quinta-feira, agosto 04, 2011

Viva língua

Viva língua:



Quando Fernando Pessoa escreveu “a minha pátria é a língua portuguesa”, já tinha havido uma tentativa séria de estabelecer uma norma linguística que visava sobretudo o controlo, pelo estado português, dessa norma. Depois desta frase, muitas tentativas foram feitas para que essa norma existisse. Em 1992, foi estabelecido o Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa. Agora, enquanto escrevo este texto, desrespeito o acordo que entrou em vigor este ano.
Contudo, não desrespeito a língua. Escrevo em português, e ao escrever produzo uma língua diferente da que falo. Fernando Pessoa, quando pensou essa frase, que tão bem tem servido os interesses de uma pátria que quase nunca respeita a herança deixada pelos grandes escritores do passado, não teria com certeza em mente esta irreprimível vontade de regular essa coisa volúvel (e como a palavra se aproxima de volúpia) que é a língua. A pátria de Fernando Pessoa foi o instrumento usado para deixar a sua marca no mundo. Criar uma nova língua dentro da língua que antes havia. E se outra prova não houvesse, bastaria o facto de esta, e outras frases, do poeta continuarem a ser repetidas mais de setenta anos depois da sua morte.

Duvido que os belos bastardos da língua portuguesa se interessem minimamente pelo Acordo Ortográfico, com a sua regra e a sua excepção, com as supostas vantagens comerciais desta normalização forçada. Não precisam, usam a língua portuguesa como pátria, e isso é suficiente. Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Rubem Fonseca; tudo o que eles escrevem é prova dura a superar pelos académicos bafientos que querem impor regras gramaticais e ortográficas ao resto do mundo. José Saramago e seu desengonçado flamenco prova que nada é tão rígido que não possa ser dobrado pelos anos de contacto com outra língua – ninguém poderá recusar o enriquecimento estilístico que as derivações cervantinas que os últimos romances de Saramago trouxeram. Escrever abraçando a música de outra língua abre o leque, balança o swing das mãos sobre as teclas. Há quem ouça música de negros para escrever; talvez eu precise apenas de derrogar por momentos a autoridade do meu português num longínquo gingar brasileiro para que todo meu pensamento se mova e se contorça, perca a palidez da normalidade.

A questão é simples: queremos uma língua pura ou uma língua mestiça? A resposta é um pouco mais complexa do que poderia parecer. O Acordo visa normalizar a mestiçagem da língua. E isso, parece-me bem claro, é um paradoxo. Nenhuma norma poderá obrigar um português a escrever como um brasileiro ou um angolano, e vice-versa. A mestiçagem é um fenómeno livre, o cruzamento de influências um fluxo libertário que não deverá ser constrangido. Ao defender isto, não colocamos em causa a existência de uma gramática. Ela existe, é verdade, e deverá existir, sobretudo para não ser respeitada. A tradição literária contemporânea vive desta liberdade. O uso de coloquialismos, calão, gíria de bandidos, é traço comum em muitos autores brasileiros actuais e começa a ser também em alguma literatura portuguesa. A invenção passa por aqui; e mesmo que continuemos a admirar o divino português do Padre António Vieira, as duas coisas não são incompatíveis: basta pensar nos diálogos nos filmes de João César Monteiro para se perceber isto.

A única posição esteticamente correcta nesta questão é esta: promover uma gramática comum a todos os países de língua portuguesa, na esperança de que esta seja continuamente desrespeitada por quem escreve e fala, contribuindo deste modo para que a língua portuguesa seja uma coisa viva, em permanente evolução, como qualquer língua deve ser. Se esta posição for a que vingar, não se duvide de que será o único modo de combater o predomínio da língua inglesa no actual mundo globalizado.

(Escrevi parte deste texto em 2008. Alterei algumas referências desactualizadas. Não mudei de opinião.)
Sérgio Lavos, no Arrastão (2011)

Pinzellades al món: Les il·lustracions de Rie Nakajima... color, imagi...



