda há esperança, um dia transbordam!

Fluir



Chega de Saudade, do álbum saído em 1959, pleno de Bossa Nova, graças à voz de Elizeth Cardoso e ao violão de João Gilberto, criador de novas cores da emoção, e que hoje faz 80 anos.
A letra é de Vinicius de Moraes e a música de António Carlos Jobim. Ler e ouvir mais aqui

Verler

A leitura enche de pétalas a imaginação (ilustração de  Svetlana Rumak)
De um maravilhante blog, Lecturimages, a que cheguei por pétala partilhada pela Paixão Pinto, grande verleitora :).

domingo, junho 12, 2011

Lavar cidades




Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar  

Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores  

Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas  

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro  

Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata  

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar  

Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais  

Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder dos senhores
que compram corpos e almas  

Leva nas águas as grades
...  

Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo  

Tejo que levas nas águas


Manuel da Fonseca 

Ler

Foto de Paulete Matos, 2011. Partilhada no Facebook

sábado, junho 11, 2011

Zahir


O Zahir   
(...) 
Antes de 1948, o destino de Julia talvez já me tenha atingido. Terão de alimentar-me e vestir-me, não saberei se é tarde ou manhã, não saberei quem foi Borges. Qualificar de terrível esse futuro é uma falácia, já que nenhuma das suas circunstâncias terá significado para mim. O mesmo valeria sustentar que é terrível a dor de um anestesiado a quem abrem o crânio. Já não perceberei o universo, perceberei o Zahir. 
Segundo a doutrina idealista, os verbos viver e sonhar são rigorosamente sinônimos; de milhares de aparências, passarei a uma; de um sonho muito complexo a um sonho muito simples. Outros sonharão que estou louco, e eu com o Zahir. Quando todos os homens da terra pensarem, dia e noite, no Zahir, qual será um sonho e qual uma realidade, a terra ou o Zahir? Nas horas desertas da noite ainda posso caminhar pelas ruas. A aurora costuma surpreender-me num banco da praça  Garay, pensando (procurando pensar) naquela passagem do Asrar Nama, na qual se diz que o Zahir é a sombra da Rosa e a rasgadura do Véu. Vinculo essa opinião a esta notícia: para perder-se em Deus, os sufis repetem seu próprio nome ou os noventa e nove nomes divinos até que eles já nada querem dizer. Eu desejo percorrer esse caminho. Talvez acabe por gas­tar o Zahir à força de pensar e repensar nele; talvez, por detrás da moeda, esteja Deus. 
Jorge Luís Borges
Texto integral aqui 

Segundo a tradição islâmica, o Zahir é algo ou alguém que acaba por dominar completamente o pensamento, sem que se possa esquecê-lo em momento algum.

sexta-feira, junho 10, 2011

Camões de Dia


 in Traz outro amigo também 

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões

Dia de Camões




Quem faz injúria vil e sem razão, 
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.


Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, canto VIII

domingo, junho 05, 2011

Esperançar

De Oblogouavida

Ladrões de Bicicletas: Reflexão esperançada: "Helena Garrido diz que a 'Grécia é a nossa bola de cristal'. Formulação certeira. O pior é o que vem a seguir: "Se não quisermos que o presente da Grécia seja o futuro de Portugal temos de cumprir rigorosamente o acordo assinado com o FMI e a com a UE." O governo pode tentar controlar a despesa e assim cortar nos rendimentos e na procura. Ao fazê-lo, porém, contribui para a recessão e para tornar o controlo do défice numa miragem. A ilusão de que se pode "cumprir rigorosamente o acordo" é a melhor forma de nos vermos gregos. A Grécia indica precisamente a inviabilidade destas intervenções externas, a incapacidade de uma economia atirada para uma violenta recessão em honrar estes "acordos" irremediavelmente volúveis. Imposições ao serviço do rentismo financeiro, com transferências maciças de custos sociais para a maioria dos cidadãos, têm de ser combatidas. Não são mais do que oportunidades para fragilizar a provisão pública e para recuperar a formulação míope de um capitalista norte-americano do início do século XX, que se conseguiu rebater institucionalmente durante algum tempo: "a melhor forma de garantir a eficiência dos trabalhadores é ter uma fila de homens à porta". Precisamos de uma multiplicação de sobressaltos cívicos que acelerem o fim das miopias e das ilusões, que tornem irresistível o princípio da transparência democrática, através da exigência de uma auditoria e da recusa em apoiar a banca sem contrapartidas de controlo público sobre este sector crucial, por exemplo. A esperança será sempre proporcional à robustez das propostas alternativas e à capacidade de se transformarem em novo senso comum. Muito ainda depende de nós.

(João Rodrigues, 04.06.2011)

sábado, junho 04, 2011

Se lo dije a la noche- Fragmentos canciones- poesía


YouTube - Juan Carlos García Hoyuelos -Se lo dije a la noche- Fragmentos canciones- poesía (47 minutos)
Aqui, Sumário das canções incluídas no CD, em todas as línguas ibéricas por este poeta catalão, editado em Burgos (2011). Curiosos? Há duas em português. Uma é um fado cantado por Ana Sofia Varela. A outra foi traduzida para português pelos Serviços Culturais da Embaixada em Madrid (?).
Uma das minhas preferidas é a 7ª, em asturleonês,  em que Anabel Santiago entoa Un adiós que dambos nun atalantemos (tonada).

