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segunda-feira, julho 08, 2019

Se eu agora inventasse o mundo

A imagem pode conter: 8 pessoas, incluindo Helena Duque, Maria José Alves, Filomena Rúbio e Pedro Gomes, pessoas a sorrir, interiores
Rede de Bibliotecas Escolares 2019. Foto de Pedro Gomes

Se Eu Agora Inventasse o Mundo

Se eu agora inventasse o mundo
criaria a luz da manhã já explicada
sem o luto que pesa
na sombra dos homens
- conspiração da noite
com as pedras.

Luz que o cheiro das ervas da madrugada
aproxima os mortos do silêncio
com esqueletos de asas
- conluio com o sol
para estarem mais presentes
no tacto da pele da manhã,
mil mãos a afogarem a paisagem,
bafo de flores donde cai
o enlace das sementes...

Abro a janela
O mundo cheira tão bem a trevos ausentes!

Bons dias, mortos. Bons dias, Pai.

José Gomes Ferreira, in 'Elegia Fria com Lírios Inventados' 


Foto do jantar em que agradecemos à Isabel Mendinhos e à Madalena Santos sermos Rede de Bibliotecas Escolares. 
Pela graça que foi poder estar aí.
2019

terça-feira, abril 30, 2019

Homens do Futuro

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Homens do futuro:

ouvi, ouvi este poeta ignorado
que cá de longe fechado numa gaveta
no suor do século vinte
rodeado de chamas e de trovões,
vai atirar para o mundo
versos duros e sonâmbulos como eu.
Versos afiados como dentes duma serra em mãos de injúria.
Versos agrestes como azorragues de nojo.
Versos rudes como machados de decepar.
Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo
— essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos
para adormecer os poetas.

Fora, fora do planeta,
tu, mulher lânguida
de braços verdes
e cantos de pássaros no coração!

Fora, fora as árvores inúteis
— ninfas paradas
para o cio dos faunos
escondidos no vento...

Fora, fora o céu
com nuvens onde não há chuva
mas cores para quadros de exposição!

Fora, fora os poentes
com sangue sem cadáveres
a iludiremos de campos de batalha suspensos!

Fora, fora as rosas vermelhas,
flâmulas de revolta para enterros na primavera
dos revolucionários mortos na cama!

Fora, fora as fontes
com água envenenada da solidão
para adormecer o desespero dos homens!

Fora, fora as heras nos muros
a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre
de pé!

Fora, fora os rios
a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!

Fora, fora as papoilas,
tão contentes de parecerem o rosto de sangue heróico dum
fantasma ferido!

Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites
a teima das nossas garras
curvas de futuro!

Fora! Fora! Fora! Fora!

Deixem-nos o planeta descarnado e áspero
para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.
Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos úmidos
nem mulheres de flores nas planícies estendidas.
Uma planeta feito de lágrimas e montes de sucata
com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.
E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!
E cavalos negros nas nuvens de fumo das fábricas!
E flores de punhos cerrados das multidões em alma!
E barracões, e vielas, e vícios, e escravos
a suarem um simulacro de vida
entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,
montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de cadáveres
e pedras!

Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulamos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
— terríveis, à espera, na sombra do chão
sujo da nossa morte.


José Gomes Ferreira
Portugal, séc. XX

Saudades do Futuro

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“ (…) Senti saudades, não do passado, mas dum futuro qualquer, tão longe, tão lá no fundo, tão sonho, tecido apenas de pequenas coisas doces, num mundo menos pesado de cadáveres, sem outro heroísmo que não fosse o de vivermos teimosamente todos os dias e, sobretudo, sem a horrível morte colectiva a substituir a boa, a individual, a sagrada morte de cada um. (…)
Assim cogitei toda a tarde, no oitavo dia do mês de Maio de mil novecentos e quarenta e cinco, data em que findou a segunda guerra mundial, no meio de vivas e de bandeiras de triunfo, e em que tentei, em vão, resignar-me ao mundo dos outros e às montras de enchidos de porco, - sem estrelas reflectidas nos vidros.”



segunda-feira, abril 29, 2019

Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro


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As aventuras maravilhosas de João Sem Medo. Ed. Portugália, 1963.
Design João da Cãmara Leme

















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Adaptação e desenhos de José Paulo, Ed. Moraes, 1981
Ed. D. Quixote, 1989

As Aventuras de João Sem Medo ilustrações para o livro de José Gomes Ferreira | 2004The Adventures of Fearless John ilustrations for the book by José Gomes Ferreira | 2004