Pinzellades al món: Les il·lustracions de Rie Nakajima... color, imagi...: "La bellesa de les il·lustracions de Rie Nakajima és innegable. Dins del seu univers personal, poètic, on els xiquets i xiquetes tenen un p..."

quarta-feira, agosto 03, 2011

Luares

Amorzade


Isto, de criar, palavra de honra que é muito difícil, mas é a única forma de as dores secretas abrandarem. E então fingimos que não há nada e continua-se. O que custa um livro, o que deve custar um desenho, um simples traço até. Porém é um tormento que equilibra e igualmente, em certas alturas, um júbilo indizível. Felizmente que ando com um livro, numa altura em que a minha relação comigo me tem feito sofrer, por razões que não interessam aos outros.

António Lobo Antunes (2011)

Ler mais: http://aeiou.visao.pt/amorzade=f614833#ixzz1Tz94HZ3c

segunda-feira, agosto 01, 2011

Escabeches.pt




Há qualquer coisa no trabalho autárquico que protege a saúde de quem o executa. Creio que é a absoluta ausência de preocupações. O autarca, em princípio, sabe que não há nada que o apanhe. Se fizer falcatruas, em princípio não é condenado. Mas, se for condenado, mais depressa é reeleito. Se for reeleito, não pode ir preso. Mas, se for preso, foge para o Brasil. O destino do autarca oscila entre o poder perpétuo e o turismo tropical. São minimonarquias que podem ser interrompidas por miniexílios dourados.

Ler mais:
Crónica de Ricardo Araújo Pereira Perdiz com alecrim e manjerona - Visao.pt

sábado, julho 30, 2011

sexta-feira, julho 29, 2011

1º prémio – Hábito, de Débora Ferreira (aluna do Ensino Secundário)

Concurso Ando a Ler - Viajar é ler o Mundo
Escola Seundária Henriques Nogueira, Torres Vedras, Portuag

Criar



Ler mais aqui

quarta-feira, julho 27, 2011

Luz

Anjo / Teixeira de Pascoaes

CANÇÃO DE UMA SOMBRA

Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das cousas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou ...
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama
Os aspectos à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou. 


Teixeira de Pascoaes


terça-feira, julho 26, 2011

Ler

demotivational posters - READING
see more Very Demotivational

Música Nova


LUME
Lisbon Underground Music Ensemble


Marco Barroso, recebeu o prémio Jovem Autor atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores e pelo Milleniumbcp.

Acorda Wake UP Europa



:)

Nas raízes da coragem


Revista Fórum - Manuel Castells (2011) propõe outra democracia:
"De repente, as pessoas percebem que não estão sozinhas. O que sentem, o que pensam, outros também sentem e pensam. E quando não estão sozinhas, as pessoas são mais fortes. Porque todo o conjunto do sistema passivo de comunicação e de democracia consiste em isolar essas pessoas e agregá-las em função dos que controlam os sistemas de poder nas instituições. A separação e agregação segundo o que já está estabelecido fazem com que só se possa pensar através dos sistemas predeterminados pelos interesses que dominam as instituições. A partir do momento em que surge uma dinâmica espontânea de organização em rede, na internet, nas ruas e nas relações interpessoais – a partir daí, a dinâmica muda. Quando as pessoas já não estão sozinhas, quando sabem que estão juntas, produz-se a mudança mais importante nas mentes. Perde-se o medo de dizer e de fazer. Porque o medo é a emoção primordial do ser humano, porque todos somos descendentes de covardes, pois se os valentes não corressem o suficiente, eram pegos pelas feras." 
(...)"Minha grande experiência com movimentos sociais – começando com maio de 68, do qual participei ativamente – me diz que aqui, e que em todos os acampamentos ao redor do mundo, existem raízes. Porque quaisquer que sejam as formas, elas se expandirão. Impulsionarão mudanças profundas, precisamente por ser este um movimento de pessoas, não de organizações. E as pessoas não são criadas ou destruídas, mas as pessoas se transformam.Mas não será fácil. E quando os poderes se derem conta de que as praças falam sério – pois ainda não se dão conta disso – reagirão, provavelmente de forma violenta. Existem muitos interesses em jogo. 
Por isso é essencial que esse processo lento e profundo de reconstrução da democracia viva com um princípio fundamental. Um imperativo categórico, que na minha opinião, já se expressa aqui, que é a não violência. Depois de 11 dias de acampamentos por toda a Espanha, não houve nenhum incidente violento. Por isso, a violência provável do poder deve ter como resposta a não-violência das pessoas. E para isso é preciso muita coragem, porque responder a violência com violência é uma reação de medo. 
Será preciso trabalhar muito com as pessoas que têm tanto medo, que não o superam, e que se tornam violentas. É preciso ir a um nível superior, o da superação do medo a partir da aceitação medo. A única forma de superar o medo é sair da solidão, juntar-se com os demais, e se superarem o medo sem violência, tudo é possível. 
Se precisasse criar um slogan, ele seria: medrosos do mundo inteiro, uni-vos pela rede, pois só podem perder seu medo."

