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domingo, julho 16, 2017

A toque de cidadania



Cidades de qualidade, combates de cidadania e cegueiras de quem manda e pode

“… a maior aventura humana é dizer o que se pensa.”
Raduan Nassar
Menina a caminho (p. 75)


Em Vila Franca de Xira, há uma passagem de nível que dá acesso ao Cais, um espaço em processo de resgate para o lazer dos cidadãos. O tráfego ferroviário é intenso, e a travessia tem de ser feita com cuidado. De há muito a empresa proprietária aboliu vigilante humano no local.
É verdade que muitas pessoas ainda não interiorizaram as cautelas redobradas que a localização da passagem exige - a visiblidade é escassa, e passam aqui comboios de alta velocidade. Existem cancelas automáticas, e uma alternativa de passagem aérea, mas a campainha de alarme continua a ser necessária.
Sendo necessária e útil, a solução da campainha de alarme nem por isso tem de ser estúpida e desumana.
Não estamos no deserto, nem numa zona rural desabitada. Trata-se do coração de uma cidade. Os níveis de ruído são poluição sonora que devem respeitar esta condição. A lei exige-o, a  saúde pública valoriza-o, o bom senso recomenda-o.
Junto à passagem, moram pessoas. Poucas que sejam, mas pessoas. Uma delas, durante mais de dois anos lutou para que a campainha tivesse um som menos estridente. Não conseguia dormir, e a sua saúde agravou-se. Correu Seca e Meca, de papel na mão, de email em riste, de conversas ao vivo. Respostas surdas, ou nem isso. O Nuno Bico era um combatente, e porfiou. Noutro dia falarei mais sobre o Nuno, amigo desde a infância. Hoje só o menciono neste caso. Esgrimiu com a lei, a saúde pública, a decência, a simples racionalidade. A sua saúde agravou-se. Morreu em 2017. Dias depois da sua morte, a REFER reduziu finalmente o som da campainha. Custou a engolir a aparente ironia, mas a suavidade do toque, que não perdeu o seu efeito de aviso, consolou-nos a gratidão ao Nuno.
A luz do cais sorri de outra maneira, e quem por ali encosta a cabeça no travesseiro, trabalha diariamente ou procura descanso e lazer ganhou um pouco mais de paz dia e noite. Por fora e por dentro, para pensar melhor e escutar melhor.  O direito ao silêncio faz parte do direito à liberdade.
Parecia uma história árdua, mas de final com um conforto e uma ténue confiança na democracia e na derrota da estupidez e da prepotência,
Não era. 
Passados alguns meses, alguém na REFER deve ter decidido que o som tinha de voltar aos níveis insuportáveis.
De repente, o Verão ficou mais escuro, e o rio Tejo engrossou de mágoa e de revolta.
Há quem ache que estas coisas são menores. Eu sei que não são. Por muitos "pormenores" destes é Portugal conhecido por má aplicação de fundos financeiros - a qualidade dos grandes investimentos é sabotada pelos pequenos poderes e a sua ignorância, incompetência ou maldade.
Há quem ache que não há nada a fazer. Não concordo.
Há quem ache que não é só esta a dificuldade que a passagem de nível acentua... Lembram a irregularidade do piso, a demora por vezes de muitas dezenas de minutos até ficar livre, a pouca confiança que a população tem na alternativa para atravessar a pé (passagem aérea junto à Fábrica das Palavras) por haver memória de avarias frequentes noutros elevadores sobre a via férrea na cidade. Concordo com os argumentos, e até posso ir adicionando outros, mas não os acho razões suficientes para adiar a questão.

A questão aqui é simples: conseguir que quem anulou a decisão sensata, embora tardia, de ajustar o nível de som da campainha corrija o erro. Se puder pedir desculpas, ficava bem.

Apelo a todos que o possam fazer que barafustem, escrevam, toquem campainhas nos canais da decisão cega, até que se reponha o nível sonoro decente do alarme.

Nunca esquecida, a questão da alteração da linha de caminho de ferro como barreira a outra qualidade de vida na cidade fica para outra publicação.

Maria José Vitorino


2017.07.16

sábado, fevereiro 25, 2017

Num segundo se evolam tantos anos (ao Nuno Bico)



E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David-Mourão-Ferreira


Ontem despedi-me do Nuno Bico, cerrados para sempre os seus olhos azuis, entre família e amigos, na terra que ele tanto quis ver melhor, de gentes melhores e liberdade.

Uma cidade pequena, que parece por vezes ainda tão pequena como quando ele e o Zé Amador deram corpo às histórias do Rogério Ceitil (Grande, grande era a cidade, 1971), antes do João Mota no perturbador Mal-Amado do Fernando Matos Silva, em 1972. Na nossa terra, o cinema continua a ser amado e experimentado, e nessa arte haverá rasto do Nuno e dos sonhos que não desistem. Contra os fascismos, nos anos 70 da Guerra Colonial e da opressão, hoje e sempre.

O desconsolo da partida devolveram-me aos poetas que ambos amamos desde a juventude. Poetas como o David Mourão-Ferreira, que nos ensinou como num segundo se evolam tantos anos, ou o Zeca, ausente fisicamente há 30 anos, mas que continua a trazer-nos as palavras entaladas na garganta, as palavras que nos dão alento a prosseguir. Mesmo quando, abraçando as belas meninas do Nuno, se afoguem as vozes em lágrimas num dia de sol. Sorrimos e choramos, e não, não desistimos.