Apesar de ficar a pouca distância da povoação, ninguém se atrevia a devassar a floresta. Não só por se encontrar protegida pela altura descomunal do Muro, mas principalmente porque os choraquelogobebenses – infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite – mal tinham força para arrastar o bolor negro das sombras, quanto mais para se aventurarem a combater bichos de sete bocas, gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas. Preferiam choramingar, os maricas! (...)
O único que, talvez por capricho de contradizer o ambiente e instinto de refilar, resistia a esta choradeira pegada, era o nosso João que, em virtude duma contínua ostentação de bravata alegre e teimosa na luta, todos conheciam por João Sem Medo.
Ora um dia, farto de tanta choraminguice e de tanta miséria que gelava as casas e cobria os homens de verdete, disse à mãe que, conforme a tradição local, lacrimejava no seu canto de viúva:
- Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro.

Even though it wasn't very far from the village, no-one would venture into the forest. Not just because it was protected by the overwhelming height of The Wall, but mostly because the cryandyouwillbefeed'ers - sad whiners who would do nothing but pity themselves from sunrise till sunset - hardly had the strength to drag the dark mold of the shadows, let alone to fight seven-mouthed beasts, five-armed giants or dragons with two throats.
They prefer to whimper, those sissies! (...)
The only one who, maybe for a whim of contradicting the surrounding environment and a natural instinct for grumping, resisted this sticky whimper, was our dear John who, for a continuous ostentation of a happy and stubborn swagger in fighting, was known to all as Fearless John. 
One day, tired of all the crying and misery that chilled houses and covered men with verdigris, Fearless John told his mother, who, according to the local tradition, was weeping in her widow corner:
- Mother, I can't stand this anymore. I'm going to go over The Wall.

in: Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira, 1963 (translation - Nuno Lacerda, 2004, com adapt.)

sábado, agosto 23, 2014

Um poeta por dia. 01

Cérebro e coração estão intimamente ligados. Imagem daqui

Alexandre: faz como eu.
Fecha-te nestas quatro paredes,
mas sonha que andas lá por fora
(na terra sem céu)
a matar as sedes
da gente que chora.
O moleiro mói melhor a farinha para o pão
no isolamento do moinho,
mas com a condição
de ouvir bater no coração
o do vizinho.
Acredita, Alexandre, que a solidão
é boa para não se estar sozinho.

José Gomes Ferreira, 1967, para o seu filho Alexandre, que gostava de ficar sozinho "a ler e pensar, na república livre do seu quarto"

(agradecimento ao José Soeiro que selecionou este poema hoje, no FB)

quarta-feira, abril 23, 2014

Éramos maiores do que somos

@Nikias Skapinakis

 (O Sonho é a nossa arma)

Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui, famintos e nus,
de novo sem terra nem céu.
a apanhar do chão, às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
Mas não.

Temos ainda uma arma de luz
para lutar;
SONHAMOS.

…enquanto os outros, os traidores,
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao rasto dos gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
Sim. Sonhamos.

E o sonho quem o derrota?
- mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.

Sim, camaradas, sonhamos.
SONHEMOS!

O Sonho é também acção.

José Gomes Ferreira
In A Poesia Continua, velhas e novas circunstanciais. Lisboa: Moraes, 1981

Termidor Errado IX

E foi para esta farsa
que se fez a revolução de Abril, capitães,
ao som das canções de Lopes-Graça?
Foi para voltar à fúria dos cães,
ao suor triste das ceifeiras nas searas,
as espingardas que matam os filhos as mães
num arder de lágrimas na cara?
E, no entanto,
no princípio, todos ouvíamos uma Voz
a dizer-nos que a nossa terra poderia tornar-se num pomar
de misteriosos pomos.
E nós,
todos nós, chegámos a pensar
que éramos maiores do que somos.

José Gomes Ferreira,
A Poesia Continua, velhas e novas circunstanciais

domingo, junho 19, 2011

De rotas



Há quem julgue que nos venceu

(O Sonho é a nossa arma)

Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui, famintos e nus,
de novo sem terra nem céu.
a apanhar do chão, às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
Mas não.
Temos ainda uma arma de luz
para lutar;
SONHAMOS.
…enquanto os outros, os traidores,
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao rasto dos gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
Sim. sonhamos.
E o sonho quem o derrota?
- mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
Sim, camaradas, sonhamos.
SONHEMOS!
O Sonho é também acção.

José Gomes Ferreira