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BIBLIOTECAR: ILUSTRAR UMA REVISTA DIGITAL FREE: "A revista , inteiramente gratuita, terá sempre uma nova edição no dia 1 dos meses ímpares, e basta fazer o download do documento PDF. ..."

Revista brasileira de muito alta qualidade. Já tem 23 números em pdf...

sábado, julho 23, 2011

Ser

Certa manhã, um velho índio Cherokee falava ao seu neto sobre uma batalha que acontece dentro das pessoas.
Ele disse: "Meu filho, a batalha é entre dois lobos dentro de todos nós."
"Um é mau - É raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, auto-piedade, culpa, ressentimento, inferioridade, mentira, falso orgulho, superioridade e ego.O outro é bom - É alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.
O neto pensou por um minuto e perguntou ao seu avô:
"Qual dos lobos vence?"
 O velho Cherokee respondeu: "Aquele que tu alimentares."

Amália

Logo Google 23.Jul.2011, em homenagem a Amália Rodrigues, fadista, portuguesa


Grito / letra de Amália Rodrigues, música de Carlos Gonçalves.
Escolhida por Amália para o dia do seu funeral.

sexta-feira, julho 22, 2011

De que Serve a Bondade



De que serve a bondade 
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos 
Aqueles para quem foram bondosos? 

De que serve a liberdade 
Quando os livres têm que viver entre os não-livres? 

De que serve a razão 
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa? 



Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos 
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua! 

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos 
Por criar uma situação que a todos liberte 
E também o amor da liberdade 
Faça supérfluo! 

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos 
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos 
Um mau negócio! 

Bertold Brecht, in
'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 
Tradução de Paulo Quintela

Nunca a Alheia Vontade Cumpras por Própria


Nunca a alheia vontade, inda que grata, Cumpras por própria. Manda no que fazes, Nem de ti mesmo servo. Ninguém te dá quem és. Nada te mude. Teu íntimo destino involuntário Cumpre alto. Sê teu filho. 
Ricardo Reis, in "Odes" Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, julho 21, 2011

Common Cause




Ben Cameron (2010) : O verdadeiro poder das artes performativas

Administrador de artes e fã de teatro ao vivo Ben Cameron observa o estado das artes ao vivo, perguntando : Como pode a magia do teatro, música e dança ao vivo competir com a sempre presente Internet? No TEDxYYC, ele oferece um olhar ousado sobre o futuro.
Translated into Portuguese (Portugal) by Séfora Moreira
Reviewed by Jeff Caponero

quarta-feira, julho 20, 2011

Para que servem bibliotecas e artigos na era pós-custodial


A conservação da memória, hoje, torna imperioso fazer eliminações com base em critérios de selecção objectivos e rigorosos, que implicam o estabelecimento de princípios fundamentadores para essa selecção, bem como o domínio das tecnologias para garantir uma migração sucessiva de suportes, necessária devido à rápida obsolescência do hardware e do software. Ou, dito de outra forma, torna-se quase inevitável  que a decisão sobre o que se vai conservar seja tomada logo no momento da criação, implicando isso que, ao nível tecnológico, sejam respeitados os requisitos necessários para garantir a perdurabilidade a longo termo, em condições de leitura
adequadas. Caso contrário, teremos registos de informação obsoletos, impossíveis de descodificar, a não ser que se guardem as máquinas tal qual peças de museu.

Fernanda Ribeiro, num artigo agora relido e bem actual
Gestão da Informação / Preservação da Memória na era pós-custodial: um equilíbrio precário?