DanZar

sexta-feira, junho 03, 2011

Transmutar-se



Discurso do Arquitecto Souto Moura ao receber o Prémio Pritzker (2011)






Exmo. Sr. Presidente dos EUA, Presidente do Júri, elementos do Júri, meus Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores,

Só quando recebi o convite dizendo “Eduardo Souto de Moura of Portugal” é que acreditei que tinha ganho o Pritzker 2011. Não posso esconder que fiquei feliz, por mim, pela minha família, colaboradores, amigos e clientes. Em nome de todos, os meus sinceros agradecimentos.

Aprendi a desenhar na Escola Italiana do Porto, cidade onde nasci, e no liceu decidi ser arquitecto. Não é que tivesse alguma paixão especial pela disciplina, mas na crise agnóstica dos 15 anos, duvidei se Deus devia ter descansado ao 7º dia. É que, pensando bem, ficou por fazer uma geografia como a de Delfos, a Acrópole para receber o Parténon ou secar um pântano no Illinois, onde a Farnsworth pudesse ficar.

Em 1975 depois da Revolução dos Cravos, comecei a trabalhar com o Arqº Siza Vieira. Não só pela arquitectura, mas sobretudo pela pessoa em si, foi uma experiência excepcional que ainda hoje continuo a fazer com o mesmo prazer. Saí do seu escritório nos anos 80, para ser arquitecto. Foi difícil começar, mas usar a sua “linguagem” parecia-me uma traição e mesmo que o quisesse, não o conseguia fazer, por pudor.

Depois da Revolução, e restabelecida a Democracia, abriu-se a oportunidade de redesenhar um país, onde faltavam escolas, hospitais, outros equipamentos, e sobretudo meio milhão de casas. Não era certamente o Pós-Modernismo, na altura em voga, que nos poderia resolver a questão. Construir meio milhão de casas, com frontões e colunas seria uma perda de energia, pois a ditadura já o tinha ensaiado. O Pós-Modernismo chegou a Portugal, sem quase termos passado pelo Movimento Moderno. É essa a ironia do nosso destino: “antes de o ser já o éramos”.

Do que precisávamos era de uma linguagem clara, simples e pragmática para reconstruir um país, uma cultura, e ninguém melhor que o proibido Movimento Moderno poderia responder a esse desafio. Não era só um problema ideológico, mas sobretudo de coerência entre material, sistema construtivo e linguagem. Se “arquitectura é a vontade de uma época traduzida num espaço”, Mies van der Rohe abriu-nos as portas na redefinição da disciplina tão massacrada até aí, pela linguística, semiótica, sociologia e outras ciências afins. O importante é que a arquitectura fosse “construção”, assim com urgência, nos pedia o país.

Com 10 séculos de História, Portugal encontra-se hoje numa grande crise social e económica, como já aconteceu em vários períodos anteriores. Hoje, como ontem, a solução para a arquitectura portuguesa é emigrar. Como dizia Paul Claudel: “Le Portugal est un pays en voyage, de temps en temps il touche l’Europe”. Resta-nos a “mudança”, como quer dizer a palavra “crise” em grego. Resta-nos decifrar o significado dos dois caracteres chineses que compõem a palavra “crise”: o primeiro significa “perigo”, o segundo “oportunidade”. Em África e noutras economias emergentes não nos faltarão oportunidades, o futuro é já aí. “Trabalhar na transmutação, na transformação, na metamorfose é obra própria nossa.” (1)

Muito obrigado.

Eduardo Souto de Moura

(1) Herberto Helder, “O Corpo. O Luxo, A Obra”

Traduzir



Page d'écriture

Deux et deux quatre
quatre et quarte huit
huit et huit font seize…
Répétez ! dit le maître
Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize.
Mais voilà l’oiseau lyre
qui passe dans le ciel
l’enfant le voit
l’enfant l’entend

l’enfant l’appelle
Sauve-moi
joue avec moi
oiseau !
Alors l’oiseau descend
et joue avec l’enfant

Deux et deux quatre…
Répétez ! dit le maître
et l’enfant joue
l’oiseau joue avec lui…
Quatre et quatre huit
huit et huit font seize
et seize et seize qu’est-ce qu’ils font ?
Ils ne font rien seize et seize
et surtout pas trente-deux
de toute façon
ils s’en vont.
Et l’enfant a caché l’oiseau
dans son pupitre
et tous les enfants
entendent sa chanson
et tous les enfants
entendent la musique
et huit et huit à leur tour s’en vont
et quatre et quatre et deux et deux
à leur tour fichent le camp
et un et un ne font ni une ni deux
un à un s’en vont également.
Et l’oiseau lyre joue
et l’enfant chante
et le professeur crie :
Quand vous aurez fini de faire le pitre
Mais tous les autres enfants
écoutent la musique
et les murs de la classe
s’écroulent tranquillement

Et les vitres redeviennent sable

l’encre redevient eau
les pupitres redeviennent arbres
la craie redevient falaise
le port-plume redevient oiseau.

quinta-feira, junho 02, 2011

Acentuar



Cade Voce Morena
Onde estas miuda
Mina eu quero te encontrar
Onde e que estas chavala


Samba do Acordo Ortografico
pelas Vozes da Radio

Num dia em que o teclado avariou os acentos graficos...

Erguer-se




Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar 
Ai, Portugal, Portugal 
Enquanto ficares à espera 
Ninguém te pode ajudar