Mostrar mensagens com a etiqueta escuta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escuta. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, fevereiro 11, 2020

Das palavras e dos seus ofícios



Miguel Horta, 2020 (ultrapasse a publicidade, por favor)
Narrador
"O narrador quando mais livre se sente mais favorece a empatia. É uma correnteza de palavras. Sendo que o conto não sai igual ao dia anterior.

Por vezes fazemos uma alteração, noutros casos alguém na audiência sugere uma abordagem diferente, ou temos a companhia de outro narrador e decidimos pegar na mesma história e contá-la de modo diferente... Há liberdade mas também há encantamento de quem conta a história. Nós gostamos muito do que fazemos e quem está na audiência acaba por criar esta empatia e criar a escuta que é o mais importante."
"A escuta perdeu para a visão e muitas vezes é mal feita, muito alta e com auscultadores, o que nos isola do mundo. Perdem-se escutas seletivas. Neste sentido, há também aqui um trabalho para se fazer. Uma sessão de narração oral contribui para isso. Mesmo com uma criança que não sabe ler já se está a criar uma competência da escuta. É uma espécie de pré-leitor. Ele próprio vai ganhando competências com a palavra. Vai aprender a desenhar com a palavra, ganha vocabulário."
Ler mais aqui

domingo, julho 02, 2017

Mia Couto - O poder de contar e ouvir histórias | Fronteiras do Pensamento

  
Acho que houve um momento em que eu, já jornalista, fui tentado a escrever as histórias que escutava. Essas histórias estavam tão vivas, tinham tanta força, que pediam que fossem transportadas dessa oralidade para a escrita.Mas aí percebi que a própria escrita tinha de mudar. Aquela que eu sabia e reconhecia não acomodava essa riqueza, essa coloração e, sobretudo, a música, a prosódia. Comecei a procura de uma escrita que fosse plástica e permitisse essa inundação da oralidade.
(...) 
Não escolhi a literatura, escolhi a escrita, que é provavelmente outra coisa. A construção que fizeram da escrita me parece que a complicou muito, a intelectualizou e construiu um edifício com vários andares e hierarquias. Quando começamos a escrever e a querer usar a escrita do ponto de vista criativo, estamos muito longe da escolha dessa grande construção e dessa grande estrutura que é a literatura.
Eu sou salvo por ser várias coisas, e sempre que tenho de enfrentar “a" literatura, que depois se manifesta nessas coisas muito solenes dos congressos e das conferências, puxo logo o chapéu de biólogo…
Esse universo me apraz, mas na maior parte das vezes é uma grande chatice. Estão ali os grandes estudiosos, os filósofos, os próprios escritores que, algumas vezes, dão demasiada importância a si mesmos e àquilo que fazem, e estou sempre a pensar qual o momento que tenho para escapar ( risos). Esse discurso parece uma arrogância disfarçada de humildade, mas na verdade não sinto que pertenço a essa construção. Sou mais de uma pequena tribo que é a dos contadores de histórias, e podem fazer isso mesmo sem usarem da escrita.


Mia Couto - O poder de contar e ouvir histórias | Fronteiras do Pensamento